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Editora Kapulana anuncia lançamento de mais um livro de PEPETELA no Brasil: O desejo de Kianda

A Editora Kapulana lança no Brasil, em setembro, O DESEJO DE KIANDA, de Pepetela, com pré-venda a partir de 16 de agosto

A Editora Kapulana lança no Brasil, em 16 de setembro de 2021, mais um livro de Pepetela – O desejo de Kianda – romance do escritor angolano bastante admirado pelos leitores brasileiros. O desejo de Kianda (2021) é o quarto livro de Pepetela que a Kapulana lança no Brasil. A editora já publicou O cão e os caluandas (2019), O quase fim do mundo (2019) e Sua Excelência, de corpo presente (2020).

O desejo de Kianda foi publicado originalmente em 1995. A ação se desenvolve em 1994, numa Angola marcada por sequelas da guerra civil. O cenário é a cidade de Luanda, em meio ao caos que faz parte da vida de todos. O romance se inicia com o desmoronamento de um prédio no dia do casamento de João Evangelista. Outros desmoronamentos misteriosos se sucedem sem aparente motivo, alterando o ritmo de vida dos habitantes da cidade. Com uma linguagem ao mesmo tempo crítica e irônica, Pepetela nos traz Kianda, espírito que vive em todas as águas – mar, lagos e rios. Kianda é personagem determinante nessa história em que tradições angolanas e atualidade política e econômica são retratadas com maestria e sensibilidade.

Trecho:

“O primeiro prédio desabou pouco depois da partida do cortejo de automóvel levando noivos e convidados para o banquete de casamento de João Evangelista e Carmina Cara de Cu. Foi um acontecimento nacional. Todos os relatos são coincidentes. Não houve explosão, não houve fragores de tijolos contra ferros, apenas uma ligeira musiquinha de tilintares, como quando o vento bate em cortinas feitas de finas placas de vidro. As paredes foram se desfazendo, as mobílias caindo no meio dos estuques e louças sanitárias e as pessoas e os cães, papagaios e gatos, mais as ninhadas de ratos e baratas, tudo numa descida não apressada, até chegarem ao chão.”

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[13 de agosto de 2021]

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Editora Kapulana anuncia lançamento de maio: O BEBÊ É MEU, de Oyinkan Braithwaite

Em 27 de maio de 2021,  a Kapulana lança no Brasil mais um livro da nigeriana Oyinkan Braithwaite.

A Editora Kapulana lançará em 27 de maio, em formato de livro de bolso, O bebê é meu, romance de Oyinkan Braithwaite, jovem escritora nigeriana, autora do Minha irmã, a serial killer, lançamento de sucesso da Kapulana em 2019.

Em O BEBÊ É MEU, da nigeriana Oyinkan Braithwaite o cenário é uma cidade da Nigéria, no período de lockdown durante a pandemia da Covid-19, quando um casal se separa. Ele, Bambi, é expulso do apartamento onde vivia com a namorada Mide, e busca refúgio na casa de seu tio – falecido durante o surto da Covid-19. Surpreende-se ao encontrar a casa habitada: pela viúva do tio, Bidemi, pela ex-amante do tio, Esohe, e por um bebê. O mistério consiste em descobrir, em meio a uma situação de isolamento, quem é a mãe do bebê: Bidemi ou Esohe?

Trechos:

Ficamos lá parados, com as pequenas fontes de luz iluminando nossas expressões vazias. Eu estava tentado a apagar minha vela, para caso minha cara dedurasse o que eu estava pensando. Ver Esohe aqui, quando minha tia também estava em casa, era bizarro. Tinha várias perguntas que eu queria fazer, mas não podia perguntar nada sem revelar meu segredo. E eu não queria ser expulso de duas casas no mesmo dia.

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“Mas não vi nenhum policial e nenhum outro carro na rua. Era só uma da manhã, mas mesmo assim… estávamos em Lagos! Abuja pode ser a capital, mas é em Lagos que todo mundo quer estar – a cidade está transbordando com vinte milhões de habitantes. Então foi estranho passar pela Rodovia Alexander e não ver quase nenhum veículo. É difícil imaginar que algum dia a vida vai voltar a ser o que era.”

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[15 de abril de 2021]

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Revista da Faculdade de Letras da UFRJ publica artigos sobre livros da Kapulana

Revista Metamorfoses, da Faculdade de Letras da UFRJ publica artigos sobre livros da Kapulana

A Revista Metamorfoses – Revista de Estudos Literários Luso Afro-brasileiros da Cátedra Jorge de Sena da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) apresenta em seu v. 17, n. 1 (2020), artigos de pesquisadores sobre livros de literatura e cinema de Moçambique publicados pela Editora Kapulana no Brasil, a saber:

Na seção “LER E DEPOIS”:

  • Resenha por Guilherme Rezende Machado sobre o livro:
    CineGrafias Moçambicanas: memórias & crônicas & ensaios, organizado por Carmen L. T. Secco, Ana Mafalda Leite e Luís Carlos Patraquim
  • “Lúcidos ensaios sobre a literatura moçambicana contemporânea”, por Tania Celestino Macedo, sobre o livro:
    O campo literário moçambicano. Tradução do espaço e formas de insílio, de Nazir Ahmed Can

Na seção “LITERATURAS AFRICANAS”:

  • “Ungulani Ba Ka Khosa e o fim dos mundos em Orgia dos loucos”, por Eliel Januario de Morais, sobre o livro:
    Orgia dos loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa

 
Para ler os ensaios da revista:

https://revistas.ufrj.br/index.php/metamorfoses/issue/view/1718/showToc

 
Para conhecer mais sobre os livros da Kapulana e seus autores:

CineGrafias Moçambicanas: memórias & crônicas & ensaios, org. por Carmen L. Tindó, Ana Mafalda Leite e Luís Carlos Patraquim: https://www.kapulana.com.br/produto/cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios/

O campo literário moçambicano. Tradução do espaço e formas de insílio, de Nazir A. Can: https://www.kapulana.com.br/produto/o-campo-literario-mocambicano/

Orgia dos loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa: https://www.kapulana.com.br/produto/orgia-dos-loucos/

São Paulo, 7 de junho de 2021.

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Pepetela recebe o título de “Doutor Honoris Causa”, pela UFRJ

Em 13 de maio de 2021,  a UFRJ concedeu ao escritor angolano Pepetela o título de  “Doutor Honoris Causa”

PEPETELA, Artur Carlos Maurício Pestana, renomado escritor angolano, recebeu do Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Consuni/UFRJ), por unanimidade e sob aclamação, o título de “Doutor Honoris Causa”.

O escritor é conhecido por sua militância política e atuação na área de Educação. Participou da Luta de Libertação de Angola e integrou a primeira delegação do MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), como Diretor do Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política. Após a independência de Angola, foi vice-ministro da Educação, passando depois a lecionar Sociologia na Universidade Agostinho Neto, em Luanda.

Pepetela é escritor bastante premiado e autor de vasta obra publicada em Angola e em outros países, como o Brasil.  A Kapulana publicou três livros do autor no Brasil, e vai lançar mais um em 2021. São eles:

  • O cão e os caluandas (2019)
  • O quase fim do mundo (2019)
  • Sua Excelência, de corpo presente (2020)
  • O desejo de Kianda (2021, em edição)

Os leitores brasileiros parabenizam Pepetela pelo merecido prêmio.

Para conhecer um pouco mais sobre Pepetela e sua obra, acesse: https://www.kapulana.com.br/pepetela/

São Paulo, 16 de maio de 2021.

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Editora Kapulana anuncia lançamento de abril: A BOCA DO MURO, de Bruno Honorato

A Editora Kapulana anuncia livro inédito do brasileiro Bruno Honorato!

Em 22 de abril de 2021,  a Kapulana lança o premiado livro do brasileiro Bruno Honorato, A BOCA DO MURO, vencedor, na categoria Romance, do concurso Seja Nosso Autor-2019, promovido pela Kapulana.

Bruno Honorato conta a história de quatro amigos: Gordo, Negazul, Nina e Bonito, que formam um grupo de pixadores, os ALKIMISTAS. Cada um deles faz um pixo: GRAJAUEX, NOITE, ANGÚSTIA e BONITO.

Ao longo da leitura, as histórias de cada uma das personagens e da amizade do grupo são aprofundadas, assim como as reflexões sobre questões sociais e políticas que envolvem o pixo e a ocupação da cidade. O pano de fundo é a arte de rua paulistana e a vida na periferia de São Paulo. Na primeira parte da história, os ALKIMISTAS apanham da cidade, literal e metaforicamente, até que um acontecimento fantástico muda de forma surpreendente o rumo da narrativa.

Trechos:

“A noite feia e fria, e o dia inteiro aquele chove-não-molha. Pelo menos a garoa tinha parado. Umas dez e pouca da noite, muita nuvem e a lua quase sumindo, só aquele traço pálido que aparecia de vez em nunca. Eles vão trocando ideia, caminhando devagar. Os ALKIMISTAS estão chegando. Mais perto agora. Os ALKIMISTAS chegaram.”

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“A parede era comprida e cercava um terreno baldio. Numa ponta tinha uma guarita abandonada e na outra um poste de luz. O muro branco, para escrever o que quiser. Puta de um achado. E Gordo se achando, claro. É ou não é? Falei para vocês!”

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[atualizada: 15 de abril de 2021]

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DANIELA MIWA TAIRA

DANIELA MIWA TAIRA

Daniela Miwa Taira, brasileira, nasceu em São Paulo, capital. É graduada em Design pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo. Desenvolve projetos como designer, fazendo projetos gráficos, diagramação, artes para mídias e capas de livros.

OBRAS DA KAPULANA  (capas)

2018 – Esperança para voar, de Rutendo Tavengerwei. (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2018 – O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley Arimah. (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2018 – Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do imperador,. [Vozes da África] (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2018 – Um dia vou escrever sobre este lugar, de Binyavanga Wainaina. (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – Nina tem medo de palhaço, de Walter de Sousa. (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – O cão e os caluandas, de Pepetela. [Vozes da África] (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – Minha irmã, a serial killer, de Oyinkan Braithwaite. (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – Um rio preso nas mãos, crônicas, de Ana Paula, Tavares. [Vozes da África] (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira. [Vozes da África] (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – Água doce, de Akwaeke Emezi. (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – O quase fim do mundo, de Pepetela. (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – As visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho. [Vozes da África] (Participação em capa de Mariana Fujisawa)

2019 – Cemitério dos pássaros, de Adelino Timóteo. [Vozes da África] (Capa em parceria com Isabella Broggio)

2021 – Quatro histórias, de João Paulo Coelho. (Autora da capa)

2021 – O bebê é meu, de Oyinkan Braithwaite. (Autora da capa)

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Editora Kapulana anuncia o 1o. lançamento de 2021! de João Paulo Borges Coelho

O primeiro livro de 2021 da Editora Kapulana é do moçambicano João Paulo Borges Coelho: QUATRO HISTÓRIAS

Em 12 de fevereiro de 2021, a Editora Kapulana lança – em formato de livro de bolso – o novo livro do moçambicano João Paulo Borges Coelho: QUATRO HISTÓRIAS.

Nesse conjunto de quatro contos, João Paulo Borges Coelho conduz o leitor por caminhos, tempos e situações diversas. Ora estamos no Congo, ora em Moçambique, ora na China. A história da África, particularmente de Moçambique, aparece nesse cenário desde os inícios do século XIX. São histórias que emocionam por destacar personagens exploradas, sofredoras e resistentes.

É o terceiro livro do autor que a Kapulana publica no Brasil. Os anteriores são os romances As visitas do Dr. Valdez (2019) e Crônica da Rua 513.2 (2020).

Trechos de QUATRO HISTÓRIAS, de João Paulo Borges Coelho 

“A chegada dos captores à aldeia em Bukavu, nos confins do interior congolês, surgindo do nada como feras rapaces, ávidas de tudo quanto mexia. A fuga precipitada do povo pelo mato fora, ela puxada por um braço pela mãe apavorada, esta caindo trespassada por uma comprida lança para que aprendesse a não fugir, última e escusada lição. E a rapariga ficando ali a segurar a mão de um cadáver trespassado e inútil, até que chegou o árabe com um olho de cada cor – Ahmed lhe chamavam – […]” (Conto: “Maria Ernestina e as quatro senhoras”)

“A princípio, a coisa não me pareceu problemática. Tratava-se apenas de seguir a pista dos roubos e identificar autores, chineses ou não. Afinal, tínhamos a chamada lei do nosso lado. Todavia, à medida que a investigação prosseguia foi ficando evidente que, além da carne para canhão e dos chineses propriamente ditos, havia também peixe graúdo, se me faço entender. Autoridades. Gente que não me fica bem nomear […].” (Conto: “Pau Macau”)

Conheça um pouco mais sobre o livro e seu autor:

https://www.kapulana.com.br/produto/quatro-historias/ 

JOÃO PAULO BORGES COELHO

 

[10 de fevereiro de 2021]

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‘Sua Excelência, de corpo presente’, de Pepetela, ganha novo prêmio!

Pepetela foi vencedor do “Prémio  Literário dstangola/Camões”, com seu mais recente romance “Sua Excelência, de corpo presente”

A Editora Kapulana publicou o livro no Brasil em dezembro de 2020, com lançamento na Flipelô, Festa  Literária Internacional do Pelourinho, em Salvador, Bahia.

Neste romance do angolano PEPETELA, o protagonista, narrador da história, é um ditador africano morto, deitado em seu caixão. Durante seu próprio velório, ele vê, ouve e observa os que estão ali para se despedir dele. Passa, então a recordar as histórias vividas com os presentes – familiares, amigos, auxiliares, membros de governos dentre outros. Com suas memórias, a personagem revela a estrutura do poder político, o nepotismo, os abusos, as estratégias e ações de um regime ditatorial. Mesmo morto, o ditador não deixa de tentar controlar a sua sucessão através do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como era em vida. A obra surpreende por sua atualidade e universalidade.

Pepetela demonstra, como sempre, estar atento às situações de injustiça, opressão e abuso de poder que poderiam ter ocorrido em qualquer região do mundo em qualquer época. Por meio da ficção, com uma linguagem literária mordaz e, muitas vezes, irônica, Pepetela conduz o leitor ao submundo do poder opressivo.

O prêmio literário “dstangola/Camões” é uma iniciativa do dstgroup em parceria com o “Instituto Camões”, e visa distinguir, anualmente e de forma alternada, livros editados em poesia e prosa de artistas angolanos.

Além desse mais recente prêmio, de 2021, o livro foi o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa do Correntes d’Escritas 2020 e finalista do Prêmio Oceanos 2019. É o terceiro livro de Pepetela que a editora Kapulana publicou no Brasil. Em 2019 publicou O cão e os caluandas e O quase fim do mundo.

Leia um trecho:

            Estou morto.
            Estou morto, de olhos cerrados, mas percebo tudo (ou quase) do que acontece à minha volta. Sei, estou deitado dentro de um caixão, num salão cheio de flores, as quais, em vida, me fariam espirrar. As pessoas não sabem que flores de velório cheiram mal? Sabem, mas a tradição é mais forte e velório sem flores é para pobre.
            Ora, não somos pobres, dominamos uma nação.
            Estou morto, no entanto posso escutar, entender os dizeres, mesmo os sussurros e, em alguns casos, adivinhar pensamentos.

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Saiba mais sobre o escritor Pepetela: https://www.kapulana.com.br/pepetela/

Saiba mais sobre o livro: 
livro físico: https://www.kapulana.com.br/produto/sua-excelencia-de-corpo-presente/
e-book: https://www.kapulana.com.br/catalogo-de-ebooks/ 

[19 de março de 2021]

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LARISSA LISBOA

LARISSA LISBOA

É Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), Mestra em Estudos Literários pela Universidade de São Carlos (UFSCar), Especialista em Educação para as relações étnico-raciais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), formada em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Faz parte de grupos de pesquisa como Genore: Género, normatividade, representações, do Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa; Perspectivas pós-coloniais: literaturas e culturas em língua portuguesa, da Universidade Federal Fluminense; Literatura: intersecções identitárias, da Universidade de São Paulo.

Na área de Educação tem colaboração com diversas instituições de ensino e de atendimento social como Fundação Casa (Campinas), Universidade de Lisboa (UL), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Universidade de São Paulo (USP).​

Ministra palestras e minicursos e faz mediação em mesas de debates sobre literatura, particularmente sobre temas relacionados às literaturas africanas de Língua Portuguesa. Colabora também com jornais e revistas na área de literatura.

COLABORAÇÃO COM A KAPULANA

Colabora com a Editora Kapulana na mediação de mesas com escritores e com resenhas de obras como:

“Muitas histórias” em ‘Quatro histórias’, de João Paulo Borges Coelho”, São Paulo: Kapulana, 2021. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/muitas-historias-em-quatro-historias-de-joao-paulo-borges-coelho-por-larissa-lisboa/>

“Lançamento do livro Um rio preso nas mãos, crônicas, de Ana Paula Tavares” (mediação da mesa). São Paulo, 02/08/2019. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/02-08-2019-lancamento-e-sessao-de-autografos-de-um-rio-preso-nas-maos-de-ana-paula-tavares-na-biblioteca-mario-de-andrade-em-sao-paulo-sp/>

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Muitas histórias, em ‘Quatro histórias’, de João Paulo Borges Coelho – por Larissa Lisboa

João Paulo Borges Coelho nos presenteia com um novo livro ficcional, “Quatro histórias”. O pequeno formato, contudo, tem como proposta grandes discussões que possibilitarão ao público brasileiro conhecer ainda mais o universo plural de sua obra artística.

Somos convidados a adentrar em diversos espaços para além de Moçambique. Seja através do diálogo com um passado não tão distante, onde as fronteiras geográficas africanas se faziam ainda mais complexas, seja através do presente, nas mais de quatro décadas de Independência do país e nas conflituosas relações globais, Borges Coelho nos desnuda a sua visão crítica, como historiador, a partir de uma genialidade artística que se constrói, inclusive, em histórias enigmáticas.

Assim, os três últimos séculos estão presentes nessas potentes narrativas que resgatam personagens históricas da África Austral, a exemplo de Abushiri ibn Salim al-Harthi (líder árabe da Revolta de Abushiri, no século XIX), além de comuns indivíduos, mas retratados como espelhos sociais que giram em torno dos processos coloniais, como a escravidão, e do neocolonialismo, na China como nova potência.

Portanto, ao público leitor da editora Kapulana, o convite é lançado: a leitura de uma pequena obra, consoante com o formato tradicional do conto, na possibilidade de uma profunda reflexão, além do prazer pela apreciação de um excelente texto.      

São Paulo, 09 de fevereiro de 2021.

Larissa Lisboa
Universidade Federal de São Paulo.

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Citar como:

O ARTIGO:
LISBOA, Larissa. “Muitas histórias, em ‘Quatro histórias’, de João Paulo Borges Coelho”, São Paulo: Kapulana, 2021. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/muitas-historias-em-quatro-historias-de-joao-paulo-borges-coelho-por-larissa-lisboa/>

O LIVRO:
COELHO, João Paulo Borges. Quatro histórias. São Paulo: Kapulana, 2021. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/quatro-historias/>

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José dos Remédios, jornalista moçambicano, publica seu primeiro livro

O primeiro livro do jornalista e ensaísta José dos Remédios, O HORIZONTE E A ESCRITA, sai sob chancela da editora Fundza, de Moçambique.

O horizonte e a escrita, de autoria de José dos Remédios, resulta de um estudo realizado sobre oito romances do escritor Adelino Timóteo, que, em 21 anos de carreira, publicou 19 títulos, sendo nove romances, sete livros de poesia, dois estudos e um livro infantojuvenil.  A Editora Kapulana publicou no Brasil dois livros de Adelino Timóteo: Cemitério dos pássaros (romance) e Na aldeia dos crocodilos (infantojuvenil).

O interesse pela realização e publicação deste ensaio, segundo José dos Remédios, decorre, primeiro, da carência de estudos sobre os autores pertencentes à geração que começa a publicar por volta do início da década de 2000, e, segundo, da necessidade de eternizar pelo menos os mais importantes criadores dessa geração.

“Um dos mecanismos a ter em consideração é a recensão literária, por via da qual se criam condições para que o espólio desses mesmos criadores não fique desvalorizado”, lê-se na introdução do livro do autor.

O lançamento do primeiro livro de José dos Remédios marca o início das celebrações dos cinco anos da existência da editora Fundza, sediada na cidade da Beira, em Moçambique. O livro, patrocinado pelo BNI, está em pré-venda desde 9 de Fevereiro.

José dos Remédios nasceu a 1 de Agosto de 1987. Tem uma formação no ensino e uma licenciatura em Literatura Moçambicana. É jornalista e ensaísta. Possui inúmeros ensaios publicados na imprensa nacional e no Brasil. Atua como assessor na organização de festivais e feiras de livro. Publicou o artigo “Noémia: a poesia do mundo”. É co-fundador da editora “Kuvaninga Cartão d’Arte” e colabora com várias outras editoras (nacionais e estrangeiras) na edição de textos e/ou na promoção da literatura moçambicana. Como jornalista, escreveu vários roteiros de vídeos em homenagem a personalidades como Marcelino dos Santos, Ungulani Ba Ka Khosa, Dom Dinis Sengulane, Mia Couto e Paulina Chiziane. Foi roteirista, técnico de som e fotógrafo do documentário “Maputo, a doropa“.

José dos Remédios é antigo colaborador da Editora Kapulana com vários artigos publicados sobre os livros do catálogo da editora: https://www.kapulana.com.br/jose-dos-remedios/

Adelino Timóteo, objeto dos ensaios do livro de José dos Remédios, tem dois livros publicados no Brasil pela Editora Kapulana: https://www.kapulana.com.br/adelino-timoteo/

[9 de fevereiro de 2021]

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Editora Kapulana anuncia os primeiros lançamentos de 2021! De João Paulo Borges Coelho e Bruno Honorato

No primeiro semestre de 2021, a Kapulana oferece ao leitor brasileiro novo livro do moçambicano João Paulo Borges Coelho e livro inédito do brasileiro Bruno Honorato

Em 12 de fevereiro de 2021, a Editora Kapulana lança – em formato de livro de bolso – o novo livro do moçambicano João Paulo Borges Coelho: QUATRO HISTÓRIAS. 

QUATRO HISTÓRIAS, de João Paulo Borges Coelho  

Nesse conjunto de quatro contos, João Paulo Borges Coelho conduz o leitor por caminhos, tempos e situações diversas. Ora estamos no Congo, ora em Moçambique, ora na China. A história da África, particularmente de Moçambique, aparece nesse cenário desde os inícios do século XIX. São histórias que emocionam por destacar personagens exploradas, sofredoras e resistentes.

É o terceiro livro do autor que a Kapulana publica no Brasil. Os anteriores são os romances  As visitas do Dr. ValdezCrônica da Rua 513.2.

Trechos de QUATRO HISTÓRIAS

“A chegada dos captores à aldeia em Bukavu, nos confins do interior congolês, surgindo do nada como feras rapaces, ávidas de tudo quanto mexia. A fuga precipitada do povo pelo mato fora, ela puxada por um braço pela mãe apavorada, esta caindo trespassada por uma comprida lança para que aprendesse a não fugir, última e escusada lição. E a rapariga ficando ali a segurar a mão de um cadáver trespassado e inútil, até que chegou o árabe com um olho de cada cor – Ahmed lhe chamavam – […]” (Conto: “Maria Ernestina e as quatro senhoras”)

“A princípio, a coisa não me pareceu problemática. Tratava-se apenas de seguir a pista dos roubos e identificar autores, chineses ou não. Afinal, tínhamos a chamada lei do nosso lado. Todavia, à medida que a investigação prosseguia foi ficando evidente que, além da carne para canhão e dos chineses propriamente ditos, havia também peixe graúdo, se me faço entender. Autoridades. Gente que não me fica bem nomear […].” (Conto: “Pau Macau”)

Conheça um pouco mais sobre o livro e seu autor:

https://www.kapulana.com.br/produto/quatro-historias/ 

JOÃO PAULO BORGES COELHO

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Ainda no primeiro semestre de 2021, em abril,  a Kapulana lança o premiado livro do brasileiro Bruno Honorato, A BOCA DO MURO, Vencedor, na categoria Romance, do concurso Seja Nosso Autor-2019, da Kapulana.

A BOCA DO MURO, de Bruno Honorato: 

Bruno Honorato conta a história de quatro amigos: Gordo, Negazul, Nina e Bonito, que formam um grupo de pixadores, os ALKIMISTAS. Cada um deles faz um pixo: GRAJAUEX, NOITE, ANGÚSTIA e BONITO.

Ao longo da leitura, as histórias de cada uma das personagens e da amizade do grupo são aprofundadas, assim como as reflexões sobre questões sociais e políticas que envolvem o pixo e a ocupação da cidade. O pano de fundo é a arte de rua paulistana e a vida na periferia de São Paulo. Na primeira parte da história, os ALKIMISTAS apanham da cidade, literal e metaforicamente, até que um acontecimento fantástico muda de forma surpreendente o rumo da narrativa.

Conheça um pouco mais sobre o livro e sobre o autor:

https://www.kapulana.com.br/produto/a-boca-do-muro/ 

BRUNO HONORATO

 

[atualizada: 09 de fevereiro de 2021]

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Neste final de ano, a Editora Kapulana presenteia o leitor brasileiro com três incríveis lançamentos!

Em novembro e dezembro de 2020, a Kapulana presenteia o leitor brasileiro com a publicação de três livros de alta qualidade de três países diferentes: Brasil, Angola e Nigéria

A Editora Kapulana lançou em novembro um livro de memórias do nigeriano WOLE SOYINKA e um de contos do brasileiro MÁRIO MEDEIROS. Em dezembro, no dia 12, lançará na Flipelô, mais um livro – o terceiro – do angolano PEPETELA. 

AKÉ: OS ANOS DE INFÂNCIA, de Wole Soyinka: Um dos 12 melhores livros africanos do século XX (ASC Library).

É a história da infância do autor no oeste da Nigéria, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. É um emocionante livro de memórias considerado clássico no gênero. Transcende o relato lírico de vivência do autor quando criança pois acaba por revelar a cultura de um povo. Uma atenção especial é dada pelo autor nigeriano, de origem Iorubá, às expressões da cultura local, como as canções, comidas, bebidas, vestuário e religião, em um país colonizado pelos ingleses.

Conheça um pouco mais sobre o livro: https://www.kapulana.com.br/produto/ake-os-anos-de-infancia/

NUMA ESQUINA DO MUNDO, contos, de Mário Medeiros: na categoria Conto, foi Vencedor do concurso Seja Nosso Autor-2019, da Kapulana, e Finalista do Prêmio Jabuti 2020.

É um conjunto de 12 contos escritos pelo brasileiro MÁRIO MEDEIROS. Compostos com enorme força narrativa, os contos abrem um leque extremamente diverso de histórias com protagonistas negros em ambientes urbanos, passando da infância à velhice e à morte, do trem ao escritório, das ruas de São Paulo a uma esquina em Paris. A humanidade, mostrada na obra a partir de sua capacidade de agir, reagir e refletir, é afinal o que une um trabalhador no escritório, empinadores de pipas, um sindicalista morto, uma garota que não vende balas no semáforo quando chove e tantos outros que permeiam os contos. 

Conheça um pouco mais sobre o livro: https://www.kapulana.com.br/produto/numa-esquina-do-mundo/

SUA EXCELÊNCIA, DE CORPO PRESENTE, de Pepetela: Vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa do Correntes d’Escritas 2020.

Neste romance do angolano PEPETELA, o protagonista, narrador da história, é um ditador africano morto, deitado em seu caixão. Com suas memórias, a personagem revela a estrutura do poder político, o nepotismo, os abusos, as estratégias e ações de um regime ditatorial. Mesmo morto, o ditador não deixa de tentar controlar a sua sucessão através do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como era em vida.  Pepetela demonstra, como sempre, estar atento às situações de injustiça, opressão e abuso de poder que poderiam ter ocorrido em qualquer região do mundo em qualquer época. A obra surpreende por sua atualidade e universalidade.

Conheça mais sobre o livro: https://www.kapulana.com.br/produto/sua-excelencia-de-corpo-presente/    

[8 de dezembro de 2020]

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Editora Kapulana lança no Brasil ‘Sua Excelência, de corpo presente’, de Pepetela – agora na versão impressa

A Kapulana publica no Brasil o mais novo romance de Pepetela – um retrato dos regimes ditatoriais de qualquer tempo e lugar

A Editora Kapulana lança no Brasil a versão impressa do premiado romance de Pepetela – Sua Excelência, de corpo presente. O livro foi lançado inicialmente em versão de e-book e agora chega na versão impressa por ocasião da participação do autor na Flipelô (Festa Literária Internacional do Pelourinho),  em dezembro de 2020, quando o escritor participará de um bate-papo virtual.

Neste romance do angolano PEPETELA, o protagonista, narrador da história, é um ditador africano morto, deitado em seu caixão. Durante seu próprio velório, ele vê, ouve e observa os que estão ali para se despedir dele. Passa, então a recordar as histórias vividas com os presentes – familiares, amigos, auxiliares, membros de governos dentre outros. Com suas memórias, a personagem revela a estrutura do poder político, o nepotismo, os abusos, as estratégias e ações de um regime ditatorial. Mesmo morto, o ditador não deixa de tentar controlar a sua sucessão através do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como era em vida. A obra surpreende por sua atualidade e universalidade.

Pepetela demonstra, como sempre, estar atento às situações de injustiça, opressão e abuso de poder que poderiam ter ocorrido em qualquer região do mundo em qualquer época. Por meio da ficção, com uma linguagem literária mordaz e, muitas vezes, irônica, Pepetela conduz o leitor ao submundo do poder opressivo.

O livro foi o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa do Correntes d’Escritas 2020 e finalista do Prêmio Oceanos 2019. É o terceiro livro de Pepetela que a editora Kapulana publica no Brasil. Em 2019 publicou O cão e os caluandas e O quase fim do mundo.

Leia um trecho:

            Estou morto.
            Estou morto, de olhos cerrados, mas percebo tudo (ou quase) do que acontece à minha volta. Sei, estou deitado dentro de um caixão, num salão cheio de flores, as quais, em vida, me fariam espirrar. As pessoas não sabem que flores de velório cheiram mal? Sabem, mas a tradição é mais forte e velório sem flores é para pobre.
            Ora, não somos pobres, dominamos uma nação.
            Estou morto, no entanto posso escutar, entender os dizeres, mesmo os sussurros e, em alguns casos, adivinhar pensamentos.

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Saiba mais sobre o escritor Pepetela: https://www.kapulana.com.br/pepetela/

Saiba mais sobre o livro: 
livro físico: https://www.kapulana.com.br/produto/sua-excelencia-de-corpo-presente/
e-book: https://www.kapulana.com.br/catalogo-de-ebooks/ 

[2 de dezembro de 2020]

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Editora Kapulana lança no Brasil o livro de contos de Mário Medeiros: ‘Numa esquina do mundo’

Livro de contos do escritor brasileiro Mário Medeiros expõe literariamente situações e cenários trágicos de personagens que vivem à margem da sociedade

A Kapulana publica em 19 de novembro de 2020 Numa esquina do mundo, o livro de contos do brasileiro MÁRIO MEDEIROS, ficcionista e pesquisador universitário na área de Sociologia. Tanto seus contos como sua pesquisa acadêmica focam na temática sobre os marginalizados, desfavorecidos e não atendidos pelo sistema social e político brasileiro. O lançamento do livro está marcado para novembro – mês da Consciência Negra.

Numa esquina do mundo, obra vencedora, na categoria Conto, da edição de 2019 do Seja Nosso Autor, da Editora Kapulana, é um conjunto de 12 contos de Mário Medeiros, compostos com enorme força narrativa.

Com escrita precisa e terna, o autor nos revela  a humanidade de personagens marginalizadas em meio à realidade trágica do dia a dia. São histórias com protagonistas negros em ambientes urbanos, passando da infância à velhice e à morte, do trem ao escritório, das ruas de São Paulo a uma esquina em Paris. A humanidade, sem estereótipos, mostrada na obra a partir de sua capacidade de agir, reagir e refletir, é o que une personagens tão diversas como o trabalhador no escritório, empinadores de pipas, o sindicalista morto, a garota que não vende balas no semáforo quando chove e tantos outros.

Leia alguns trechos:

“Aí, tia! Deixa eu subir aí para pegar a pipa? Deixa, tia? Quebra nada não! Porra…! Tia chata do caralho! Sem cerimônia, o palavrão. Sem cerimônia também, um pé no muro, outro no portão, dois tempos em cima do telhado, driblando os cachorros no quintal, movendo a posição da antena, chiado riscando na RV. Puta que pariu! ” [Conto: “O pó da rabiola”]

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“Qual o peso de um homem negro sob o sol? Qual o peso de sua sombra?
O peso de seu passado, do pretérito dos seus? Quanto marca na balança o seu futuro?” [Conto: “Durmo no fundo dos seus olhos”]

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“Agora é a vez de Tiquinho. Vender os doces lá em cima. O negócio é assim. Os Dois lá embaixo, com os vidros. Eu, de um lado, com os paus de fogo e Nadela, do outro, pedindo, vendendo bala ou batendo pau, sem bola de fogo, jogando bola. Lá em cima, Tiquinho, moleque ranhento, não deve de ter nem oito anos. Vende bala. A gente forma uma cruz. Sinal abriu, fechou, um de nós tá sempre em ação. Hoje, Nadela não veio. “Vai chover!”, ela disse. Hoje tem grana a menos. Hoje, Nadela apanha.” [Conto: “Vaga-lume”]

Saiba mais sobre o escritor Mário Medeiros: https://www.kapulana.com.br/mario-medeiros/
Saiba mais sobre o livro:  https://www.kapulana.com.br/produto/numa-esquina-do-mundo/

[07 de novembro de 2020]

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SHEYLA AYO

SHEYLA AYO é artista brasileira, com formação acadêmica pela Faculdade Salesianas – FATEA, em 2009, e cultural pelo Candomblé. Sua pesquisa  envolve desenho, pintura, fotografia e performance, com uma investigação que busca diálogos com a ancestralidade femininas e o “refazimento” das trajetórias da história negra. Sua obra é mencionada em uma série de plataformas, entre elas se destacam as entrevistas para o blog da Folha de São Paulo presente na matéria “Pensamentos Decoloniais”. 

OBRA DA KAPULANA

LINKS DE INTERESSE:

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Editora Kapulana lança no Brasil o livro de memórias de Wole Soyinka ‘Aké: os anos de infância’

Wole Soyinka, nascido na Nigéria, foi o primeiro negro africano a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986, e “Aké: os anos de infância” está classificado entre os “12 melhores livros africanos do século XX”.

A Kapulana, editora voltada para a publicação e divulgação de obras de autores brasileiros e estrangeiros, com destaque para literaturas africanas e foco em temas marginais, lança em novembro de 2020 o livro de memórias do premiado escritor nigeriano WOLE SOYINKA. Trata-se de AKÉ: OS ANOS DE INFÂNCIA, publicado originalmente em 1981. O livro foi classificado entre os “12 melhores livros africanos do século XX” (ASC Library).

Aké: os anos de infância, do nigeriano Wole Soyinka, é uma autobiografia que transcende as biografias tradicionais centradas na pessoa do narrador. Ao relatar seus dias da primeira infância, sempre rodeado de livros, Soyinka nos presenteia com um retrato de época marcado por acontecimentos, conversas, sonhos e preocupações do narrador e de todos os que ele observa ou que com ele convivem. A chegada do rádio e da eletricidade à casa de Wole, a visão do primeiro avião em Aké, a ameaça de Hitler e a luta das mulheres por liberdade são fatos acompanhados das reflexões de uma criança curiosa que chama o pai de “Ensaio” e a mãe de “Cristã Impetuosa”. Uma atenção especial é dada pelo autor nigeriano, de origem Iorubá, às expressões da cultura local, como as canções, comidas, bebidas, vestuário e religião, em um país colonizado pelos ingleses.

Leia alguns trechos:

“Eram essas as bruxas de que nos falavam? Eu nunca tinha visto seios tão achatados, não parecia humano. Mas quando olhei de novo para as bandejas, reconheci cascas e raízes parecidas com as que meu pai comprava e enfiava em garrafas e jarros, onde elas ficavam mergulhadas por dias. Algumas nós tomávamos para certas doenças. Outras nós bebíamos em períodos comunicados misteriosamente aos nossos pais. E havia ainda mais cascas, cultivadas em panelas enormes. […]”

“Todos os avós eram Papa e Mama – e de algum jeito nós falávamos essas palavras em letras maiúsculas. Lá as vigas eram esfumaçadas, despidas do forro de teto usual. Havia objetos nos cantos do telhado, envoltos em folhas, em couro. Alguns não eram muito misteriosos, já que Papa frequentemente remexia esses embrulhos, uns que pareciam cobertos por cem anos de seca. Mas deles não saía nada mais estranho do que nozes-de-cola ou rapé.”

“Eles pareciam conversar em um novo idioma, não que falássemos iorubá com tanta desenvoltura. Ao redor de suas fogueiras no quintal, esse som enchia a noite como uma cantiga esquisita e cúltica, não muito diferente do canto dos ogboni que às vezes chegavam a nossa casa vindas de suas reuniões no Aafin.”

Saiba mais sobre Wole Soyinka: https://www.kapulana.com.br/wole-soyinka/
Saiba mais sobre o livro:  https://www.kapulana.com.br/produto/ake-os-anos-de-infancia/

[28 de setembro de 2020]

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TSITSI DANGAREMBGA é finalista no The Booker Prize 2020

Tsitsi Dangarembga, escritora do Zimbábue, é finalista em prêmio internacional altamente reconhecido.
 
A autora de Condições Nervosas, publicado pela Kapulana no Brasil, é finalista no The Booker Prize 2020 , com o livro This mournable body.
 
O livro finalista faz parte de uma trilogia escrita por Tsitsi Dangarembga, a saber:
 

1988 – Nervous conditions (Condições nervosas. Ed. Kapulana, 2019)
2006 – The Book of Not
2018 – This mournable body

 

[15 de setembro 2020]

 

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Faleceu a escritora SÍLVIA BRAGANÇA (1937-2020)

Sílvia Bragança, poeta, pintora e educadora, nascida em Goa e há muitos anos vivendo em Moçambique, morreu ontem, dia 21 de setembro de 2020.

É com enorme tristeza que a Editora Kapulana noticia o falecimento, aos 83 anos, da artista  e professora Sílvia Bragança, na última segunda-feira (21/9). A Kapulana publicou, em 2015, no Brasil, seu livro infantil Sonho da Lua, em que a autora revela grande sensibilidade no uso da palavra, encantando as crianças. A edição brasileira foi ilustrada pela artista Amanda de Azevedo. Na ocasião da edição do livro, Sílvia acompanhou todo o processo de produção editorial brasileiro, dando opinião sobre o projeto gráfico e as ilustrações que acompanham o texto.

A edição original foi publicada em 2010, em Moçambique, pela Brinduka, e contou com ilustrações da própria Sílvia e de seus sobrinhos Ariel e Luciana Dinis.

A Kapulana sente muito a perda de tão incansável educadora, na certeza que seu legado estará sempre entre nós e entre as crianças.

[22 de setembro de 2020]

Conheça mais  sobre a vida e a obra do autora: https://www.kapulana.com.br/silvia-braganca/

Conheça o livro Sonho da lua: https://www.kapulana.com.br/produto/sonho-da-lua/

 

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Prof. FRANCISCO NOA em webinar sobre Literaturas Africanas de Língua Portuguesa

Palestra do professor moçambicano Francisco Noa – “O poder da representação na literatura colonial: o caso de Moçambique” – ocorrerá em seminário promovido pela Unifesp e pela UAB.

É com grande honra que a Editora Kapulana divulga o evento online (webinar), promovido pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e UAB (Universidade Aberta do Brasil), Literaturas de Língua Portuguesa – Identidades, territórios e deslocamentos: Brasil, Moçambique e Portugal, diferentes olhares, que contará com a presença do renomado intelectual e escritor moçambicano Francisco Noa, no dia 24 de setembro próximo, às 18h, que irá proferir palestra sobre “O poder da representação na literatura colonial: o caso de Moçambique”.

Durante o mês de setembro, a Kapulana disponibilizou os livros de autoria do Prof. Noa com desconto de 30% em sua loja online:

  • Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária
  • Perto do Fragmento, a totalidade
  •  Uns e outros na literatura moçambicana

Loja online da Kapulana: https://www.kapulana.com.br/cientificos-e-periodicos/

Saiba mais sobre Francisco Noahttps://www.kapulana.com.br/francisco-noa/

O eventohttps://www.kapulana.com.br/eventos/webinar-com-prof-francisco-noa/

Inscrições, até 20/09/2020 (somente os inscritos receberão certificados): https://sistemas.unifesp.br/acad/proec-siex/index.php?page=INS&acao=2&code=18572

[15 de setembro 2020]

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A oficina de Nazir Ahmed Can em “campos, espaços” da escrita moçambicana, por Rita Chaves

Seis anos após o lançamento, em Moçambique, de Discurso e poder nos romances de João Paulo Borges Coelho, o primeiro trabalho exaustivo sobre o ficcionista moçambicano que acaba de ser publicado pela Kapulana, Nazir Ahmed Can entrega ao leitor brasileiro O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio. Durante esse período, a capacidade analítica de seu autor materializou-se em livros coletivos e em algumas das melhores revistas acadêmicas do Brasil e não só, revelando um leitor profundamente interessado na literatura do continente africano. Foi também esse o tempo que do território moçambicano, solo inicial de suas pesquisas, ampliou seu olhar arguto e sensível na direção de países como Angola e Cabo Verde, incorporando ainda espaços pouco palmilhados entre nós como  alguns países situados no Oceano Índico. Assim, em suas análises, nomes como Ondjaki, Ruy Duarte de Carvalho, Mario Lúcio de Sousa e Ananda Devi vieram se associar a João Paulo Borges Coelho e outros moçambicanos como Luís Bernardo Honwana, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Paulina Chiziane, Ungulani Ba Ka Khosa e Helder Faife, alguns dos nomes aqui visitados.

Nesse movimento, o pesquisador habituado a romper fronteiras físicas transitou por diferentes gêneros literários para investigar problemas fundamentais da produção africana, menos empenhado em encontrar respostas do que no compromisso de formular questões – marca que define uma qualidade do intelectual contemporâneo de seu tempo. Nesse volume em que volta a se concentrar em Moçambique, notamos que tal regresso ao lugar de partida articula-se a uma notável capacidade de renovar o modo de percebê-lo. A partir do(s) conceito(s) de espaço, Nazir Ahmed Can avança no processo de análise e interpretação de textos que espelham e constroem as intrincadas relações entre ficção e realidade e convida-nos a uma viagem em que a mobilidade é, mais que um objeto, um modo de ver o mundo, o literário e aquele que catalisa a escrita das tantas páginas examinadas.

 

Na escolha do conceito de campo intelectual, cunhado por Pierre Bourdieu e muito utilizado no domínio das ciências sociais, marca seu apreço pela interdisciplinaridade como método, mas sabe evitar sua utilização como um recurso meramente terminológico para o exercício metalinguístico tão a gosto de algumas modulações críticas. Ao contrário, fugindo à tautologia, suas análises têm no fenômeno literário um cais de partidas e chegadas, expressando o firme propósito de captar vários movimentos para focalizar com pertinência e respeito inclusive um repertório ainda pouco divulgado como o identificado com o símile campo. Para isso concorrem o seu conhecimento do lugar, as suas vivências na realidade viva das ruas que compõem o espaço dos escritores e seus personagens. A pesquisa no terreno iniciada há mais de dez anos está na base de uma experiência capaz de facultar ao leitor brasileiro o acesso a todo um universo inexplorado, sem a trivial convocação à bênção paternalista que traduz alguns de nossos equívocos na relação com as literaturas africanas.

No corpo a corpo com a escrita dos autores visitados, reconhecendo sempre que a literatura é a arte da palavra, definição banal mas às vezes ignorada por tantos estudiosos, ele perscruta a linguagem e seus artifícios na tarefa de desvelar os projetos artísticos que constituem a literatura no país. A concepção de insílio surge como uma chave para observar alguns dos impasses vividos pelos escritores moçambicanos, e, sobretudo, compreender como os dilemas vividos no tempo e no espaço que respiram são operados na estrutura de seus textos. Um quadro assim configurado explica a presença da tradução como um procedimento que se impõe na mediação de mundos misturados e mesmo contraditórios. Sem diluir a contradição que define espaços socioculturais marcados pela diferença e pela desigualdade, ela favorece hipóteses de diálogos entre as pontas, recorda-nos o autor.

Com uma fina seleção de instrumentos de análise e a atenção posta em referências teórico-críticas, como Edward Said, Bernard Mouralis e Antonio Candido, por exemplo, ele procura também captar as redes que envolvem a literatura como instituição, identificando o seu lugar na dinâmica social e política de um estado nacional de formação recente e convulsionada. Contrapondo-se aos procedimentos meramente judicativos e aos apelos à celebração, Nazir Ahmed Can defende o direito à exigência, a que em 1994 já se referia Ruy Duarte de Carvalho. O processo de descolonização do conhecimento e do imaginário no território das chamadas “Africanas” tem em sua reflexão uma forte aliança porque nela estão inscritos os sinais da maturidade desejada por aqueles que nesse barco viajam desde há muito ou em tempos mais recentes.

São Paulo, 10 de junho de 2020.

Rita Chaves
Universidade de São Paulo.

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Citar como:

O ARTIGO:
CHAVES, Rita. “A oficina de Nazir Ahmed Can em ‘campos, espaços’ da escrita moçambicana”. Prefácio: In: CAN, Nazir Ahmed. O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio. São Paulo: Kapulana, 2020. [Ciências e Artes] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/a-oficina-de-nazir-ahmed-can-em-campos-espacos-da-escrita-mocambicana-por-rita-chaves/>

O LIVRO:
CAN, Nazir Ahmed. O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio. São Paulo: Kapulana, 2020. [Ciências e Artes] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/o-campo-literario-mocambicano-traducao-do-espaco-e-formas-de-insilio/>

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O pó e a fissura, os muros e a sombra… Quantos tempos cabem na rua?, por Nazir A. Can

Publicado pela primeira vez em 2006, mais de três décadas depois da independência moçambicana, Crônica da Rua 513.2 reconstrói esse período com a distância suficiente para se demarcar da justificada euforia e incidir na contradição que qualquer temporalidade transitória abriga. Sem apresentar um herói, que iria contra o tom antiépico deste romance, e ambientado em Maputo, cenário raramente percorrido pela prosa moçambicana, João Paulo Borges Coelho avalia o modo como uma rua (simples e complexa) vive o tempo (belo e conturbado) da passeata revolucionária. O título, de resto, sintetiza o programa da obra: aliar o pequeno espaço (da rua) ao imenso tempo perdido (da crônica).

Também no “Prólogo: sobre os nomes e a rua” é possível notar o relevo dado a três elementos decisivos para a formação da identidade: o tempo, o nome e o espaço. Após sublinhar os tons da segregação racial, que hierarquizou pessoas, lugares e culturas no período colonial, bem como a herança armadilhada deixada pelo imaginário que nesse tempo se instalou, o narrador reflete sobre o processo de renomeação das ruas e avenidas retomado pela nova ordem. À valorização de indivíduos que lutaram pela libertação (Samora Machel, Eduardo Mondlane ou Josina Machel), de alguns modelos estrangeiros que com ela tiveram uma vinculação ideológica (Marx, Lenine, Kim Il Sung, Siad Barre) e de algumas datas históricas (25 de Setembro ou 25 de Junho) associa-se o desejo de apagamento das referências do passado. As exceções a essa lógica são os espaços numerados, como a rua 513.2, que se manteve como estava. Vale referir que, neste caso, ao invés do esperado 2.513 (fórmula mais próxima do que podemos encontrar hoje em algumas ruas de Maputo), temos o número 2, da dualidade, colocado no fim. Se seguirmos o sutil convite do narrador para não “desprezar a aritmética” e dividirmos estes números (513 por 2), teremos o seguinte resultado: 256.5. Ou inclusive uma data velada, 25-6-75, dia da independência do país. Tanto no título quanto no prólogo, portanto, se articulam algumas das principais estratégias da obra: a metonímia, a seleção onomástica, o jogo de inversões simbólicas e a sobredeterminação das coordenadas de existência tempo e espaço.

Seguindo a lógica da exceção, os nomes de várias personagens, como Josefate, Basílio, Valgy, Tito, Judite, Filimone ou Santiago, anunciam o propósito narrativo de se apropriar do texto bíblico. De maneira lúdica, (e) com efeito, o romance problematiza alguns dos postulados do período pós-independência através da imbricação de enunciados que aproximam o discurso socialista da revolução a uma visão teológica do mundo. Assim, depois de anunciar o desejo de transformação de estatuto no ambiente histórico representado (a doxa), o narrador, com base no mesmo material (o nome), sugere a ambivalência forçada que provam as personagens (o paradoxo). Com a partida de uns (portugueses, em sua maioria), a chegada de outros (moçambicanos dos subúrbios, mas não só) e a permanência de um pequeno e hesitante grupo (como o branco Costa e o indiano Valgy) sucedem-se os encontros e os mal-entendidos engendrados no interior de uma experiência coletiva intensa. Procurando desconstruir modelos de ortodoxia através da sátira, o autor investe ainda na criação dos “resquícios do passado”, espectros dos antigos habitantes da rua que, após a revolução, se escondem nas casas com a cumplicidade dos atuais moradores. O antigo PIDE Monteiro (rivalizando a poltrona da sala com o Secretário do Partido, Filimone Tembe), a prostituta branca Arminda (que, sentada na borda da cama, aconselha a nova moradora Antonieta), o mecânico Marques (cúmplice de garagem e de interesses de Ferraz) entre outros, auxiliam João Paulo Borges Coelho a construir os seus já característicos e insólitos limiares simbólicos. Significando tanto um resto (do espaço) como uma fissura (do tempo), o termo “resquício” sugere a contiguidade como traço constitutivo da jovem nação. Além de representarem a dificuldade de controle da heterodoxia popular, todas estas personagens indiciam, devido a sua natureza especular, que a linha que separa a transição da transação é porosa. Em suma, mais do que “pós-colonial”, conceito que nos remeteria a uma ideia romantizada de corte com o passado, estamos diante de uma sociedade ficcional que partilha os seus espaços com o pó colonial.

Com aquela mordacidade que humaniza, embora nem sempre redima, João Paulo Borges Coelho lê as dinâmicas de um tempo que, a sua maneira, também selou a descoincidência entre a austeridade do discurso público e a fluidez dos gestos privados. Entre a euforia de uns, a hesitação de outros, a improvisação de muitos e a melancolia de todos, espelhada nos muros que se agigantam na reta final da narrativa, anunciando possivelmente a voracidade neoliberal dos dias que correm, as relações entre as personagens dão a medida de uma época vivida sob os signos da solidariedade e do sobressalto. Por via de uma cuidadosa escolha lexical, capaz de enlaçar ritmo, imagem e sentido, além da ironia, que assume aqui plenamente as funções pragmática (por acionar a antífrase e a paródia) e estética (favorecendo a conversão do segredo em indício), o autor devolve à ficção aquela virtualidade poética que constrange qualquer afã de linearidade. Talvez por isso, e tal como a árvore da Rua 513.2 que se mantém firme após tantas intempéries, oferecendo sua sombra ao cortejo de indivíduos comuns que por ali circula, este romance resistirá aos humores do tempo.

Que siga a leitura, pois. E que se façam as contas depois.

Rio de Janeiro / Salamanca, 19 de fevereiro de 2020.

Nazir Ahmed Can
Universidade Federal do Rio de Janeiro / FAPERJ / CNPq / CAPES.

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Elaborado entre 2019 e 2020, este texto contou com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ (Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES/PrINT) – Finance Code 001, Projeto 88887.364731/2019-00.
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Citar como:

O ARTIGO:
CAN, Nazir Ahmed .“O pó e a fissura, os muros e a sombra… Quantos tempos cabem na rua?”. Prefácio. In: COELHO, João Paulo. Crônica da Rua 513.2. São Paulo: Kapulana, 2020. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/o-po-e-a-fissura-os-muros-e-a-sombra-quantos-tempos-cabem-na-rua-por-nazir-a-can/>

O LIVRO:
COELHO, João Paulo. Crônica da Rua 513.2. São Paulo: Kapulana, 2020 [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/cronica-da-rua-513-2/>

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EDITORA KAPULANA ANUNCIA O VENCEDOR NA CATEGORIA ‘CONTO’ DO ‘SEJA NOSSO AUTOR’ de 2019

NUMA ESQUINA DO MUNDO, de Mário Medeiros, foi o livro vencedor, na categoria ‘Conto’ da edição de 2019 do ‘Seja Nosso Autor’, seleção de obras literárias promovida anualmente pela editora Kapulana.

A coletânea de 12 contos do brasileiro Mário Medeiros, Numa esquina do mundo,  foi a obra selecionada pela Kapulana da categoria Conto para publicação em 2020.

As inscrições para a edição de 2019 estiveram abertas para obras em prosa de ficção (contos e romances).

Os contos, compostos com enorme força narrativa, abrem um leque extremamente diverso de histórias com protagonistas negros em ambientes urbanos, passando da infância à velhice e à morte, do trem ao escritório, das ruas de São Paulo a uma esquina em Paris.

O brasileiro Mário Medeiros é sociólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É autor de obras científicas e de ficção, com destaque para o gênero Conto.

Na categoria Romance, o vencedor foi Bruno Honorato, com seu romance A boca do muro, a ser editado no primeiro semestre de 2020.

Em breve a Editora Kapulana anunciará o regulamento completo da edição do SEJA NOSSO AUTOR 2020, em seu site: https://www.kapulana.com.br/seja-nosso-autor/

Saiba mais:

sobre o escritor Mário Medeiros.
sobre o livro Numa esquina do mundo.

[17 de fevereiro de 2020.]

 

 

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MÁRIO MEDEIROS

MÁRIO MEDEIROS, brasileiro, nasceu em São Paulo e, desde 2014, é docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua pesquisa e publicações na área de  Sociologia envolvem temas como os intelectuais negros, o associativismo, o pensamento social brasileiro e a circulação internacional de ideias e pessoas.

É autor de obras teóricas e de obras literárias. Colaborou com contos para o jornal Irohin e para a Revista Lavoura.

Várias de suas obras receberam prêmios ou foram finalistas em concursos organizados por instituições como Prêmio Sesc de Literatura e Prêmio Jabuti. Numa esquina do mundo foi vencedor na categoria “Conto”, na edição de 2019 do processo de seleção Seja Nosso Autor, da Editora Kapulana.

OBRA DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Os escritores da guerrilha urbana: literatura de testemunho, ambivalência e transição política (1977-1984). São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008.
  • A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000). Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013.
  • Polifonias marginais. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2015. [em parceria com Lucia Tennina, Érica Peçanha e Ingrid Hapke]
  • Rumos do Sul: periferia e pensamento social. São Paulo: Alameda Editorial/Fapesp, 2018. [em parceria com Mariana Chaguri]
  • Gosto de amora: contos. Rio de Janeiro: Malê, 2019.

PRÊMIOS E DESTAQUES

  • 2013 – Prémio do Centro de Estudos Sociais para Jovens Cientistas Sociais em Língua Portuguesa da Universidade de Coimbra (livro A descoberta do insólito).
  • 2014 – Finalista do Prêmio Jabuti, categoria Ciências Humanas (livro A descoberta do insólito).
  • 2017 – Finalista do Prêmio Sesc de Literatura de 2017, categoria Contos.
  • 2019 – Vencedor, no processo de seleção Seja Nosso Autor/2019, da Editora Kapulana, na categoria Conto  (livro Numa esquina do mundo: contos).
  • 2020 – Finalista do Prêmio Jabuti, categoria Conto ( livro Gosto de amora).
Publicado em

WOLE SOYINKA

WOLE SOYINKA nasceu em Abeokuta, na Nigéria, em 1934. Seu pai foi pastor anglicano e diretor de escola e sua mãe dirigia um comércio local e foi ativista dos direitos das mulheres. Sua família pertencia ao povo Iorubá o que muito influenciou sua obra.

É conhecido internacionalmente por ser dramaturgo, poeta, romancista e ensaísta. Estudou na Nigéria e no Reino Unido. Atualmente é professor universitário na Nigéria.

Foi crítico severo contra o regime ditatorial na Nigéria por ocasião da guerra civil no país e por isso esteve encarcerado como preso político.

Recebeu vários prêmios, sendo o de maior destaque o “Prêmio Nobel de Literatura”, em 1986. Foi o primeiro africano negro a receber esse prêmio.

OBRA DA KAPULANA

OBRA ORIGINAL

Peças de teatro:

  • The Swamp Dwellers (encenada em 1958; publicada em 1963).
  • The Lion and the Jewel (encenada em 1959; publicada em 1963).
  • The Trial of Brother Jero (encenada em 1960; publicada em 1963).
  • A Dance of the Forests (encenada em 1960; publicada em 1963).
  • Kongi’s Harvest (encenada em 1965; publicada em 1967).
  • The Strong Breed (encenada em 1966; publicada em 1963).
  • Madmen and Specialists (encenada em 1970; publicada em 1971).
  • Jero’s Metamorphosis (encenada em 1974; publicada em 1973).
  • The Road (1965) and Death and the King’s Horseman (1975): (encenadas em 1976).
  • The Bacchae of Euripides (1973),reescreveu the Bacchae for the African stage and in Opera Wonyosi (encenada em 1977, publicada em 1981).
  • A Play of Giants (1984).
  • Requiem for a Futurologist (1985).

Romances:

  • The Interpreters (1965).
  • Season of Anomy (1973).

Autobiografias/ Memórias:

  • The Man Died: Prison Notes (1972).
  • Aké: the years of childhood (1981).

Ensaios literários, em:

  • Myth, Literature and the African World (1975).

Poemas, em:

  • Idanre, and Other Poems (1967).
  • Poems from Prison (1969).
  • A Shuttle in the Crypt (1972).
  • Ogun Abibiman (1976).
  • Mandela’s Earth and Other Poems (1988).

PRÊMIOS EM DESTAQUE

1967: John Whiting Award – por The Interpreters (1965).

1983: The Annual Anisfield-Wolf Book Awards (Non fiction) – por Aké: the years of childhood (1981).

1986: Prêmio Nobel de Literatura.

2013: The Annual Anisfield-Wolf Book Awards (Lifetime Achievement) – por The Man Died: Prison Notes of Wole Soyinka (1972).

Aké: os anos de infância (Aké: the years of childhood, 1981) – considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX (ASC Library).

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EDITORA KAPULANA ANUNCIA O VENCEDOR NA CATEGORIA ‘ROMANCE’ DO ‘SEJA NOSSO AUTOR’ de 2019

A BOCA DO MURO, de Bruno Honorato, foi o livro vencedor, na categoria Romance da edição de 2019 do ‘Seja Nosso Autor’, seleção de obras literárias promovida anualmente pela editora Kapulana.

O romance A BOCA DO MURO, de Bruno Honorato, é a obra selecionada pela Kapulana para publicação em 2020. As inscrições para a edição de 2019 estiveram abertas para obras em prosa de ficção (contos e romances).

A boca do muro, primeiro livro do autor, se destaca por trazer à tona a discussão de questões sociais e culturais de moradores marginalizados das grandes cidades. A narrativa acompanha um grupo de quatro amigos pixadores da periferia da cidade de São Paulo, que se denominam ALKIMISTAS. A obra apresenta um toque de literatura fantástica e linguagem forte próxima da oralidade.

O brasileiro Bruno Honorato é tradutor, estudioso de literatura e começou a exercer a arte da ficção há três anos, após ter participado de várias oficinas literárias e cursos de preparação de escritor.

Na categoria Romance, o vencedor foi Mário Medeiros, com seu livro Numa esquina do mundo, a ser editado no primeiro semestre de 2020.

Em breve a Editora Kapulana anunciará o regulamento completo da edição do SEJA NOSSO AUTOR 2020, em seu site: https://www.kapulana.com.br/seja-nosso-autor/

Saiba mais:

sobre o escritor Bruno Honorato.
sobre o livro A boca do muro.

[Atualizada em 17 de fevereiro de 2020.]

 

 

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BRUNO HONORATO

BRUNO HONORATO é tradutor, artista e dono de bar. Nasceu em 1983, no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense. Cresceu em São Paulo, ama São Paulo, cidade que foi musa de seu primeiro livro, A boca do muro.

OBRA DA KAPULANA

A boca do muro, 2020. [Em edição]

PRÊMIOS E DESTAQUES

2019 – Vencedor, na categoria Romance, do concurso “Seja Nosso Autor”, de 2019, promovido pela Editora Kapulana.

2018 – Selecionado para o CLIPE, Curso Livre de Preparação do Escritor, promovido anualmente pela Casa das Rosas, em São Paulo.

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FELIPE TOGNOLI

FELIPE TOGNOLI, artista brasileiro, é ilustrador de obras para crianças e jovens. É palhaço e arte-educador. Participa de projetos envolvendo o universo lúdico das crianças, organiza e ministra oficinas em diversos espaços culturais e é mediador em exposições em museus e organizações culturais.

É o ilustrador de dois livros da Kapulana, Ilha e Ovelha Colorida.  

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES:

  • 2019 – Meninas incríveis, organizado por Ana Paula Sefton.
  • 2018 – As tarraxinhas, de Tarsila Maria Teixeira.
  • 2017 – O que a gente come: histórias e receitas do que aparece no seu prato, de Clarice Uba e Piero Franchini.
  • 2016 – Pé de sonho, de Amanda Lioli, Brunna Talita e Li Albano.
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CAROLINA PORTELLA

CAROLINA PORTELLA, brasileira, é atriz e arte-educadora.

Artista brasileira, atua como arte-educadora e ministra oficinas de práticas cênicas. É atriz do coletivo “Teatro da Neura” e exerce atividades como gestora e professora de Teatro no “Espaço N de Arte e Cultura” – sede da companhia. É arte-educadora pelo Programa Vocacional da Prefeitura de São Paulo.

É autora de Ovelha Colorida, seu primeiro livro, que faz parte de um projeto conjunto com Mariana Rhormens e Felipe Tognoli.

OBRA DA KAPULANA

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PEPETELA É FINALISTA DO PRÊMIO OCEANOS e VENCEDOR DO Prémio Literário CASINO DA PÓVOA

PEPETELA, consagrado escritor angolano, foi um dos 10 finalistas no prêmio OCEANOS 2019, e vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa de 2020, com o romance SUA EXCELÊNCIA, DE CORPO PRESENTE, a ser publicado pela Editora Kapulana em 2020. 

Sua Excelência, de corpo presente, publicado pela D. Quixote em 2018, e a ser publicado no Brasil pela Kapulana em 2020, foi obra finalista do Prêmio Oceanos 2019 e vencedora do Prémio Literário Casino da Póvoa, 21a. ed. do Festival Correntes d’Escritas de 2020. Nesse surpreendente romance, o protagonista, narrador, é um ditador africano já morto. Pepetela, a partir das reflexões do defunto, em seu próprio velório, nos apresenta um quadro político e social de um país africano.

Pepetela esteve no Brasil recentemente para lançar o romance O quase fim do mundo, e para divulgar O cão e os caluandas, ambos publicados pela Kapulana em 2019. Participou de várias atividades, como sessões de autógrafos e bate-papos com leitores. Concedeu também entrevistas.

“Aquilo que li, vivi e fui aprendendo influencia, sim. Muito da minha vida está nesses livros.”

PEPETELA (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Estudou em Portugal e depois, por motivos políticos, esteve na França e na Argélia, onde militou na representação do MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola). Em 1969, vai para Angola e participa ativamente da luta de libertação do país africano. Em Cabinda foi simultaneamente guerrilheiro e responsável no setor da educação, quando adota o nome de guerra Pepetela, adotado depois como pseudônimo literário. Em 1972, foi transferido para a Frente Leste de Angola, onde desempenhou a mesma atividade até ao acordo de paz de 1974 com o governo português. Seu primeiro livro, As aventuras de Ngunga, foi escrito em 1973, durante a guerrilha. Após a independência do país, exerceu cargos no governo, na área de educação, tendo sido vice-ministro de Educação.

De 1973 até agora não parou de escrever obras de ficção, muitas delas premiadas.

Para saber um pouco mais sobre o autor e seus livros, veja:
https://www.kapulana.com.br/pepetela/

[Atualizada em 02 de abril de 2020.]

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[Sobre] Condições Nervosas, de Tsitsi Dangarembga – por Rutendo Tavengerwei

Condições nervosas, de Tsitsi Dangarembga, é incrível.

A história se passa na Rodésia (hoje Zimbábue) na década de 1960, antes de o país conquistar a independência, e é narrada por Tambu, sedenta por uma educação que não lhe foi oferecida porque sua família é pobre e acha mais importante que seu irmão vá para a escola. No entanto, ela tem a oportunidade de estudar após a morte do irmão, e Dangarembga nos conduz pela progressão da vida de Tambu, por sua mudança da área rural, onde sempre viveu com os pais, para a escola missionária onde o tio é diretor.

A história incorpora as realidades de várias mulheres da vida de Tambu: a mãe e a tia, que apresentam as dificuldades da existência como mulheres negras, pobres e sem estudo, controladas pelas demandas de uma sociedade patriarcal; e Maiguru e Nyasha, que por terem estudado na Inglaterra, agora se veem presas no constante conflito entre a cultura africana e a ocidental, e por suas identidades perturbadas pelo colonialismo.

Condições nervosas aborda questões de extrema importância, e absolutamente merece ser chamado de clássico moderno.

Rutendo Tavengerwei
Escritora do Zimbábue, autora de
Esperança para voar (Kapulana, 2018)

Citar como: TAVENGERWEI, Rutendo. [Sobre] Condições Nervosas, de Tsitsi Dangarembga [orelha]. In: DANGAREMBGA, Tsitsi. Condições nervosas. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/codicoes-nervosas-tsitsi-dangarembga/>

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A pena da Abolição, por Laurentino Gomes [sobre José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias]

José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias, é mais do que uma boa biografia de um dos maiores abolicionistas brasileiros. É também o relato minucioso, bem documentado e bem escrito de um dos momentos cruciais da história do Brasil. O movimento que levou à libertação dos escravos pela Lei Áurea em Treze de Maio de 1888, e que teve em José do Patrocínio um de seus protagonistas, foi a nossa primeira campanha genuinamente popular e de dimensões nacionais. Envolveu todas as regiões e classes sociais, carregou multidões a comícios e manifestações públicas, dominou as páginas dos jornais e os debates no parlamento e mudou de forma dramática as relações políticas e sociais que até então vigoravam no país.

Nunca antes tantos brasileiros se haviam mobilizado de forma tão intensa por uma causa comum, nem mesmo durante a Guerra do Paraguai. Como efeito colateral, deu o empurrão que faltava para a queda da monarquia e a proclamação da República, no ano seguinte. É esse o fio condutor deste livro fascinante de autoria de um dos mais respeitados e talentosos jornalistas e escritores da atualidade. Leitura fundamental para entender o fenômeno da escravidão e seu legado que ainda hoje assombra os brasileiros.

Rio de Janeiro, setembro de 2019.
Laurentino Gomes
Escritor e jornalista

Citar como:

O ARTIGO:
GOMES, Laurentino .“A pena da Abolição”. Prefácio. In: FARIAS, Tom. José do Patrocínio, a pena da Abolição. São Paulo: Kapulana, 2019.  Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/a-pena-da-abolicao-por-laurentino-gomes-sobre-jose-do-patrocinio-a-pena-da-abolicao-de-tom-farias/>

O LIVRO:
FARIAS, Tom. José do Patrocínio, a pena da Abolição. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/jose-do-patrocinio-a-pena-da-abolicao/>

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KAPULANA LANÇA LIVRO INFANTOJUVENIL DE MARCELO JUCÁ, ILUSTRADO POR RAQUEL MATSUSHITA

No sábado 19 de outubro a Editora Kapulana fez o lançamento da obra infantojuvenil, O que pegamos emprestado dos outros, de autoria do jovem e reconhecido escritor brasileiro MARCELO JUCÁ e com ilustrações da premiada designer e ilustradora RAQUEL MATSUSHITA.

O evento de lançamento, que ocorreu no auditório da Biblioteca Alceu Amoroso Lima, na região de Pinheiros, em São Paulo, contou com um bate-papo com mediação de Paula Fábrio, escritora premiada, pesquisadora e jurada do de vários editais de projetos de obras. Frente a uma plateia interessada formada por adultos e crianças, os participantes conversaram sobre o enredo, construção de personagens, cenas e processo de ilustração da obra.

Marcelo expôs o processo de elaboração do livro, desde o primeiro rascunho até a impressão da obra, passando por adaptações, mudanças e inserções de personagem. O autor buscou em suas experiências como educador de crianças em comunidades periféricas da cidade pontos, cenas, linguagens e situações que retratassem a vida de crianças e jovens ao mesmo tempo com fidelidade e poesia.

Raquel descreveu como buscou “pegar emprestado” a própria personagem Yasmin para que ela ilustrasse o livro como se fosse sua agenda. Com a ideia da agenda, foi feita então a opção pela técnica de colagem. Segundo a artista, a tentativa foi de dialogar constantemente com o autor e o texto, tomando a liberdade de inserir suas próprias interpretações da história por meio do trabalho de ilustração.

Após a conversa, houve sessão de autógrafos com o escritor e a ilustradora.

A obra, publicada pela Editora Kapulana, foi selecionada pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e será distribuída em diversas bibliotecas municipais. O enredo acompanha uma fase de autoconhecimento na vida da menina Yasmin, filha de uma família moradora da zona periférica da cidade. Em conversas com seu pai voltando da escola, Yasmin descobre que todo mundo “pega emprestado” características, manias, gostos e atitudes de outras pessoas. A partir de suas vivências, a garota procura caminhos para descobrir o que já pegou emprestado e o que ela vai assumir para sua própria personalidade.

Conheça um trecho do livro:

Tinha uma atenção de peneira, por isso espiava curiosidade em todos os vazios de uma só vez.
Corria o olho e escorria a pálpebra.
Leu o prato do dia na placa no restaurante em frente.
(Aliás, é “calabreza” ou “calabresa”?).
No Bom Prato do lado onde de vez em raro comia não tinha nem calabreza ou calabresa.
Yasmin sentiu o sol forte esquentar os seus cabelos e descer até a raiz. Encarou a gravidade e de toda forma preferiu que o tempo permanecesse daquele jeito, mesmo que ela estivesse quase virando gelatina.
(Aliás, ela descobriu como é feita gelatina e ficou com o estômago embrulhado).

Saiba mais sobre:

o livro: https://www.kapulana.com.br/produto/o-que-pegamos-emprestado-dos-outros/

o autor: https://www.kapulana.com.br/marcelo-juca/

a ilustradora: https://www.kapulana.com.br/raquel-matsushita/

Fotos e Vídeoshttps://www.kapulana.com.br/19-10-2019-lancamento-o-que-pegamos-emprestado-dos-outros-de-marcelo-juca-na-biblioteca-alceu-amoroso-lima-em-sao-paulo-sp/

 

[Atualizada em 22 de outubro de 2019.]

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PEPETELA NO BRASIL EM OUTUBRO DE 2019: BATE-PAPOS, PALESTRAS, AUTÓGRAFOS, ENTREVISTAS!

 
PEPETELA, premiado escritor angolano, esteve no Brasil em outubro para lançar seu romance O quase fim do mundo, publicação da Editora Kapulana, e trocar ideias sobre esse livro e sobre O cão e os caluandas, obra do autor lançada também em 2019 pela Kapulana. Pepetela teve a oportunidade de participar de atividades em ambientes bastante diversos como auditórios, salas de aulas, áreas abertas sob árvores e ao som de música em calçada de cidade de praia. Esteve entre crianças, jovens e leitores de mais idade, todos interessados em sua trajetória como pessoa militante e como autor de vasta obra literária.

 
Acompanhe as atividades do escritor:

“Sempre um Papo”– Sesc 24 de Maio (15/10/2019 – São Paulo/SP)

Na terça-feira, 15 de outubro, Pepetela participou do programa “Sempre um Papo”, organizado por Afonso Borges, na sede do Sesc 24 de Maio, em São Paulo. Deu entrevista à imprensa e, na sequência, em mesa mediada pela jornalista Paula Rangel, respondeu às perguntas de um auditório lotado de leitores curiosos. O escritor falou sobre como e por que decidiu escrever O quase fim do mundo e comentou o cenário político atual de Angola e do Brasil. Além disso, comentou o que acredita ser a grande importância do olhar observador e crítico para um escritor:

“Aquilo que li, vivi e fui aprendendo influencia, sim. Muito da minha vida está nesses livros.”

Depois do bate-papo, houve sessão de autógrafos, durante a qual os leitores puderam conversar mais de perto com o escritor.

“Áfricas em Trânsito”– FFLCH-USP  (16/10/2019 – São Paulo/SP)

Em 16 de outubro, o escritor participou do colóquio “Áfricas em Trânsito”, organizado pelos centros da USP – Centro de Estudos Africanos (CEA-USP) e Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa (CELP-USP). O autor esteve em um auditório lotado, e duas outras salas com transmissão simultânea também tiveram seus lugares esgotados. A mesa era composta pelas professoras da FFLCH Rita Chaves e Tania Macêdo, e a diretora da instituição, Maria Arminda do Nascimento Arruda. Pepetela fez uma fala breve, em que expôs a satisfação de estar na universidade, e logo passou a responder a diversas perguntas dos presentes nas três salas que o assistiam. Falou sobre a guerrilha, sobre escrever “para ajudar a compreender a realidade” e sobre a importância da literatura para o despertar da consciência política. Ao ser perguntado sobre onde consegue, ainda, depositar sua fé, o escritor respondeu sem titubear:

“Ainda consigo depositar minha fé na juventude.”

Ao final, houve uma concorrida sessão de autógrafos. Apesar da longa fila, todos saíram com um livro autografado pelo escritor.

“Conversa com o Autor” – Realejo Livros (17/10/2019 – Santos/SP)

Na quinta-feira, dia 17, Pepetela participou de um lançamento mais intimista, na Realejo Livros, em Santos, próximo do local onde residiu por breve tempo na cidade. A sessão de autógrafos foi embalada pelo som do chorinho, ao vivo, e o escritor conversou longamente com velhos amigos e novos fãs moradores da cidade ou que vieram de outros lugares para prestigiá-lo.

II Encontro Literário – Áfricas, Memória e Resistência” (18/10/2019 – Perus-São Paulo/SP)

Em 18 de outubro, seu último dia no Brasil, Pepetela esteve no “II Encontro Literário – Áfricas, Memória e Resistência”, promovido pelo Coletivo de Educadores de Perus-Pirituba, para discutir questões sobre literatura, inseridas no contexto político-social-cultural de Angola e Brasil.

O bate-papo, conduzido pela Profa. Rita Chaves (FFLCH-USP), teve lugar na parte externa da Biblioteca Municipal Padre José de Anchieta, em Perus, em uma área sob as árvores, o que remetia às histórias africanas contadas em locais abertos, em meio à natureza.

A plateia era composta de residentes, estudantes e trabalhadores da região, interessados em conhecer o autor e trocar ideias sobre sua obra. Esse evento foi fruto da parceria desenvolvida entre a universidade pública (USP) representada pela Profa. Rita Chaves, e educadores, alunos, pesquisadores e profissionais da biblioteca municipal, com o objetivo de aproximar interessados em literatura e escritores cuja obra os participantes conhecem ou poderão vir a conhecer a partir de agora.

Além da participação em eventos literários, Pepetela concedeu entrevistas a vários órgãos de imprensa, rádio e blogs.

Trechos dos livros:

O QUASE FIM DO MUNDO: https://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/

“Foi quando se deu o relâmpago, chamo-lhe assim à falta de melhor palavra. Uma luz intensa, como um flash num céu azul, indolor. As trovoadas secas são comuns na região, a chuva vem depois. Até pode não vir chuva nenhuma. E foi isso mesmo que pensei, apenas uma trovoada seca. Só muito mais tarde associei essa luz intensa e o fato de ir passando, a partir daí, por carros mal estacionados ao longo da estrada, alguns mesmo no meio da estrada, vazios, imbambas abandonadas ao deus dará, bicicletas caídas, e nem rastro de gente. Alarmado, cheguei aos bairros periféricos, onde se acumulavam os excluídos de todos os processos econômicos e sociais, milhares e milhares de seres a lutarem desesperadamente para viverem um dia a mais. E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas?”

 O CÃO E OS CALUANDAS: https://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

“Trata-se pois de estórias dum cão pastor-alemão na cidade de Luanda. Também se trata duma toninha, ser todo de espuma, algas como cabelos, que talvez só tenha vivido na minha cabeça. E na do cão, claro. Será mesmo só isso? Responda o leitor. Mais previno que qualquer dissemelhança com fatos ou pessoas pretendidos reais foi involuntária.”

Saiba mais sobre Pepetela e sua obrahttps://www.kapulana.com.br/pepetela/

FOTOS E VÍDEOS:

Na KAPULANA:

https://www.kapulana.com.br/15-10-2019-pepetela-na-kapulana/
https://www.youtube.com/watch?v=2GvtIlzBsXc&t=24s (entrevista)
https://www.youtube.com/watch?v=UXw5dRVgf5o (leitura de trecho de O quase fim do mundo)

No SESC 24 DE MAIO/ Programa “Sempre um Papo”:

https://www.kapulana.com.br/15-10-2019-lancamento-o-quase-fim-do-mundo-de-pepetela-no-sesc-24-de-maio-em-sao-paulo-sp/
https://www.facebook.com/pg/SempreUmPapo/photos/?tab=album&album_id=2276577982444205&ref=page_internal

Na FFLCH-USP:

https://www.kapulana.com.br/16-10-2019-africas-em-transito-conversa-com-pepetela-na-fflch-usp-em-sao-paulo-sp/
https://www.fflch.usp.br/1880?fbclid=IwAR1cqz3rX8GQ62sF-0nXlYH-40VwFNqMn9lY9FBDsod2Kd0FbpNllSEnrYI

Na REALEJO LIVROS, em Santos/SP:

https://www.kapulana.com.br/17-10-2019-pepetela-na-realejo-livros-em-santos-sp/

Na BIBLIOTECA MUNICIPAL DE PERUS:

https://www.kapulana.com.br/18-10-2019-conversa-com-pepetela-africas-memoria-e-resistencia-na-biblioteca-municipal-padre-jose-de-anchieta-perus-sp/

 

[Atualizada em 21 de novembro de 2019.]

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PEPETELA LANÇA LIVRO NO BRASIL EM OUTUBRO: “O QUASE FIM DO MUNDO”

PEPETELA, consagrado escritor angolano, participa em outubro de circuito de lançamentos no Brasil de seu  romance O quase fim do mundo, da Editora Kapulana, e de debates sobre seus livros publicados pela Kapulana.

O QUASE FIM DO MUNDO (com prefácio de Ana Paula Tavares):

Trata-se de romance distópico em que o leitor acompanha um grupo de pessoas que sobrevive a um evento apocalíptico de origem desconhecida, na cidade fictícia de Calpe, em alguma região da África Central. 

“Foi quando se deu o relâmpago, chamo-lhe assim à falta de melhor palavra. Uma luz intensa, como um flash num céu azul, indolor. As trovoadas secas são comuns na região, a chuva vem depois. Até pode não vir chuva nenhuma. E foi isso mesmo que pensei, apenas uma trovoada seca. Só muito mais tarde associei essa luz intensa e o fato de ir passando, a partir daí, por carros mal estacionados ao longo da estrada, alguns mesmo no meio da estrada, vazios, imbambas abandonadas ao deus dará, bicicletas caídas, e nem rastro de gente. Alarmado, cheguei aos bairros periféricos, onde se acumulavam os excluídos de todos os processos econômicos e sociais, milhares e milhares de seres a lutarem desesperadamente para viverem um dia a mais. E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas?

O CÃO E OS CALUANDAS:

Nesse clássico, o narrador acompanha os caminhos de um cão que, sucessivamente, é adotado por pessoas diferentes. Aos poucos são reveladas as histórias das famílias que adotam o cão, o que leva o leitor a ter contato com o cenário histórico e político de Angola. 

“Trata-se pois de estórias dum cão pastor-alemão na cidade de Luanda. Também se trata duma toninha, ser todo de espuma, algas como cabelos, que talvez só tenha vivido na minha cabeça. E na do cão, claro. Será mesmo só isso? Responda o leitor.
Mais previno que qualquer dissemelhança com fatos ou pessoas pretendidos reais foi involuntária.”

Acompanhe os eventos já confirmados:

15/10/2019 (3a. f.), 19h30
Sesc 24 de maio (programa “Sempre um Papo”, org. de Afonso Borges)
R. 24 de maio, 109
São Paulo – SP
CEP: 01041-001

16/10/2019 (4a. f.), 19h
Áfricas em Trânsito
Fac. de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP)
Prédio de Ciências Sociais – Sala 14
Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 – Cidade Universitária
São Paulo – SP
CEP: 05508-010

17/10/2019 (5a. f.), 18h
Conversa com o Autor
com sessão de autógrafos
Realejo Livros
Av. Mal. Deodoro, 2 – Gonzaga 
Santos – SP
CEP: 11060-400

18/10/2019 (6a. f), 19h
Áfricas, Memória e Resistência
II Encontro Literário
Coletivo de Educadores  Perus-Pirituba
Biblioteca Pública Municipal Padre José de Anchieta
R. Antônio Maia, 658
Perus – SP
CEP: 05204-110

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Velho mundo, mundo novo, por Ana Paula Tavares [sobre O quase fim do mundo, de Pepetela]

Calpe pode ser tudo menos a cidade feliz e os seus centros e margens estreitam-se quando a terra se rompe e o desaparecimento sucessivo da vida (homens, mulheres, insetos e outros bichos) acontece sem que uma razão clara (peste, guerra, furacão) tudo justifique. Ao contrário de um anjo carregado de futuro aqui sobrevivem indivíduos e uma imensa solidão incapaz de suportar todo o peso do mundo para descobrir e resolver. Os que sobrevivem procuram razões para todos os acontecimentos e ainda formas de resolver os estilhaços da vida que sobrou de um imenso passado por conhecer. A dimensão da violência perturba a observação e o quotidiano dos dias e das noites que o silêncio prolonga e acentua. Com uma linguagem trabalhada o romance abre-se às vozes das várias visões do acontecido como se Calpe se tornasse no pequeno quintal do mundo onde se discutem razões, hipóteses e estratégias. Os mares estão vazios de peixes e nos rios só sobrevivem as formas elementares da vida. Sobram demasiadas coisas materiais para tão pouca vida.

Devorados por um tempo que não é o deles os sobreviventes iniciam o ciclo das viagens onde como novos sujeitos da história descobrem os destinos e vão refundar o mundo. O continente africano resolve de novo o enigma da fundação: a partir de um centro renovar os ciclos, perceber o novo sentido da vida porque Calpe e o mundo à volta só conservam os mortos. A aventura começa e tudo se renova nesta narrativa misteriosa e fundadora.

26 de agosto de 2019.

Ana Paula Tavares
Escritora e historiadora angolana

Citar como:

O ARTIGO:
TAVARES, Ana Paula .“Velho mundo, mundo novo”. Prefácio. In: PEPETELA. O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/velho-mundo-mundo-novo-por-ana-paula-tavares-sobre-o-quase-fim-do-mundo-de-pepetela/>

O LIVRO:
PEPETELA. O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/>

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O criado, o criador e outras criaturas: notas sobre As visitas do Dr. Valdez e a escrita de João Paulo Borges Coelho, por Nazir A. Can

As visitas do Dr. Valdez integra-se em um projeto literário que se apresenta, hoje, como um dos mais desafiadores dos contextos de língua portuguesa. Desde 2003, ano de sua estreia como ficcionista, com As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho publicou sete romances, dois volumes de contos e três novelas. A este registro vertiginoso, que não dispensa o rigor e a experimentação estética, juntam-se três livros de histórias em quadrinhos, lançados em Maputo no início dos anos 80, e algumas narrativas curtas espalhadas em edições de natureza diversa. Embora também seja um reconhecido historiador, João Paulo Borges Coelho evita em seu trabalho artístico o caminho da restituição didática do passado. Apoiado em estratégias como a metonímia, a metáfora ou a alegoria, frequentemente mediadas pelos recursos do humor e da ironia, o jogo que propõe aponta antes para as trocas simbólicas entre o “pequeno” (cotidiano) e o “grande” (história). Virtuoso, o primeiro abre fendas no solo rígido do segundo.

Ambientado na Ilha do Ibo e na cidade da Beira, em um tempo complexo que se situa entre o já agônico colonialismo português e a eufórica independência moçambicana, As visitas do Dr. Valdez coloca em cena a experiência do interstício. A narrativa gira em torno do empregado doméstico Vicente e de suas patroas, as velhas mestiças Sá Amélia e Sá Caetana. Preocupada com os delírios da primeira, que reclamava das ausências do Dr. Valdez, entretanto já morto pelo excesso de manteiga ingerido em vida, Sá Caetana propõe um jogo a Vicente: resgatar o médico das cinzas. Assim, nos domingos de folga, Vicente disfarça-se de senhor doutor branco, em uma tripla transformação que visa devolver alguma alegria à Sá Amélia. Mas não só.

Com o disfarce do velho colono, elaborado na escuridão solitária e precária de seu quarto, o jovem empregado encontra uma criativa maneira de confrontar Sá Caetana e todo o imaginário por ela representado. Por trás da máscara, Vicente aciona um discurso estrategicamente ambíguo e passa a atuar em um dos campos que mais aflige os poderes autoritários: o da imaginação reivindicativa. A imitação que faz do Dr. Valdez, na cara e na casa da autoridade, desestabiliza a velha ordem colonial ancorada nas premissas da superioridade racial e científica e, como tal, no privilégio que decorre da primazia e da lei. O jovem procura libertar-se, portanto, de uma vida de submissão que lhe parecia destinada e acompanhar a mudança que, a um nível mais abrangente, se vai anunciando em Moçambique. Contudo, recorda com frequência as palavras de seu pai: o velho Cosme Paulino exigia-lhe que desse continuidade a uma história de servidão, cuidando das senhoras como se de sua própria família se tratasse. A vinculação quase umbilical a dois mundos opostos acentua a ambiguidade das relações entre as personagens, que são convidadas a ocupar distintas posições durante a narrativa.

Realizadas em três domingos e estruturadas em torno de outros tantos núcleos de significado (gesto, voz e olhar), as visitas do Dr. Valdez asseguram ao empregado alguma margem para expressar seu descontentamento. O discurso de Vicente, na primeira visita, adquire uma capa predominantemente visual. A maneira como se disfarça e os pensamentos que elaboram seus gestos constituem uma eficaz afirmação pública de sua rebelião privada. Executando de maneira sagaz e irônica os gestos doutorais de Valdez, avança por fronteiras até então intransponíveis: senta-se pela primeira vez no sofá, aceita o chá servido pela patroa, toma a iniciativa de observar da janela o quintal e espanta-se com o espaço miserável que é reservado aos criados… Enfim, graças ao novo lugar que lhe cabe no cenário, vê o mundo de um ângulo inédito. E se faz ouvir, mesmo quando silencia. Em contextos onde o estatuto impera, a autoridade não necessita de muitas palavras para se fazer valer. O discurso verbal da dupla Vicente/Valdez progride do comedimento, na primeira visita, para o confronto aberto, na segunda. Programada nos bastidores, depois de um inusitado encontro entre o criador Vicente e a criatura Dr. Valdez, a terceira visita sintetizará as duas anteriores, além de trazer o complemento fundamental da máscara-elmo, peça tradicional da arte maconde que se sobrepõe a do Dr. Valdez. Em dificuldade por ter que se dirigir a quem não vê totalmente, Sá Caetana perde um dos seus principais pontos de apoio: o desigual duelo de olhares.

Assim, após a performance física da primeira visita (que conforma ironicamente a imagem do colono) e da reivindicação retórica da segunda (que confirma a indignação do colonizado, mas o expõe a um risco), a terceira visita será marcada pelo impacto do olhar e de seus desdobramentos. Qualquer desses encontros terá contornos e resultados imprevisíveis, que não nos cabe aqui esmiuçar. Mas não resistimos a uma especulação: a representação de Vicente talvez nos queira dizer, entre outras coisas, que a arte é menos transformadora no momento em que explicita a raiva do que quando, sem renunciar ao compromisso político, faz a adequada mediação das estratégias que lhe são específicas (o gesto, a voz, o olhar e a necessidade de se colocar no lugar do outro). João Paulo Borges Coelho, por seu turno, parece querer complementar com uma pergunta: até quando serão necessárias as máscaras?

Cada uma dessas visitas, por outro lado, nasce de contextos específicos dentro dos quais a memória – imediata, remota, inventada – desempenha uma função relevante. Os jogos de espelhos internos à própria estrutura narrativa, que nos reenviam ao universo íntimo das personagens, complementam e orientam o sentido da teatralização. Compondo os bastidores – ou a pré-história – da encenação, o olhar retrospectivo do narrador e das personagens afigura-se como chave de leitura para as três visitas do Dr. Valdez. No que se refere a Vicente, as memórias remontam, por exemplo, ao tempo da infância, quando presenciou a humilhação pública de que foi alvo seu pai às mãos do patrão Araújo, em um dos episódios mais violentos já relatados na ficção moçambicana; indicam ainda o presente das saídas noturnas, tensão e excessos partilhados com seus amigos Jeremias e Sabonete, que também são empregados domésticos; finalmente, projetam o futuro enganador, metaforizado nas luzes de neón da Boite Primavera e na dança sinuosa de Maria Camba. As figuras do pugilista Ganda, herói nos ringues e engraxate fora deles, e do estranho dançarino que com sua arte recupera a complementaridade perdida do mundo, funcionam também como ativos lugares de memória para o empregado.

A compulsão memorial que atravessa a narrativa e a escrita de João Paulo Borges Coelho, conferindo-lhe unidade, está subordinada a uma resposta artística às formas de produção do esquecimento, especialmente aquelas que são elaboradas pelo discurso político. Este tipo de discurso possui uma natureza programática que choca com o espaço da intimidade (dos rumores e dos desejos, dos ódios e dos segredos, das ambivalências e das confluências) onde sua literatura se alimenta. Em suas obras, aliás, qualquer tipo de mergulho no passado é orientado por um presente repleto de complexidades. E vice-versa. Ao autor, por isso, interessa menos enquadrar a lembrança em um registro fixo de verdade do que ligá-la a um campo aberto de interrogações e interpelações.

Ao eleger caminhos que favorecem a sobreposição de tempos e memórias, a pluralização da geografia literária, a densidade existencial de heróis e personagens secundárias, a diversificação de posturas do narrador e a desestabilização de doxas por via de uma pesquisa estética sobre o paradoxo, João Paulo Borges Coelho consolida o romance moçambicano e constrói um novo lugar no campo literário.

Celebremos, pois, sua primeira visita ao leitor brasileiro.

Rio de Janeiro, 20 de julho de 2019.
Atualizado pelo autor em 01 de outubro de 2019.

Nazir Ahmed Can
Universidade Federal do Rio de Janeiro / FAPERJ / CNPq .
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Este texto foi escrito com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ (Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3).
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Citar como:

O ARTIGO:
CAN, Nazir Ahmed .“O criado, o criador e outras criaturas: notas sobre As visitas do Dr. Valdez e a escrita de João Paulo Borges Coelho ”. Prefácio. In: COELHO, João Paulo. As visitas do Dr. Valdez. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/as-visitas-do-dr-valdez/>

O LIVRO:
COELHO, João Paulo. As visitas do Dr. Valdez. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/as-visitas-do-dr-valdez/>

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Lançamento do livro CineGrafias Moçambicanas em Maputo, Moçambique

CineGrafias moçambicanas – Memórias & crônicas & ensaios, livro publicado pela editora brasileira Kapulana, em 2019, foi lançado também em Moçambique.
O evento foi organizado pela Kapicua Livros e teve lugar no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, em 28 de agosto de 2019.
A mesa contou com as presenças de João Ribeiro (cineasta), Sol de Carvalho (cineasta) e José V. Capão (Diretor da Kapicua Livros).
O público presente era formado principalmente por estudantes de cinema e comunicação, profissionais do livro, representantes de bibliotecas e pesquisadores de artes cênicas em geral.
O livro é considerado uma obra de referência na área de estudos do cinema moçambicano pois, além de trazer informações bem documentadas sobre os cineastas e seus filmes, aponta para possíveis pesquisas futuras sobre o cinema de Moçambique.
A obra, uma coletânea de textos organizada por Carmen Tindó Secco, Ana Mafalda Leite e Luís Carlos Patraquim, é composta por entrevistas, crônicas e ensaios de pesquisadores, cineastas e escritores renomados, a saber:
 
  • Ana Mafalda Leite
  • Camilo de Sousa
  • Carmen Tindó Secco
  • Guido Convents
  • Isabel Noronha
  • João Ribeiro
  • Júlio Machado
  • Licínio Azevedo
  • Luís Carlos Patraquim
  • Olivier Hadouchi
  • Ruy Guerra
  • Sol de Carvalho
  • Ute Fendler
  • Vavy Pacheco Borges
  • Yara Costa
A Kapulana conta também em seu catálogo com outro livro do mesmo segmento: Pensando o cinema moçambicano, ensaios, organizado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco (da UFRJ).

 

Sobre o livro: https://www.kapulana.com.br/produto/cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios/

Fotos do evento: https://www.kapulana.com.br/28-08-2019-lancamento-cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios-em-maputo-mocambique/

São Paulo, 30 de agosto de 2019.

 

 

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Aldino Muianga e Mariana Fujisawa representam a Kapulana na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará

ALDINO MUIANGA (escritor moçambicano) e MARIANA FUJISAWA (artista plástica brasileira) representaram a Kapulana na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará (2019).

Durante a Bienal, no estado do Ceará, Aldino Muianga e Mariana Fujisawa participaram de atividades diversificadas, como bate-papos, oficinas e lançamento de livro, tanto no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza, como no campus da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), em Redenção.

Aldino Muianga é autor de vasta obra literária e tem 3 livros publicados no Brasil pela Kapulana: O domador de burros e outros contos (2015), A noiva de Kebera, contos (2016), e o romance Asas quebradas (2019 – lançado na Bienal do Ceará).

Mariana Fujisawa, artista plástica, é autora da maior parte das capas e ilustrações dos livros do catálogo da Kapulana, como obras de Suleiman Cassamo, Ungulani Ba Ka Khosa, Luandino Vieira, Ana Paula Tavares, João Paulo Borges e Binyavanga Wainaina, dentre outros, além de livros dedicados ao público infantil.

Roteiro de atividades de Aldino Muianga e Mariana Fujisawa na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará:

21/08/2019, Campus da Unilab:
Mariana Fujisawa participou da mesa intitulada “O traço e o verso das cidades” com o poeta Júlio Machado, sob mediação do Professor André Telles, em conversa sobre trajetórias, identidades e processos de criação.
Aldino Muianga conversou com os estudantes, mediado pela professora Andrea Muraro, sobre seu novo romance Asas Quebradas, a temática da representação da mulher e seus processos de escrita.
 
23/08/2019, Centro de Eventos da Bienal:
Mariana Fujisawa teve duas participações: uma conversa com crianças de escolas públicas sobre a ilustração de livros infantis e a mesa novamente compartilhada com Júlio Machado, com mediação de Andrea Muraro.
 
24/08/2019, na Bienal:
Aldino Muianga lançou oficialmente Asas Quebradas, em conversa mediada por Sueli Saraiva, que contou com intensa participação do público presente.
Como parte da “Bienal fora da Bienal”,Mariana Fujisawa visitou a biblioteca comunitária Casa Camboa, oferecendo uma oficina de ilustração para crianças da comunidade.”
 

São Paulo, 30 de agosto de 2019.

 

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Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga (sobre o romance Asas Quebradas), por Ana Braun

Asas quebradas, romance do ficcionista moçambicano Aldino Muianga, é um livro sobre mulheres, violência e reconciliação. Estruturado a partir da perspectiva de duas moçambicanas, Macisse e Celinha, o romance narra a história de mãe e filha separadas por um episódio de brutalidade que resultará em conflitos das mais diversas ordens, em particular configurando uma ausência geradora de angústia pelo desconhecimento do próprio passado.

A representação da violência é uma das marcas da produção literária moçambicana. Tendo surgido em grande parte como resposta à barbárie que significou a implantação e o estabelecimento do sistema colonial, a literatura de autores já tidos como canônicos, como Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha, Noémia de Sousa, entre outros, se mostrava comprometida em retratar pelo viés realista a opressão, racismo e discriminação que marcaram o período colonial em Moçambique.

Também em momentos anteriores da obra do próprio Aldino Muianga, como nos livros de contos O domador de burros e outros contos (2015) e A noiva de Kebera (2016) – ambos publicados pela Editora Kapulana –, a violência esteve tematizada, ainda que por vezes camuflada pela ironia e humor: na representação dos diferentes espaços associada à descrição das práticas sociais que denunciavam o conflito social, político e econômico como elemento estruturador das relações entre os indivíduos em Moçambique. Se, no entanto, nesses casos a representação da violência se dá a partir das dinâmicas que ocorrem em espaços públicos, no romance Asas quebradas, a violência emerge do âmbito do privado, do seio das relações familiares, e acaba amplificada por uma estrutura social que, mesmo em transformação, ainda é em grande parte insensível ao sofrimento das vítimas – em sua grande maioria mulheres – das múltiplas formas que a opressão doméstica adquire. Pois, mesmo tendo sido parte consistente e atuante da luta anticolonial, as mulheres moçambicanas ainda enfrentam nos dias de hoje uma situação de subalternização no âmbito econômico, cultural e social, experimentando em seu cotidiano diversas formas de sujeição e resistência ao modelo patriarcal.

O romance de Muianga se apresenta, nesse sentido, como representação da lógica que rege as relações de gênero na sociedade moçambicana de hoje. Divididas entre o desejo de uma vida plena e a impossibilidade dessa realização naquele contexto, as protagonistas do romance acabam personificando toda a complexidade da existência feminina no mundo africano contemporâneo, ele mesmo cindido entre o modo ancestral e as transformações sociais advindas da colonização europeia e suas práticas ocidentalizadas.

No romance, convivem – e não exatamente em harmonia – práticas associadas às sociedades tradicionais africanas (o peso do julgamento coletivo da comunidade, o saber dos mais velhos, o poder dos rituais) e esse outro mundo, estruturado por um Estado regido por leis, que, apenas em tese, alicerçariam a construção de uma nova sociedade marcada pela justiça social. Assim, se por um lado, a tradição e o sentido comunitário ancestral são relativizados pelos valores da modernidade, por outro, a narrativa nos alerta que a lógica do mundo ocidentalizado também é insuficiente para captar as especificidades das relações nesses contextos, não sendo capaz de proteger as mulheres das agressões perpetradas tanto pelos indivíduos quanto pela própria sociedade, de maneira geral. São elas, portanto, quem mais sofrerão as consequências de viver num mundo que, apesar de cindido entre essas duas lógicas, vai invariavelmente conferir às mulheres papel secundário, subalterno e de abandono. O romance mostra a tensão gerada pela impossibilidade do enfrentamento individual de uma estrutura social que criminaliza e responsabiliza a mulher pela violência à qual é submetida.

O predomínio do discurso interior das personagens, mediado por um narrador onisciente que nada esconde do leitor, coloca-nos em posição privilegiada, já que temos acesso a dados desconhecidos, ignorados pelas demais personagens. Ganhamos, por consequência, também o poder de julgar suas ações e de nos posicionar ante as injustiças vivenciadas pelas mulheres no romance. Nesse sentido, as personagens masculinas aparecem em clara desvantagem em relação ao leitor. A narrativa indica que, seja em maior ou menor grau, todos acabam de alguma forma exercendo modos de opressão que submetem as mulheres ao sofrimento, solidão e sentimento de inadequação.

Assim, do mesmo modo que o sistema colonial representou uma forma de dominação, o modo patriarcal que rege as relações entre as pessoas naquela sociedade também o é. E, à medida em que avançamos na leitura do romance, vai se tornando cada vez mais claro que a lógica do patriarcado está incorporada também no modo de ação das próprias mulheres, que se veem, muitas vezes, não apenas impedidas de serem solidárias umas com as outras mas mesmo como inimigas, em disputa pela suposta estabilidade emocional e financeira oferecida pelo relacionamento amoroso. Ao mesmo tempo, há, em vários outros momentos da narrativa, a ênfase na solidariedade feminina, no entendimento de que a chave para uma existência plena está na conciliação entre indivíduos, reatando, em parte, presente e passado.   

Sendo a literatura lugar tanto de afirmação quanto de contestação de práticas sociais, é possível ver o romance de Aldino Muianga como meio de desvelamento da complexidade da questão. Ao incorporar em sua prosa a tensão que ainda permeia as relações entre os gêneros na sociedade moçambicana contemporânea, Muianga apresenta ao leitor um exercício de reflexão inestimável.

Guarapuava, 10 de junho de 2019.

Ana Beatriz Matte Braun
Pesquisadora de literatura moçambicana e Docente na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Citar como:

O ARTIGO:
BRAUN, Ana Beatriz Matte .“Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga”. Prefácio. In: MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/mulheres-violencia-e-reconciliacao-em-aldino-muianga-sobre-o-romance-asas-quebradas/>

O LIVRO:
MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/produto/asas-quebradas-aldino-muianga-mocambique/>

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ANA BEATRIZ BRAUN

ANA BEATRIZ BRAUN

Licenciada em Letras (Português e Inglês), Mestre e Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Em 2016, defendeu sua tese sobre o ficcionista moçambicano João Paulo Borges Coelho. Residiu em Maputo, Moçambique, entre os anos de 2006 e 2010. Lá, cursou doutoramento em Linguística na Universidade Eduardo Mondlane e  foi coordenadora dos cursos de Português para estrangeiros do Centro Cultural Brasil-Moçambique. Atualmente é docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Guarapuava. É autora do prefácio do romance Asas quebradas, do moçambicano Aldino Muianga (Kapulana, 2019).

OBRAS DA KAPULANA

BRAUN, Ana Beatriz Matte. “Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga“. Prefácio in: MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

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Aldino Muianga, escritor moçambicano, lança no Brasil o romance “Asas quebradas”

O consagrado escritor moçambicano, Aldino Muianga, lança em agosto na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará, seu romance Asas Quebradas, publicado pela Editora Kapulana.

ALDINO MUIANGA, autor de vasta obra literária, tem forte vínculo com o Brasil, tendo já participado de várias atividades culturais no país em 2016, ocasião em que divulgou seus dois livros anteriores. 

Asas quebradas é o terceiro livro de Aldino Muianga que a Editora Kapulana publica no Brasil, dentro de seu projeto de divulgação da literatura africana “Vozes da África”. O primeiro foi O domador de burros e outros contos (2015) e o segundo foi A noiva de Kebera, contos (2016).

Asas quebradas é um romance sobre os caminhos de duas mulheres, Maria Cecília (Macisse) e sua filha Marcela (Celinha), separadas no tempo e no espaço, em busca de suas identidades. A partir do percurso de resistência e luta dessas mulheres, que enfrentam abusos, carências, discriminação e opressão, e têm que tomar decisões dramáticas para sobreviverem, o autor nos apresenta a saga de várias gerações da família e discute questões bastante atuais sobre a situação da mulher na sociedade. De Inhambane, local de origem dos antepassados, até Maputo,  mais ao sul, dados de história, geografia e cultura do sul de Moçambique são revelados ao leitor com emoção e esmero literário.

Asas quebradas tem prefácio da Profa. Ana Beatriz Matte Braun, pesquisadora brasileira de literatura moçambicana e atualmente docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Guarapuava. A capa do livro é ilustrada pelo brasileiro Dan Arsky, que também ilustrou os livros anteriores de Aldino Muianga publicados pela Kapulana.

Sobre Aldino Muianga e sua vasta obra literária: https://www.kapulana.com.br/aldino-muianga/

Sobre os livros de Aldino Muianga publicados pela Kapulana:

Sobre a participação de Aldino Muianga na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará:
https://www.kapulana.com.br/eventos/kapulana-na-xiii-bienal-internacional-do-livro-do-ceara-16-25-08-2019/

20 de agosto de 2019.

★★★

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Oyinkan Braithwaite, nigeriana, autora de “Minha irmã, a serial killer”, participa de eventos culturais no Brasil

A jovem escritora nigeriana Oyinkan Braithwaite participou de eventos culturais em Salvador e São Paulo, Brasil, no período de 07 a 14 de agosto de 2019.

Autora do aclamado Minha irmã, a serial killer, thriller psicológico traduzido por Carolina Kuhn Facchin e publicado pela Editora Kapulana, a nigeriana Oyinkan Braithwaite veio ao Brasil para participar da Festa Literária do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, e da Pré-Balada Literária, em São Paulo. Além da participação nesses eventos,  concedeu entrevistas a jornalistas de diversas mídias.

Alguns dos eventos dos quais a escritora participou no Brasil:
 

Salvador (BA), 09/08 – sexta-feira, Festa Literária do Pelourinho (Flipelô), no Teatro SESC-SENAC Pelourinho (Largo do Pelourinho, 19 – Pelourinho), às 18h00 – Mesa: “Uma nova escrita africana”. Com: Oyinkan Braithwaite (escritora), Rodrigo Casarin (mediador) e Carolina Kuhn Facchin (intérprete). O evento foi organizado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

Após a mesa de conversa, que contou com bastante público, a autora participou de sessão de autógrafos da edição brasileira do livro Minha irmã, a serial killer.

Durante sua estada na Bahia, a escritora teve a oportunidade de conhecer pontos históricos e culturais de Salvador, conceder entrevistas e conviver com um público bastante interessado em literatura africana.

São Paulo (SP)12/08 – segunda-feira, Pré-Balada Literária, no Centro Cultural b_arco (R. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros), às 19h30. Com: Oyinkan Braithwaite (escritora), Geovani Martins (escritor convidado), Bruna Tamires (mediadora) e Carolina Kuhn Facchin (intérprete).

No Centro Cultural b_arco, em São Paulo, Oyinkan participou de bate-papo sobre o processo criativo de uma obra literária, como escolha dos temas, modos de registro e relacionamento com leitores. O debate contou com o apoio do escritor brasileiro Marcelino Freire e foi finalizado com o esclarecimento das perguntas do público e posterior sessão de autógrafos do livro pela escritora.

Ainda em São Paulo, a escritora visitou a sede da Kapulana onde gravou entrevistas, fez leitura de trechos de seu livro e participou de sessões de fotos e vídeos. 

Sobre o livro Minha irmã, a serial killer e sua autora Oyinkan Braithwaite.

“Ayoola está empoleirada no vaso sanitário, os joelhos dobrados e os braços ao redor deles. O sangue no vestido dela secou e não há risco de pingar no chão branco e, agora, brilhoso. Seus dreadlocks estão amontoados no topo da cabeça, para não encostarem no chão. Ela fica me olhando com grandes olhos castanhos, com medo que eu esteja brava, que eu logo vá levantar das minhas mãos e joelhos para dar uma bronca nela.
Não estou brava. Se estou qualquer coisa, é cansada. O suor da minha testa cai no chão e uso a esponja azul para secá-lo.”

Primeiro livro da escritora, foi lançado originalmente em Inglês, em 2018, com o título de My sister, the serial killer. O sucesso foi imediato: foi indicado como finalista no “The Booker Prize 2019”, importante prêmio literário internacional, e já foi traduzido para 26 idiomas! Várias produtoras também já reservaram o direito para o cinema.

Oyinkan nasceu na Nigéria, África, onde ainda reside, na cidade de Lagos. Em 2014, foi indicada entre as dez melhores artistas spoken word no concurso de poesia slam “Eko Poetry Slam”, em Lagos, Nigéria. Em 2016, foi finalista do “Commonwealth Short Story Prize”, que premia os melhores textos ainda não publicados do ano, e em 2019, finalista do “The Booker Prize”. 

[Notícia atualizada em 20 de agosto de 2019.]

 

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Ana Paula Tavares, escritora angolana, lançou no Brasil livro inédito de crônicas “Um rio preso nas mãos”

Ana Paula Tavares, premiada escritora e historiadora angolana, lançou no Brasil o livro inédito Um rio preso nas mãos, crônicas, publicado pela Editora Kapulana.

Um rio preso nas mãos, lançado em primeira mão no Brasil, é um conjunto de 38 crônicas publicadas anteriormente, de forma esparsa, no jornal online Rede Angola. A maestria da escritora revela-se delicadamente quando combina oralidade e escrita, passado e presente, poesia e prosa, abordando situações e temas sobre Angola que transcendem o regional, provocando reflexões sobre questões atuais e universais, como o papel e os direitos da mulher na sociedade, seja ela angolana, brasileira ou de outra região. 

Há séculos que não chove, não há música no telhado nem pingam gatos arrepiados de frio. Tudo está saturado de calor e seca.
Uma mulher antiga tem um rio preso nas mãos e guarda-o como a aranha do deserto a sua preciosa gota.

Ana Paula Tavares, poeta, cronista, historiadora e professora universitária, nasceu em Lubango, Angola. É autora de vasta obra literária em prosa e poesia e de textos científicos. A escritora tem vínculos fortes com o Brasil, com participação em pesquisa e eventos no país. 

Para lançar seu livro no Brasil, Ana Paula Tavares participou de eventos em 3 estados: Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro:

Natal (RN) de 29 a 31/07/2019: III Encontro da Afrolic (Associação Internacional de Estudos Culturais e Literários Africanos)
Ana Paula Tavares foi uma das escritoras homenageadas nesse importante encontro nacional de professores e pesquisadores. Participou de várias mesas de debates e sessão de autógrafos de seu novo livro: Um rio preso nas mãos, crônicas.

A Kapulana esteve também representada na edição da Afrolic-2019 por Mariana Fujisawa (ilustradora) e Jacqueline Kaczorowski (prefaciadora).

São Paulo (SP): 

02/08/2019: Biblioteca Mário de Andrade
A escritora participou de um bate-papo mediado pela pesquisadora Larissa Lisboa, sobre sua obra em geral e o novo livro em particular. Após a mesa, houve sessão de autógrafos.

05/08/2019: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Sob coordenação da Profa. Tania Macêdo, com apoio do CEA-USP.
A autora participou de uma roda de conversa que contou com a participação das professoras Rita Chaves (FFLCH-USP) e Leila Leite Hernandez (CEA-USP). Em um auditório lotado, a escritora falou para alunos, professores, pesquisadores e interessados em geral na sua obra, sobre o seu trabalho de escrita na literatura: 

O que sempre me ajudou, no trabalho de escrita, foi o respeito à palavra. Eu acho que a palavra, muitas vezes, nos sai das mãos, nos escapa. Não se sai vivo do poema. Cada poema é uma pequena transformação. Esse aprendizado é uma luta imensa. Então, há de se respeitar a palavra. Porque a palavra é côncava, convexa, ela alarga, encurta. E é preciso muito cuidado. É ter rigor e ciência da palavra que está a fazer.  

Rio de Janeiro e Niterói (RJ), de 06 a 09/08/2019:
A escritora participou de mesas de debates na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a coordenação dos Profs. Carmen L. T. Secco (UFRJ) e Júlio Machado (UFF).
Além disso, ministrou na UFRJ um minicurso sobre “Cinema, poesia e história”.

[Notícia atualizada em 20 de agosto de 2019.]

SAIBA MAIS:

Sobre o livro Um rio preso nas mãos, crônicas, de Ana Paula Tavares:

O livro: https://www.kapulana.com.br/produto/um-rio-preso-nas-maos-cronicas/

A autora: https://www.kapulana.com.br/ana-paula-tavares/

O Prefácio do livro, por Carmen Lucia Tindó Secco: https://www.kapulana.com.br/avisos-a-navegacao-por-carmen-tindo-secco/

Fotos e vídeos:

Afrolic 2019 (fotos): *créditos organização Afrolic
https://www.flickr.com/photos/afrolic2019/albums

Biblioteca Mário de Andrade (fotos):
https://www.kapulana.com.br/02-08-2019-lancamento-e-sessao-de-autografos-de-um-rio-preso-nas-maos-de-ana-paula-tavares-na-biblioteca-mario-de-andrade-em-sao-paulo-sp/nggallery/page/1

Biblioteca Mário de Andrade (vídeo):
 https://www.facebook.com/ekapulana/videos/398609767702137/

FFLCH-USP (fotos):
https://www.kapulana.com.br/a-literatura-angolana-hoje-roda-de-conversa-com-ana-paula-tavares-na-fflch-usp-em-sao-paulo-sp/

FFLCH-USP (vídeo):
https://www.facebook.com/ekapulana/videos/2310952762554032/

UFRJ e UFF (fotos):
https://www.kapulana.com.br/06-08-a-09-08-de-2019-ana-paula-tavares-na-ufrj-uff-rj/

Entrevista Kapulana (vídeo): https://www.youtube.com/watch?v=Z8lA8EGbs9o&feature=youtu.be

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Martinho da Vila em circuito de lançamentos de seu livro “2018 – Crônicas de um ano atípico”.

MARTINHO DA VILA, cantor, compositor e escritor lançou em Salvador o livro “2018 – Crônicas de um ano atípico”, publicado pela Kapulana

Em continuidade ao circuito de lançamentos de seu novo livro 2018 – Crônicas de um ano atípico, publicado pela Kapulana em 2019, o escritor e músico participou de roda de conversa e sessão de autógrafos, no Sesc-Senac do Pelourinho, em Salvador (BA), em 8 de agosto. A roda de conversa “Literatura que dá samba? Somos muitos Martinhos e Helenas” fez parte da programação da Flipelô ( Festa Literária Internacional do Pelourinho) e foi mediada por Helena Theodoro. O evento contou com o apoio da Fundação Casa de Jorge Amado.

Veja fotos do circuito de lançamentos em várias cidades brasileiras:

22/05/2019: Rio de Janeiro (RJ), na Livraria da Travessa (Leblon):
https://www.kapulana.com.br/22-05-2019-lancamento-de-2018-cronicas-de-um-ano-atipico-de-martinho-da-vila-na-livraria-da-travessa-do-rio-de-janeiro-rj/

12/06/2019: São Paulo (SP), no Sesc Av. Paulista:
https://www.kapulana.com.br/lancamento-martinho-sesc/

14/07/2019: Paraty (RJ), na Casa Paratodxs, na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty):
https://www.kapulana.com.br/14-07-2019-martinho-da-vila-lanca-2018-cronicas-de-um-ano-atipico-na-flip-em-paraty-rj/

 08/08/2019: Salvador (Ba), na Flipelô (Festa Literária do Pelourinho)
https://www.kapulana.com.br/08-08-09-08-2019-martinho-da-vila-na-flipelo-em-salvador-ba/

O livro 2018 – Crônicas de um ano atípico reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses do ano de 2018. Com humor e leveza, Martinho fala da comemoração dos seus 80 anos, da renovação dos votos de casamento com Cléo, da escola de samba Vila Isabel, da cidade do Rio de Janeiro, relembrando alguns de seus sucessos no samba e na literatura. Também aborda fatos marcantes, como o assassinato de Marielle Franco, as eleições presidenciais, a visita ao ex-presidente Lula em Curitiba e a derrota do Brasil na Copa do Mundo.

[Notícia atualizada em 20 de agosto de 2019.]

Sobre o livro: https://www.kapulana.com.br/produto/2018-cronicas-de-um-ano-atipico/

Sobre Martinho da Vila: https://www.kapulana.com.br/martinho-da-vila/

 

 

 

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Kapulana na Flip/Casa Paratodxs com lançamentos e participação de Martinho da Vila

A editora maca presença em Paraty, durante a Flip, com lançamentos de seu catálogo à venda e participação de Martinho da Vila

A Editora Kapulana participa novamente da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 10 a 14 de julho, na organização da Casa Paratodxs, com os recentes lançamentos de seu catálogo à venda e, também, a participação de Martinho da Vila na programação.

Este ano a Casa Paratodxs completa três anos em Paraty. Formada pelas editoras Nós, Edith, Demônio Negro, Relicário, Dublinense, Kapulana, Macondo e Cepe, a Paratodxs homenageará Chico Buarque e contará, entre outras, com as presenças de diversos nomes da literatura, música, mercado editorial e cinema. O cantor, compositor e escritor Martinho da Vila marca presença com um bate-papo e lançamento do livro 2018 – Crônicas de um ano atípico, publicado pela Kapulana, no domingo, 14 de julho, ao meio-dia. A mediação da mesa de conversa ficará a cargo do escritor Paulo Lins (autor de Cidade de Deus). 

Outra grande novidade será a venda, com exclusividade na Casa, da obra Nós, os do Makulusu, do premiado escritor angolano José Luandino Vieira. Considerado um dos maiores clássicos da literatura do século XX, a obra narra a história do personagem Mais-Velho, que se junta a outras três personagens que cresceram juntas no Makulusu, bairro pobre de Luanda: Maninho, Paizinho e Kibiaka. O enredo, ambientado em um momento agudo da luta de libertação nacional de Angola, demonstra como a violência do colonialismo obriga os companheiros de aventuras infantis a escolherem caminhos inconciliáveis, alguns se envolvendo na luta armada e sendo presos, outros omitindo-se ou atendo-se apenas ao trabalho clandestino.

A Casa Paratodxs estará aberta entre os dias 11 e 14 de julho. Venha nos visitar! 

3 de julho de 2019

★★★

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O Campo de Concentração do Tarrafal, onde Luandino Vieira escreveu “Nós, os do Makulusu”

O autor passou 8 anos preso, onde escreveu muitos de seus livros, dentre eles o “Nós, os do Makusulu”

Grande parte de  Nós, os do Makulusu foi escrito por José Luandino Vieira, em 1967, quando estava preso no Campo de Concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde (Campo de Trabalho de Chão Bom), e que a Editora Kapulana publica neste mês.

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

Inaugurado em 1936, quando Portugal vivia no regime ditatorial do Estado Novo, sob o comando do ditador Oliveira Salazar, que pretendia, por meio da repressão, aprisionar todos que se opunham ao seu governo. Por isso, a criação do Campo de Concentração do Tarrafal, localizado na ilha de Santiago, região norte caboverdiana, Cabo Verde era colônia portuguesa e o terreno havia sido adquirido pelo Estado português, separado da jurisdição do Governo do arquipélago. Na primeira fase do campo de concentração, que foi de 1936 até 1954, passaram 360 prisioneiros, 32 morreram nesse período. 

Em junho de 1961, o Tarrafal foi reaberto, seis anos depois de seu encerramento, instituindo-se no Chão Bom, região noroeste de Cabo Verde, um Campo de Trabalho, mas, na realidade, era um novo campo de concentração de presos políticos das ex-colônias portuguesas. Com o advento da Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974, o regime ditatorial de Salazar foi deposto e o Campo de Trabalho de Chão Bom terminou no dia 1º de maio do mesmo ano. Todos os presos foram libertados. Nessa segunda fase, 4 pessoas morreram. Em 2009, o local foi aberto como Museu da Resistência.

ANOS DE CÁRCERE

Por sua participação nas lutas de libertação nacional de Angola, José Luandino Vieira foi preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) em 1961 e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Foi, então, transferido, em 1964, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde escreveu a obra Nós, os do Makulusu. Lá passou 8 anos, e foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, na grande maioria escrita nas diversas prisões por onde passou. Depois da independência de Angola, em 1975, Luandino voltou ao país, morando até 1992, quando se mudou para Portugal, onde vive atualmente.

Considerado um dos maiores clássicos da literatura do século XX, a obra narra a história do personagem Mais-Velho, que se junta a outras três personagens que cresceram juntas no Makulusu, bairro pobre de Luanda: Maninho, Paizinho e Kibiaka. O enredo, ambientado em um momento agudo da luta de libertação nacional de Angola, demonstra como a violência do colonialismo obriga os companheiros de aventuras infantis a escolherem caminhos inconciliáveis, alguns se envolvendo na luta armada e sendo presos, outros omitindo-se ou atendo-se apenas ao trabalho clandestino.

2 de julho de 2019

★★★

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Kapulana publica livro de crônicas da escritora angolana Ana Paula Tavares

As crônicas de Ana Paula Tavares são marcadas por uma escrita profundamente poética e incisiva

Chega às livrarias do Brasil, o livro de crônicas inéditas da premiada escritora angolana Ana Paula Tavares: Um rio preso nas mãos. Publicadas originalmente de forma esparsa no jornal Rede Angola, as 38 crônicas que compõem o livro viajam por diferentes assuntos e narrativas, deslizando entre a autobiografia e o ficcional, a oralidade e a escrita, o passado e o presente, além de abordar temas sobre Angola em uma magistral linguagem poética e incisiva: “Uma mulher antiga tem um rio preso nas mãos e guarda-o como a aranha do deserto a sua preciosa gota”. O escritor angolano Ondjaki destacou sobre esta obra de Ana Paula Tavares: “Chegam, ao Brasil, as palavras embrulhadas em pedra antiga, como um lugar feito canoa: a cultura de Angola a navegar o universo africano para pousar nessa américa tão latina”.

Ana Paula Tavares é poeta, cronista, historiadora e professora, nasceu em Lubango, Angola. Autora de textos científicos e poesia dispersa em antologias da Galícia, Itália, França e em Portugal, e de vasta obra literária em prosa e poesia. Tavares tem vínculos fortes com o Brasil, com pesquisa e participações em eventos no país. Também diz ter sido influenciada por escritores brasileiros e pela música brasileira.

1 de julho de 2019

★★★

 

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Leia três curiosidades sobre “Água doce”, de Akwaeke Emezi

Festejada obra de estreia de Akwaeke Emezi chega em agosto no Brasil

A Editora Kapulana publica em agosto no Brasil o aclamado livro Água doce, do autor nigeriano Akwaeke Emezi. A obra conta a história de Ada, estudante do último ano de faculdade nos EUA. Quando criança, vivendo no sul da Nigéria, a família se preocupa com ela. Seguindo a tradição, os pais rezaram para consolidar a existência da criança ainda no ventre, mas algo deu errado: talvez os deuses tenham esquecido de fechar a porta, pois Ada nasceu com “um pé do outro lado”, e começa a desenvolver diferentes personalidades. Akwaeke brilhantemente cria uma obra que traz à tona reflexões universais e questões bastante atuais como o fortalecimento de identidades e o empoderamento pela diversidade, além do diálogo entre o tradicional e o inovador.

O livro foi pré-finalista do “Carnegie Medal of Excellence” e do “The Brooklyn Public Library Literary Prize”, além de receber resenhas elogiosas de jornais internacionais como New York Times, Wall Street JournalNew YorkerGuardian e LA Times.

Separamos três curiosidade sobre a obra: 

Akwaeke Emezi: É autor nigeriano de Água doce. Akwaeke é ọgbanje e fez algumas cirurgias para adequar seu corpo – seu receptáculo – para que reflita sua natureza, incluindo a retirada do útero e redução dos seios. Por sua realidade espiritual, identifica-se como não-binário/trans e em inglês usa pronomes neutros; no Português, pede que seja referido no masculino – lido como neutro.

ọgbanje: Traduzido diretamente do Igbo, ọgbanje significa “criança que vem e vai”. São espíritos intrusos que nascem dentro de corpos humanos e não permitem que se desenvolvam até muito além da puberdade, quando, então, morrem propositalmente e retornam em outro corpo, para reiniciar o ciclo de infortúnio. Costumam afetar a mesma mãe, que, assim, perde diversos filhos durante a vida. No livro, os ọgbanje são narradores de grande parte da história e são personagens fundamentais. 

Ala: Ala é uma deusa do povo Igbo, natural do leste da Nigéria. Ela é a deusa da fertilidade, guardiã do mundo inferior e mãe da terra. Segundo a crença Igbo, as pessoas nascem na boca de Ala e, ao morrer, vão para seu ventre, que guarda o domínio dos mortos. Seu agente na terra é a cobra píton, mensageira de seus desejos e advertências. Na obra de Akwaeke Emezi, A Ada, personagem principal e ọgbanje, é filha de Ala. Ela conhece a Mãe ainda criança, uma píton enrolada no chão do banheiro, que a assusta. A jornada de A Ada para autoconhecimento e autoaceitação é a jornada de volta para a Mãe Ala.

26 de junho de 2019

★★★

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Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco, por Jacqueline Kaczorowski

 

Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sangüínea?
(“Contemplação no banco”, Carlos Drummond de Andrade)

Após anos de ausência das livrarias brasileiras, somos finalmente agraciados com uma nova publicação desta obra-prima: Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira. O magro e denso romance angolano impacta desde a primeira frase e, como pode gerar certo estranhamento, nesta edição [1] são apresentados brevemente alguns elementos da narrativa com o objetivo de incentivar o leitor a caminhar por este labirinto refinado. Aquele que o percorrer perceberá seu esforço recompensado por uma obra que, não se rendendo a qualquer didatismo, aposta numa composição cuja elaboração ao mesmo tempo requer e oferece ferramentas para a sofisticação do olhar.

Nestes tempos em que presenciamos atônitos o ressurgimento de uma tendência global à intolerância e aos totalitarismos, dados a maniqueísmos de toda sorte, urge combater o afluxo e recorrer a exercícios de humanização. As redes sociais têm sido um bom exemplo de arena onde algoritmos ensinam a reduzir o outro: ali, via de regra, somos induzidos por certo sentido de urgência a não lhe reservar o direito ao erro, ao diálogo, ou mesmo ao processo de aprendizado, percurso que cada um trilha a seu tempo e que exige paciência. Sob aparente fugacidade, fixamos um momento do outro como dado acabado, interditando, assim, possibilidades de transformação. 

Diante de tal cenário, parece senso comum recorrer à sugestão do mergulho na literatura como remédio. A sensibilidade que aciona, o tempo que exige para contemplação, absorção e amadurecimento da apreciação, a identificação com o diferente que demanda e proporciona, a transformação de personagens diante de nossos olhos são algumas das faculdades que caminham na contramão do simplismo que facilmente se transveste em algoz. Recuperando a voz de Antonio Candido, o texto literário “não corrompe nem edifica (…); mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

Importa salientar, entretanto, que, apesar de todo o potencial de humanização que a literatura efetivamente comporta, nem sempre é esta a vocação que privilegia. Um exemplo pode ser encontrado na pena de outro grande escritor, o nigeriano Chinua Achebe, quando ensina que o “vasto arsenal de imagens depreciativas da África que foram coletadas para defender o tráfico de escravos e, mais tarde, a colonização, deu ao mundo uma tradição literária que agora, felizmente, está extinta; mas deu também uma maneira particular de olhar (ou melhor, de não olhar) a África e os africanos que, infelizmente, perdura até os dias de hoje”.

Vale recordar que, no final do século XIX, após a famigerada Conferência de Berlim, o acirramento das disputas territoriais exigia maior firmeza na ocupação das colônias, levando as metrópoles à criação de uma série de órgãos e mecanismos de controle dos territórios e de suas populações. O contexto angolano não foi exceção. Colonizado por Portugal, cujo império precário não teve a brandura que ainda defendem alguns, foi alvo de uma violência que também se expressou na constituição de um vasto repertório discursivo a serviço da dominação. Os “Concursos de Literatura Colonial” promovidos a partir de 1926 pela Agência Geral das Colônias, com alto investimento financeiro e o objetivo de “intensificar por todos os meios a propaganda das nossas colónias e da obra colonial portuguesa”, ilustram bem como a escrita literária passou a exercer função importante nesse quadro.

Ainda que tenha se prestado ao papel de instrumento a serviço da sujeição, a literatura também pôde ser tomada pelo avesso em seu potencial criativo e transformada em “arma que eu conquistei ao outro”, como define Manuel Rui, outro escritor angolano. Desde o século XIX é possível identificar, em Angola, manifestações literárias que desafiam o padrão proposto pelo opressor. No século XX já se verifica o desenvolvimento de um projeto literário autônomo, resultado do empenho de uma geração de escritores e intelectuais entre os quais podemos situar José Luandino Vieira.

Nascido em Portugal em 1935, muda-se cedo para Luanda, onde vive sua infância. É por seu compromisso radical com a luta pela libertação nacional que se torna cidadão angolano e adota o nome “Luandino”. Em decorrência de sua atuação é preso duas vezes e tem sua vida “hipotecada por muitos anos”, desde muito jovem. Conforme conta em seus Papéis da prisão, “do Aljube, em Lisboa, ao Campo de Trabalho no Tarrafal, passando por todas as cadeias disponíveis na nossa terra de Luanda, palmilhei doze anos da estrada da minha vida”. É nesta condição de exceção, portanto, que o autor desenvolve seu primoroso trabalho literário.

Suas memórias do cárcere, ao contrário do que seria esperado, sugerem um pacto com a liberdade capaz de extrapolar o espaço da cela e inscrever as ruas de Luanda e sua cultura popular em textos que, por meio da memória e da imaginação, ajudavam a substituir a vida, para tomar de empréstimo uma expressão do escritor. Confinado em espaços que impossibilitavam outras intervenções diretas, Luandino Vieira atuou dentro de seu “particular campo de acção – o estético”. Os resultados excepcionais demonstram a eficácia da apropriação da língua portuguesa como “despojo de guerra” e o empenho em construir uma voz narrativa que, desestabilizando a lógica da opressão, engendra novos modos de dizer a realidade.

Um dos frutos deste projeto literário é a escrita, em 1967, “de um só jacto”, deste romance singular, composto no Campo de Concentração do Tarrafal, onde Luandino Vieira passou oito anos. Imerso na severidade do “campo da morte lenta”, surpreende a trilha potente e lúcida que desenha para mostrar que “não há outros homens para com eles construir o mundo. É com esses mesmos que se fará – ou nunca se fará”. A capacidade de aderir radicalmente a um projeto ético e também se colocar habilmente na pele do outro, mesmo do mais antagônico, revela como a literatura pode, sim, vestir o manto diáfano da fantasia para combater a violência objetiva do real sem prescindir da “cortesia de dar a cada um o que lhe é devido”, lembrando novamente Achebe.

O início da leitura pode provocar um choque: que língua é essa que, ao mesmo tempo, sinto que conheço e desconheço? O que ela está me contando? Quem fala e de quem fala? Na primeira sentença somos lançados no meio de uma guerra, mas, logo em seguida, adentramos uma brincadeira em um dia de sol. O que aconteceu?

O leitor que aprender a ouvir o movimento do texto notará que um dos recursos utilizados pelo escritor é a justaposição de ideias, cenas e imagens que podem parecer desconexas. Ao longo da obra, no entanto, muitas delas são retomadas, desvelando aos poucos algumas associações complexas e sempre aprofundando sentidos. Com paciência é possível construir familiaridade com os procedimentos e perceber que alguns se assemelham àqueles do funcionamento da memória, que muitas vezes irrompe de maneiras imprevistas, nem sempre lineares.

Seguindo o movimento da memória de Mais-Velho, acionada pela dor, passamos a reconhecer sua voz e outras tantas que incorpora à sua, num emaranhado cada vez mais complexo, mas também mais nítido. Lembranças, projeções e muitas indagações são misturadas ao momento real que este narrador-personagem vivencia: sua caminhada em direção ao irremediável reconhecimento da morte de Maninho e do “viver de morte” que agarrou Paizinho. Nesta deambulação conhecemos os outros três protagonistas: Maninho, Paizinho e Kibiaka. A realidade asfixiante do colonialismo obriga os companheiros inseparáveis de aventuras infantis pelos capins do Makulusu a carregarem “o alegre caixão da nossa infância” na escolha de rumos inconciliáveis: Maninho, branco nascido na metrópole (assim como seu irmão Mais-Velho) integra o exército colonial português, escolha forçosa que defende com a ideia de que “só há uma maneira de a acabar, esta guerra que não queres e eu não quero: é fazer-lhe depressa, com depressa, até no fim, gastá-la toda, matar-lhe”. Paizinho, meio-irmão mestiço dos dois, participa de ações clandestinas e acaba preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Kibiaka, amigo negro morador do Bairro Operário, junta-se à guerrilha. Mais-Velho é aquele que segue imerso em dúvidas; o “escrupuloso” que, segundo o olhar de Maninho, não teve certeza suficiente para tomar uma decisão radical como as de seus companheiros e “limitou-se” ao trabalho clandestino. São “quatro ritmos e saberes e vidas diferentes” atravessados pela violência, inexorável.

No trajeto descobrimos pela voz de Mais-Velho que Maninho, “o melhor de todos nós”, era integrado à terra e aos seus, “ele é quem (…) bebia e comia, falava e ria sempre lá entre os que eu amava vagamundeando nas ruas solitárias e velhas da nossa terra de Luanda. E a ele a carabina escolhera. Simples buraco, fino e furo, toda a vida por ele saiu…”, “para ficar da cor da farda que lhe embrulha, tapado nas moscas, antes que a salva do estilo vai-lhe acordar no sonho de amor que, no ódio do próprio ódio, queria construir”. Descobrimos também que, se Kibiaka “segue na mata seu caminho de dignidade”, também pode ter saído de suas mãos, “que são as culpadas de ter homens com ideias e dignidade”, o balázio que roubou a vida de Maninho. E que Mais-Velho, em um gesto de solidariedade à luta, no Natal colocara “no sapatinho o único brinquedo que merece um homem digno como o meu amigo Kibiaka: Parabellum, de 9 milímetros”.

Paizinho, cuja cabeça “era uma peça de alta precisão, um instrumento afinadíssimo que ele cuidava diariamente com pensamento e acção”, que “nunca trai, porque é sério em tudo que em sua vida faz”, de “sangrenta presença” nos presságios do meio-irmão, é apresentado ao Mais-Velho de seis anos de idade ao mesmo tempo que a dor da mãe “Estrudes”: “cara desfeita e enrugada, alguma coisa lhe dói no dentro da alma é o que pode ser, pois não tira os olhos do miúdo encardido, seguro na mão da mulher negra, está quieto como se fosse de pau”. Dela conhecemos ainda a funda dor da perda do filho, as “mãos grossas de unhas curtas e negras do trabalho, aquelas pernas de varizes que não se equilibravam nos sapatos de salto alto”, de “apanhar azeitona dentro de Invernos frios e descalços da tua infância”, a “coragem de sempre perder” – quando pai Paulo afirma que Paizinho é seu afilhado com o “tranquilo riso de quem que sabe verdade ou mentira ele é que fala verdade sempre”.

Pai Paulo, colono pobre e racista, é exemplar tão verossímil da colonização lusa quanto o operário Brito, com sua consciência de classe que permite linchar publicamente um trabalhador negro. O lamento materno desta morte evoca o peso da violência colonial sobre toda uma coletividade: “este o grito só que oiço ou é coro de milhões de gritos iguais?”. A narrativa dialeticamente evidencia as contradições de um sistema extremamente embrutecedor e não interdita a complexidade a nenhuma das personagens, recuperando traços que marcam também a constituição subjetiva de todo um grupo.

O vigor da premissa, que é possível vislumbrar mesmo com a apresentação de poucos elementos, somado à extraordinária habilidade com que o escritor humaniza todas as personagens sem jamais elidir as relações de força entre elas, entregam ao leitor um texto pelo qual é impossível passar incólume. “Amar os homens é sempre uma alegria dolorosa”, afinal.

São Paulo, abril de 2019.

Jacqueline Kaczorowski
Pesquisadora-bolsista (CAPES – FFLCH/USP), membro do grupo de pesquisa PIELAFRICA – Pactos e impactos do espaço nas literaturas africanas de língua portuguesa (Angola e Moçambique), vinculado à UFRJ.

Citar como:

O ARTIGO:
KACZOROWSKI, Jacqueline .“Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco”. Prefácio. In: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/nos-os-do-makulusu-do-fundo-humano-em-cada-caco-por-jacqueline-kaczorowski/>

O LIVRO:
VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]. Disponível em: https://www.kapulana.com.br/produto/nos-os-do-makulusu/<>

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Kapulana publica no Brasil livro inédito do escritor moçambicano Adelino Timóteo

Adelino narra a história de um homem rico com ideias excêntricas, entre as quais a crença de que cada homem é, na verdade, um pássaro, e tomaria essa forma após a morte

A Editora Kapulana publica no Brasil o romance inédito do escritor moçambicano Adelino Timóteo, Cemitério dos pássaros. Na obra, Adelino narra a história de Dazanana de Araújo Simplíssimo, um homem rico com ideias excêntricas, entre as quais a crença de que cada homem é, na verdade, um pássaro, e tomaria essa forma após a morte. Seguindo essa convicção, Dazanana constrói um cemitério para seus familiares, no qual cada um é nomeado como um pássaro. A partir disso, a história se desenrola com tons de literatura fantástica. O romance faz parte da série “Vozes da África”, composta por obras de ficção em prosa e poesia, dedicadas a crianças e a adultos.

Adelino Timóteo nasceu na Beira, em Moçambique. Formou-se na área de docência em Língua Portuguesa, mas não exerceu a profissão. Ingressou no Jornalismo em 1994, na cidade da Beira, no Diário de Moçambique, e, mais tarde, tornou-se correspondente do semanário Savana, da mesma cidade. É licenciado em Direito e exerce a função de jornalista no semanário Canal de Moçambique, também da cidade da Beira. Além disso, é artista plástico e já realizou várias exposições individuais de artes, em Moçambique e no estrangeiro. Recebeu diversos prêmios, como o de “Melhor Escritor da Cidade da Beira”.

18 de junho de 2019

★★★

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TOM FARIAS

É jornalista, escritor, biógrafo e crítico literário, com especialização em literatura do final do século 19. É autor, brasileiro, de diversos livros e artigos, inicialmente publicados com seu próprio nome – Uelinton Farias Alves. Mais tarde, adotou o nome literário TOM FARIAS.

Dedica-se à pesquisa sobre personalidades negras brasileiras, organizando biografias, proferindo palestras, dando entrevistas, de modo a atribuir ou recuperar a relevância histórica e literária dessas personagens, como Cruz e Sousa, José do Patrocínio e Carolina de Jesus.

Colabora também com vários jornais, escrevendo resenhas e crítica literária sobre escritores africanos e afrodescendentes, e com revistas literárias onde contribui com ensaios. É autor do posfácio “Martinho, um artesão”, no livro de Martinho da Vila, 2018, Crônicas de um ano atípico, lançado em 2019.

Tom Farias tem papel de destaque em ações que fortalecem o intercâmbio sociocultural entre os países de língua portuguesa. Como reconhecimento de sua atuação cultural, social e literária, recebeu vários prêmios e condecorações.

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • 1987 – O abolicionista Cruz e Sousa.
  • 1990 – Reencontro com Cruz e Sousa.
  • 1996 – Cruz e Sousa, poemas inéditos.
  • 2001 – Os crimes do Rio Vermelho.
  • 2008 – Cruz e Sousa: O Dante Negro do Brasil.
  • 2008 – Oscar Rosas: poesia /conto/crônica.
  • 2009 – José do Patrocínio, a imorredoura cor de bronze.
  • 2018 – Carolina, uma biografia.

PRÊMIOS E CONDECORAÇÕES

  • 1991 – Prêmio Silvio Romero de Crítica e História Literária, da Academia Brasileira de Letras. (pela obra Reencontro com Cruz e Sousa, 1990.)
  • 1998 – Medalha de Honra ao Mérito, pelo Governo de Santa Catarina.
  • 2009 – Finalista da 51ª ed. do Prêmio Jabuti, categoria “Melhor Biografia”, com o livro Cruz e Sousa, o Dante Negro do Brasil.
  • 2018 – Prêmio Carolina Maria de Jesus, conferido pela FLUP (Festa Literária das Periferias – RJ).
  • 2019 – Finalista da 61ª ed. do Prêmio Jabuti, categoria  “Biografia, Documentário e Reportagem”, com o livro Carolina: uma biografia.
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Publicado pela Kapulana, Martinho da Vila lança em São Paulo o livro “2018 – Crônicas de um ano atípico”

A obra reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses de 2018

O cantor, compositor e escritor Martinho da Vila realizou, na última quarta-feira (12), no Sesc Avenida Paulista, o lançamento de seu mais recente livro 2018 – Crônicas de um ano atípico, publicado pela Editora Kapulana. O evento, que também contou com um bate-papo com Martinho, teve a mediação do escritor e jornalista Tom Farias.

Durante a conversa, Martinho comentou sobre a elaboração do livro: “Escrever é trabalhar com a emoção. No primeiro momento, eu pensei em escrever uma crônica sobre os meus 80 anos de idade e o que aconteceu comigo nesses anos todos. Além de pegar esses momentos pessoais, também decidi escrever sobre os fatos que me cercaram. Vi que o ano de 2018 foi realmente atípico. Aí tive a ideia de colocar o título 2018 – Crônicas de um ano típico.

O livro reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses do ano de 2018. Com humor e leveza, Martinho fala da comemoração dos seus 80 anos, da renovação dos votos de casamento com Cléo, da escola de samba Vila Isabel, da cidade do Rio de Janeiro, relembrando alguns de seus sucessos no samba e na literatura. Também aborda fatos marcantes, como o assassinato de Marielle Franco, as eleições presidenciais, a visita ao ex-presidente Lula em Curitiba e a derrota do Brasil na Copa do Mundo.

Martinho da Vila é um grande e legítimo representante da MPB, com várias composições gravadas por cantores e cantoras de diversas vertentes musicais, intérpretes consagrados no Brasil. Além disso, também é autor de quinze livros, tanto de ficção quanto de não ficção, lançados no Brasil e em Portugal, e alguns deles traduzidos para o francês. Continua em plena atividade como artista e como escritor, fazendo turnês nacionais e internacionais.

Assista trechos do bate-papo e lançamento:

 

13 de junho de 2019

★★★

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João Paulo Borges Coelho visita Kapulana, editora oficial do autor no Brasil

O premiado escritor moçambicano participou de um bate-papo audiovisual com a Profª Drª Rita Chaves na sede da Kapulana, editora que lançará dois livros do autor no Brasil

A Kapulana recebeu, no dia 6 de junho, em sua sede, a visita do premiado escritor e historiador moçambicano, João Paulo Borges Coelho, que publicará, pela primeira vez no Brasil, duas obras de sua carreira, As visitas do Dr. Valdez (setembro de 2019) e Crônica da Rua 513.2 (em 2020), pela Editora Kapulana. O autor também participou de uma entrevista audiovisual, conduzida pela Profa. Dra. Rita Chaves (USP) sobre os dois livros e a sua trajetória literária.

Na conversa com Rita Chaves, Borges Coelho comentou sobre o seu processo de escrita, o começo na ficção, o desenvolvimento e o trabalho narrativo das duas obras que a Kapulana lançará, como distingue as atividades de historiador e de escritor, assim com influências literárias que marcaram a sua escrita e os estudos universitários realizados em sua obra. O bate-papo será publicado em breve no canal da Kapulana no YouTube.

Apesar de a obra do consagrado escritor já ser objeto de muitos estudos acadêmicos no Brasil, será a primeira vez a ser publicada em nosso país.

OBRAS DA KAPULANA

13 de junho da 2019.

★★★

Saiba mais:

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NATALIA BORGES POLESSO

NATALIA BORGES POLESSO

Doutora em Teoria da Literatura, é escritora bastante premiada, e  também tradutora.

Tem seu trabalho traduzido para o Inglês e o Espanhol e está publicada em diversos países. 

 

OBRAS DA KAPULANA

POLESSO, Natalia Borges. “Sobre Água doce, de Akwaeke Emezi“. Texto da orelha. In: EMEZI, Akwaeke. Água doce. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • 2013 – Recortes para álbum de fotografia sem gente.
  • 2015 – Amora.
  • 2015 – Coração a corda.
  • 2018 – Pé atrás

PRÊMIOS E DESTAQUES

  • 2013 – Prêmio Açorianos, pelo livro Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013).
  • 2016 – Prêmio Açorianos, pelo livro Amora (2015).
  • 2016 – Prêmio Jabuti, pelo livro Amora (2015).
  • 2017 – Escritora selecionada para a coletânea Bogotá39, que reúne 39 escritores da América Latina com menos de 40 anos mais destacados do momento.

 

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JACQUELINE KACZOROWSKI

JACQUELINE KACZOROWSKI

É Doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), sob orientação da Prof. Dra. Rita Chaves. É bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Durante o mestrado, concluído em 2017, desenvolveu pesquisa sobre a obra Nós, os do Makulusu, do escritor angolano José Luandino Vieira.

Foi docente do curso de Graduação em Letras da Universidade de Aswan (Egito), responsável pelas disciplinas Literaturas de Língua Portuguesa, Teoria Literária e Produção de Gêneros Textuais Acadêmicos durante o período letivo de 2017/2018.

É membro do grupo de pesquisa PIELAFRICA (Pactos e impactos do espaço nas literaturas africanas de língua portuguesa (Angola e Moçambique), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Trabalha sobretudo com Literaturas Africanas, buscando investigar as intricadas relações entre produção artística e contexto histórico-social.

OBRAS DA KAPULANA

KACZOROWSKI, Jacqueline. “Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco”. Apresentação in: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

OUTRAS PUBLICAÇÕES

“Militância anticolonial e representação literária: Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira e Un fusil dans la main, un poème dans la poche, de Emmanuel Dongala”. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCHUSP, 2017. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8156/tde-06032018-130319/pt-br.php

Possui artigos publicados em periódicos especializados e capítulos de livros.

PARTICIPAÇÕES

Participou de diversos eventos acadêmicos, além de ter colaborado com a organização de alguns eventos na área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

 

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Avisos à navegação, por Carmen Tindó Secco

Os saberes de uma época são formados por teias de representações sociais e culturais, incluindo os discursos literários. São essas malhas de conhecimentos e memórias que a escrita de Ana Paula Tavares revisita e tece com lucidez e poesia. Suas crônicas são curtas, densas e profundamente políticas.  A escritora – também exímia poeta – maneja as palavras com labor e arte, construindo sentidos que transformam seu discurso em viagem por dentro do tempo e da linguagem. Viagem que se converte em autoconhecimento, em regresso à própria casa, à terra natal, ao âmago de si e do poético. Ler Ana Paula é penetrar nos labirintos da história, repensando perdas, dores, tradições. É mergulhar no íntimo dos vocábulos que brilham com olhos de sabedoria e prazer.

As crônicas de Um rio preso nas mãos, de Ana Paula Tavares, questionam aspectos do presente angolano, ao mesmo tempo que reinventam tradições silenciadas de povos de Angola. Em sua escrita, sangram palavras, medos, silêncios, o livro do tempo em seus deveres e haveres. Desse modo, as pontas de vários contextos históricos vão-se enlaçando. Na crônica “As Mães”, por exemplo, a voz enunciadora, em diálogo intertextual com o poema do angolano Viriato da Cruz usado como epígrafe, lembra os sofrimentos das mães de ontem e de hoje em Angola.

A autora escava camadas de letras para encontrar uma “nova carta”, reveladora de outras lembranças e estórias. Fantasmas assombram a escrita, fazendo aflorarem do passado tradições esquecidas. Há a recordação de um tempo sem fronteiras, que excitava intercâmbios entre os povos, bem como a interpenetração de línguas e linguagens. Tudo isso, porém, ficou no outrora, na argila e na água com que se moldavam o barro e a vida. Hoje, “ao lado da fronteira alinhou-se a palavra ameaça (…). Cercaram o paraíso de muros altos e arame”.

Na crônica “O Livro do Deve e do Haver”, é elaborada, de modo crítico, uma contabilidade da história do colonialismo português, das dívidas cobradas à terra angolana. Aqui, é lançado um olhar questionador e defendida a urgente construção de uma solidariedade orgânica, capaz de romper com a contabilidade dos lucros que só beneficiava os algozes de uma terra que desejava hastear sua independência. Das contas, dos diários, a voz enunciadora passa aos poemas que prepararam e alimentaram a luta revolucionária. Bons tempos esses que não deveriam ser esquecidos! Contudo, mudanças ocorreram e a utopia da liberdade foi maculada por políticas e economias neocoloniais.

É melancólico esse balanço crítico, após tantos anos de guerras e sangue derramado! Esgarçam-se não apenas as economias e as sociedades africanas, mas, principalmente, as identidades. A contrapelo dessa história de estagnação, implosão e declínio econômico-cultural, as crônicas de Um rio preso nas mãos, muitas das quais originalmente publicadas, em 2014 e 2015, no Rede Angola[1], focalizam, em sua maioria, diversas tradições angolanas esquecidas, como, por exemplo, a das mulheres que vestiam panos, cumpriam rituais, cozinhavam com óleo de palma, bordavam colares de miçangas e modelavam o barro vermelho, ao mesmo tempo que recordavam os lemas revolucionários, quando eram ainda jovens e esperançosas da edificação de uma Angola livre e solidária. O diálogo com a liberdade, com a terra, com a comunhão entre os homens é rememorado, manifestando saudade dessa época.

Na crônica “Desafiar o Silêncio”, a cronista aborda a função social das mulheres no mundo atual e cobra das independências dos países africanos a urgência de “remover moléstias antigas, abrir escolas”. Defende que são as mulheres – tanto as dos espaços rurais, como as das cidades atuais – as conhecedoras da diversidade de seus papéis na família, no trabalho, no cotidiano das relações de vizinhança e na sociedade.

Ana Paula repensa o desempenho das mulheres em algumas tradições angolanas; acaba por refletir, também, metapoeticamente, sobre a função da palavra e da arte. Num corpóreo silêncio, sua escrita urde, crítica e poeticamente, sua trama com consciência e mel; estilhaça medos; “fala” pelo outro que toca a vida, muitas vezes, sem ter a real percepção dela. Medos, os mais variados, se repetem no mundo contemporâneo, em obras de poetas e romancistas. Por isso, é mister, cada vez mais, trabalhar a palavra, envolvê-la em tecidos finos, misturá-la a sons rústicos e estrepitosos, a vozes profundas que mergulhem no mistério das almas, como se estivessem sobre aveludados divãs de psicanalistas, magos ou visionários.

Na crônica “Humidade”, a voz poética enunciadora é a grande tecelã: a aranha do deserto a tecer a teia da vida, do tempo e da linguagem. Esse fluir, entretanto, se  encontra preso como o rio nas mãos gretadas e em sangue da mulher antiga. Mãos que, todavia, também guardam a gota preciosa do cacimbo, orvalho de esperança: água da palavra, poesia.

Em “O Medo”, a voz narradora, ao final, adverte: “Não tenho soluções, só pedidos: ajudem a parar esta dor de cacimbo, deixem passar as vozes para podermos ver claro no meio das sombras e partilhar agasalho neste cacimbo de frio”. Medo, cacimbo, sombras – recorrentes marcas metafóricas de uma escrita que persegue a luz para não se perder na névoa social e política que embaça a liberdade. Nas entrelinhas, fica uma probabilidade de que ainda seja tempo de escrever sonhos e cultivar desejos.

As crônicas de Ana Paula Tavares desenham paisagens e pessoas. “A Cor das Vozes” faz homenagem a Ivone Ralha, senhora das mãos de seda, da escrita das pedras, da areia, do amor. Há narrativas, como “A Voz da Avó” ou “As Formigas”,  que recriam provérbios nyanecas. Há outras que demonstram que a ideia de liberdade não se afigura de forma igual para todos. Há, ainda, as que relembram o fogo sagrado, a panela grande, a madeira que arde, o cheiro de flor, a máscara de Mwana Puó, a voz firme da avó a contar estórias encantadas. Tudo isso está presente na arqueologia da vida das crônicas de Ana Paula, cuja escrita vai acendendo, no avesso das palavras, pequenos lumes que funcionam como “avisos à navegação”, como alertas contra a violência e a ganância que destroem os sonhos.

[1] Rede Angola: Portal online de jornalismo independente, cujos objetivos eram a informação, o entretenimento, a divulgação não só da cultura e do pensamento angolano, mas também de acontecimentos sociais, políticos, econômicos, culturais do mundo. Idealizado em 2012 por Sérgio Guerra, Lara Longle, Saymon Nascimento, o Rede Angola foi gerido por esse trio, mas teve curta existência, sendo fechado no final de maio de 2017. Diversos artistas, músicos, poetas, escritores – Aline Frazão, José Eduardo Agualusa, Ana Paula Tavares, Ivone Ralha etc. – participaram desse portal, publicando, na seção “Cultura”, crônicas, ilustrações, etc. Disponível em: <http://www.redeangola.info/palavras-deserto/> Acesso em: 05 mar 2019.

Rio de Janeiro, 05 de março de 2019.

Carmen Lucia Tindó Secco
Profa. Titular de Literaturas Africanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)
e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro)

Citar como:

O ARTIGO:
SECCO, Carmen L. T. “Avisos à navegação”. Prefácio. In: TAVARES, Ana Paula. Um rio preso nas mãos – Crônicas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/avisos-a-navegacao-por-carmen-tindo-secco/>

O LIVRO:
TAVARES, Ana Paula. Um rio preso nas mãos – Crônicas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

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Canal FX anuncia a adaptação para série do livro “Água doce”, de Akwaeke Emezi

Obra de estreia de Akwaeke Emezi será publicada no Brasil pela Editora Kapulana

O canal por assinatura FX anunciou, por meio da revista americana Variety, que está desenvolvendo a adaptação para série da obra Água doce, livro de estreia de Akwaeke Emezi, da Nigéria, e que a Editora Kapulana publica no Brasil em agosto. A obra, lançada originalmente com o nome Freshwater, foi traduzida para o português por Carolina Kuhn Facchin. Emezi também escreverá e produzirá o seriado ao lado da diretora e roteirista Tamara P. Carter. O projeto contará com a supervisão de Kevin Wandell e Lindsey Donahue. A rede televisiva FX é responsável por trazer ao público premiadas e elogiadas séries, como Atlanta, Legion, American Horror Story, Fargo, entre outras. 

A obra conta a história de Ada, estudante do último ano de faculdade nos EUA. Quando criança, vivendo no sul da Nigéria, a família se preocupa com ela. Seguindo a tradição, os pais rezaram para consolidar a existência da criança ainda no ventre, mas algo deu errado: talvez os deuses tenham esquecido de fechar a porta, pois Ada nasceu com “um pé do outro lado”, e começa a desenvolver diferentes personalidades. Akwaeke brilhantemente cria uma obra que traz à tona reflexões universais e questões bastante atuais como o fortalecimento de identidades e o empoderamento pela diversidade, além do diálogo entre o tradicional e o inovador.

O livro foi pré-finalista do “Carnegie Medal of Excellence” e do “The Brooklyn Public Library Literary Prize”, além de receber resenhas elogiosas de jornais internacionais como New York Times, Wall Street JournalNew YorkerGuardian e LA Times.

27 de maio de 2019

★★★

Saiba mais sobre o livro: https://www.kapulana.com.br/produto/agua-doce/

Saiba mais sobre Akwaeke Emezi: https://www.kapulana.com.br/akwaeke-emezi-agua-doce/

Saiba mais sobre a tradutora: https://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-facchin-tradutora/

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttps://www.kapulana.com.br/catalogo/

 

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“O pátio das sombras”, escrito por Mia Couto e com ilustrações de Malangatana, vence Prêmio FNLIJ 2019

Obra infantojuvenil escrita por Mia Couto e com Ilustrações de Malangatana vence Prêmio FNLIJ 2019 

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) premiou, na categoria Literatura em Língua Portuguesa, o livro infantojuvenil O pátio das sombras, de Mia Couto e com ilustrações de Malangatana. A obra é o último volume da série “Contos de Moçambique”, que, desde 2016, é publicada no país pela Editora Kapulana. A premiação é bastante relevante para o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa.

No enredo de O pátio das sombras, um menino vive com a família em uma aldeia. Um dia, a avó se nega a ir até a plantação, pois diz estar cansada. Durante o trabalho, a família escuta ruídos de festa vindos da aldeia, e todos se perguntam se a avó tinha visitantes. O menino vai checar, mas encontra a avó sozinha. O acontecimento se repete, deixando o menino cada vez mais confuso, até que a avó lhe dá explicações ensinando-lhe uma linda lição sobre a vida e a morte. As páginas são compostas pelas deslumbrantes ilustrações de Malangatana (1936-2011). Utilizando da técnica de pintura nanquim, o artista moçambicano criou desenhos que dialogam com o texto de forma fluída e fascinante. 

A FNLIJ atribuiu, também na mesma categoria,  a outros três livros publicados em 2018 pela Editora Kapulana no Brasil a indicação de Altamente Recomendável. As obras recomendadas e que concorreram ao prêmio de 2019 foram originalmente publicadas em Moçambique pela Escola Portuguesa de Moçambique. Nas edições brasileiras, foi feita a adaptação para a versão da Língua Portuguesa em vigor no Brasil, conforme o Acordo Ortográfico atual.

Conheça as obras com o selo “Altamente Recomendável” e leia alguns trechos:

SÉRIE CONTOS DE MOÇAMBIQUE – A série “Contos de Moçambique” nasceu de um projeto de colaboração entre a “Escola Portuguesa de Moçambique” e a “Fundació Contes pel Món”, de Barcelona, Espanha. Em 2015, a Editora Kapulana fez uma parceria com a “Escola Portuguesa de Moçambique” para publicar no Brasil essa magnífica coleção, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro uma amostra da cultura moçambicana. A série é composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique. 

27 de maio de 2019

★★★

Para conhecer mais sobre os outros volumes da série “Contos de Moçambique” e os demais livros infantis da Kapulanahttps://www.kapulana.com.br/infantis/

Para conhecer a FNLIJhttps://www.fnlij.org.br/

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Maria Celestina Fernandes vence prêmio Globos de Ouro Angola com a obra “Kambas para sempre”

Maria Celestina Fernandes vence importante prêmio literário em Angola

A escritora angolana Maria Celestina Fernandes recebeu, na noite do último domingo (26), prêmio dos Globos de Ouro Angola 2019 na categoria Obra literária do ano por uma Autora pelo livro Kambas para sempre. A Editora Kapulana publicou o título no Brasil, com as ilustrações da artista brasileira Mariana Fujisawa. Em seu discurso de premiação, Celestina Fernandes agradeceu à família e votantes: 

“Este Globo é dedicado, primeiro às pessoas que votaram em mim e que me depositaram confiança. Depois, à minha família, em particular aos meus filhos, que são os meus grandes inspiradores”.

Em Kambas para sempre, Celestina Fernandes narra a história de Lueji, uma menina brasileira e afrodescendente, com nome de rainha. Ela gosta de ouvir as histórias da avó, que narra os episódios contados por seus bisavós, que foram trazidos ao Brasil em navios negreiros. Nesta história, Lueji passa por diversos momentos de preconceito, porém, ao final, descobre o valor da amizade e a importância de celebrar as diferenças. 

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, província da Huíla. Ainda muito jovem foi para Luanda, onde cresceu e fez toda a sua formação. É Assistente Social e licenciada em Direito. Dentre as várias funções que exerceu, destaca-se o serviço prestado no Banco Nacional de Angola, onde chefiou o departamento social e posteriormente passou para a área jurídica, aposentando-se na categoria de subdiretora. Iniciou a carreira literária no início da década de oitenta. É autora de uma vasta obra, com destaque para a literatura infantojuvenil. Tem obras premiadas e algumas traduzidas para outros idiomas.

Os Globos de Ouro Angola são a mais importante premiação do país e que prestigia o trabalho de profissionais e artistas de diversas áreas, destacando anualmente as pessoas que mais se destacaram na sua arte e ofício. O prêmio é atribuído em iniciativa e organização conjunta da STEP e da Platina Line, além de contar com a “Academia Globos de Ouro Angola”, cujos integrantes são personalidades e profissionais convidados, especializados e reconhecidos nos ramos. As categorias de premiações são diversas e consagram artistas que se destacaram nas áreas do Teatro, Televisão, Rádio, Moda e Música, assim como na Literatura, com prêmios para a Obra Literária do Ano e o Autor do Ano

A Kapulana publicou no Brasil as seguintes obras de Maria Celestina Fernandes:

27 de maio de 2019

★★★

Saiba mais sobre a autorahttps://www.kapulana.com.br/maria-celestina-fernandes/

Saiba mais sobre o Globo de Ouro Angola: https://www.globosdeouroangola.com/

Assista a premiação: https://www.youtube.com/watch?v=q-ru31ffNug

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttps://www.kapulana.com.br/catalogo/

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Morre o escritor queniano Binyavanga Wainaina, aos 48 anos.

Binyavanga Wainaina, autor de livro Um dia vou escrever sobre este lugar, faleceu em 21 de maio de 2019.

É com enorme tristeza que a Editora Kapulana noticia o falecimento, aos 48 anos, do escritor e ativista queniano Binyavanga Wainaina, na última terça-feira (21). A Kapulana publicou, em novembro de 2018, no Brasil, a obra Um dia vou escrever sobre este lugar, em que ele entrelaça suas memórias de infância, adolescência e vida adulta à história contemporânea do continente africano.

Leitor de livros e lugares, palavras e pessoas, Binyavanga estrutura seu mundo através da linguagem. Sempre na margem e olhando para dentro, teve dificuldade para se encaixar nos padrões estipulados da sociedade. Estudou Administração na África do Sul, mas desistiu do curso, lendo vorazmente e fazendo trabalhos temporários até perceber que sua vocação era, de fato, a escrita. Seu texto “Discovering home”, sobre uma viagem com a família para Uganda, ganhou o “Caine Prize for African Writing”, em 2002, importante prêmio que reconhece o talento e a promessa de autores africanos de língua inglesa. One day I will write about this place, seu livro de memórias, foi publicado em 2011, cimentando a carreira do queniano como escritor.

22 de maio de 2019

Conheça a vida e a obra do autor:

https://www.kapulana.com.br/binyavanga-wainaina/

https://www.kapulana.com.br/produto/um-dia-vou-escrever-sobre-este-lugar-binyavanga-wainaina/

 

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Nós, os do Makulusu – a palavra e o outro, por Rita Chaves

De 1967, ano em que José Luandino Vieira escreveu essa extraordinária narrativa até o presente, muitos abalos têm sacudido Angola: o país conquistou sua independência em 1975, os conflitos armados se sucederam, em 2002 um acordo de paz foi assinado, a república tem agora o seu terceiro presidente, o projeto socialista foi abandonado, novos escritores fortaleceram o processo de formação da ficção angolana, outras formas de arte ganharam energia… A natureza e a intensidade de tantas mudanças nos levam certamente a levantar questões sobre a validade de uma nova edição no Brasil desta obra escrita no calor de uma hora tão particular na história do país e não só. Podemos começar por recordar, nesse sentido, que na década de 1960 o mundo à nossa volta vivia sob a luz de muitas utopias e olhava, com algum entusiasmo, as lutas de libertação que prometiam mais que a vitória sobre o colonialismo português e sua insistência em se prolongar na África. Mesmo no Brasil, imprensado sob mais um período ditatorial, havia réstias de esperança na resistência e na possibilidade de superar a truculência dos coturnos. Certamente pela primeira vez, do continente africano sempre visto como um espaço à parte no contexto mundial, alguns territórios emergem como focos de luz em um planeta que parecia sacudido por ideais de justiça e igualdade social.

Após quase meio século e as mudanças que ficaram a meio caminho do sonho, somos levados a pensar no significado de uma obra que nos fala da luta anticolonial e, sob o selo de uma inequívoca escolha ideológica, traz-nos as marcas de um pertencimento a um lado da cidade dividida tão bem descrita por Frantz Fanon em seus agudos tratados sobre o colonialismo. Como explicar a capacidade que a obra revela de se manter atual em um momento tão diverso daquele em que nasceu? Para nos aproximarmos da complexidade desses tempos (daquele passado e do nosso presente), e para examinarmos as relações da literatura com a experiência histórica que a linguagem de Luandino trabalha com maestria, é que podemos percorrer com um atormentado narrador as ruas e becos de uma cidade que é bem mais que uma paisagem, que é simultaneamente um espaço e um tempo, uma espécie de quadro vivo que, nas sensações que evoca, nos traz a dor e a perplexidade de uma geração.

Quando se fala de Angola e de seu caminho em direção ao fim do colonialismo, o conceito de geração se alarga. Não se trata de um grupo definido pela faixa etária, mas pelo compromisso com um projeto, o da libertação nacional. Desde o fim dos anos de 1940, o sonho de um país livre juntou angolanos de várias idades, raças e classes, empenhados na conquista da libertação política e social, entre os quais podemos identificar aqueles que, percebendo a escrita como uma arena, procuraram fazer da literatura mais um instrumento para a transformação. Aí encontramos José Luandino Vieira, um escritor cidadão movido desde cedo pelo compromisso de associar ao sentido ético de sua luta a dimensão estética de seus textos. Seu pacto, sempre e a um só tempo, com a ordem que desejava e com a beleza em seu sentido maior, manifesta-se nesse exercício de dupla lealdade a que ele devota seu trabalho e seu talento.

O primeiro título, A cidade e a infância, já apontava o caminho de dois temas caríssimos que serão visitados a partir de várias perspectivas, todas elas guardando a marca da complexidade que ele soube ver nas situações que aborda. Nesse conjunto de contos, uma funda familiaridade dos narradores com os espaços em que se armam os enredos, aponta para a sua capacidade de circular por áreas da cidade que permaneciam à margem e mantinham uma certa impermeabilidade à lógica imposta, a despeito das incursões nada amigáveis da violência policial, único braço do estado a se manifestar com frequência na cidade do colonizado. Poucos anos depois, em A vida verdadeira de Domingos Xavier e, principalmente, Luuanda, o processo de escrita de Luandino seria redimensionado na opção pela ruptura operada no domínio da linguagem. Será, todavia, nesse fabuloso Nós, os do Makulusu, escrito na aridez do Tarrafal (o terrível campo de concentração localizado em Cabo Verde, onde estavam presos nacionalistas que tinham ousado desafiar a opressão colonial), que as tintas da radicalidade darão nota ao projeto literário que, acompanhando as voltas e reviravoltas de Angola e do mundo, continua em curso. A condição do autor, detido e condenado a tantas formas de sujeição, torna ainda mais surpreendente o resultado de uma obra que renuncia à tentação do maniqueísmo e traz para o debate a humanização do inimigo. Não se trata de reduzir a tensão ou relativizar a dimensão do mal, mas de buscar uma reflexão mais densa sobre os embates que a História plantou naquele solo.

A morte, de que o tiro que dá início à narrativa é uma pungente metonímia, enraíza o problema da diferença de posições e dimensiona o drama, mas não dilui a necessidade de se ter em conta o lugar do angolano – esse outro invisível na sociedade colonial e na literatura produzida na metrópole, em cujas páginas ele não passaria de um elemento do cenário, como podemos observar em tantos títulos. Essa oclusão facilmente explicável no repertório mais afinado com as ideias do império, torna-se inquietante nos textos produzidos com o compromisso da denúncia social e coloca em debate a ausência do problema colonial e, consequentemente, dos africanos nas obras do Neorrealismo. Tal invisibilidade foi captada por Luandino que, contudo, não lança explicações superficiais, renunciando com firmeza o jogo da contraposição banal. Ao contrário, ao mergulhar nas águas fundas de um universo convulsionado deixa ver a contradição como traço dominante. Atento aos movimentos da História, ele põe em cena a dureza da experiência dos impasses da vida cortada pela guerra e pelos caminhos trilhados pelos quatro personagens que partilharam a infância nesse pedaço da cidade que o Makulusu inscreve.

Assim, os dilemas e a vivência algo surpreendente de personagens muito variados, coexistindo em mundos segmentados, não são apenas o tema, definindo-se como marcos da estrutura que nos coloca de frente para a profundidade da crise dinamicamente espelhada pela narrativa. O autor recusa-se a uma simples inversão de pontos de vista, conduzindo-nos, de modo muito produtivo, ao desafio de olhar a situação sob o signo da mobilidade, expondo, sem perder a medida do lado que é o seu, as hipóteses da diversidade que o maniqueísmo prefere banir. Nesse movimento, recorre à sobreposição temporal e potencializa a coexistência de tradições, línguas e códigos culturais para trazer à luz a fratura que define as relações sob a dominação colonial. O desejo de ruptura que o afasta deliberadamente da norma lusitana articula-se aos gestos de aproximação com o universo marginalizado pelo poder e o resultado é a construção de uma linguagem centrada no corte, nas elipses, no ritmo de uma sintaxe que evidencia o desconcerto do mundo à volta.

Na consciência do Mais-Velho, estilhaçada pela inviabilidade de um projeto de transformação imerso em tanto sangue, está interditada a sagração de uma mitomania nacionalista, como poderíamos esperar de um livro escrito no espaço do cárcere e na certeza de uma adesão. Aqui encontramos uma das grandes qualidades desse texto: a faculdade de perceber, para além das sombras do ressentimento, os mecanismos que acionam a incomunicabilidade e impedem qualquer hipótese de porosidade entre os seres e mundos marcados por alguma diferença. Converter a diferença em desigualdade era a tônica do sistema colonial, e pode nos parecer lógico que a resposta do combate atualize a proposta de apagar ou desumanizar o diferente. Em Nós, os do Makulusu, porém, a diversidade preenche a narrativa e nos ensina a exercitar outros olhares diante de uma realidade cortada pela perda e pelo irrevogável da morte inerentes à guerra. 

O confronto entre a década de 1960 e os nossos dias, sem dúvida, faz desfilar diante de nossos olhos um roteiro de mudanças. Se em Angola, também pela força de atores como Luandino, se pode notar a desnaturalização das barreiras raciais, que era um dos móveis da luta de libertação, sabemos que lá, como em todo o planeta, em nome de tantos deuses, sucedem-se as crises em que a recusa do Outro pode ser causa ou consequência. Os conflitos de natureza étnica em tantos países, o massacre dos refugiados na Europa, as agressões de base religiosa pelo mundo afora, os constantes ataques aos pobres no Brasil são manifestações dessa intolerância que, atentando contra a humanidade dos agredidos, exprimem a desumanidade do agressor. Diante desse panorama, somos tentados a repetir com Carlos Drummond de Andrade: “O mundo não vale o mundo, meu bem.” Como uma gota contra o desalento que daí nos vem, entretanto, vale a pena ler (e reler) Nós, os do Makulusu, e vislumbrar no jogo desgovernado de uma obra fabulosa algum sentido para a literatura. E para a vida. E, desse modo, poderemos compreender também a validade da reedição de um livro como esse.

Trouville / São Paulo, abril de 2019.

Rita Chaves
Professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa do
Depto. de Letras Clássicas e Vernáculas (FFLCH-USP), e pesquisadora do
CELP-FFLCH-USP (Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa – FFLCH-USP)

Citar como:

O ARTIGO:
CHAVES, Rita “Nós, os do Makulusu – a palavra e o outro”. In: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/nos-os-do-makulusu-a-palavra-e-o-outro-por-rita-chaves/>

O LIVRO:
VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Publicado em

Na asa da escrita, por José dos Remédios

Um romancista não terá, forçosamente, que depender do êxito ou fracasso dos seus livros,
terá que continuar, sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir.
Eduardo Paixão

“Dazanana de Araújo Simplíssimo vivia uma estranha sensação de que estava morto. Durante muitos anos cultivava em demasia a crença de que a sua vida era a morte” (p. 9). Assim inicia a história de um personagem muito particular, obstinado e comprometido com as dimensões gigantescas do seu sonho: Dazanana, do rhonga, língua falada na capital moçambicana, idiota ou palerma. Pode ser que estes dois significados encaixem no perfil do protagonista de Cemitério dos pássaros, mas apenas se se considerar à sua entrega a um propósito claramente definido: o de construir um cemitério no qual os finados da sua família reencarnariam como pássaros, alcançando, por isso, outras dimensões da existência.

Colocando a narrativa neste prisma, Adelino Timóteo, logo no princípio da diegese, questiona sobre os limites da vida na mesma proporção que minimiza a morte, afinal, a acreditarmos como Dazanana defende, nunca deixamos de viver, quando morremos. O que ocorre é um trânsito para lugares quase inimagináveis, os quais, uma vez alcançados, conferem à alma uma espécie invulgar de transcendência. Então, diante do seu maior projecto de vida, o protagonista de Cemitério dos pássaros move-se num labirinto estranho, decidido a levantar o véu dum cenário jamais desmistificado: o além. No fundo, há nessa entrega uma continuidade, a de fazer do realismo mágico uma forma de escrita. Continuidade porque esta não é a primeira vez que Timóteo atribui à existência a capacidade de vencer a morte, revelando, nessa condição, as imprecisões características. 

Dazanana é o instrumento usado pelo escritor para representar a obsessão humana em prolongar a sobrevivência, não no além, que é incerto, mas neste mesmo mundo. Logo, o personagem funciona como cicerone de uma trajectória que termina em metamorfose. Não podendo permanecer eternamente no plano real, numa condição de partida, cheia de vigor juvenil, o herói timoteano, com uma fé religiosa, põe-se a sustentar a pretensão de transformar o seu cemitério num ninho, lugar predestinado para reinventar os conceitos de gestação. Na verdade, é mesmo de evolução que estamos a falar, como se a natureza fosse exageradamente generosa para permitir a humanidade permanecer num mundo que a destrói, de múltiplas maneiras.

Por via de Dazanana, o romance de Adelino Timóteo sustenta-se na susceptibilidade de mergulhar fundo nos aspectos folclóricos, se quisermos, tradicionais de uma cultura oral ainda bem enraizada no quotidiano dos moçambicanos, e, acreditamos, dos brasileiros também. Este livro inédito ora publicado pela editora Kapulana, fruto de uma imaginação absolutamente incrível, é um lugar de propagação de crenças, sem restringir-se a isso, mesclando uma ficção delicada com uma visão holística sobre o meio e as culturas. Quiçá, essa deve ser a razão de Cemitério dos pássaros ser um livro riquíssimo do ponto de vista temático. À semelhança dos títulos anteriores, por exemplo, Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz (romance) e Na aldeia dos crocodilos (infanto-juvenil considerado “Altamente recomendável” no Brasil, e, por isso, finalista do Prémio FNLIJ) este novo livro do poeta e romancista moçambicano, natural da Beira, cidade rebelde agora afamada devido aos danos do ciclone Idai, vai buscar ao Vale do Zambeze a fertilidade indispensável para uma boa narrativa, como quem reinventa as particularidades daquele espaço mitológico cheio de muitos encontros inaugurais entre povos de diversas culturas. Com o Zambeze resgata-se o passado (e a origem da miscigenação na Zambézia, província do Centro de Moçambique), eventualmente porque, como escreve Ungulani Ba Ka Khosa no seu Gungunhana, “esta terra [Moçambique] está sendo construída sem o passado. Tudo o que é passado é coisa morta”. Ou desvalorizada. Sendo que “morta” e “desvalorizada”, neste contexto, acabam sendo a mesma coisa.

A propósito, uma vez Adelino Timóteo prometeu-nos publicar três ou mais romances sobre o Zambeze. Pode ser que a promessa esteja já a ser cumprida, e, daí, um Moçambique diferente do actual esteja a ser apresentado ao mundo, na asa da escrita, onde cabe o imaginário, os hábitos e costumes no livro bem valorizados. Portanto, Cemitério dos pássaros é um romance filantrópico em que “Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício” (p. 56). Dazanana, tal como o seu criador, sempre escolhem a liberdade, mesmo quando o conforto está na covardia, mesmo quando a decisão de marchar em frente custa mais que suor. A liberdade de concretizar e assumir o risco disso está tão vincada em Dazanana que Maria de Lourdes Pintassilgo, a esposa, passa a ter um companheiro no lugar de um marido. Porque perseguindo o seu ideal, aquele protagonista reinventa-nos como leitores às vezes estáticos na ousadia de alcançarmos outros voos. Bem visto, esse tipo de relações amorosas que Maria de Lourdes deseja que sejam calorosas, cor-de-rosa, não têm proeminência em Adelino Timóteo. Os casais timoteanos, quase sempre desleixados às singularidades do afecto, deixam-se prender por outras obrigações. Em Cemitério dos pássaros acontece o mesmo, por exemplo, com Dona Ana, a lembrar-nos esse registo “ninfomaníaco” recorrente na narrativa do autor. Na verdade, Dona Ana é a continuidade do carácter que o romancista estampa numa outra personagem: Luíza Michaela, em Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz.

Quanto mais Adelino Timóteo vai escrevendo, traz propostas para a libertação das pessoas das amarras sociais, questionando preconceitos, tabus, e, em derradeira instância, os cânones civilizacionais, por exemplo, esses que oprimem a mulher em cada oportunidade cedida ao homem. Se Dazanana é um exemplo de coragem na luta pelo que acredita, Dona Ana pode ser entendida como esse pássaro decidido a aprender a voar na intimidade das suas sensações, desejos e fantasias. Com o sexo no centro de tudo.

À parte tudo isto, mais uma vez, a Kapulana publica – como nos lembra Eduardo Paixão no seu Tchova, tchova – um autor que não terá que depender do êxito ou fracasso dos seus romances, terá que continuar, e continua sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir. Da Beira, onde vive, Adelino Timóteo projecta-se sempre com a sua obra, predisposto a reinventar a história, inovando-a, e, por consequência, a tornar os seus leitores melhores pastores da vida.

José dos Remédios
Jornalista
Maputo, 11 de Maio de 2019.

Citar como:

O ARTIGO:
REMÉDIOS, José. “Na asa da escrita”. In: TIMÓTEO, Adelino. Cemitério dos pássaros. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/na-asa-da-escrita-cemiterio-dos-passaros-por-jose-dos-remedios/>

O LIVRO:
TIMÓTEO, Adelino. Cemitério dos pássaros. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

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Martinho, um artesão, por Tom Farias

Martinho da Vila é realmente um sujeito fora do comum. No curso dos seus implacáveis 80 anos, o bamba de Vila Isabel trabalhou como nunca em sua festejada existência. Além de dois CDs e do DVD – este a caminho, gravado no imponente e lotado Theatro Municipal do Rio de Janeiro – que colocou na rua, falo do histórico “Alô Vila Isabeeeel!!!”, que reúne os clássicos sambas da escola do bairro de Noel Rosa, e, mais para o finalzinho do ano, o bem bolado “Bandeira da fé”, uma experiência contagiante, inovadora na vida do músico e compositor, como foi o trabalho que o antecedeu, no caso o antológico “De bem com a vida”, que marcou uma mudança de atitude, única do ponto de vista do conceito, mas sem desafinar a trajetória cinquentenária de uma carreira repleta de sucessos e muitos merecidos prêmios, nacionais e internacionais.

Foi nessa pegada de grandes eventos e fortes emoções, com destaque para as homenagens, em especial da sua terra natal, a cidade de Duas Barras, onde Martinho foi tema de selo comemorativo e titular de um ano inteiro de festejos, as atividades das escolas públicas do estado do Rio de Janeiro em torno da sua história, as paparicadas da Vila Isabel, onde saiu em destaque no carnaval, desfilando no alto do carro no Sambódromo, exatamente no dia das suas oitenta primaveras, e da Unidos do Peruche, tradicional agremiação de São Paulo, que o levou como enredo para a avenida dos desfiles, volto a dizer, foi nessa pegada, que Martinho laborou, com sua indiscutível disciplina de trabalho, a escritura de um livro novo, que exigiu dele, além de tudo, tarefa quase diária de muita escrita e seguidas leituras.

Das mãos desse metódico trabalhador incansável das madrugadas silenciosas – Martinho não dorme, ele repousa -, é que nasceu a joia rara de sua artesania, na arte de artesanar, de ser artesão, que é este 2018 – Crônicas de um ano atípico.

Faz dois anos que lançou o excelente Conversas cariocas, uma antologia de textos trabalhados para atender a uma coluna de jornal popular, como é o jornal O Dia, na sua edição dominical. Já 2018 – Crônicas de um ano atípico marca um processo diferente do artista, que é, diga-se de passagem, romancista de mão cheia. São dele Memórias Póstumas de Tereza de Jesus, Lusófonos, Vermelho 17, Barras, vilas & amores, entre outros mais, como o Vamos brincar de política? ou A serra do rola-moça, num total de 15. Neste novo trabalho, Martinho se supera na tacada e no acerto, ao narrar, toda semana, assuntos os mais variados e relevantes, dando a cada um deles, obviamente, seu toque pessoal, seu ponto de vista crítico, sua opinião ida e vivida. É assim que fala das festas de fim de ano, dos festejos em sua homenagem, da expectativa da Copa do Mundo, da questão política, da prisão do Lula, a quem, com Chico Buarque, foi visitar em Curitiba e saiu impressionado com o alto astral do ex-presidente, da sua atual paixão, a Barra da Tijuca, do amor à numerosa família, das viagens, da dura vida de artista no Brasil, da paixão pelo futebol, sobretudo pelo Vasco, dos amigos e das amizades, das pescarias onde ninguém volta com o pescado, do seu “off Rio”, de Vila Isabel e do samba, com muitas histórias e a transcrição de letras memoráveis, muitas que dão gosto de lembrar e reviver. Uma dessas histórias saborosas, sobre música e gente, trata do nascimento do samba O pequeno burguês, ainda nos tempos do Exército, quando era sargenteano, como ele mesmo diz. A canção (“Felicidade, passei no vestibular/Mas a faculdade é particular”, quem não se lembra?) é referência do seu cancioneiro até hoje, desde que foi lançada, há 50 anos.

São divertidas e instrutivas as histórias contadas por Martinho da Vila. De janeiro a dezembro, vamos tomando ciência dos acontecimentos, nem sempre noticiados na grande mídia, e dos que nos passariam despercebidos, não fosse a percuciente ideia do grande bamba, através da sua escrita semanal, no passo e compasso do seu ritmo como escritor e intelectual, nos trazer à tona, nos revelar, interagir. O resultado saiu-se o melhor possível: com muita harmonia, com muito talento, esmerando e lapidando, eis a carpintaria da palavra perfeita, do verso sincopado, do partido-alto da rima, nessa engenharia artesã, que labora e explora o infinito da criação artista, sem se tornar enfadonho, e, igualmente, sem a tal da pressa, pois com ele, as coisas vão sempre no ritmo do devagar, devagarinho.

O clima é de encantamento, de viva alegria, de requintada realeza – Martinho é um diplomata da magia, é amigo de todos, é um camarada aguerrido, e é, acima de tudo, um criador. No silencioso sossego do seu lar, no convívio da rainha Cléo Ferreira, dos filhos Alegria e do Preto, elucubra consigo mesmo, confabula e urde pensamentos e questões, como exercício existencial diário para respirar e para ser.

Falando de esperança e pensando na paz, como verdadeiro embaixador que de fato é, Martinho da Vila pode ser considerado a mais viva história de superação e fé no futuro. Aquele menininho, preto e pobre, filho do Josué e da Dona Tereza, nascido no recanto de uma fazenda do interior e criado no Morro dos Pretos Forros, na Boca do Mato, faz parte hoje da rica cultura popular, como um bem, uma preciosidade. Ler os seus textos, tomar nas mãos o seu livro, como o fazemos agora, é uma forma de continuar o reverenciando e merecendo, e o prestigiando e admirando, acima de tudo.

Tom Farias – jornalista e escritor
11 de fevereiro de 2019.

Citar como:

O ARTIGO:
FARIAS, Tom. “Martinho, um artesão”. In: VILA, Martinho da. 2018, Crônicas de um ano atípico. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/martinho-um-artesao-por-tom-farias>

O LIVRO:
VILA, Martinho da. 2018, Crônicas de um ano atípico. São Paulo: Kapulana, 2019.

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CineGrafias Moçambicanas – Memórias & Crônicas & Ensaios: Apresentação, por Carmen T. Secco, Ana Mafalda Leite e Luís Carlos Patraquim

Este livro resultou de trabalho conjunto, apoiado por tríplice parceria: entre Carmen Tindó Secco, Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Ana Mafalda Leite, Professora da Universidade de Lisboa; e Luís Carlos Patraquim, um dos fundadores do cinema moçambicano, cuja participação foi fundamental pelo amplo (re)conhecimento da(na) área.

É decorrência, também, de trocas e diálogos entre os projetos “Literatura, Cinema e Afeto: figurações e tramas da história em escritas literárias e fílmicas de Moçambique e Guiné-Bissau” (coordenado por Carmen Lucia Tindó Secco, apoiado pelo CNPq e FAPERJ) e “NEVIS – Narrativas Escritas e Visuais da Nação Pós-Colonial” e “NILUS – Narrativas do Oceano Índico no Espaço Lusófono” (coordenados por Ana Mafalda Leite, com apoio da FCT), cujas ações têm possibilitado produtivo intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal e Moçambique.

A ideia da publicação de entrevistas com realizadores de Moçambique surgiu em razão de ser ainda escassa a bibliografia a respeito do cinema moçambicano e, também, por não haver mais, atualmente, em Moçambique, uma política cultural de valorização de festivais cinematográficos, como ocorria, há alguns anos, com o Dockanema que, durante várias edições, promoveu a divulgação de filmes, debates e oficinas.

Como o cinema, no período logo após a independência, foi fundamental à construção da nação moçambicana, e, ainda hoje, continua a ser um dos meios importantes de preservar a memória do país e pensar Moçambique e o mundo, consideramos ser um significativo contributo a recolha de opiniões não só de antigos e reconhecidos realizadores moçambicanos, como também de representantes das jovens gerações. Decidimos, então, reunir, no livro, entrevistas, ensaios, crônicas[1] de realizadores e de estudiosos da área, com o intuito de registrar não só a trajetória passada do cinema moçambicano, mas também reflexões acerca das condições e do papel deste no presente.

Cada vez mais, entrevistas são utilizadas, metodologicamente, como rico instrumento de pesquisa, capaz de propiciar entrelaces interdisciplinares e interartísticos. Em literatura e história, é comum entrevistar poetas, escritores. Também no âmbito cinematográfico, entrevistas a cineastas e realizadores são usadas como fontes que permitem a criação de “arquivos vivos” que captam visões pessoais e memórias subjetivas dos entrevistados acerca de seus filmes, de seus posicionamentos ideológicos sobre contextos históricos, políticos e sociais vivenciados. A relevância das entrevistas reside em possibilitar a exteriorização de pontos de vista diferentes, assim como questionamentos e interpretações críticas a respeito de momentos controversos da história.

A entrevista, nas suas diferentes aplicações, é uma técnica de interação social, de interpretação informativa (…); pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação. Em todos estes ou outros usos das Ciências Humanas, constitui sempre um meio, cujo fim é o inter-relacionamento humano.[2]

Quatro das entrevistas que compõem este livro – as de Licínio Azevedo, Sol de Carvalho, João Ribeiro e Yara Costa – foram respondidas, livremente, por escrito, a partir de perguntas formuladas pelos organizadores. A de Ruy Guerra foi realizada pessoalmente por Olivier Hadouchi e Vavy Pacheco Borges, em Paris, em 2012; já as de Isabel Noronha e Camilo de Sousa foram gravadas, durante uma conversa informal, por Ana Mafalda Leite, em Lisboa, em 2017.

A escolha dos realizadores entrevistados deveu-se, por uma lado, à representatividade de cada um e, por outro, ao fato de terem aceitado nosso convite. Alguns nomes importantes relacionados ao cinema moçambicano – como o de Pedro Pimenta, Gabriel Mondlane, José Luís Cabaço, Ungulani Ba Ka Khosa, entre outros – e o de Diana Manhiça – atual presidente do projeto do Museu do Cinema Moçambicano – também foram contatados, mas, infelizmente, por motivos vários, não responderam às entrevistas.

CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios se estrutura em quatro partes, antes das quais, com a intenção de despertar a curiosidade dos leitores e instigar a leitura, foram inseridas imagens sugestivas: uma foto do velho prédio do cinema Império localizado em Maputo, fotografias de Camilo de Sousa e Isabel Noronha em antigas gravações e cenas representativas de filmes produzidos pelos realizadores entrevistados neste livro.

A primeira parte é constituída por dois ensaios: o de Guido Convents, que traça um panorama do cinema colonial moçambicano, evidenciando como este encontrava-se a serviço da propaganda do império português, e o de Luís Carlos Patraquim que reflete sobre o cinema moçambicano da pós-independência.

A segunda congrega entrevistas de realizadores incontornáveis, entre os quais: Ruy Guerra, Camilo de Sousa, Licínio Azevedo, Isabel Noronha, Sol de Carvalho, João Ribeiro, Yara Costa.

A terceira é constituída por crônicas de Ruy Guerra, Licínio Azevedo, Luís Carlos Patraquim, Sol de Carvalho e Isabel Noronha. Esta parte, a nosso ver, é de grande originalidade, uma vez que desvela os bastidores das filmagens, ou seja, o avesso das aventuras vivenciadas durante as gravações dos filmes por alguns dos realizadores.

Fechando o livro, a quarta parte contém dois ensaios: o de Júlio Machado, que analisa o filme Mueda, memória e massacre, de Ruy Guerra, marco do cinema moçambicano, e o de Ute Fendler, que investiga a presença do “fantástico” como uma das tendências existentes na filmografia moçambicana. Esta última seção é breve, contudo enriquecedora, na medida em que descortina um viés crítico, sugerindo a importância de estudos acerca de temáticas e filmes representativos do cinema moçambicano.

Das entrevistas obtidas depreende-se, de modo geral, que o cinema cumpriu a urgência de narrar a nação moçambicana, chamando atenção para questões de poder que marcaram profundamente a história de Moçambique – o colonialismo, a guerra, a miséria, a violência –, mas também apontando para a necessidade de revisitação de valores e traços africanos silenciados e para as múltiplas diversidades culturais, sociais, religiosas presentes em Moçambique e no continente africano.

Na entrevista de Ruy Guerra, desponta seu olhar de cineasta sempre atento às relações de poder, um olhar que põe em cena contradições sociais internas a serem repensadas criticamente. Em sua entrevista, Ruy enfatiza que são fortes as relações entre cinema e política; relembra, com seu humor crítico, algumas vivências relacionadas a filmagens por ele realizadas, entre as quais se encontram passagens especiais de sua parceria com Gabriel García Márquez, Chico Buarque, entre outros.

Camilo de Sousa, por sua vez, relembra sua infância na Mafalala; denuncia, nessa época, a ostensiva opressão colonial e o racismo; recorda sua tia Noémia de Sousa, sua relação com Ruy Guerra; fala sobre seus filmes. Isabel Noronha, em sua entrevista, narra suas experiências e aventuras de filmagem, relata a importância do surgimento do cinema moçambicano, a fundação e o fechamento do Instituto Nacional do Cinema em Moçambique. Com uma visão bastante lúcida e sensível, comenta que em seus filmes busca narrar histórias de pessoas que foram silenciadas. Mas observa que, para filmar “essas histórias privadas, é preciso encontrar o dispositivo certo para contornar ou quebrar a questão do silêncio político, que foi sendo e ainda é imposto”.

Licínio Azevedo, com respostas curtas e objetivas, criticamente, sintetiza a significação do cinema moçambicano, que, em sua opinião, representa “o próprio país, pois Moçambique é hoje a nação que o cinema ajudou a construir”. Sol de Carvalho, detalhadamente, avalia o importante papel do “Kuxa Kanema” em Moçambique; narra suas experiências de filmagem; fala da criação da produtora PROMARTE e comenta suas adaptações de textos literários para o cinema.

João Ribeiro também relaciona o nascimento do cinema moçambicano à construção da nação, observando que a descolonização do olhar tem sido uma espécie de clichê que persegue, em geral, o cineasta africano. Porém, enfatiza que, quando faz um filme, procura criar algo novo ou suficientemente forte para manter o suspense e surpreender o espectador. Para ele, fundamentais são as histórias contadas, as mensagens passadas, construídas de forma estética inovadora.

Já a realizadora Yara Costa critica a falta de investimentos em cinema atualmente em Moçambique e afirma ser muito difícil a realização de filmes moçambicanos, pois os apoios financeiros são quase inexistentes. Explana a respeito de seus filmes, entre os quais Entre Eu e Deus, que versa sobre a escolha radical de uma religião feita por uma jovem, num contexto de violência e intolerância religiosa.

Se as entrevistas deste livro são elementos fundamentais para a história do cinema moçambicano, as crônicas vêm acrescentar uma dimensão criativa e espetacular ao ofício dos realizadores, bem como uma tensão de reenquadramento da memória, entre outros aspectos. Com efeito, a noção de crônica, como lembra David Arrigucci[3], pressupõe a noção de tempo, presente no próprio termo, que procede do grego, chronos. É uma escrita que tece a continuidade do gesto humano na tela do tempo, que implica lembrar e escrever, relato em permanente relação com a temporalidade de onde retira a memória, enquanto sua matéria principal.

No caso dos dois textos de Sol de Carvalho, que situam alguns episódios na rodagem do seu último filme Mabata Mbata, deparamo-nos em especial com uma reflexão sobre o cinema africano e algumas das contradições existentes entre cinema pedagógico e dimensão estética, em que o realizador evoca palavras de Godard, quando o cineasta francês esteve em Moçambique, lembrando como ele considerava África como um mundo imaginário carregado de símbolos, imagens e representações, que constituem o enorme reservatório de criação de cinema inovador e, ao mesmo tempo, próximo dos seus destinatários.

Já as crônicas de Luís Carlos Patraquim retomam a posição instável e lúdica da crônica, entre jornalismo e literatura. O tempo dos leopardos situa criticamente uma época da história e do engajamento ideológico do cinema em Moçambique e narra o trabalho conjunto com Licínio de Azevedo, enquanto guionistas. A crônica “A Revolução dos Outros” evoca o encontro com a figura do realizador francês Jean-Luc Godard no Hotel Tivoli num sábado de 1978, perfazendo uma narrativa de memória pessoal e simultaneamente histórica, com a evocação das peregrinações utópicas e revolucionárias de várias figuras do cinema internacional, que por essa época passaram em Moçambique. É o caso de Florestano Vancini que esteve no Instituto Nacional de Cinema para falar da cinematografia italiana, ou de Med Hondo, da Mauritânia, que realizou um filme sobre o Sahara Ocidental – Teremos a morte para dormir – com produção moçambicana e estreia mundial em Maputo, ou ainda de Ruy Guerra com o projeto para o cinema móvel e com a realização do filme Mueda, memória e massacre. As crônicas de Patraquim, num estilo lírico-coloquial, reconfiguram historicamente a importância destes vários encontros com personalidades internacionais no quadro do cinema moçambicano, dimensão que veio também a ser documentada no filme de Margarida Cardoso, Kuxa Kanema: o nascimento do cinema (2003).

As cinco crônicas de Isabel Noronha e de Licínio de Azevedo percorrem também uma dimensão autobiográfica, mas enquanto ligação umbilical ao início dos seus percursos pessoais na entrada do mundo do cinema em Moçambique, aliando um registro histórico ao estórico, criando uma ponte de excelência entre a literatura e a história.

A primeira crônica de Isabel Noronha, “Quadro perdido, quadro partido, quadro reenquadrado – Uma das infinitas estórias do Cinema Moçambicano”, bem como “A Chegada”, de Licínio de Azevedo fazem essa travessia das estórias pessoais, quase em jeito de autoficção, para uma outra história, um outro quadro maior, agora reconfigurado, reenquadrado. A escrita dos dois realizadores confirma uma das características da crônica enquanto gênero compósito, capaz de gerir múltiplas componentes do relato: dimensão dramática, lírica, cômica. Como o próprio Licínio explica: “Mais do que uma reportagem objetiva, nós, também, procurávamos contar uma história, com personagens e ação. Falo disto porque é algo que depois foi importante para mim quando transitei para o cinema, e do documentário para a ficção, criando uma ponte entre ambos os gêneros.” E o realizador vai contando como a experiência de jornalista se reformulou no guionismo e foi, aos poucos, caminhando para a realização, passando do Instituto de Cinema para o Instituto de Comunicação Social, numa época com poucos recursos humanos e técnicos existentes em Moçambique, em que a opção de gênero cinematográfico a ser desenvolvido foi necessariamente o documentário.

No caso de Licínio de Azevedo a sua escrita é quase um exercício brechtiano, em que a reduplicação do sujeito enquanto espectador crítico e rememorativo de si próprio procura expor de forma simples, e por vezes bem-humorada, alguns aspectos da estrutura técnica do seu próprio processo compositivo. As suas crônicas mostram também a sua vertente de escritor, o gosto pelo enredo, pelas pequenas estórias ocorridas na realização dos seus documentários e filmes, em anotação quase diarística. Licínio respeita a relação com o mundo das crenças e espiritualidades, e nele mergulha para escrever e filmar, criando uma tensão criativa entre o mundo real e o mundo imaginário. Como ele afirma:

Para mim um documentário pode nascer de uma pequena notícia publicada na imprensa. Ler jornais diariamente é um hábito que adquiri lá atrás e não abandonei: um “fait divers”, a mulher agredida pelo marido, uma disputa entre vizinhos… Qualquer notícia, por mais banal que seja, pode transformar-se num bom documentário, se tratarmos o assunto da maneira correta, com respeito pelos seus protagonistas, pelas tragédias vividas pelos outros. Por vezes, um fragmento de um documentário inspira e dá lugar, anos mais tarde, a uma longa-metragem de ficção.

As crônicas de Licínio de Azevedo complementam de forma iluminante o estudo de filmes como Desobediência, A árvore dos antepassados, Virgem Margarida, Comboio de sal e açúcar, ou dos documentários Tchuma Tchato, Mariana e a Lua. Trazem as estórias e trilhos do processo, desvendam as peripécias dos vários momentos que acompanham a realização, à maneira de intermediações entre ator e plateia, como o coro do teatro grego, mostrando o processo que levou ao produto final dos seus filmes e docuficções.

Isabel Noronha perfaz também ao longo das cinco crônicas, aqui publicadas, uma cronologia de vida, desde o momento em que entra para o Instituto de Cinema, à sua experiência de trabalho e aprendizagem (“Caminhos do Ser”, “Sagrada Arrufada”), e saliento aqui, no quadro da guerra civil, muito especialmente a crônica “Satanhoco” que evoca, em termos de uma escrita dramática, a vivência de risco de todos aqueles que participavam nas filmagens de Kuxa Kanema. Nota-se na escrita de Isabel Noronha uma inflexão lírico-pessoal, uma subjetividade crítica muito intensa e simultaneamente tensa. A escritora, que Isabel Noronha também é, além de realizadora, revela-se muito especialmente com sua última crônica “O Pintor”, em que a crônica assume o esplendor da poesia, ao mesmo tempo que acompanha de forma muito sutil a origem e a realização do seu filme Ngwenya, o crocodilo (2007):

Toda a manhã, os olhares, guardados atrás das paredes de caniço, espreitariam ansiosos o cessar da chuva que, inclemente, devolvia à terra cada gesto desse estranho homem que dedicara a sua vida a colecionar pedaços vivos de luz para costurar com eles a camisa de retalhos com que cobria o seu peito, onde precocemente se tinham alojado todas as sombras da floresta.

Recuando no tempo, as crônicas de Ruy Guerra organizam-se em duas partes, as três primeiras publicadas em 1949, em Lourenço Marques, mostram o despontar do gosto do realizador pelo cinema e pela escrita, fazendo uma espécie de visitação do passado do artista enquanto jovem aprendiz. A primeira crônica “Foi assim que morreu o Bobby, o cãozinho de pelos de arame” é uma narrativa fabular, que faz lembrar, ainda que desfocadamente, Nós matamos o Cão Tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana, e de imediato nos apela para o sentido de dependência e de liberdade e para as diferenças sociais e de sofrimento dos seres vagabundos e abandonados. Um cão da rua, sem raça, nem dono, sem nome, sobre quem Ruy escreve e se demora a caracterizar, mostrando talvez, de forma indireta, as conflitualidades latentes da sociedade colonial. Uma outra crônica “Utilidades e perigos do Cinema na formação do caráter da juventude” reflete sobre a importância do cinema e da literatura e os prejuízos do cinema comercial na formação intelectual dos jovens. Por outro lado, as duas últimas crônicas de 1997, escritas no Brasil, quase meio século depois, tratam da experiência cinéfila do realizador:

(…) ao longo da vida fui devorando vorazmente filme após filme, me alimentando de imagens, em preto e branco, coloridas, mudas, sonoras. E o meu conhecimento do mundo deve muito a essas vidas que passei nas salas escuras, os olhos fixos na tela, onde pessoas e coisas desfilavam diante de mim emoções que me foram moldando naquilo que sou.

Em “A imagem e o horror”, Ruy Guerra questiona o poder da imagem numa época em que a tecnologia nos leva para a virtualização e “em que o espetáculo toma frequentemente o lugar da realidade e se confunde com ela”. Por último, relata a sua experiência de conhecimento de Max Ophuls, quando ainda era estudante de cinema em Paris, deixando-nos mais um traço da memória do seu percurso de vida, em que a diversidade de contatos e internacionalização certamente vieram a contribuir para o transformar, no futuro, no marco do cinema, que ele é.

No último momento deste livro, fazemos a transição das crônicas dos realizadores para uma pequena seção de estudo crítico, em que se apresentam dois ensaios sobre cinema moçambicano, em que o leitor poderá aprofundar uma dimensão teórico-crítica sobre o cinema deste país. O primeiro ensaio, mais monográfico, intitula-se “Da fotografia ao teatro, da retórica à poética: reflexões sobre Mueda, memória e massacre, de Ruy Guerra”, de Júlio Cesar Machado de Paula, e mostra o caráter simultaneamente documental e ficcional do filme, ao mesmo tempo que discute a interpenetração entre as dimensões histórica e estética, considerando que o filme seja visto e debatido como parte da memória viva de Moçambique.

O segundo ensaio da autoria de Ute Fendler, “O Cinema Moçambicano – Um Cinema Fantástico?”, é mais abrangente e analisa a importante e comum dimensão do fantástico na filmografia moçambicana, considerando que o “fantástico” faz parte integral da própria visão de mundo africana. Neste sentido, a especialista afirma que, quando os cineastas utilizam elementos “sobrenaturais” ou “maravilhosos”, estes fazem parte do processo narrativo, criando um mundo imaginado, simultaneamente fictício e verdadeiro, levando os espectadores “a sonhar a realidade, em versões e variações intermináveis”.

18 de abril de 2019.

Os organizadores

  • Carmen Tindó Secco – Professora Titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ensaísta e pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro).
  • Ana Mafalda Leite – Docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com Mestrado em Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa e Doutora em Literaturas Africanas. Professora Associada com Agregação na Universidade de Lisboa, pesquisadora do ISEG do Cesa, com bolsa da FCT.
  • Luís Carlos Patraquim – Jornalista, roteirista, pesquisador sobre cinema moçambicano. Autor de vasta obra publicada em prosa, poesia e teatro.

[1] Todas as informações contidas nas entrevistas, ensaios e crônicas são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
[2] MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: O diálogo possível. São Paulo: Ática, 2002, p. 8.
[3] ARRIGUCCI, David. Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.51. Rio de Janeiro, 18 de junho de 2018.

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O ARTIGO:
SECCO, C. T.; LEITE, A. M.; PATRAQUIM, L. C. “Apresentação”. CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios. São Paulo: Kapulana, 2019. [Ciências e Artes]. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios-apresentacao-por-carmen-t-secco-ana-mafalda-leite-e-luis-carlos-patraquim/>

O LIVRO:
CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios. São Paulo: Kapulana, 2019. [Ciências e Artes]

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RAQUEL MATSUSHITA

RAQUEL MATSUSHITA nasceu e vive em São Paulo, é designer gráfico, ilustradora e escritora. Sócia do escritório Entrelinha Design, criado em 2001. Graduada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Metodista de São Paulo, especializou-se nos cursos de “Design gráfico”, “Cor” e “Tipografia” na School of Visual Arts, de Nova York, onde também foi colaboradora no escritório de design Linda Kosarin Studio. Trabalhou como editora de arte nas editoras Abril e Globo.

 

OBRA DA KAPULANA

O que pegamos emprestado dos outros, de Marcelo Jucá, 2019. (em edição)

PRÊMIOS

  • 2019 – Prêmio da AEILIJ (Hors Concours).
  • 2018 – 6 Prêmios selo Cátedra PUC/Unesco.
  • 2018 – 2 Prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ.
  • 2015, 2017 – 5 Prêmios Bienal Brasileira de Design Gráfico – ADG.
  • 2016 – 3 Prêmios Literário da Biblioteca Nacional .
  • 2016 – Prêmio Jabuti, finalista em livro digital.
  • 2015 – Finalista no Prêmio João de Barro.
  • 2015 – Prêmio Miolos.
  • 2014 – 2 Prêmios Jabuti.
  • 1996 – Prêmio HQ MIX.
  • 1996 – Prêmio Jabuti, finalista em capa.
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Obras da Kapulana contempladas com o selo de “Altamente Recomendável” da FNLIJ – 2019

Obras de literatura infantil da Kapulana receberam o selo com a indicação de “Altamente Recomendável” da FNILJ, edição 2019

A FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) atribuiu a quatro dos livros publicados em 2018 pela Editora Kapulana no Brasil a indicação de “Altamente Recomendável”, na “Categoria Literatura em Língua Portuguesa”.

Isso significa que essas obras, em sua versão brasileira, estão concorrendo ao Prêmio FNLIJ. A lista dos vencedores será divulgada pelo site da FNLIJ, até junho de 2019.

As obras recomendadas e que estão concorrendo ao prêmio de 2019 fazem parte da Série “Contos de Moçambique” publicadas no Brasil pela Kapulana. Foram originalmente publicadas em Moçambique pela Escola Portuguesa de Moçambique. Nas edições brasileiras, foi feita a adaptação para a versão da Língua Portuguesa em vigor no Brasil, conforme o Acordo Ortográfico atual.

Para atender ao jovem leitor brasileiro, as obras da série “Contos de Moçambique” publicadas pela Kapulana,  apresentam também: um glossário de termos locais, biografias atualizadas do autor e do ilustrador e um texto explicativo sobre a técnica de ilustração utilizada no livro.

A Editora Kapulana parabeniza escritores, ilustradores e todos que participaram do processo de edição dessas obras, de modo a que sua publicação e indicação para o prêmio fossem possíveis.

A Editora Kapulana apresenta agradecimentos a Escola Portuguesa de Moçambique, cuja parceria editorial foi essencial para o sucesso da série “Contos de Moçambique” no Brasil.

São Paulo, 20 de abril de 2019.

LINKS:

Para saber mais sobre as obras e ler alguns trechos:

Para conhecer mais sobre os outros volumes da série “Contos de Moçambique” e os demais livros infantis da Kapulanahttps://www.kapulana.com.br/infantis/

Para conhecer a FNLIJhttps://www.fnlij.org.br/