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Posfácio do livro “Outras fronteiras: fragmentos de narrrativas”, por Carmen Lucia Tindó Secco

O livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativas divide-se em quatro grandes partes. A primeira tem como título “Como se a manhã do tempo despertasse”. O eu lírico peregrina dentro de si para se buscar; examina suas fronteiras; navega com um país dentro da língua, fazendo do coração paisagem antiga, mas sempre presente no olhar, no álbum de suas vivências, como se pudesse despertar. A escrita se apresenta como pena de um amor infinito, como um feitiço querendo escapar do eterno. Seria isso possível? O eu lírico conversa com quem escreve. Ana no espelho. E os pirilampos na noite, com sua luz, enfeitam lembranças. Como os vaga-lumes de Didi-Huberman, resistem, revelando-se metáforas da poesia em meio a um mundo-espetáculo de luzes ...
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Posfácio do livro “Nós matamos o Cão Tinhoso!”, por Vima Lia de Rossi Martin

A origem de Nós matamos o Cão Tinhoso!
De autoria de Luís Bernardo Honwana, o volume de contos Nós matamos o Cão Tinhoso! é um marco da literatura moçambicana. Publicado em Moçambique em 1964, em uma edição do próprio autor, que na altura tinha apenas 22 anos, a obra foi alvo de polêmica, sendo criticada por parte daqueles que defendiam o colonialismo e simpatizavam com o regime do ditador português António de Oliveira Salazar, e aclamada por aqueles que, portadores de ideias nacionalistas, defendiam a liberdade e a autonomia do país.
Assim, no mesmo ano em que tem início a luta pela independência, conquistada apenas em 1975, a coletânea de Honwana – que ficou preso de 1964 a 1967 ...
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Posfácio do livro “Roda das encarnações”, por Francisco Noa

Este é o quarto livro de poesia de Sónia Sultuane – Sonhos (2001), Imaginar o Poetizado (2006) e No Colo da Lua (2008) – e que se inscreve numa singular trajetória de uma escalada em que o acento na sensação se afirma como inapagável imagem de marca. Marca que adquire agora novos contornos, já insinuados em No Colo da Lua, onde claramente o misticismo se posiciona para funcionar como expressão apoteótica (ou superação?) da volúpia sensorial que define o estilo criativo desta voz que se insinua nesta e noutras margens do Índico. E é logo o título que nos prepara não para uma ruptura, ou inversão, mas para uma espécie de aliança estruturante entre o pendor sensorial e o apelo ...
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O meu encontro com Jorge Amado, por Francisco Noa

Já há muito ouvia falar do autor e das suas histórias, quando em finais da década de 70, li, pela primeira vez, uma obra sua e que iria ampliar e aprofundar o meu conhecimento, mesmo a distância, sobre o Brasil. Sobretudo sobre um certo Brasil, até aí para mim uma autêntica incógnita que, de certo modo, se prolonga até hoje. A minha primeira aproximação a esse Brasil profundo e enigmático tinha sido em meados da década de 70, com o filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, de 1959, filmado nas favelas do Rio de Janeiro, em pleno Carnaval, e que deixou arregalados, pela descoberta que então fazia, os meus olhos então adolescentes.O romance Jubiabá foi, pois, uma revelação de uma ...
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Canções do caos, vozes brasileiras – Apresentação

Tivemos o prazer de conhecer as quatro autoras da coletânea Canções do caosvozes brasileiras no decorrer da história da Editora Kapulana. Recebemos os textos de Adriana Cecchi e Andrea Lucia Barros já há algum tempo e, imediatamente, enxergamos o talento e a profundidade de seus escritos. Posteriormente, recebemos as composições poéticas das jovens Ana Júlia Baldi e Marcella Barbieri. Percebemos que as quatro escritoras, que não se conheciam pessoalmente, tinham pontos em comum, por serem sensíveis vozes poéticas. Mas, também, apresentavam traços de estilo e tratamento temático próprios. São textos profundos, que retratam o amor romântico, o caos, o "eu", mas também a correria e as ansiedades do dia a dia. Temas que fazem o leitor se identificar, ...
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Histórias de bela tristeza – por Elena Brugioni

Conheci pessoalmente Lucílio Manjate em novembro de 2008 aquando da minha primeira ida a Moçambique, numa Maputo chuvosa e abafada em véspera de eleições. Lembro-me com muito gosto de uma interessante e demorada conversa, acompanhada por várias Laurentinas e outras tantas gargalhadas, na esplanada da AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos), onde com o Lucílio conversei longamente sobre literatura moçambicana, ouvindo suas opiniões em torno de projetos, inquietações e ideias que marcavam os jovens escritores moçambicanos que dinamizavam a AEMO, procurando nos caminhos da escrita um rumo para o futuro.Desde aquela primeira conversa, outros encontros seguiram-se ao longo dos anos; o mais recente em outubro de 2015 em Portugal, onde partilhamos uma bela mesa-redonda por ocasião do Congresso de Comemoração dos ...
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O legado índico da poesia moçambicana – por Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco

Pertencente a uma geração de poetas mais recentes, Sangare Okapi é uma das vozes poéticas que vem se destacando no panorama da poesia dos anos 2000 em Moçambique. Vencedor de prêmios – entre os quais: Revelação FUNDAC Rui de Noronha (2002); Revelação de Poesia AEMO/ICA (2005); Menção Honrosa no Prêmio José Craveirinha de Literatura (2008) –, apresenta uma obra poética não muito extensa, mas de reconhecida qualidade estética. Em Moçambique, publicou: Inventário de angústias ou apoteose do nada. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2005; Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007; Era uma vez… Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2009 (coautor); Mafonematográfico também círculo abstracto. Maputo: Alcance, 2011; Antologia inédita – Outras vozes de Moçambique Maputo: Alcance, 2014 ...
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Das margens: poesia, ainda – por Cíntia Machado de Campos Almeida

Na margem, o reencontro: nós e 'camarada Patraka' mais uma vez embaraçados na entremeadura dos versos entoados pela velha voz. Voz que ainda ressoa da rua de Lidemburgo, no subúrbio de Maputo, capital moçambicana. Velha voz, porém provavelmente nova para o leitor brasileiro que, pelo advento da série "Vozes da África", da Editora Kapulana, poderá, enfim, (re)encontrar-se com significativos nomes da Literatura Africana de Língua Portuguesa.O 'Patraka' a quem nos referimos, com permitido afeto, nasceu Luís Carlos Patraquim, em 26 de março de 1953 na antiga – e à época, ainda colonial – Lourenço Marques, hoje Maputo. Iniciou seus laços com as letras pela carreira jornalística na década de 1970, arriscando-se às searas literárias a partir do ano de 1980, ...
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Orgia dos Loucos: Moçambique sem saída de emergência – por Vanessa Ribeiro Teixeira

Orgia dos loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa, publicado em 1990, funciona como um caleidoscópio vertiginoso sobre a realidade de Moçambique nas décadas que se seguiram à Independência. A obra, composta por nove contos, ficcionaliza as experiências de homens e mulheres marcados pela escassez, pela guerra, pelo aviltamento da cultura endógena, pela distopia. Deparamo-nos com uma série de escritos aparentemente desconexos, mas que logo se revelam profundamente dialogantes sob uma importante perspectiva: tudo parece estar “fora da ordem”. “O prémio”, conto que abre o livro, focaliza os princípios de uma política assistencialista, que tem data, hora e local para se fazer presente, e retrata o desespero de uma jovem mulher na sua tentativa de adiar o parto iminente, vislumbrando as ...
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Noémia de Sousa, grande dama da poesia moçambicana – por Carmen Lucia Tindó Secco

Noémia de Sousa não é apenas uma grande dama da poesia moçambicana. É, também, uma grande dama da poesia africana em língua portuguesa, tendo em vista sua voz ardente ter ecoado por diversos espaços e compartilhado seu grito com outras vozes, em prol dos que lutaram e clamaram pela liberdade dos oprimidos, entre os anos 1940-1975, no contexto do colonialismo português.Já não era sem tempo, no Brasil, a edição de Sangue negro, único livro escrito por Noémia. Praticamente desconhecida de grande parte dos leitores brasileiros, a autora, no entanto, nas décadas de 1940-1950, manteve, como jornalista, colaboração esparsa com a revista brasileira Sul, publicação que, nesse período, aproximou escritores e poetas do Brasil, entre os quais Marques Rebelo e Salim ...
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A noiva de Kebera e outros nkaringanas de segredos – por Nazir A. Can

Publicadas em 1994, as estórias de A noiva de Kebera ofereciam já pistas de um projeto literário que, anos antes, em Xitala-Mati, e nas décadas que se seguiram, em tantas outras narrativas, soube conferir dignidade histórica e virtualidade poética aos recantos mais abandonados de Moçambique. Apontando para as doxas e os paradoxos de um lugar fundado em hierarquias, mas também em criativas formas de resistência de seus habitantes mais desvalidos, os seis contos deste livro de Aldino Muianga, que agora chega ao Brasil, ligam-se pelo transfundo didático. O fato mais surpreendente, contudo, é que a exemplaridade dos protagonistas se concretiza pelo viés da ambiguidade, favorecendo o abalo, no campo da construção narrativa, da transparência da mensagem e das fronteiras entre ...
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O percurso da liberdade em Lucílio Manjate – por José dos Remédios

A conquista da liberdade é a conquista da vitória sobre o medoCarlos SerraDefinitivamente, Lucílio Manjate é um autor cuja escrita está comprometida com a liberdade. Já havíamos observado esta particularidade, por exemplo, em O contador de palavras e em A legítima dor da dona Sebastião, outros livros do escritor. E, à semelhança das duas narrativas, neste O jovem caçador e a velha dentuça, dedicado, felizmente, a um público mais novo e tão carente de obras que lhes possa estimular a imaginação, Manjate volta a formular, como propósito ou consequência da criatividade, a necessidade de o Homem se livrar de todas as correntes de modo a ser autêntico e com isso alcançar um bem maior.Ao longo desta trajectória, Lucílio Manjate retoma uma estória contada pela ...
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