Uma estranha, mas rica colheita… por Carmen Tindó Secco [FRUTOS ESTRANHOS PENDURADOS NA MULEMBA]

Uma estranha, mas rica colheita…, por Carmen Tindó Secco
“Colhendo frutos estranhos” é uma expressão polivalente, podendo significar tanto, literalmente, colher frutas raras, como, figuradamente, lidar com situações complexas e desconhecidas, além de poder dizer respeito, também, a imbricações entre literatura e outras artes, bem como a romances, cujas construções narrativas inovadoras ultrapassam as configurações romanescas habituais. O termo pode se referir, ainda, à música Strange Fruit, de Billie Holiday, sendo uma comovente denúncia à violência racial ocorrida no Sul dos Estados Unidos, sobretudo entre os finais do século XIX e meados do século XX, mais precisamente entre 1882-1968.
O novo romance do escritor angolano Boaventura Cardoso, intitulado Frutos estranhos pendurados na mulemba, opera com todos esses significados figurados, pois tanto se apropria de versos de Strange Fruit, colhendo os “estranhos frutos” da canção de Billie Holiday e os interconectando com a poesia de Noémia de Sousa e com a história angolana, metonimizada pela mulemba, árvore sagrada e símbolo cultural de Angola, como também realiza entrelaçamentos mais amplos ao discorrer acerca da formação do império Mali e da expansão dos povos mandingas pelo continente africano. Repensando e ficcionalizando figuras, fatos e episódios importantes da história de Angola e da África, a mencionada narrativa de Boaventura se constitui como metaficção historiográfica, pondo em cena tradições africanas em diálogo com momentos críticos da história angolana e a dos Mandingas, assim como com modernas e arrojadas construções romanescas, entre as quais o romance-em-abismo.
Recriando ficcionalmente alguns personagens, fatos, episódios e trazendo outros do real histórico, o romance de Boaventura Cardoso se institui como uma ficção meta-histórica, traçando uma genealogia dos Mandingas, povos que se estenderam pela África ocidental, incluindo diversas regiões, hoje, pertencentes a Angola. Para além dos Mandingas, os Vandúnens, os Stover, os Burity (provavelmente vindos do Brasil) etc. são famílias que também se espalharam pelo território nacional angolano, não constituindo nunca instituições étnicas, nem culturais.
O escritor Boaventura Cardoso, desde seus primeiros livros, ressignifica, literariamente, elementos do imaginário mítico africano e, em particular, angolano, recriando crenças e tradições que resistiram às censuras perpetradas pelo colonialismo. Em seus contos e romances está presente o animismo1 africano, cuja força cósmica evidencia o poder de resiliência de religiosidades angolanas que persistiram, a par das imposições coloniais. Conforme o teórico nigeriano Harry Garuba, o realismo animista fundamenta as conceituações do sagrado africano, segundo as quais todos os seres – sejam humanos, animais, vegetais ou minerais, possuem um espírito, ou seja, força vital. Ao operar com crenças e conhecimentos próprios das cosmovisões africanas, esse novo conceito de realismo animista representa forte contestação às epistemologias coloniais que silenciaram muitas sabedorias africanas.
Em Frutos estranhos pendurados na mulemba convivem manifestações que fazem parte das crenças locais, não sendo, por isso, encaradas como sobrenaturais, e algumas representações insólitas do “fantástico”, como, por exemplo, o momento em que a historiadora Renata Castro é visitada pelo escritor russo Alexander Soljenítsin, autor conhecido por suas denúncias às opressões e torturas praticadas nos gulags soviéticos. Neste episódio, a referida personagem não tem certeza se recebeu mesmo a visita do escritor russo ou se sonhou com ele. Essa indecisão caracteriza o “fantástico”. Também a ambiguidade e a dúvida são características desse gênero literário. Personagens e leitores são confrontados com situações que desafiam a lógica e não sabem se estão diante do real ou de um sonho.
[1] Empregamos aqui o conceito contemporâneo, pós-colonial e estético de animismo, seguindo a perspectiva do teórico e poeta nigeriano Harry Garuba, cuja reinterpretação conceitual do animismo vai contra a visão da antropologia clássica de Edward Tylor que, no século XIX, posicionava o animismo no degrau mais baixo da evolução religiosa, reforçando a ideia da superioridade cultural e religiosa do Ocidente, visão essa legitimadora da dominação colonial, pois considerava as crenças dos povos colonizados como “primitivas”, irracionais e inferiores. Garuba propõe uma visão radicalmente diferente do animismo, desvinculada das conotações negativas e hierárquicas de Tylor. Ele não o vê como uma religião ou uma “crença em espíritos”, mas sim como uma cosmovisão e uma estética. Sua perspectiva é pós-colonial e estética, pois critica a visão eurocêntrica e evolucionista, buscando reverter o olhar, não para explicar o “outro” a partir de categorias ocidentais, porém para valorizar as formas de pensamento e expressão próprias das culturas africanas. Harry Garuba usa o termo “realismo animista” para analisar a literatura africana. Nessa estética, o mundo visível e o invisível não estão separados. Elementos que o Ocidente classifica como “sobrenaturais”, “mágicos” ou “fantásticos” — como deuses, ancestrais e forças da natureza — coexistem e interagem naturalmente com a realidade material das personagens.
Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ/ Docente Titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.
Citar como:
SECCO, Carmen Tindó. “Uma estranha, mas rica colheita…”. Posfácio in: CARDOSO, Boaventura. Frutos estranhos pendurados na mulemba. São Paulo: Kapulana, 2026. [Vozes da África]. Disponível em: <https://www.kapulana.com.br/uma-estranha-mas-rica-colheita-por-carmen-tindo-secco-frutos-estranhos-pendurados-na-mulemba/>
O livro: Frutos estranhos pendurados na mulemba, de Boaventura Cardoso
[24/04/20256]
