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Noémia de Sousa: Grande dama da poesia moçambicana, … por Carmen Tindó Secco [SE ME QUISERES CONHECER – NOÉMIA DE SOUSA]

Noémia de Sousa: Grande dama da poesia moçambicana, diva inspiradora da “geração de Cabral” e de uma infinidade de leitores…, por Carmen Tindó Secco

“É preciso lembrar, celebrar e festejar sempre Noémia de Sousa” (2026) – declara o reconhecido poeta, intelectual e ensaísta moçambicano Nelson Saúte, autor de Se me quiseres conhecer – Noémia de Sousa: biografia literária, obra comemorativa do centenário de nascimento da referida poetisa moçambicana, publicada em 01 de setembro de 2026, em São Paulo, pela editora brasileira Kapulana.

Nessa apaixonada biografia literária, Nelson Saúte, entrelaçando poesia e história, traz memórias e informações muito importantes sobre a obra e a vida de Noémia de Sousa, abordando com carisma e paixão inúmeros episódios da militância literária e política dessa grande poetisa e jornalista moçambicana. A seguir, com base na referida obra de Nélson Saúte, faço uma síntese de determinados aspectos tratados detalhadamente na biografia literária de Noémia.

Voz fundadora da poesia moçambicana, Noémia foi consagrada por grandes poetas e escritores de Moçambique e de outros países: José Craveirinha, Rui Knopfli, Virgílio de Lemos, Ruy Guerra, Orlando Mendes, João Mendes, Glória de Sant´Anna, Calane da Silva, Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Alda Espírito Santo, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mia Couto, Eduardo White, Nélson Saúte e muitos mais. Importantes estudiosos das Literaturas Africanas e, em particular, da poesia noemiana, como Fátima Mendonça, Nelson Saúte, Francisco Noa, Michel Laban, Eduardo Mondlane, Cassiano Caldas, Antero Machado, Augusto dos Santos Abranches, Russell Hamilton, Ana Mafalda Leite, Pires Laranjeira, Inocência Mata, entre outros, foram unânimes em reconhecer a poetisa como autora de uma poesia que rompeu, totalmente, com os modelos literários europeus. Também diversos artistas celebraram as produções poéticas de Noémia, como o fotógrafo Ricardo Rangel, companheiro de luta da autora a quem ela dedicou inúmeros poemas; seu sobrinho, o cineasta Camilo de Sousa; sua sobrinha-neta, a cineasta Lara Sousa, para citar apenas alguns.

Noémia de Sousa é a grande dama da poesia moçambicana, sendo também uma das vozes femininas matriciais da poesia africana em língua portuguesa, tendo em vista seus poemas ardentes terem ecoado por vários espaços e compartilhado seu grito com outras vozes, em prol dos que lutaram e clamaram pela liberdade dos oprimidos, entre os anos 1940-1975, no contexto do colonialismo português.

Carolina Noémia Abranches de Sousa nasceu em 20 de setembro de 1926, em Catembe, em uma casa à beira-mar, banhada pelo Índico, no litoral de Moçambique; faleceu em 2002, em Cascais, em Portugal, magoada por não ter sido convidada para a festa da independência de Moçambique pela qual tanto lutou em sua mocidade.

Noémia possuía identidade híbrida, pois seu pai, de origem lusitana, afro-moçambicana e goesa, nascera na Ilha de Moçambique, e sua mãe era filha de um alemão e de uma mulher da etnia ronga. Ela era muito inteligente e aprendeu a ler aos 4 anos; o pai, homem dedicado aos livros, a incentivava muito. Entretanto, aos 8 anos, ela perdeu o pai e as boas condições econômicas familiares. Assim, aos 16 anos, foi morar na Mafalala e teve de trabalhar para auxiliar a mãe e os irmãos. Mesmo assim, sempre manteve contato com amigos defensores das letras, das artes e dos ideais libertários, em Moçambique. O legado paterno a influenciara politicamente e ela se juntou a intelectuais na luta moçambicana por uma sociedade mais humana e menos desigual.

No jornal O Brado Africano, entre 1948 e 1951, textos e poemas de Noémia de Sousa despertaram consciências, provocaram revoltas, denunciaram opressões contra os negros escravizados e discriminados na sociedade moçambicana durante a época colonial; dialogaram com o Renascimento Negro do Harlem, mesclando sons melódicos característicos do jazz, de spirituals e blues, o que fez emergir, de forma reinventada, a musicalidade africana em seus poemas.

A cena literária moçambicana foi, assim, inaugurada por Noémia. Seus 46 poemas, todos redigidos, entre 1948 e 1951, eram publicados em jornais da época, assinados ora pelas suas iniciais N.S., ora pelo pseudônimo Vera Micaia. Os textos jornalísticos ela os subscrevia como Carolina Abranches. Por sua atuação política contra o colonialismo, a poetisa e também grande jornalista teve de deixar Moçambique.

Ao sair de Lourenço Marques em 1951, Noémia participou da Casa dos Estudantes do Império (CEI), em Lisboa. Frequentando as reuniões dessa Casa, conviveu com diversos escritores e intelectuais africanos, passando a integrar a “geração de Cabral”. Imensamente politizada, lutou pela libertação das colônias portuguesas em África. Seus textos jornalísticos e seus poemas foram bastante admirados por poetas africanos da CEI, entre os quais Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade. Este último, citado por Nelson Saúte em “Se me queres conhecer–  Noémia de Sousa: biografia literária, declara: “Ela era um pouco a nossa diva (…) essa poetisa vinda de Moçambique era cortejada por nós todos, desde Viriato da Cruz, que a tinha visto em Luanda, que lhe escrevia longas cartas de amor (…)” (2026: 112).

A par da enorme admiração que a poesia de Noémia despertava, só em 2001, seus poemas foram editados pela AEMO, a Associação dos Escritores Moçambicanos, no livro Sangue negro, organizado por Fátima Mendonça, Francisco Noa e Nelson Saúte. A poetisa não pensara em publicar sua poesia em livro. Ela estava ciente do alcance de sua voz poética, cuja dimensão incendiária disseminava a revolta e a consciência política por meio de poemas passados, de jornal em jornal (O Brado Africano, etc.), de mão em mão, de antologia em antologia (as editadas pela Casa dos Estudantes do Império – CEI, em 1951 e 1953; a Poesia negra de expressão portuguesa, organizada por Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro, em 1953; o Boletim Mensagem, de 1962; a antologia No reino de Caliban, organizada por Manuel Ferreira em 3 volumes, em 1975, 1976 e 1988; a Antologia temática de poesia africana, de Mário Pinto de Andrade em 2 volumes, em 1975 e 1979; a Antologia da nova poesia moçambicana, organizada por Fátima Mendonça e Nelson Saúte, em 1993, entre outras.

Embora, para Noémia, a publicação de seus poemas em livro não fosse imprescindível para sua militância, as edições moçambicanas de Sangue negro – a de 2001, pela AEMO, e a de 2011, pela Editora Marimbique, de Nelson Saúte – foram respeitabilíssimas, na medida em que contribuíram para a definitiva consagração da primeira poetisa das letras moçambicanas, denominada por Zeca Afonso, nas comemorações do 25 de Abril, “a mãe dos poetas moçambicanos”. Mãe, por ser a voz feminina matricial da literatura de Moçambique que tantos legados deixou aos poetas à sua volta e aos que a sucederam. Porém, é como companheira de luta, como irmã, que os sujeitos poéticos da maioria dos poemas de Sangue negro a consideram. Irmã, filha de uma África aviltada e violada durante séculos, cujos filhos foram humilhados, vítimas de inúmeros dramas, discriminações e crueldades em diversas regiões do continente africano.

Hoje, contudo, além de mãe dos poetas de Moçambique, irmã de luta e filha da África, é como grande dama e diva da poesia moçambicana que Noémia continua e continuará inspirando outras gerações de poetas e leitores. Por isso, Nelson Saúte tem toda razão: “É preciso lembrar, celebrar e festejar sempre Noémia de Sousa”.

Referências:

Rio de Janeiro, 04 de setembro de 2026.

Carmen Lucia Tindó Secco (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ e CNPq)

Citar como:

SECCO, Carmen Tindó. “Noémia de Sousa: Grande dama da poesia moçambicana, diva inspiradora da ‘geração de Cabral’ e de uma infinidade de leitores…,”. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/noemia-de-sousa-grande-dama-da-poesia-mocambicana-por-carmen-tindo-secco-se-me-quiseres-conhecer-noemia-de-sousa/>

[04/09/2026]