O legado do amanhã, por Nelson Saúte

O LEGADO DO AMANHÃ
Prefácio da 2a. edição moçambicana de Sangue negro, de Noémia de Sousa: 2011 (Ed. Marimbique), revisto pelo autor Nelson Saúte, em junho de 2016, para a Editora Kapulana.
NELSON SAÚTE: escritor, editor e curador, foi jornalista e professor universitário. É autor e organizador de obras de literatura moçambicana.
Nelson: Procura ser um fiel servo da Memória de todos os tempos para que a tua voz se faça ouvir no teu tempo. E escuta com atenção o que te dizem as vozes de outras bocas, de outros mensageiros e as melodias de outros xipendanas. Então sentirás sobre os ombros o peso – o verdadeiro peso – de um genuíno legado, o legado do teu Amanhã em que dirás com toda a humildade: “Sou um homem de ontem mas não me neguem um lugar de repouso nos céus do vosso Hoje.” Um maningue forte abraço do José Craveirinha, 3/7/1991, Lisboa (Boene).
José Craveirinha advertiu-me, ao longo dos anos, para o legado que resultava da minha devotada e assídua convivência com a sua geração. Muito jovem chegara à literatura e fazia do jornalismo uma espécie de viático para o sonho: ler e interpelar os fundadores da nossa literatura sobre a formação de Moçambique. Advindo do contexto da euforia revolucionária, onde avultava uma leitura histórica maniqueísta, queria ter o depoimento dos poetas, dos escritores, daqueles que estavam no retábulo da cultura. Rapidamente o texto construiu a ponte do afeto e daí resultou um verdadeiro encontro com a História: Noémia de Sousa, José Craveirinha, Orlando Mendes, Rui Knopfli, Fonseca Amaral, Rui Nogar, Aníbal Aleluia, entre tantos outros, só para citar aqueles que abandonaram o reino dos vivos. José Saramago, apercebendo-se desta relação privilegiada com os mais velhos, havia de me dizer um dia: “Você está a conviver com os seus antepassados literários.”
Cultivei amizade com estes escritores, frequentei suas casas, atardei-me em conversas infinitas, guardei como pecúlio o que me disseram. De todos, Noémia de Sousa talvez tenha sido aquela por quem eu mais expressei o meu amor sem penitência. Tratava-a como “Mãe” e ela acolhia-me sempre com carinho maternal. Os olhos brilhavam quando abria a porta na casa de Algés, onde a visitava regularmente. Tenho por isso muitas lembranças queridas da Noémia. Caminhámos tantas vezes de mãos dadas, abraçados, íamos almoçar juntos, ou a casa dela, ou a um restaurante (Nortenha), que ficava perto, quando ela não podia cozinhar. Tínhamos longas e intensas conversas. Por vezes ela gravava. Confidenciava-me o desejo de intentar a ficção quando chegasse a reforma.
Ela trabalhava na agência Lusa. Muitas vezes eu lá ia visitá-la e era recebido pelos colegas com exultação. Eles admiravam-na e via-se a reverência que lhe concediam. Não só com a jornalista mais velha e experiente, mas com o mito vivo da literatura moçambicana. Descíamos da redação e ficávamos ali, no café, em baixo, perdidos na conversa e na lembrança da terra distante. Noémia nunca falava dela própria, falava antes dos outros, com uma inexcedível candura; relega-se para a sombra. Mesmo quando denunciávamos o peso da injustiça e da deslembrança.
Também viajámos juntos, algumas vezes. Recordo sobretudo uma viagem a Londres para um encontro organizado pelo Hélder Macedo, do Kings College. Noémia exclamaria para mim na Trafalgar Square: “Olha, a estátua do almirante Nelson!”. Tinha um brilho insofismável no olhar. José Craveirinha ia na viagem. O Rui Knopfli tinha ido buscar-nos ao aeroporto. Recordo ainda a viagem, entre Lisboa e Maputo, em setembro de 1996, quando Noémia vinha para a homenagem dos seus 70 anos. Viemos juntos no avião de mãos dadas.
À margem de um congresso de escritores, em Lisboa, em 1989, tendo eu preferido a companhia dos mais velhos, em detrimento dos companheiros da geração mais jovem, recordo a surpresa e a pergunta da Noémia: por que razão é que eu gostava dos mais velhos? Por que razão eu me entregava com devoção à sua geração? Eu não poderia ser mais claro: queria saber o que havia acontecido — dizia-lhe —, como tinha sido a nossa história, queria conhecer o passado, na perspectiva de outras personagens. Intuía que a narrativa que reclamava a legitimidade histórica não estava cabalmente encetada, faltava-lhe algo.
Foi daí que nasceu, aliás, a ideia de escrever Os habitantes da memória. Lembro-me de que a entrevista com ela foi interrompida muitas vezes porque a Noémia chorava ao lembrar-se de factos, de pessoas, de situações, de Moçambique; chorava de emoção, de saudade, por estar longe, porque a vida assim o quisera: “Agora que estou velha o que é que vou fazer a Moçambique?” – perguntava-me. Sorria e chorava. Ajeitava o cabelo, naquele seu jeito, com as mãos trémulas e sorria.
Tenho lembranças demais da Noémia. Acompanhei como poucos os últimos anos da vida dela e nunca deixei de a persuadir a publicar o seu livro. Muitos haviam tentado antes. O saudoso Manuel Ferreira foi dos mais persistentes. Recusou a Michel Laban, seu grande amigo, falecido há poucos anos, como a tantos outros, igual pedido. Júlio Navarro, Gulamo Khan, Rui Nogar, Leite de Vasconcelos, tantos outros, também tentaram, sem sucesso.
A despeito, em 2001, perante a minha persistência, ela anuiu, finalmente, impondo apenas uma condição: que eu ficasse responsável pela edição e que contasse com a colaboração indispensável da Fátima Mendonça (que também tentara convencê-la e que a visitou até ao fim) e do Francisco Noa (outro amigo persistente), e que a edição fosse feita integralmente realizada em Moçambique, pela Associação dos Escritores Moçambicanos. Havia, sem o prejuízo desse ditame, a ideia de fazer uma coedição com a Imprensa Nacional Casa da Moeda em Lisboa. Mas tal ideia não avançou.
Assumi honrado esta tarefa, contando com o apoio e a amizade da Fátima Mendonça, do Francisco Noa e ainda do António Sopa. Tinha dito que contaria com o Sopa no projeto gráfico e ela deu pleno acordo. No dia 20 de Setembro de 2001, quando Noémia de Sousa fazia 75 anos, lançámos o livro, nos Paços do Concelho, do Município de Maputo. Pouca gente acorreu ao ato. Mas estávamos lá, os amigos, os familiares, os leitores devotados. Poucos, mas bons. Falei com ela nesse dia, antes do lançamento, com muita emoção. Do outro lado do Atlântico, ouvia-se já uma voz frágil, cansada.
Noémia de Sousa já estava muito doente. Ela não viveria muito mais. Passam agora 10 anos sobre aquela edição deste Sangue Negro. Acalentei ao longo destes anos que deveríamos reeditar esta importante obra, que continua a recolher interesse e entusiasmo, sobretudo dos jovens, tanto em Moçambique, como no estrangeiro. Aqui está. Mantemos integralmente a estrutura da edição anterior — ou seja a apresentação por mim feita, o corpus da obra que esteve praticamente cinquenta anos à espera de ser editado, ao qual se acrescentaram três poemas dispersos, os textos da Fátima Mendonça e do Francisco — mudando-lhe o grafismo que decorre de uma nova chancela. Os textos foram revisitados pelos autores, submetidos apenas a uma revisão. Pedi ao Miguel César que fizesse o desenho para a capa.
É pois com emoção que apresento este Sangue Negro de novo ao trânsito dos leitores. Eu tenho um ilimitado afeto pela Noémia de Sousa e acho que este é um dever de memória do qual jamais me poderia exonerar. Todos os anos, no dia 20 de setembro, sou interpelado por jovens que me pedem que vá falar da minha querida Noémia. E eu me repito, também com lágrimas, nesses eventos, recordando-a emocionadamente. Por eles e por todos os outros fazemos reviver esta belíssima e notável obra e não deixamos morrer Noémia de Sousa. E isso me comove até às lágrimas esta noite, enquanto redijo as breves e precárias palavras desta nota.
Há dias, encontrei a sua filha e minha mana Gina na rede, e fomos incapazes de superar a emoção desta empreitada. Ela concordou desde sempre com esta iniciativa e quero agradecer-lhe o facto de ter autorizado e apoiado esta edição. Como disse, Noémia de Sousa tem de mim e de muitos dos que a amam a nossa entrega incondicional. Lá onde está, estou certo, ela também chora de e com emoção por este reconhecimento espontâneo dos jovens da minha e de ulteriores gerações. Por mim e para além da minha devotada dedicação, assumo o legado imposto por esta convivência exemplar, quando, faz hoje justamente vinte anos, José Craveirinha me alertava para o facto num autógrafo debitado sobre o exemplar de um dos seus belos livros. Aqui estou, “fiel servo da Memória”, penhorado sempre dessa honra que me nobilita. Para sempre.
Kampfumo, 3 de julho de 2011.
Escritor, editor e curador, foi jornalista e professor universitário. É autor e organizador de obras de literatura moçambicana.
SAÚTE, Nelson. “O legado do amanhã”. In: SOUSA, Noémia. Sangue negro. São Paulo: Kapulana, 2016. [Vozes da África]
