Lica Sebastião: a musa que não se cala?, por José dos Remédios

Outras margens

Sem muitas convicções a este respeito, afinal, cada ser humano é um universo complexo,parece-me que o escritor angolano, Pepetela, tem razão: “toda a mulher gosta de ser a musa de um poeta”, ainda que esse poeta não escreva versos e nem declame poemas líricos ou de qualquer outra espécie. Toda a mulher deve gostar de ser ou parecer aquela entidade angelical que ilumina, por exemplo, a obra de um White e de um Noronha, o monstro do qual nos esquecemos numa atitude quase que herética.

Pensando naquela afirmação de Pepetela, li o novo livro da poetisa moçambicana Lica Sebastião, “De terra, vento e fogo”, lançado sob a chancela da Kapulana, uma editora brasileira que se tem esmerado na publicação de autores moçambicanos no Brasil. E, tenho de dizer isto, não poderia ter terminado 2015 com um sorriso tão eufórico quanto o que me proporcionou à leitura daquele livro. Confesso, há muito que não lia um livro de poesia de um autor moçambicano que me despertasse sensações tão agradáveis. E não faltaram razões para o efeito. Nesta viagem pela escrita, a autora de “Poemas sem véu” amadureceu e com isso trouxe uma poesia que nos devolve uma certeza antiga, a de que nesta cidade vivem poetas. À parte a lisonja, que sempre oculta interesse na percepção de Balzac, no seu “Eugénia Grandet”, com a subtileza dos seus versos, Lica Sebastião faz da sua escrita um espaço onde se mescla a vontade e a dor, resultante de expectativas que não se concretizam. Por isso, invertendo os papéis, já que as circunstâncias a impelem de ser a musa que toda a mulher gosta de ser, ela mesma, melhor, as musas que não se calam pela autora criadas, expressam sonhos como metáforas das mulheres que se debatem com o vazio de não terem consigo o poeta que as façam loas. Diante desse cenário, “De terra, vento e fogo” aparece como um livro no qual os versos expressam, no máximo, alegrias momentâneas: “Às vezes os meus versos/são um jogo semântico/ com os signos desta língua que eu amo/e outra não sei./ Outras vezes os versos não mais são / que uma alegria momentânea” (p. 17). É dessa alegria efémera que aparece uma consequência, a frustração provocada pela ausência: “A mim frustra-me/ esta estranha sensação/ quando não estás perto (p. 19).

Portanto, este livro que tem no seu epicentro uma poesia que se tece em função de desejos fracassados, consequência do que se sente e do que não se tem, traz consigo a passividade a que o eu feminino muitas vezes está sujeito. Além disso, apropriando-se dos recursos naturais, à laia de um “Lidemburgo blues”, de Luís Carlos Patraquim, Lica Sebastião introduz na obra a beleza do desejo feminino que seduz e enlouquece: “Não quero ser o Douro,/nem o Zambeze,/ nem o Mississipi./ Sou apenas um rio de vida/ com as minhas águas a murmurejar o teu nome, incessantemente” (p. 53).

“De terra, vento e fogo” não deixa de ser um livro de angústias, um livro que nos mostra que a poesia nasce do nada e sobrevive a tudo, claro, se for escrito com elegância e esmero como é o caso.

José dos Remédios

Maputo, 01 de junho de 2016.

In: O país.  Moçambique. 06 jan 2016, 8:53.

http://opais.sapo.mz/index.php/opiniao/160-jose-dos-remedios/39037–lica-sebastiao-a-musa-que-nao-se-cala.html

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/de-terra-vento-e-fogo/