Entrevista com Pepetela, por José dos Remédios

PEPETELA, um dos mais importantes escritores de Angola, concedeu essa entrevista ao jornalista José dos Remédios, do jornal O País, de Moçambique.

“O escritor deve ser capaz de criar empatia com o pior da terra”  (Pepetela)

Aprendeu a gostar de histórias era ainda verde, como a cor da alface. A mãe, uma professora e um amigo de infância, sem que se apercebessem disso, ajudaram-no a descobrir um grande escritor que morava dentro de si. E a descoberta teve como consequência transformar o pequeno menino contador de estórias num autor de utopias, dedicado no futuro sem deixar de trazer ao presente as cicatrizes do passado. Escreveu sobre a sociedade angolana como ninguém e, por via disso, projectou-se para o espaço da língua portuguesa e para o mundo inteiro. É um escritor sem fronteiras. A sua obra transborda o que mais interessa à literatura: a emoção sempre em sintonia com uma técnica de escrita inigualável. Chama-se Pepetela, e nesta entrevista fala-nos das especificidades da sua escrita, das suas convicções – como a de que nunca seria um neo-liberal –, de como a literatura pode ser usada para aproximar os povos africanos e dos problemas que abalam a Humanidade.  

1- Gostava de começar com uma pergunta que, de algum modo, sintetiza a sua obra. Cada livro seu reflecte, de forma satírica ou metafórica, determinados momentos da sociedade angolana e, consequentemente, dos países que mantêm uma acentuada ligação histórica com Angola – inclusive Moçambique. O que lhe leva a fazer da sua ficção um veículo que permite os seus leitores voltarem-se para o seu contexto social com um olhar mais crítico e consciente?

R- Se consigo isso, fico satisfeito. A intenção é mesmo a de chamar a atenção para determinadas problemáticas da Humanidade, embora geralmente os temas sejam inseridos na realidade que conheço melhor, a angolana.

2- No seu repertório, dois romances apresentam uma intertextualidade firme com a Literatura Moçambicana. Refiro-me a O cão e os caluandas, que dialoga com Nós matamos o Cão-Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, e Predadores, que dialoga com Apocalipse dos predadores, de Adelino Timóteo. Pensa na possibilidade de ao escrever sobre Angola tornar-se num autor reivindicado por outras literaturas africanas do ponto de vista identitário?

R- As nossas literaturas têm muitos pontos comuns, porque as sociedades e seus dilemas não diferem tanto assim. Mas coincidências de títulos não querem dizer muito, ou mesmo nada. O que interessa é o conteúdo.

3- Na sua opinião, como é que os povos africanos, com passado e presente muito comum, podem fazer da literatura a ponte que torne os territórios virtualmente mais próximos, de modo que não precisemos sair do continente para encontrar melhores conhecimentos sobre nós próprios?

R- O primeiro passo seria o de fazer conhecer as respectivas literaturas, o que na verdade não acontece. Os livros de países africanos circulam pouco fora do seu espaço natural, nacional. Tem havido tentativas aqui ou ali, por iniciativas de editoras. Mas a primeira barreira, falando de África no seu conjunto, é a da necessidade de traduções. Para países usando a mesma língua, a barreira principal é a pobreza que impede as pessoas de acederem aos livros, seus ou de outros. Organizações como a CPLP ou SADC deveriam ser um meio privilegiado para isso.

4- A literatura angolana já esteve próxima à moçambicana e aos PALOP. Sente que os laços do passado continuam presente?

R- Acho que sim. Como disse, ambas tratam de realidades semelhantes, quase com caminhos paralelos.

5- A certa altura d’O cão e os caluandas, uma voz diz: “o escritor deve ser cruel e desumano, é essa a sua humanidade”. Como autor empírico, concorda com essa afirmação?

R- Já passou muito tempo sobre a escrita desse livro, mas imagino que quisesse dizer que para entrar na cabeça de personagens de toda a natureza, desde os santos até aos mais loucos assassinos, o escritor deve ter essa capacidade de criar empatia com o pior que existe na face da Terra para poder descrever por dentro mesmo aquilo que lhe repugna. E só o ser humano pode fazer isso.

6- A imprevisibilidade caracteriza a sua escrita. Lueji, o nascimento de um império é um exemplo disso. Neste livro, desmistifica o estereótipo de que em África só o homem pode herdar o poder e erguer um império. Reactivando o enredo desse livro, Lueji, uma personagem com o dom da liderança e que encara o inimigo nos olhos, é a representação da mulher que os africanos precisam para mudar a sua condição de submissão em relação ao Ocidente, por exemplo, já que os homens parecem incapazes?

R- Boa pergunta. A um momento dado eu deixava as minhas amigas e camaradas dizerem que se fossem elas a liderar o mundo, tudo seria diferente. Bem, hoje já aparecem mulheres nos postos mais importantes do poder. E parece que as coisas não mudaram muito apenas por causa disso. De qualquer forma, devemos em livros ou de outra forma qualquer lutar para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades dos homens. Escrever esse livro inscrevia-se nessa linha. Mas a estória é baseada em mitos reais. E se houve mitos, é porque algo aconteceu de facto.

7- Em Lueji, Yaka, O desejo de Kianda ou Mayombe liberta-se aquele desabafo de Karl Liebknecht, político alemão, a de que o inimigo mais perigoso está perto de nós, se quisermos, nos nossos países. Usa a literatura para combater esse inimigo?

R- Não concordo muito com a tentativa de fazer da literatura uma arma de combate. Houve épocas em que se tentou isso, fracassando geralmente em termos de qualidade. Mas Liebknecht tinha razão, o pior inimigo vive connosco.

8- “A virtude dos governantes é terem os defeitos dos governados”, diz José António Barreiros na introdução de O Príncipe, de Maquiavel. Qual seria a virtude dos governados para acabarem com os governantes que traem a causa nacional na mesma proporção que Malongo, Caposso ou CCC, algumas das suas personagens?

R- Os governados deveriam ter a coragem de dizer não. E só de vez em quando temos essa coragem e na maior parte das vezes de forma isolada. Um NÃO de muitos ao mesmo tempo que se ouvisse na sociedade poderia fazer tremer os outros e não nós.

9- Quem lê os seus romances, apercebe-se que subverte, diria, as teorias literárias, na medida em que introduz no enredo uma entidade que não é narrador, personagem e nem autor textual, pelo menos não logo à partida. Essa entidade, às vezes, tem a autoridade de demitir o narrador ou de revelar o final da história que contraria a do narrador. É um cenário propositado?

R- Se todos escrevêssemos da mesma maneira, segundo manuais de academias, já ninguém nos lia porque todos os leitores morreriam de tédio. É só por uma questão de sobrevivência que tento de vez em quando surpreender o leitor.

10- Com os romances Jaime Bunda (O agente secreto e A morte do americano) mergulha os seus leitores no universo da literatura policial, que se tece com humor e algumas decepções amorosas pelo meio. Estes dois livros revelam-nos um escritor sensível à configuração dos espaços urbanos de Angola e dos cidadãos que neles habitam. Isso faz parte das suas preocupações literárias?

R- Tendo sido obrigado a viver em Luanda tantos anos, é normal que o espaço urbano se torne uma estrutura daquilo que escrevo. Escrevi vários livros passados em outros espaços, alguns rurais, outros quase indefiníveis. Mas a marca urbana acaba por se impor.

11- Já agora, voltaremos a ter o agente Jaime Bunda num outro livro? Coloco-lhe esta pergunta porque no segundo livro faltou-lhe o prazer literário que sentiu ao escrever o primeiro.

R. Não sei se haverá outro. Enquanto não me apetecer muito mesmo tratar esse personagem, ele fica na geleira.

12- O que contribui para que alguns livros escreva por prazer e outros por obrigação?

R. Eu procuro sempre escrever por prazer e recuso tratar temas propostos por outrem. Acho que nem seria capaz. Talvez seja no fundo ainda uma forma de rebeldia, de defender o meu último pedaço de liberdade.

13- Qual é a obra que lhe deu mais prazer de escrever?

R. É impossível escolher. Umas são mais difíceis, mas vencer a dificuldade também dá prazer.

14- Pedi que um leitor seu, o meu amigo Jaime Malendza, lhe fizesse uma questão. E ele pergunta: “Em A geração da utopia, um personagem faz apologia ao neo-liberalismo. Diante da falência dos ideais socialistas e neo-liberais, quais são as melhores ideias para o mundo actual?

R. Se eu tivesse resposta a isso, candidatava-me para um cargo qualquer. Mas neo-liberal nunca seria, nem cortado às postas. 

15- E à volta do mundo gira um dos melhores romances seus, O quase fim do mundo. Que metáfora é esta que põe em causa a ética, a moral e questiona as relações do mundo contemporâneo?

R. A metáfora está cada vez mais perto de se concretizar. O Homem é capaz de transformar a Terra em três Luas desertas, é só darem tempo para ele encontrar os meios. Em nome de um deus qualquer ou de uma filosofia. Pretextos não faltam.

16- Neste livro, a Humanidade quase que desaparece por culpa dela mesma. Em geral, sobram algumas comunidades isoladas de África. Quis nos lembrar que, apesar de toda diferenciação social, é este o berço da Humanidade, o continente que vai continuar a sobreviver a tudo…?

R. Que pelo menos foi onde tudo começou e a haver algum recomeço só poderia ser numa verde montanha com capim e alguns gorilas.

17- Quais julga que são as mazelas que conduzem o Homem quase que a uma extinção total, neste tempo, como acontece em O quase fim do mundo?

R. Existem muitas, desde a ganância à pobreza mental e à arrogância do ignorante. Sobretudo, a incapacidade de aprender com a História.

18- É um autor do povo, que, de tanto ouvir estórias do seu amigo Thor, na infância, transformou a escrita numa roda à volta da fogueira africana. Que sonhos a sua obra transporta?

R. Gostaria que transportasse os sonhos de muitos Thor, que transportasse o que prometíamos fazer quando enfrentávamos as tropas coloniais ou dos invasores seguintes, quando éramos puros e gostávamos realmente uns dos outros. Gostaria que fosse isso. Mas tenho a noção de não ter sido capaz, porque a vida nos trai sempre.

19- Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

R. Andre Brink, escritor sul-africano morto ano passado e que merecia um Nobel. E Ngugi Wa Thiongo, queniano refugiado nos Estados Unidos, que ainda pode recebê-lo.

Maputo, 11 de Fevereiro de 2016, no jornal O País.

Citar como: PEPETELA. Entrevista a José dos Remédios. O País. 11 fev. 2016. [Cedida gentilmente à Editora Kapulana por José dos Remédios.]

Saiba mais sobre Pepetelahttp://www.kapulana.com.br/pepetela/

Saiba mais sobre José dos Remédioshttp://www.kapulana.com.br/jose-dos-remedios/

Livros de Pepetela no catálogo da Kapulana

O cão e os caluandas. São Paulo: Kapulana, 2019.
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O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. (em edição)
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