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Ilustrações de “O caçador de ossos”: esculturas maconde

A escultura maconde é uma das artes tradicionais do povo maconde (ou makonde), pertencente ao grupo étnico bantu da região de Cabo Delgado, nordeste de Moçambique, e sudeste da Tanzânia, na África.

A arte maconde é representada pela música, pela dança e por objetos produzidos em palha entrelaçada, com que são feitos cestos e esteiras. No entanto, a arte maconde mais conhecida é a escultura, em que o material utilizado é a madeira extraída de uma árvore do continente africano chamada mpingo, o pau preto.

O pau preto também é conhecido como ébano africano ou ébano moçambicano. Com o uso de serrotes, catanas, machados e outras ferramentas menores, o artesão esculpe em pau preto adereços pessoais, utensílios domésticos, instrumentos e ferramentas para uso doméstico e agrícola, móveis e objetos de arte.

 As esculturas artísticas têm vários estilos, em que a presença de figuras humanas, animais e seres sobrenaturais é frequente.  Grupos de pessoas ou famílias, às vezes com seus instrumentos de trabalho, são esculpidos em uma só peça de pau preto.  Também há conjuntos maiores de esculturas em que cenários inteiros, como aldeias, são representados em detalhes, peça por peça.

 A escultura maconde é uma das artes moçambicanas de maior reconhecimento nacional e internacional por representar com arte os costumes de um povo através dos tempos.

Citar como:
SANTOS, Carlos do. O caçador de ossos. Ilustrações de Emanuel Lipanga. São Paulo: Kapulana, 2018 [Contos de Moçambique, v. 8].

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Ilustrações de “Na aldeia dos crocodilos”: pintura a óleo

A técnica de pintura a óleo é uma das técnicas mais antigas e tradicionais das artes plásticas.

Quase todos os documentos de história da arte dizem que essa técnica de pintura surgiu na Europa no século XV. Porém, quando em 2001, no Afeganistão, foram destruídas estátuas gigantes de Buda, pesquisadores encontraram cavernas com milhares de imagens decoradas com pinturas de Buda e seres mitológicos, feitas entre os séculos V e IX. As surpreendentes imagens tinham sido feitas com tinta a óleo, o que significa que essa técnica já era utilizada na Ásia antes de chegar à Europa. Naquela época, as tintas eram feitas à base de nozes e sementes de plantas.

A pintura a óleo, apesar de antiga, ainda é muito utilizada. As tintas são aplicadas em superfícies de madeira ou tela de algodão cru, ou sobre outros materiais, com pincéis ou espátulas. A espessura da tinta depende do efeito buscado pelo pintor. A tinta seca lentamente, o que permite ao artista alterar seu trabalho durante muito tempo, se ele quiser.

Algumas das obras de arte mais famosas do mundo, como a “Mona Lisa” (1503), do italiano Leonardo da Vinci, “A noite estrelada” (1889), do holandês Vincent van Gogh, e o “Abaporu” (1928), da brasileira Tarsila do Amaral, foram pintadas com o uso dessa técnica.

Citar como:
TIMÓTEO, Adelino. Na aldeia dos crocodilos. Ilustrações de Silva Dunduro. São Paulo: Kapulana, 2018 [Contos de Moçambique, v. 7].

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Outras fronteiras: o brilho dos pirilampos e os fragmentos da memória – por Carmen Lucia Tindó Secco

O livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativas divide-se em quatro grandes partes. A primeira tem como título “Como se a manhã do tempo despertasse”. O eu lírico peregrina dentro de si para se buscar; examina suas fronteiras; navega com um país dentro da língua, fazendo do coração paisagem antiga, mas sempre presente no olhar, no álbum de suas vivências, como se pudesse despertar. A escrita se apresenta como pena de um amor infinito, como um feitiço querendo escapar do eterno. Seria isso possível?

O eu lírico conversa com quem escreve. Ana no espelho. E os pirilampos na noite, com sua luz, enfeitam lembranças. Como os vaga-lumes de Didi-Huberman, resistem, revelando-se metáforas da poesia em meio a um mundo-espetáculo de luzes ofuscantes: “Há [hoje] sem dúvidas motivos para ser pessimista, contudo é tão mais necessário abrir os olhos na noite, se deslocar sem descanso, voltar a procurar os vaga–lumes” (DIDI-HUBERMAN, 2014, p. 14)

 A segunda parte é constituída pelos poemas de Moatize, nos quais se encontram as fronteiras híbridas dos afetos ali vivenciados em relação à infância, ao amado, a Moçambique. Passam pela memória lírica as primeiras cores da terra, o fluir das águas do Zambeze; depois, as paisagens da negra azul cantada por Virgílio de Lemos e todos os tons de anil que tingem a imaginação. Também está presente Camões, cujo fogo do amor acende o lirismo amoroso no azul do Oriente e do Índico, oceano de inspiração criadora.

A terceira parte de Outras fronteiras: fragmentos de narrativas aborda o tema de viajantes e suas narrativas escritas em diários que registram viagens por cidades moçambicanas: Tete, por exemplo. Nesses escritos, são muitas as fronteiras percorridas, muitos os cruzamentos culturais encontrados. A pena narrativa aponta a presença de goeses, indianos, portugueses, além dos africanos. Apreende sons de batuque à distância, máscaras de espíritos antepassados.

Outras fronteiras: fragmentos de narrativas é perpassado por pensamentos e fragmentos de poemas de Camões, Eduardo White e outros poetas; por diários de antropólogos, como Lacerda e Almeida. Real e imaginação se entrelaçam. Os versos de Camões e White se mesclam a fragmentos de narrativas de Lacerda e Almeida, que viajara a Moçambique em 1797 para mapear minas de ouro na África Oriental. Há poemas também, nessa parte, sobre as donas dos prazos, ao sul do Zambeze, que possuíam escravos e ajudaram a expedição de Lacerda e Almeida. Uma dessas senhoras é Dona Francisca Josefa de Moura e Meneses, cuja sobrinha se casara com o mencionado antropólogo.

Poesia e história dialogam, lançando luzes sobre momentos problemáticos do passado moçambicano. Fragmentos narrativos e biográficos cruzam os poemas, trazendo informações sobre o contexto historiográfico de Moçambique, em especial sobre os prazos da coroa no vale do Zambeze, onde houve um sistema escravocrata interno que beneficiava as senhoras prazeiras e suas respectivas famílias.

Na quarta e última parte do livro de Ana Mafalda, há uma exaltação das belezas do Índico, como, por exemplo, no poema intitulado “O Índico em Marrakesh”. O Índico aqui não se restringe ao litoral de Moçambique. Multicultural, é um traçado azul, um oásis no caminho, traz a imagem de alguém nos olhos da poetisa. Assim, devagar, a poesia vai alcançando múltiplas portas, cidades, jardins, templos com minaretes dedicados a  Alah. Muitos são os encantadores de serpentes, suas flautas e tranças mágicas.

 Metáforas, como água, azul, amor, fronteiras, estão presentes nessas “narrativas poéticas” de Ana Mafalda. Funcionam como pequenos labirintos e fontes de água, enamoramentos do Índico, envolto em chás de menta e gengibre. Corpos dançando cheios de luz através de escritas enigmáticas, decifrações, sortilégios. Entre Ocidente e Oriente, Moçambique só é possível pelo cruzamento de “acasos conjurados”, voz do passado rente ao Índico e às diversas etnias africanas que habitam a terra moçambicana.

[1] DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014.

São Paulo, junho de 2017.

Citar como:
SECCO, Carmen L. Tindó. “Outras fronteiras: o brilho dos pirilampos e os fragmentos da memória”. Posfácio in: LEITE, Ana Mafalda. Outras fronteiras: fragmentos de narrativas. São Paulo: Kapulana, 2017.

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As ilustrações de “Wazi”: nanquim

O Nanquim é uma técnica antiga, que se originou na China, na região da cidade de Nanjing, que já foi a capital chinesa. Essa tinta também foi muito utilizada na Índia, mas ganhou popularidade pelo seu uso no Japão. O nanquim é um material muito usado para a escrita, a pintura e também para o desenho.

Documentos de cerca de 2 mil a. C. comprovam que, na China, o nanquim já era utilizado em manuscritos. Geralmente, a tinta era utilizada em papel, pergaminho ou telas de seda, com pincéis e canetas de bambu (o que originou artes tradicionais como a Caligrafia e o Sumiê). Na Europa, o nanquim era utilizado com canetas bico-de-pena, que, no início, eram feitas de penas de corvos com a extremidade apontada; depois, evoluiu para penas de aço e canetas recarregáveis.

Por muito tempo, o nanquim foi obtido a partir da tinta preta liberada por moluscos marinhos da família dos octópodes. Atualmente, as tintas são fabricadas a partir de uma combinação de cânfora, gelatina e um pó de cor escura conhecido como pó de sapato (fuligem ou negro de fumo), muito usado na pigmentação de outros produtos de cor negra. Ele é uma das variedades mais puras de carvão.

O nanquim é uma tinta que dá ao artista a possibilidade de criar texturas lineares e dar um aspecto detalhista às obras. A tinta tem uma cor saturada e intensa, dando nitidez e clareza aos desenhos.

Citar como:
MANJATE, Rogério. Wazi. Ilustrações de Celestino Mudaulane. São Paulo: Kapulana, 2017 [Contos de Moçambique, v. 6].

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A violência do colonialismo pelo olhar de Luís Bernardo Honwana – por Vima Lia de Rossi Martin

A origem de Nós matamos o Cão Tinhoso! De autoria de Luís Bernardo Honwana, o volume de contos Nós matamos o Cão Tinhoso! é um marco da literatura moçambicana. Publicado em Moçambique em 1964, em uma edição do próprio autor, que na altura tinha apenas 22 anos, a obra foi alvo de polêmica, sendo criticada por parte daqueles que defendiam o colonialismo e simpatizavam com o regime do ditador português António de Oliveira Salazar, e aclamada por aqueles que, portadores de ideias nacionalistas, defendiam a liberdade e a autonomia do país.
Assim, no mesmo ano em que tem início a luta pela independência, conquistada apenas em 1975, a coletânea de Honwana – que ficou preso de 1964 a 1967 devido à sua militância junto à FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) – agita o panorama literário moçambicano. Seu livro é celebrado por poetas importantes, como José Craveirinha e Rui Knopfli, que reconheceram de imediato seu caráter questionador das estruturas de poder vigentes e saudaram o fato de que a obra punha em movimento a produção em prosa no país, estagnada desde a publicação de Godido e outros contos, de João Dias, em 1952.

Aspectos das narrativas

O volume é composto por sete contos que, de modo geral, recriam a atmosfera asfixiante vivida pelos trabalhadores colonizados e suas famílias e acabam por operar uma denúncia da violência material e simbólica, do racismo e de toda a sorte de injustiças a que era submetida a população moçambicana pobre em meados do século passado. Alguns textos, como “Inventário de móveis e jacentes”, que pode ser lido como alegoria da imobilidade social, e “Dina”, são narrados desde uma perspectiva mais distanciada, que capta a realidade de maneira análoga a de uma câmera, capaz de registrar com agudeza e precisão os detalhes significativos de uma cena. Outros, como “Nós matamos o Cão Tinhoso!”, que dá título ao livro, o belíssimo “As mãos dos pretos”, e “Papá, cobra e eu”, dão destaque às experiências infantis – são as crianças que, ao tentarem entender a sua realidade e a de seus pais, irmãos e amigos, acabam por revelar as tensões e as contradições do universo colonial, rigidamente dividido entre patrões e empregados, colonos brancos e trabalhadores negros.
Os textos, protagonizados por personagens que frequentemente se veem sem saída diante das arbitrariedades do sistema colonial, mostram como o silenciamento diante das humilhações e dos abusos era sobretudo uma estratégia de sobrevivência, uma vez que a tirania do colonizador não deixava brechas para a contestação ou as revoltas pessoais. Na caraterização do doloroso cotidiano dos colonizados, ligado diretamente à terra trabalhada exaustivamente para o enriquecimento dos patrões, articulam-se elementos plenos de significado: animais como cachorros, aves e cobras; alimentos como o milho, o arroz, o caril de amendoim, a farinha e o vinho; profissões como a do administrador, do capataz, da professora, do veterinário, do enfermeiro e do chefe dos correios; e línguas como o changana, o ronga e o swazi são referidos como índices do dia a dia vivido pelos colonizados, estabelecendo um território de significados múltiplos e intricados, que dão vida própria à matéria narrada.

O Português africanizado

Outro aspecto fundamental da elaboração das histórias diz respeito ao modo como o escritor trabalha a língua portuguesa. Falante do ronga e do português, Honwana optou por representar o contexto sociocultural a partir da incorporação de palavras, expressões e modos de fala tipicamente moçambicanos. Termos como “chiça”, “maguerre”, “machamba” e “kuka”, por exemplo, aparecem nos textos como marcas de uma língua literária que se quer distinta da norma portuguesa. O autor nomeia, inclusive, duas das narrativas com termos africanos: “Dina” deriva do inglês dinner (marcando a influência dos contatos com o inglês falado na África do Sul, através sobretudo do trabalho nas minas); e “Nhinguitimo” significa tempestade, na língua ronga. Essa africanização do português europeu afirma uma identidade cultural e nacional, gesto fundamental no momento de luta pela emancipação do país.

Relações e intersecções

Interessante é notar, ainda, a circulação e a recepção da obra no contexto das literaturas africanas de língua portuguesa. Em 2007, o escritor angolano Ondjaki publica o livro de contos Os da minha rua. Nele, um conto faz referência explícita ao texto de Honwana: “Nós choramos pelo cão tinhoso”, título do conto de Ondjaki, narra a experiência de leitura do conto do autor moçambicano por um grupo de alunos da oitava série, numa aula de português em uma escola de Luanda. O contato com a história da morte do cachorro, levada a cabo por um grupo de crianças moçambicanas que, de certo modo, haviam introjetado toda a brutalidade do sistema colonial, deixa o grupo de estudantes angolanos perplexo e emocionado, atestando simultaneamente o potencial humanizador da literatura e um diálogo solidário entre as gentes e as literaturas de Moçambique e Angola.

A publicação no Brasil

No Brasil, o livro de Honwana recebeu apenas uma edição, em 1980, no âmbito da extinta coleção Autores Africanos, da Editora Ática, que foi um marco para o estudo das literaturas africanas no país. Por isso, para nós, leitores brasileiros, esta nova edição brasileira da Kapulana de Nós matamos o Cão Tinhoso! é mais do que oportuna. De um lado, trata-se de obra fundamental do campo literário moçambicano que, ao se tornar acessível, amplia nosso repertório e favorece o cumprimento da lei 11.645/08, responsável pela legitimação do estudo da história, das culturas e das literaturas africanas e indígenas em nosso país. De outro, as questões presentes no livro, tão reveladoras da opressão e da exploração caraterísticas do colonialismo português, ganham especial relevo no contexto de crise em que vivemos, no qual que se faz necessário reinventar formas de luta pela garantia dos direitos humanos.

São Paulo, setembro de 2017.

Citar como:
MARTIN, Vima Lia de Rossi. “A violência do colonialismo pelo olhar de Luís Bernardo Honwana”. Posfácio in: HONWANA, Luís Bernardo. Nós matamos o Cão Tinhoso!. São Paulo: Kapulana, 2017. (Série Vozes da África)

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Posfácio do livro “Roda das encarnações” – por Francisco Noa

Este é o quarto livro de poesia de Sónia Sultuane – Sonhos (2001), Imaginar o Poetizado (2006) e No Colo da Lua (2008) – e que se inscreve numa singular trajetória de uma escalada em que o acento na sensação se afirma como inapagável imagem de marca. Marca que adquire agora novos contornos, já insinuados em No Colo da Lua, onde claramente o misticismo se posiciona para funcionar como expressão apoteótica (ou superação?) da volúpia sensorial que define o estilo criativo desta voz que se insinua nesta e noutras margens do Índico.

            E é logo o título que nos prepara não para uma ruptura, ou inversão, mas para uma espécie de aliança estruturante entre o pendor sensorial e o apelo místico. A roda das encarnações convoca necessariamente as doutrinas sobre a transmigração da alma ao longo de tempos imemoriais, de vidas anteriores, de emoções não resolvidas nessas mesmas vidas. Isto é, aquilo a que vulgarmente se chama karma ou destino e que teria a ver com o ciclo de intenções, ações e consequências que precisa ser quebrado para ultrapassar e resolver uma espécie de bloqueio encerrado… na roda das encarnações.

            E a poesia parece funcionar, neste caso, como tentativa de purificação, de redenção e de sublimação dos desequilíbrios e das cargas negativas acumuladas nas diferentes vidas passadas. Obviamente, tudo isto só fará sentido para quem acredita na encarnação. Falo, entre outros, dos praticantes do hinduísmo, do budismo, ou das doutrinas místicas do Egito antigo. O espiritismo, entretanto, entende que essa transmigração não pode ser aleatória, mas deve representar uma progressão.

            Outra possibilidade, para quem não entende ou se distancia destas doutrinas, a decisão mais razoável, porque pragmática, é a do leitor fazer um pacto tácito e comunicativo com os poemas que esta obra nos proporciona e que oscilam entre a materialidade algumas vezes crua das sensações e a espiritualização das mesmas.

            No poema a abrir, “Roda das Encarnações”, título homônimo da obra, os dados ficam lançados:

 

            Sou os olhos do Universo,

                a boca molhada dos oceanos,

                as mãos da terra,

                sou os dedos das florestas,

                o amor que brota do nada,

                sou a liberdade das palavras quando gritam e rasgam o

                mundo,

                sou o que sinto sem pudor,

                […]

                sou o cosmos

                vivendo na harmonia da roda das encarnações.

 

            Surpreendemos, aqui, aquela que vai ser a nota dominante, contraditória por um lado, mas ao mesmo tempo conciliatória entre uma dimensão transcendente, cósmica (Sou os olhos do Universo/ sou o cosmos/ vivendo na harmonia da roda das encarnações) e uma dimensão sensualista, com um caráter transgressivo e lúbrico (sou o que sinto sem pudor). Neste particular, é como se assistíssemos a uma deriva pessoana de sentir tudo de todas as maneiras ou de então viver tudo de todos os lados, como se o sentir fosse, para todos os efeitos, uma espécie de centro existencial. Veja-se “Alma Inquieta”:

 

            fazendo calar o tropel sonoro

                da minha alma inquieta, sensorial,

                num recanto qualquer

                do jardim dos meus sentimentos.

 

            E num poema como “O teu nome é paixão”, a sensação emerge como a vertigem de uma onda, em que a conexão com o outro que se deseja e com quem se estabelece um diálogo íntimo faz com que tudo tenha sentido na voz que entretanto se agiganta:

 

            sinto que toda eu sou um poema dos sentidos, exuberante,

                cheia de viço e força, como se o meu corpo fosse um tronco

                onde o látex rebenta em belas lágrimas de âmbar.

                sinto-me analfabeta do amor, face à grandeza do teu amor

                sim o teu amor!!! …e que amor!!!….

 

            Não admira, pois, que seja a sinestesia a figura retórica que sobressai em porções generosas no lirismo poético de Sónia Sultuane. Exuberante rapsódia de sensações e emoções, a sinestesia acaba por instituir-se como reinvenção da própria sensação, seja ela tátil, visual, olfativa ou mesmo sonora:

 

            Um poema de descontentamento

                que enrola os meus sentimentos

                num xaile negro e na voz desconhecida

                que canta a minha dor.

 

            Seria ilusório, no entanto, acreditar que a peregrinação poética e sensorial de que o leitor é testemunha e cúmplice, nesta obra, assenta em exercícios gratuitos de irracionalidade lírica. A comprová-lo estão, entre outras, as demonstrações reiteradas de uma consciência do próprio fazer poético, de que poesia, afinal, são palavras: “As palavras são a exterioridade que reveste o meu coração” (Palavras); “Caminho com meus pés sem medo das palavras” (Vocabulário); “Só tu conheces o texto onde me reescrevo” (Pontuação); “Por ti/ dou todos os verbos autênticos que conheço” (Gramática).

            Será, porém, na espiritualização das sensações, no misticismo que atravessa grande parte dos poemas de Roda das Encarnações, onde uma espécie de aprofundamento e questionamento da existência individual, numa perspectiva atemporal, nos transporta para uma dimensão outra, diríamos mesmo inapreensível. Isto é, a mesma voz poética que, em algum momento, e assume como “uma vagabunda/ no mundo dos sentimentos”, procura, agora, levar-nos mais longe.

            Tal é o caso de uma viagem imaginária, difusa e onde o próprio limite é o Universo:

 

            nessa viagem de sonho sem norte nem sul

                procurando dentro de mim os desconhecidos

                oceanos que me purificarão,

                procurando dentro de mim a essência

                que mate a minha imensa sede de saber

                com a certeza de apenas servir a verdade

                do que sou

                nesta nova missão espiritual.

 

            E a poesia vai-se derramando numa religiosidade sem religião, onde Deus, Natureza, Universo, Tempo, Lugar, Cosmos, karma se entrelaçam num círculo mais de busca de transcendência do que propriamente da sua afirmação ou realização.

            E na intensa e envolvente dicotomia vida-morte, emerge um sentido de mortalidade da qual se renasce quase que indefinidamente, numa aparente negação dessa mesma dualidade. E aí percebemos que, sair da roda das encarnações, quando se sai, mais do que redenção, significa sobretudo abraçar a eternidade, superação das prisões que o corpo, isto é, as sensações foram engendrando na travessia do tempo e da memória.

Setembro de 2016.

Francisco Noa – Ensaísta, pesquisador de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio), Moçambique.

Citar como:
NOA, Francisco. “Posfácio do livro Roda das encarnações”. Posfácio in: NOA, Francisco. Roda das encarnações. São Paulo: Kapulana, 2017. (Série Vozes da África)

Prefácio da 1ª edição moçambicana de Roda das Encarnações, de Sónia Sultuane, 2016 (Fundação Fernando Leite Couto). A ortografia foi atualizada em conformidade com o Acordo Ortográfico de 1990.

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O meu encontro com Jorge Amado – por Francisco Noa

Já há muito ouvia falar do autor e das suas histórias, quando em finais da década de 70, li, pela primeira vez, uma obra sua e que iria ampliar e aprofundar o meu conhecimento, mesmo a distância, sobre o Brasil. Sobretudo sobre um certo Brasil, até aí para mim uma autêntica incógnita que, de certo modo, se prolonga até hoje. A minha primeira aproximação a esse Brasil profundo e enigmático tinha sido em meados da década de 70, com o filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, de 1959, filmado nas favelas do Rio de Janeiro, em pleno Carnaval, e que deixou arregalados, pela descoberta que então fazia, os meus olhos então adolescentes.

O romance Jubiabá foi, pois, uma revelação de uma realidade que teve o condão de me deixar ligado a um mundo que ao mesmo tempo que me era profundamente desconhecido e desconcertante, me era tão próximo e tão familiar. O fato de os protagonistas serem dominantemente negros, com a sua origem africana bem vincada no desembaraço, na liberdade interior, no despojamento material, na espontaneidade, na alegria, na fraternidade e num misticismo entranhado concorria para que todo aquele mundo, de repente, fizesse parte de mim e eu dele.

O Morro do Capa Negro, onde o moleque Antônio Balduíno brincou e cresceu, era a Mafalala que me surgia inteira e palpitante na minha infância, no colorido das suas gentes, na animação do cotidiano, tranquilo e rotineiro, no fascínio de viver cada dia como se fosse o primeiro e o último, no jogo imprevisível de um destino que a todos irmanava, mesmo tendo em conta as nossas diferenças de cor, de origem e de formação.

A educação de Baldo, feita de histórias e de lendas, fazia dele um irmão mais velho, campeão das malandragens suburbanas, protetor dos fracos, desafiador de todos os tabus, exemplo a imitar no sucesso junto das meninas que desabrochavam para a vida e para o amor.

E a Bahia de Todos os Santos, feito Moçambique, colonial e ancestral, de oprimidos e de pessoas livres, de dominados e de privilegiados, dos rituais ditos pagãos, cristãos, muçulmanos, animistas, da miséria de muitos que davam sentido à vida de poucos, dos sons musicais que enchiam e faziam bailar as nossas existências, dos silêncios sábios dos mais velhos, das transgressões vigiadas e imediatamente punidas…

E o que mais me surpreendia em Jubiabá era perceber que os que normalmente não tinham direito a ter voz nem consciência passaram, pelo menos naquela ficção tão poderosamente real, a ter uma e outra, na galeria inesquecível e simbolicamente apelativa de personagens tão próximas, mas tão distantes como Zé Camarão, Mestre Manuel, Tia Luísa, Lindinalva…

Através de Jubiabá, redescobri as minhas próprias origens, reinterpretei meu lugar no mundo e no tempo. Enfim, foi uma leitura que se traduziu num ritual de passagem significativo e que me ajudou a amadurecer a minha relação com a literatura e com a vida.

Fevereiro de 2012.

Francisco Noa – Ensaísta, pesquisador de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio), Moçambique.

Citar como:
NOA, Francisco. “O meu encontro com Jorge Amado”. Prólogo in: NOA, Francisco. Uns e outros na literatura moçambicanaEnsaios. São Paulo: Kapulana, 2017. (Série Ciências e Artes)

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Ilustrações de “Kanova e o segredo da caveira”: pintura digital

Pintura digital é uma técnica de ilustração utilizada por artistas para a criação de suas pinturas no computador. O ilustrador tem acesso a uma tela virtual e a ferramentas digitais, como pincéis que simulam diversos tipos de texturas de tintas como óleo, aquarela e acrílica. Além disso, alguns instrumentos, somente presentes no computador, possibilitam efeitos diferentes das pinturas tradicionais feitas à mão, como o “conta-gotas” e ferramentas que possibilitam alterar nitidez, brilho e contraste. É uma técnica muito prática para os momentos de criação.

Em 1972, surgiu o software SuperPaint, marco importante para a evolução da técnica de pintura digital, pois foi o primeiro programa capaz de criar traços mais limpos, eliminando o serrilhamento, que é produzido quando se cria uma linha inclinada no computador. Por ser bastante versátil, a pintura digital passou a ser utilizada em diversas áreas da comunicação e das artes, como publicidade, jogos virtuais e ilustração de livros e revistas.

Uma das vantagens da pintura digital é poder corrigir um erro, acrescentar ou alterar algum traço durante qualquer etapa do processo artístico. Além disso, a variedade de texturas e ferramentas disponíveis provocou o surgimento de novas combinações de materiais e diferentes estilos de trabalho.

A pintura digital não substitui o tradicional desenho feito à mão. Trata-se de uma técnica inovadora de ilustração que convive com a prática do desenho feito à mão. Em ambos os casos, o valor do artista é o que garante a beleza e a qualidade da obra.

Citar como:
LOPES, Pedro Pereira. Kanova e o segredo da caveira. Ilustrações de Walter Zand. São Paulo: Kapulana, 2017 [Contos de Moçambique, v. 5].

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Canções do caos, vozes brasileiras – Apresentação

Tivemos o prazer de conhecer as quatro autoras da coletânea Canções do caosvozes brasileiras no decorrer da história da Editora Kapulana. Recebemos os textos de Adriana Cecchi e Andrea Lucia Barros já há algum tempo e, imediatamente, enxergamos o talento e a profundidade de seus escritos. Posteriormente, recebemos as composições poéticas das jovens Ana Júlia Baldi e Marcella Barbieri.

Percebemos que as quatro escritoras, que não se conheciam pessoalmente, tinham pontos em comum, por serem sensíveis vozes poéticas. Mas, também, apresentavam traços de estilo e tratamento temático próprios. São textos profundos, que retratam o amor romântico, o caos, o “eu”, mas também a correria e as ansiedades do dia a dia. Temas que fazem o leitor se identificar, que mergulham no interior de cada um e fazem refletir a essência da sua existência: são “Canções do Caos”!

Cada autora tem sua particularidade, seu conteúdo individual, mas apresentam suas reflexões com a mesma intensidade. Decidimos compor a coletânea com seus belíssimos textos a fim de levar ao leitor um novo olhar literário, de autoras novas e, ao mesmo tempo, experientes. Uma literatura contemporânea, representativa da nova geração de escritoras: “Vozes brasileiras”!

A Editora Kapulana agradece a Adriana Cecchi, Andrea Lucia Barros, Ana Júlia Baldi e Marcella Barbieri pela confiança que depositaram em seu trabalho editorial, e tem a honra de levar aos leitores o melhor que há nas palavras dessas grandes escritoras.

São Paulo, 1º de maio de 2017.

Citar como:
“Apresentação” in: BALDI, A. J; BARBIERI, M.; BARROS, A. L; CECCHI, A. Canções do caos, vozes brasileiras. São Paulo: Kapulana, 2017.

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Histórias de bela tristeza – por Elena Brugioni

Conheci pessoalmente Lucílio Manjate em novembro de 2008 aquando da minha primeira ida a Moçambique, numa Maputo chuvosa e abafada em véspera de eleições. Lembro-me com muito gosto de uma interessante e demorada conversa, acompanhada por várias Laurentinas e outras tantas gargalhadas, na esplanada da AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos), onde com o Lucílio conversei longamente sobre literatura moçambicana, ouvindo suas opiniões em torno de projetos, inquietações e ideias que marcavam os jovens escritores moçambicanos que dinamizavam a AEMO, procurando nos caminhos da escrita um rumo para o futuro.

Desde aquela primeira conversa, outros encontros seguiram-se ao longo dos anos; o mais recente em outubro de 2015 em Portugal, onde partilhamos uma bela mesa-redonda por ocasião do Congresso de Comemoração dos 40 anos da Independência de Moçambique, na Universidade de Lisboa. Nesta última ocasião, enquanto ouvia a fala do colega e escritor, cuja obra literária tinha vindo a acompanhar ao longo dos anos, apercebi-me de como o jovem que conhecera naquela tarde de novembro em Maputo tinha-se tornado um crítico fino e engajado cujas reflexões em torno da nova geração de escritores moçambicanos — sobretudo a propósito do recente trabalho por ele organizado, Antologia Inédita – Outras vozes de Moçambique (Alcance, 2014) — despertaram um intenso debate, dando assim um contributo significativo para a homenagem que Moçambique e a sua literatura mereciam naquele evento.

Ocorreu-me contar aqui a breve história do meu encontro com o Lucílio Manjate pois esta parece-me corresponder ao próprio percurso que o escritor tem vindo a apresentar ao público. Um trajeto literário que vem ganhando cada vez mais maturidade, fôlego e engajamento, oferecendo ao leitor o encantamento que se espera das histórias que, como se lê neste Barcolino, nos levam ao mundo perdido e imaginado da infância, “o tom da memória e do sonho” (p. 34). Aliás, A triste história de Barcolino, o homem que não sabia morrer, obra inédita lançada no Brasil pela Editora Kapulana, é um livro que, por inúmeras razões, despertará o interesse de quem procura outros enredos e imaginários, outras formas de ver, escrever e lembrar.

No entanto, devido aos ossos do ofício, isto é aos rumos que as minhas pesquisas sobre a literatura moçambicana vão seguindo, devo confessar que o que mais me intrigou nesta história de “bela tristeza” foi, para além da habilidade e da cortesia da sua prosa, sem sombra de dúvida o lugar da sua ambientação. A Costa do Sol e o Bairro dos Pescadores, onde a cidade de Maputo se junta às águas mansas e densas de mistério do Índico, são os cenários de um enredo todo centrado à volta de Barcolino, “engenhoso pescador”, “homem mais do mar de que da terra” e “conhecedor da fúria de Adamastor” cuja história, atravessando bares, bairros e quintais, transtorna os moradores e confunde os turistas. Pano de fundo insólito construído em torno de um imaginário marítimo que dentro da literatura moçambicana institui-se habitualmente como território sobretudo poético, espacialmente deslocado no norte do país — na Ilha de Moçambique, sobretudo — e que o autor resgata e habita de sonhos que se tornam histórias e de um quotidiano convivial — feito também de lazeres e excessos — num desencontro entre vivência e imaginação de indubitável originalidade narrativa. Este mesmo Índico que vem ganhando cada vez mais peso nas obras dos prosadores moçambicanos de diversas gerações encerra e (re)significa os mistérios e as contradições da triste história de Barcolino, numa viagem inesperada entre o mar e a terra onde a imaginação transforma os sonhos em realidade, levando o leitor pelas partes incertas de outras existências.

São Paulo, 2 fevereiro de 2017.

Elena Brugioni – Professora de Literaturas Africanas, Depto. de Teoria Literária, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Citar como:
BRUGIONI, Elena. “Histórias de bela tristeza”. Prefácio in: MANJATE, Lucílio. A triste história de Barcolino, o homem que não sabia morrer. São Paulo: Kapulana, 2017. (Série Vozes da África)

 

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O legado índico da poesia moçambicana – por Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco

Pertencente a uma geração de poetas mais recentes, Sangare Okapi é uma das vozes poéticas que vem se destacando no panorama da poesia dos anos 2000 em Moçambique. Vencedor de prêmios – entre os quais: Revelação FUNDAC Rui de Noronha (2002); Revelação de Poesia AEMO/ICA (2005); Menção Honrosa no Prêmio José Craveirinha de Literatura (2008) –, apresenta uma obra poética não muito extensa, mas de reconhecida qualidade estética. Em Moçambique, publicou: Inventário de angústias ou apoteose do nada. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2005; Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007; Era uma vez… Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2009 (coautor); Mafonematográfico também círculo abstracto. Maputo: Alcance, 2011; Antologia inédita – Outras vozes de Moçambique Maputo: Alcance, 2014. No Brasil, em 2007, teve poemas publicados na Revista Poesia Sempre, n. 23, da Biblioteca Nacional.

Sangare é um poeta de barcos, viagens e corpos de mulheres e ilhas. Barcos-viagem, travessia, corpo-imaginação, água da poesia.

Como um barco, sem porto, eriça a sensível vela do corpo e, frágil,

o coração nos sirva de bússola:

os remos dispensa,

temos as mãos

para a navegação.

                               (OKAPI, p.37)

No livro Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo, o eu-lírico navega em pólens femininos, adormece em ventre de pescadores, descansa em paradisíacas ilhas, geografia incomensurável de sal, sol, peixes e mulheres-kiandas. “Peregrino das redes, os barcos contemplo” – declara o poeta, cuja escrita singra os caminhos índicos da poesia e das artes em Moçambique. Dialoga com a pintura de Gemuce, pintor da Ilha de Moçambique. Busca vozes poéticas anteriores que também cantaram essa Ilha e as integra em sua poesia, revelando seduções e encantamentos: Campos de Oliveira, Virgílio de Lemos, Rui Knopfli, Heliodoro Baptista, entre outros, cujo legado poético absorveu e recriou nas malhas de sua poesia.

Mesmos barcos se organiza em três partes. A primeira celebra diversos poetas moçambicanos. A segunda, intitulada “Mesmos Barcos”, com poemas, cuja forma se aproxima à da prosa, faz uma clara alusão a dois importantes poetas moçambicanos: Luis Carlos Patraquim e Eduardo White. A terceira, denominada “O Barco Encalhado”, é formada por um único poema, cujo título coincide com o desta parte, constituindo um tributo a Campos Oliveira, o primeiro poeta de Moçambique.

Okapi inicia a viagem poética que faz emergirem, do fundo da memória, vozes líricas do Índico e da Ilha de Moçambique, a “Ilha Dourada”, de Rui Knopfli, autor de A Ilha de Próspero, mítica ilha, cuja magia inspirou tantos poetas. “Língua: ilha ou corpo?”, poema ofertado a Virgílio de Lemos, faz referências a esse poeta, cuja obra poética sempre refletiu sobre o corpo e o erotismo da linguagem.

Nos livros de Sangare, misturam-se assombros, angústias, amores. A escrita de Okapi é uma viagem interminável por uma literatura erótica e intertextual, ou seja, pela memória e pela linguagem, uma vez que o eu-lírico percorre o sistema literário moçambicano, recuperando poetas do Índico. A voz lírica enunciadora dos poemas de Okapi se comporta como um Ulisses não de Ítaca, mas de afrodisíacas ilhas do norte de Moçambique, cercadas pelo salgado mar do Oriente.

O sujeito poético expressa uma relação erótica com a própria poesia. O corpo poético se torna barco “que lança redes que são letras”, criando uma escrita lírica que ilumina histórias antigas daquelas ilhas, captando sensações amorosas que apreendem cenas do outrora.

Mesmos barcos estremece passados, presentes, insularidades, tenebrosos mares ultrajados, ilhas revisitadas.

A poética de Sangare Okapi presta, assim, homenagem a grandes poetas anteriores: Craveirinha e Patraquim, registrando a relevância desses mais velhos poetas para a poesia moçambicana contemporânea.

Sangare Okapi precisa ser mais lido e conhecido no Brasil. A publicação de Mesmos barcos ou poemas da revisitação do corpo pela Editora Kapulana possibilita esse conhecimento, esse encontro com mais um poeta do Índico, com suas paisagens, gentes. Brindemos, pois, essa importante publicação!

Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2017.

Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco – Professora Titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ensaísta e pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro)

Citar como:
SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. “O legado índico da poesia moçambicana”. Prefácio in: OKAPI, Sangare. Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo. São Paulo: Kapulana, 2017. (Série Vozes da África)

 

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Literatura colonial: a presença moçambicana – por Rosana M. Weg

“Contudo, apesar da atitude de desconfiança ou de rejeição que gerou, a literatura colonial é um fato consumado.” (NOA, Francisco. Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária. São Paulo: Kapulana, 2015, p. 39.)

Francisco Noa, moçambicano, é Doutor em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa, de Portugal. Ensaísta e professor de Literatura Moçambicana na Universidade Eduardo Mondlane (Maputo, Moçambique), é atualmente Reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio), também em Moçambique. Estuda colonialidade, nacionalidade e transnacionalidade literária, a literatura como conhecimento e o diálogo intercultural no Oceano Índico, a partir da literatura. É autor de artigos e livros de análise e crítica literária[i]. Dentre eles, Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária, livro que ora destacamos.

A obra no espaço e no tempo

Sua tese de Doutoramento “Literatura Colonial. Representação e Legitimação – Moçambique como invenção literária, defendida em 2001, deu origem à edição portuguesa de Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária (2002).  Em 2015, a Editora Kapulana publicou a primeira edição brasileira. A grafia foi adaptada para a versão brasileira da língua portuguesa em conformidade com o acordo ortográfico em vigor, com exceção das citações, que tiveram sua grafia original preservada.

O todo e as partes

Na Introdução, o leitor é apresentado ao foco da análise que encontrará pela frente. O autor destaca o caráter multifacetado e problemático do tema que escolheu tratar: a literatura colonial em Moçambique.  No capítulo I, “Literatura colonial: enquadramento teórico e periodológico”, o escritor expõe os conceitos que norteiam sua pesquisa, o contexto em que ela se insere e o objeto de seu trabalho. Nos capítulos seguintes, o grande tema Representação é analisado a partir dos romances elencados, segundo aspectos como a verossimilhança, a representação do espaço, a representação do tempo, figuras, papéis e vozes, culminando com a legitimação do texto frente à crítica.

[…]

Leia o artigo na íntegra em:

Revista de Estudos Avançados. v. 31, no. 89. São Paulo, jan./abr. 2017. p. 465-468.

versão impressa ISSN 0103-4014

versão On-line ISSN 1806-9592: 

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Das margens: poesia, ainda – por Cíntia Machado de Campos Almeida

Na margem, o reencontro: nós e ‘camarada Patraka’ mais uma vez embaraçados na entremeadura dos versos entoados pela velha voz. Voz que ainda ressoa da rua de Lidemburgo, no subúrbio de Maputo, capital moçambicana. Velha voz, porém provavelmente nova para o leitor brasileiro que, pelo advento da série “Vozes da África”, da Editora Kapulana, poderá, enfim, (re)encontrar-se com significativos nomes da Literatura Africana de Língua Portuguesa.

O ‘Patraka’ a quem nos referimos, com permitido afeto, nasceu Luís Carlos Patraquim, em 26 de março de 1953 na antiga – e à época, ainda colonial – Lourenço Marques, hoje Maputo. Iniciou seus laços com as letras pela carreira jornalística na década de 1970, arriscando-se às searas literárias a partir do ano de 1980, quando da publicação de seu primeiro livro de poesias, Monção.

Para quem ainda não conhece seu (re)nome, uma advertência necessária: trata-se de um profano! Mas o leitor que agora, provavelmente, arregala os olhos, não precisa deixar-se arrebatar pelo espanto. Isso porque, ao conhecermos a obra poética de Patraquim, percebemos que uma das marcas fundamentais de sua escrita é promover profanações com sua poesia, segundo o conceito de ‘profanação’ defendido por Giorgio Agamben1. Para o filósofo italiano, ‘profanar’ significa ‘reusar’, restituir ao uso comum algo previamente sacralizado. Constituindo, pois, uma forma de libertação e de recriação da coisa profanada. Assim, percebemos que Patraquim profana a literatura moçambicana na medida em que a reinventa.

Em 1980, o poeta trouxe a público seu primeiro livro: Monção, inaugurando um novo lirismo intimista na literatura de seu país, o que veio a alicerçar a chamada ‘geração de 80’. O livro de estreia causou grande alarde: questionou-se a funcionalidade daquele estilo subjetivo de escrita num país em que a independência nacional havia sido proclamada apenas cinco anos antes e que experimentava o descompasso de uma casa nacional recém erguida, ainda em processo de construção. Afinal, para que – e para quem –  escrevia Luís Carlos Patraquim?

Desde 1980 até a presente publicação, o poeta inteirou nove livros de poesia – que, em termos cronológicos, equivalem a quase quatro décadas de um exercício lírico espaçado, porém contínuo. Até O cão na margem (2017), constituem os rastros de seu legado poético as obras Monção (1980), A inadiável viagem (1985), Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora (1991), Mariscando luas (1992), Lidemburgo blues (1997), O osso côncavo e outros poemas (2004), Pneuma (2009) e O escuro anterior (2011).

 Na primeira fase, que se estende entre os anos de 1980 a 1991, ao cumprir uma jornada ainda bastante arraigada às paisagens exteriores, Patraquim reencontra-se com sua terra, ao sul da África. Na segunda fase, constituída pelos livros publicados entre 1992 e 2004, Patraquim reencontra-se com Maputo, seu subúrbio, a inesquecível rua de Lidemburgo, ainda – e para sempre – a abrigar a casa original, bem como as memórias que lá ainda teimavam em habitar.

Consideramos como terceira e – até a publicação de O cão na margem – última fase da poesia patraquimiana, a que se prenuncia pelos, então inéditos, versos de O osso côncavo e outros poemas (2004), e que se consolida com os dois últimos livros publicados pelo poeta até 2011. Eis aí um ciclo que nomeamos de intrapoética, certamente a mais interiorizada, hermética e fragmentada de todas as fases. No encalço das origens da própria poesia, o poeta reencontrou as suas: havia ‘aindas’ para além do breu.

Como se não bastasse profanar a literatura com suas ‘vagamundagens’ poéticas, Patraquim, desta vez, profana também o leitor, na medida em que nos encaminha para a margem da poesia. Com O cão na margem, o poeta evidencia que margear é também uma forma de profanar, pois é nela que o texto nos mostra que a linha não basta. É onde a página se transforma – trans-borda – em um não caber.

Seria o início de uma nova fase de sua poesia? Quem o sabe? Início ou não, toda margem pressupõe uma continuação. Aceitemos o convite do velho-novo poeta, a fim de margearmos a literatura junto a esse cão, em busca de novos começos e reencontros, ao som de uma velha-nova voz de Moçambique, que se pretende, sobretudo, como a voz de um mundo inteiro.

É chegada a hora de o Brasil descobrir para que e para quem escreve Luís Carlos Patraquim.

Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 2017.

Cíntia Machado de Campos Almeida – Doutora em Letras Vernáculas, especialidade em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, pela Faculdade de Letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Citar como:
ALMEIDA, Cíntia Machado de Campos. “Das margens: poesia, ainda”. Prefácio in: PATRAQUIM, Luís Carlos. O cão na margem. São Paulo: Kapulana, 2017. (Série Vozes da África)

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Ilustrações de “O casamento misterioso de Mwidja”: miçangas

Miçanga é uma pequena conta colorida, em formato esférico, com um furo no meio. Pode ser de material natural ou artificial. Há miçangas feitas de sementes, conchas, vidro, plástico e de outros materiais coloridos.

No século XVI, em alguns países da África, as miçangas serviram como moeda de troca. O mesmo ocorreu na Europa, alguns séculos mais tarde, quando miçangas de vidro eram utilizadas no comércio de escravos.

É possível unir várias miçangas passando um fio entre seus furos. Os fios utilizados podem ser também de diferentes materiais como fibras de plantas, linha, plástico, elástico e arame.

Ao combinar esses materiais, os artesãos criam objetos com fins diferentes como de adorno pessoal (pulseiras, colares, brincos, enfeites para os cabelos); vestimentas (roupas e fantasias bordadas com miçangas); decoração (esculturas, quadros, cortinas, almofadas); e objetos de celebração (adornos e utensílios religiosos).

Para ilustrar o livro O casamento misterioso de Mwidja, o artista moçambicano Orlando Mondlane criou peças de artesanato com miçangas entrelaçadas por fios de metal, que representam as pessoas, animais, paisagens e moradias que fazem parte da história. Luís Cardoso, também artista moçambicano, fotografou a arte de Mondlane para compor o conjunto de ilustrações do livro.

Uma curiosidade: no Brasil, escreve-se “miçanga”, com “ç”. Nos outros países de língua portuguesa, escreve-se “missanga”, com “ss”.

Citar como:
DUNDURO, Alexandre. O casamento misterioso de Mwidja. Ilustrações de Luís Cardoso e artesanato de Orlando Mondlane. São Paulo: Kapulana, 2017 [Contos de Moçambique, v. 4].

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Orgia dos Loucos: Moçambique sem saída de emergência – por Vanessa Ribeiro Teixeira

Orgia dos loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa, publicado em 1990, funciona como um caleidoscópio vertiginoso sobre a realidade de Moçambique nas décadas que se seguiram à Independência. A obra, composta por nove contos, ficcionaliza as experiências de homens e mulheres marcados pela escassez, pela guerra, pelo aviltamento da cultura endógena, pela distopia. Deparamo-nos com uma série de escritos aparentemente desconexos, mas que logo se revelam profundamente dialogantes sob uma importante perspectiva: tudo parece estar “fora da ordem”.

“O prémio”, conto que abre o livro, focaliza os princípios de uma política assistencialista, que tem data, hora e local para se fazer presente, e retrata o desespero de uma jovem mulher na sua tentativa de adiar o parto iminente, vislumbrando as benesses destinadas aos primeiros nascidos de Junho, o emblemático mês da Independência, a despeito das urgências do corpo e da nova vida que se anuncia. Do mar à terra firme, da terra ao rio, a fome e a morte são a herança de uma família. O infortúnio se torna regra, entrecortado por raros lampejos de calmaria e fartura. Esses são os elementos norteadores de “A praga”. Por sua vez, a sensação de um tempo parado, alimentado por uma rotina tão decadente quanto inalterável, dá o tom de “A solidão do Senhor Matias”. O velho comerciante branco, reduzido aos limites de sua propriedade em ruínas e à convivência com seu velho empregado negro, amarga a impossibilidade de reencontrar o caminho do mar, rumo à Europa, visto sua alma ter sido amarrada à terra que ele mesmo ajudou a violentar e explorar.

A solidão também “sorri” para a vida de Dolores, protagonista das linhas dispersas de “Fragmentos de um diário”. A narrativa, tecida em primeira pessoa, abre-nos as portas da intimidade diária de uma mulher que, através de suas reflexões, potencializa a sua presença, mesmo quando ausente. A personagem, suicida e homicida, é reconduzida à vida através do discurso e traduz sua existência numa frase: “A vida é uma estupidez, uma anedota permanente, uma passarela de esquizofrénicos.” (p. 27). Tal declaração surge como mote para o desenrolar da trama de “Orgia dos loucos”, conto que dá nome ao livro. A realidade que se anuncia é tão avessa à ideia de humanidade, que só um estado alterado de consciência poderia com ela conviver. Por entre os escombros de seres que, um dia, foram homens, um jovem procura por seu pai. O corpo do mais velho está vivo, mas a vida não existe mais: “Ninguém está vivo. Estamos mortos. Somos espíritos angustiados à porta duma sepultura decente.” (p. 35)

A solidão e a morte, a solidão da morte, são experiências extremamente democráticas entre os espaços moçambicanos, desde os grandes centros urbanos até às recônditas províncias do interior. É o que “Morte inesperada” e “Exorcismo” comprovam. No primeiro conto, a modernidade mal gerida, representada por um elevador num país subdesenvolvido, vitima mais um homem. A imagem da cabeça a ser esmagada pela máquina alegoriza a força das estruturas de poder que se impõem cotidianamente, esmagando corpos e esperanças. Já em “Exorcismo”, as bases do poder castrador são estremecidas pela insurgência de forças sobrenaturais e veem-se obrigadas a ceder espaço a um saber ancestral, evocado quando o filho de um administrador local desaparece misteriosamente e seu corpo só é devolvido pelas águas após uma sequência de rituais classificados como “obscurantistas”. A cristalização dessa lógica de poder ganha colorações satíricas nas linhas de “A revolta”, quando um governante é tomado pela cólera ao deparar-se com uma folha de jornal onde sua foto estava estampada e “borrada por excrementos de desconhecida origem”. Diante da pergunta “Eu sou merda?”, o povo permanece calado. Apesar dos homens, o Homem e a Natureza resistem. Eis a mensagem do último conto, “Fábula do futuro”, que, numa narrativa articulada em três parágrafos, aponta para alguma esperança nos dias vindouros, inspirada pela constância democrática da natureza.       

Em Orgia dos loucos, todos os passos parecem caminhar para o fim, realidade sugerida, aliás, na recorrência de imagens e processos escatológicos que tecem os contos. Paradoxalmente, a experiência caótica do fim dos corpos, fim dos homens, fim do mundo, aponta, pela própria essência cíclica da vida, para a construção de outros começos.

Rio de Janeiro, 12 de outubro de 2016.

Vanessa Ribeiro Teixeira – Universidade Federal do Rio de Janeiro / UNIGRANRIO

Citar como:
TEIXEIRA, Vanessa Ribeiro.  “Orgia dos loucos: Moçambique sem saída de emergência”. 
Prefácio in: KHOSA, Ungulani Ba Ka. Orgia dos loucos. Ilustrações de Mariana Fujisawa. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Vozes da África)

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As ilustrações de “A viagem”: artesanato, desenho, fotografia e ilustração digital

Artesanato, desenho, fotografia, ilustração digital, manipulação e tratamento de imagens por computador são as diversas formas de arte utilizadas em A viagem para escapar do conceito mais comum de ilustração bidimensional.

O material utilizado são bonequinhos de arame revestidos de pequenas tiras de folhas secas de massaroca (milho), vestidos com pedacinhos de pano colorido que imitam a capulana, tradicional tecido moçambicano. Os bonequinhos, típicos da região Sul de Moçambique, usam alguns instrumentos de trabalho e utensílios, como pilão, cabaças, cestos e potes de barro.

A seguir, alguns dos passos percorridos por LUÍS CARDOSO, artista plástico, e TOMÁS MUCHANGA, um dos criadores desses “bonequinhos”:

PASSO 1 (caracterização) – Definiram e caracterizaram as personagens da história.

PASSO 2 (fotografia) – Os bonecos foram colocados nas posições de cada cena e fotografados em fundo infinito. Texturas de folhas secas de massaroca foram também fotografadas.

PASSO 3 (tratamento de imagem) – As fotografias foram tratadas em computador, as cores foram corrigidas e o fundo de cada uma delas foi eliminado (para permitir a montagem dos ambientes das ilustrações por trás dos bonecos).

PASSO 4 (desenho) – Para a produção dos cenários (casas, árvores, montanhas, pássaros, água, etc.), foram feitos desenhos à parte, digitalizados e trabalhados em computador, em que foram aplicadas as texturas das folhas de massaroca.

O resultado é um belo conjunto de ilustrações que valoriza a arte e os artistas e de Moçambique.

Citar como:
PINTO, Tatiana. A viagem. Ilustrações de Luís Cardoso e artesanato de Tomás Muchanga. São Paulo: Kapulana, 2016 [Contos de Moçambique, v. 3].

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Noémia de Sousa, grande dama da poesia moçambicana – por Carmen Lucia Tindó Secco

Noémia de Sousa não é apenas uma grande dama da poesia moçambicana. É, também, uma grande dama da poesia africana em língua portuguesa, tendo em vista sua voz ardente ter ecoado por diversos espaços e compartilhado seu grito com outras vozes, em prol dos que lutaram e clamaram pela liberdade dos oprimidos, entre os anos 1940-1975, no contexto do colonialismo português.

Já não era sem tempo, no Brasil, a edição de Sangue negro, único livro escrito por Noémia. Praticamente desconhecida de grande parte dos leitores brasileiros, a autora, no entanto, nas décadas de 1940-1950, manteve, como jornalista, colaboração esparsa com a revista brasileira Sul, publicação que, nesse período, aproximou escritores e poetas do Brasil, entre os quais Marques Rebelo e Salim Miguel, de autores de Angola e de Moçambique, como António Jacinto e Augusto dos Santos Abranches, respectivamente. Além desses e de Noémia, outros escritores africanos também colaboraram na Revista Sul: Glória de Sant’Anna, Viriato da Cruz, Luandino Vieira, Francisco José Tenreiro. Em Cartas d’África e alguma poesia, Salim Miguel reuniu algumas dessas missivas trocadas com escritores da África, em cujas páginas se detectam contundentes denúncias ao salazarismo.

A ligação de Noémia com o Brasil vem, por conseguinte, dessa época e se revela, ainda, em alguns poemas, nos quais a poetisa assinala não só sua breve passagem por terras brasileiras (cf. o poema “Samba”, cuja dedicatória ao amigo e fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel registra a noite de 19/11/1949 em que estiveram juntos no Brasil), mas também sua declarada admiração por Jorge Amado, que pode ser claramente observada nos versos a seguir:

[…]
As estrelas também são iguais
às que se acendem nas noites baianas
de mistério e macumba…
(Que importa, afinal, que as gentes sejam moçambicanas
ou brasileiras, brancas ou negras?)
Jorge Amado, vem!
Aqui, nesta povoação africana
o povo é o mesmo também
é irmão do povo marinheiro da Baía,
companheiro de Jorge Amado,
amigo do povo, da justiça e da liberdade!
[…]

(SOUSA, “Poema a Jorge Amado”)

Nos versos citados, o sangue pulsante nas veias do povo baiano carrega igual seiva africana, traz a memória amarga de negreiros que transportaram muitos escravos de lá, vindos para o Brasil à revelia. Há, na poesia de Noémia, uma emoção e uma musicalidade tão profundas, que atravessam tempos e espaços.

Nos jornais moçambicanos, entre 1948 e 1951, os poemas de Noémia de Sousa acenderam consciências, fizeram vibrar revoltas, dialogaram com o movimento da Negritude e com o Renascimento Negro do Harlem, entrecruzaram cadências melódicas e estribilhos de blues, spirituals e jazz, fazendo vir à tona a musicalidade africana reinventada.

No Brasil, tantos anos depois, na Feira Literária de Paraty, em julho de 2015, um poema de Noémia, intitulado “Súplica”, ao ser lido pelo poeta pernambucano Marcelino Freire, provocou enorme comoção no público presente. Em agosto de 2015, Emicida, cantor brasileiro de rap, no SESC Pinheiros, em São Paulo, também declamou esse mesmo poema, comovendo os ouvintes que não conseguiram esconder o entusiasmo e a atração despertados. Por tudo isso, torna-se importante, no Brasil, ler e conhecer a vida e a obra de Noémia de Sousa, o que contribuirá, sobremaneira, para refazer, com a África, alguns laços ancestrais que uma história de dores e exílios esgarçou por tanto tempo.

Carolina Noémia Abranches de Sousa nasceu em 20 de setembro de 1926, em Catembe, em uma casa à beira-mar, banhada pelo Índico, no litoral de Moçambique; faleceu em 2002, em Cascais, em Portugal, levando consigo a mágoa de não ter sido convidada para a festa da independência de Moçambique pela qual tanto lutou em sua mocidade.

Noémia era mestiça, tanto por via paterna, como materna: seu pai, de procedência lusitana, afro-moçambicana e goesa, era originário da Ilha de Moçambique; sua mãe, filha de um caçador alemão e de uma mulher africana da etnia ronga, era do sul de Moçambique. Ela sempre se mostrou precoce; antes dos cinco anos, já lia, pois o pai, cedo, a iniciara no mundo das letras e a incentivara intelectualmente. Com a morte deste, quando ela tinha apenas 8 anos, as condições financeiras da família mudaram e, aos 16 anos, se viu obrigada a trabalhar para ajudar na educação dos irmãos. Entretanto, mesmo trabalhando, nunca deixou de procurar amigos que defendiam as letras, as artes e os ideais libertários, em Moçambique. As orientações recebidas do pai calaram-lhe fundo e a levaram a atuar politicamente junto a intelectuais que reivindicavam uma sociedade mais justa e humana.

Em 1948, Noémia publicou, no Jornal da Mocidade Portuguesa, em Moçambique, o poema “Canção Fraterna”, cuja repercussão fez com que se aproximasse de um grupo revolucionário de jovens moçambicanos: João e Orlando Mendes, Ruy Guerra, Ricardo Rangel, Cassiano Caldas, José Craveirinha, entre outros. A combatividade poética e política de seus poemas, assinados com as iniciais N.S. ou com o pseudônimo literário Vera Micaia, acarretou à autora o exílio. Junto com João Mendes e Ricardo Rangel, foi presa por atacar, frontalmente, o sistema colonial português em Moçambique. Foi degredada para Portugal, tendo participado, em 1951, da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa; viajou pela América e, entre 1952 e 1972, foi deportada para Paris, continuando, como jornalista, poetisa e tradutora, sua luta a favor do nacionalismo e da libertação de Moçambique.

Noémia de Sousa inaugurou a cena literária feminina moçambicana, protestando contra as opressões sofridas pelas mulheres em Moçambique. Seus 49 poemas, escritos todos, entre 1948 e 1951, circulavam em jornais da época, como O Brado Africano. Só em 2001, foram reunidos no livro Sangue negro, publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), com organização de Nélson Saúte, Francisco Noa e Fátima Mendonça. Noémia não queria seus poemas publicados em livro. Ela tinha consciência da dimensão de sua linguagem poética, capaz de disseminar a revolta por intermédio de poemas incendiários, passados, de mão em mão, de jornal em jornal (O Brado Africano, Itinerário, etc.), de antologia em antologia (as editadas pela Casa dos Estudantes do Império, CEI, em 1951 e 1953; a Poesia negra de expressão portuguesa, organizada por Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro, em 1953; o Boletim Mensagem, de 1962; a antologia No reino de Caliban, organizada por Manuel Ferreira em 3 volumes, em 1975, 1976 e 1988; a Antologia temática de poesia africana, de Mário Pinto de Andrade em 2 volumes, em 1975 e 1979; a Antologia da nova poesia moçambicana, organizada por Fátima Mendonça e Nelson Saúte, em 1993, entre outras).

Embora, para Noémia, um livro com seus poemas não fosse necessário à sua militância poética, para os estudiosos de sua poesia, as duas edições moçambicanas de Sangue negro – a de 2001, pela AEMO, e a de 2011, pela Editora Marimbique, de Nélson Saúte – foram importantíssimas, pois cumpriram a tarefa de consagração da primeira poetisa das letras de Moçambique, considerada por Zeca Afonso, compositor e cantor da “Grândula Morena”, nas celebrações do 25 de Abril, “a mãe dos poetas moçambicanos”. Mãe, por ser a primeira voz feminina da poesia moçambicana a embalar os poetas que a sucederam. Contudo, é como irmã, companheira de luta, que os sujeitos poéticos de grande parte dos poemas de Sangue negro se impõem. Irmã, filha de uma África violada e aviltada durante séculos, cujos filhos foram vítimas de muitas discriminações e crueldades. Irmã, que denuncia os dramas do continente africano.

A publicação de Sangue negro, no Brasil, amplia esse universo de sagração da autora, cuja voz atravessou índicos de revolta e desespero, levando seu brado contestador por outras terras e mares, sem se calar, mesmo no exílio, vivido até a morte, em 2002, em Portugal.

A edição brasileira mantém a mesma estrutura das edições moçambicanas anteriores, respeitando a divisão em seis seções: “Nossa Voz”, “Biografia”, “Munhuana 1951”, “Livro de João”, “Sangue Negro”, “Dispersos”.

A primeira seção funda a “poética da voz”, a “poiesis do grito” que se quer rebelde e se expressa por poemas longos, caudalosos, feitos para serem declamados, dramatizadamente, de forma a traduzirem a indignação do sujeito lírico que, por meio de anáforas e gradações, não se cansa de gritar contra as injustiças sociais, denunciando a escravidão, os preconceitos em relação aos negros, a fome e a pobreza dos menos favorecidos.

A voz de Noémia não é apenas feminina; é, também, coletiva. É uma voz tutelar, fundadora da poesia moçambicana. É uma voz plural, prometeica, que, epicamente, assume uma heroicidade salvacionista, na medida em que se declara como a que iluminará e libertará os destinos dos irmãos africanos marginalizados. É evidente a postura redentora dos sujeitos poéticos, cuja missão é dar passagem ao povo oprimido. São inúmeras as imagens que se relacionam a esse campo semântico: “trespassou”, “passe”, “abrir a porta”. Tais metáforas dão abertura aos poemas da segunda seção, “Biografia”, que tratam não apenas da urgência de ser recobrada a memória individual de Noémia, nascida na casa à beira-mar, em Catembe, mas, ainda, do imperativo de ser revigorada a memória ancestral dos povos negros moçambicanos e africanos, cujos hábitos, crenças, ritmos e histórias precisam ser preservados, assim como necessitam ser esconjuradas as lembranças sombrias de injúrias e atrocidades vividas ao longo de séculos de escravidão.

O poema “Deixa passar o meu povo”, “Let my people go”, se configura como movimento e ação para dentro e fora de Moçambique. É uma poética nervosa, tecida por afetos e emoções, que, pulsantes, revelam a revolta contra as discriminações vivenciadas não só pelos negros de África, porém, também, pelos africanos dispersos nas Américas e no mundo. Nesse sentido, a voz de Noémia se acumplicia à dos irmãos negros do Harlem, referência explícita ao Renascimento Negro, de Langston Hughes.

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
– certos e constantes –
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harl.
“Let my people go”
– oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo –,
dizem.
[…]

(Idem, “Deixa passar o meu povo”)

No posfácio “Noémia de Sousa: a metafísica do grito”, escrito por Francisco Noa, é sublinhado esse pendor para a emoção, recorrente na poesia de Noémia, em que são frequentes apóstrofes, cuja função é imprimir uma dicção emocionada aos versos. É uma emoção fremente, acelerada, que deixa à mostra o dilaceramento do sujeito poético, cuja insubordinação se manifesta não apenas no nível temático, mas, ainda, no campo da linguagem.

Os afetos na poética de Noémia vão da repulsa e do ódio ao amor e à esperança, da angústia e da solidão à indignação e à solidariedade, da vergonha e da humilhação à rebeldia e à coragem. A voz enunciatória prima por um derramamento de sentimentos que leva a mulher oprimida a buscar recuperar sua dignidade. Falando da margem, dos bairros periféricos de Lourenço Marques, antiga capital moçambicana no tempo colonial, o sujeito lírico feminino se rebela contra o abuso sofrido pelas moças das docas, encaradas como objetos sexuais pelos colonizadores, cuja posse empreendida não foi só da terra, porém, também, dos corpos dessas negras, tratadas, quase sempre, de forma exótica e subalterna.

Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço.
Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,
viemos do outro lado da cidade
com nossos olhos espantados,
nossas almas trancadas,
nossos corpos submissos escancarados.
[…]

(Idem, “Moças das Docas)

Este poema faz parte da terceira seção do livro, intitulada “Munhuana 1951”. Os espaços marginais aqui são eleitos como cenários de uma poesia que chama atenção para os subalternizados pelo regime colonial racista: as mulheres negras e pobres, prostituídas e humilhadas; os habitantes dos bairros de caniço, Munhuana, Mafalala, Xipamanine; os magaíças, serviçais explorados nas minas da África do Sul; os zampunganas, negros que recolhiam em baldes, à noite, as fezes dos patrões colonizadores; os escravos, em diáspora, que, obrigados a condições subumanas de trabalho, morreram em terras distantes.

Os poemas da quarta seção “Livro de João” constituem uma espécie de réquiem a João Mendes, seu irmão de luta, cuja vida deu à causa dos oprimidos de Moçambique e da África em geral:

Ah, roubaram-nos João,
mas João somos nós todos,
por isso João não nos abandonou…
E João não “era”, “é” e “será”,
porque João somos nós, nós somos multidão,
[…]

(Idem, “Poema de João”)

João representa o companheiro político com quem Noémia partilhou ideais revolucionários. Os poemas desta seção choram a falta do amigo, mas rendem-lhe homenagem por ter sido o grande mentor intelectual, cujas lições de liberdade ficaram e continuaram a animar a poesia d.

A seguir, a quinta seção, “Sangue Negro”, reúne composições poéticas de profunda recusa à opressão sofrida pelos negros. É o momento em que os sujeitos poéticos celebram o sangue negro, metáfora da ancestralidade africana reinventada e repensada por uma poesia lúcida que consegue dizer não a formas de imposição e autoritarismo:

Bates-me e ameaças-me,
Agora que levantei minha cabeça esclarecida
E gritei: “Basta!”

[…] Condenas-me à escuridão eterna
Agora que minha alma de África se iluminou
E descobriu o ludíbrio…
E gritei, mil vezes gritei: “Basta!”
(Idem, “Poema”)

Se a poesia de Noémia, por um lado, se pautou pelo grito de “basta” à exploração da mulher e à escravização dos negros em geral, por outro procurou afirmar traços da oralidade e da cultura popular de Moçambique, como também aspectos de valorização das raízes africanas em geral.

Os poemas da quinta seção, numa espécie de gradação, alcançam o clímax de suas reivindicações, celebrando a África e outras vozes que também bradaram pela liberdade: Billie Holiday, nascida em 1924 na Pensilvânia, a primeira grande cantora de jazz, cujas letras das canções protestaram, com veemência, contra o preconceito racial e as desigualdades sofridas pelos negros americanos; Jorge Amado que defendeu o Brasil negro, descendente dos escravos vindos da África; Rui de Noronha, o poeta-precursor da poesia moçambicana.

O livro de Noémia de Sousa se fecha com a sexta seção, “Dispersos”, em que se encontram os poemas: “Quero conhecer-te África”, “19 de outubro”, “A Mulher que ria à Vida e à Morte”. Nessas três composições, fica expresso o compromisso de os sujeitos poéticos mergulharem num profundo conhecimento da África milenar, buscando recuperar a prática do culto aos antepassados, a crença de que é preciso continuar a batalha daqueles que deram a vida pelas causas libertárias, pois, segundo antigas religiosidades africanas, “para lá da curva, esperam os espíritos ancestrais”.

Mesmo tendo vivido tantos anos fora de Moçambique, Noémia de Sousa se manteve viva na lembrança do povo moçambicano e seus poemas não se afastaram de suas origens africanas. Por isso, talvez, não tenha sido relegada ao silêncio, nem ao esquecimento, tendo sido aclamada “a mãe dos poetas moçambicanos”. Agora, publicada no Brasil, sua voz continuará a ecoar, compartilhando com Jorge Amado, entre outros, as dores da memória de um passado escravo que ainda precisa ser exorcizado para, definitivamente, ser ultrapassado.

Rio de Janeiro, 26 de maio de 2016.

Carmen Lucia Tindó Secco – Universidade Federal do Rio de Janeiro

Citar como:

SECCO, Carmen Lucia Tindó.  “Noémia de Sousa, grande dama da poesia moçambicana”. Prefácio in: SOUSA, Noémia. Sangue negro. Ilustrações de Mariana Fujisawa. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Vozes da África). 

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O percurso da liberdade em Lucílio Manjate – por José dos Remédios

A conquista da liberdade é a conquista da vitória sobre o medo

Carlos Serra

Definitivamente, Lucílio Manjate é um autor cuja escrita está comprometida com a liberdade. Já havíamos observado esta particularidade, por exemplo, em O contador de palavras e em A legítima dor da dona Sebastião, outros livros do escritor. E, à semelhança das duas narrativas, neste O jovem caçador e a velha dentuça, dedicado, felizmente, a um público mais novo e tão carente de obras que lhes possa estimular a imaginação, Manjate volta a formular, como propósito ou consequência da criatividade, a necessidade de o Homem se livrar de todas as correntes de modo a ser autêntico e com isso alcançar um bem maior.

Ao longo desta trajectória, Lucílio Manjate retoma uma estória contada pela mãe, dando ao enredo a circunstância necessária para subsistir na palavra escrita e partilhada. Assim, o livro floresce numa eternidade cuja existência confunde-se com ficção que mora na meninice; uma meninice que ainda nos constitui, a representar a pureza em harmonia com a integridade. Por isso o protagonista do livro é um jovem caçador, pois, fosse adulto, quem sabe, deixar-se-ia corromper pelo medo das matemáticas da vida. Em vez disso, o personagem desafia-se a si próprio e ruma à procura de desposar uma donzela numa floresta misteriosa, em que a simpatia confunde-se com a morte e é a única coisa que se recebe de borla. É nessa floresta que o nosso herói destemido por ser autêntico, confronta uma velha feiticeira com dois dentes a medir um metro cada. Uma velha muito poderosa e que não media esforços para proteger as donzelas sob a sua custódia. Por essa razão, todos os homens que iam ao seu povoado para arranjar uma esposa, morriam. O nosso caçador sabia disso. No entanto, como a possibilidade de poder sonhar uma felicidade conquistada dependia dele próprio conseguir uma amada, o caçador levou a sua azagaia, os três cães e trilhou, sem atalhos, o percurso da liberdade: a coragem de vencer o medo em todas as circunstâncias.

Contra todas as adversidades, entre tentativas e erros, é essa ansiedade pela vitória que faz do caçador um homem livre e emancipado, tornando-o um rei abençoado por devolver à floresta e às belas habitantes a luz do sol no lugar das trevas. Com efeito, este cenário faz de O jovem caçador e a velha dentuça um livro que não só nos revela o percurso indispensável para o alcance da liberdade como também proporciona a atmosfera que amadurece o desejo de ser livre, independentemente da altivez do obstáculo.

Não obstante, o livro de Lucílio Manjate tenta assumir-se como manifesto – e este é um outro título do autor – contra a intolerância, covardia e conformismo que define as sociedades quando muitas vezes se deparam com dificuldades. Afinal, a velha dentuça pode ser entendida como qualquer monstro que aniquila o futuro de Moçambique ou do Brasil, já agora, lá foi lançado o livro pela editora Kapulana, em benefício próprio. Aqui Manjate reconstrói um herói para seduzir tantos outros potenciais espalhados por aí. O escritor sabe que existem e que eles só precisam de quem lhes ensine a conhecer o mundo no eco da palavra contada.

José dos Remédios

Maputo, 23 de agosto de 2016.

In: O país.  Moçambique. 27 agosto 2016, 23:25.

http://opais.sapo.mz/index.php/opiniao/160-jose-dos-remedios/41692-o-percurso-da-liberdade-em-lucilio-manjate-.html

Saiba mais sobre o livro: http://18.231.27.148/o-jovem-cacador-e-a-velha-dentuca-de-lucilio-manjate-literatura-africana-infantil-mocambique/

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A noiva de Kebera e outros nkaringanas de segredos – por Nazir A. Can

Publicadas em 1994, as estórias de A noiva de Kebera ofereciam já pistas de um projeto literário que, anos antes, em Xitala-Mati, e nas décadas que se seguiram, em tantas outras narrativas, soube conferir dignidade histórica e virtualidade poética aos recantos mais abandonados de Moçambique. Apontando para as doxas e os paradoxos de um lugar fundado em hierarquias, mas também em criativas formas de resistência de seus habitantes mais desvalidos, os seis contos deste livro de Aldino Muianga, que agora chega ao Brasil, ligam-se pelo transfundo didático. O fato mais surpreendente, contudo, é que a exemplaridade dos protagonistas se concretiza pelo viés da ambiguidade, favorecendo o abalo, no campo da construção narrativa, da transparência da mensagem e das fronteiras entre as formas da tradição oral e da escrita moderna. Os finais dos relatos, por exemplo, desestabilizam as verdades que narradores e personagens parecem querer instituir ao longo de cada um dos textos. No plano temático, a morte, enquanto elemento estruturador da sociedade, por orientar a existência dos vivos e por constituir uma passagem, mais do que um final, consolidará esse imaginário de incertezas.

Em “Colar de missangas”, narrativa ambientada em um cemitério, recria-se a existência de três indivíduos que relatam, uns aos outros, as razões que os conduziram à morte. A relação que cada um mantém com sua própria memória contribui para a restituição, em plena atualidade, do elo entre vivos e mortos por via da tradição oral. Mas não sem ambivalência, pois quem conta, aqui, faz sempre a devida (di)gestão dos segredos mais decisivos de sua história pessoal. Já em “A noiva de Kebera”, primeiro conto deste volume, centrado no tempo pré-colonial, narram-se os infortúnios de Ma-Miriam, viúva e noiva de Kebera, o famoso guerreiro que, após ter sido morto em uma batalha, parece ressurgir ao mundo dos vivos para seduzir e engravidar sua antiga amada. A mulher vê-se, desse modo, no incômodo dilema de optar pelo caminho assinalado pelos mais velhos, detentores do saber, ou trilhar o rumo de dedicação e exclusividade exigido pelo defunto, que possui o poder. Também no universo feminino se estruturam os contos “Pôncio e os seus amores” e “A festa de malembe”. Esses relatos perscrutam, entre outros elementos, as contradições de uma contemporaneidade rígida, masculinizada e burocrata na qual as mulheres, mesmo quando em situação de privilégio social ou em cenários montados para homenageá-las, provam uma espécie de “morte simbólica”. Também por meio da técnica do encaixe, que articula microrrelatos no interior e em função da narrativa principal, se configuram “Uma prenda” e “Dois muda, quatro ganha”. O primeiro celebra o trabalho dos heróis alternativos, como o enfermeiro Costa, que se entrega silenciosamente ao ofício em territórios esquecidos pelos poderes políticos. Instaurando o humor na compilação, o segundo é um fresco sobre a pluralidade e a intensidade dos excluídos do mundo colonial. Em 1965, no calor da guerra de libertação que se iniciara um ano antes e que se deixa anunciar nas entrelinhas do desafio relatado pelo hilariante Ntavene, duas equipes de crianças jogam seu destino em uma dura partida de futebol, que tudo teria para terminar em zero-a-zero. Através de uma linguagem próxima do universo popular, discursos e imaginários aparentemente distantes – da tradição e da modernidade, do mundo da feitiçaria e da publicidade – sobrepõem-se para captar as fendas que o colonialismo criou e para exaltar a capacidade de superação dos pequenos guerreiros do Dukla do Bairro.

Em A noiva de Kebera, Aldino Muianga cartografa de maneira ascendente três períodos (o pré-colonial, o colonial e o do pós-independência) e redimensiona a historicidade de lugares até então pouco representados na prosa moçambicana, entre eles as margens da capital, Maputo, confirmando a aposta em uma literatura que repensa, a partir da combinação das coordenadas da existência tempo e espaço, a vida do indivíduo comum moçambicano em sua relação com os reveses do destino. Com essas e outras estratégias, o autor dá continuidade, portanto, a uma tradição literária que há muito se impôs como celeiro de “fantásticos nkaringanas” e de exímios contadores.

Rio de Janeiro, 16 de maio de 2016.

Nazir Ahmed Can

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Citar como:

CAN, Nazir Ahmed. A noiva de Kebera e outros nkaringanas de segredos. Prefácio in: MUIANGA, Aldino. A noiva de Kebera. Ilustrações de Dan Arsky. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Vozes da África).

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A história de Pedro e Inês em cordel – por Adelto Gonçalves

Quem não conhece a secular história de Pedro e Inês? Provavelmente, as novas gerações não a conheçam muito bem, mas, com certeza, já ouviram a expressão “agora Inês é morta” que equivale a dizer “agora é tarde demais”. Por isso, não custa nada dizer que é possível encontrar essa história em várias obras literárias, desde Fernão Lopes (1385-1459), cronista e guarda-mor da Torre do Tombo de 1418 a 1454, passando pelo poeta Sá de Miranda (1481-1558), até chegar ao grande Luís de Camões (ca.1524-1580).

Trata-se da história da infeliz Inês de Castro (1325-1355), nobre galega que foi para Portugal como aia de dona Constança Manuel, futura esposa de dom Pedro I (1320-1367), de Portugal. Se há uma história de amor marcante na História de Portugal, como a de Romeu e Julieta, tragédia do poeta inglês William Shakespeare (1564-1616), essa é a do amor proibido entre o infante d. Pedro e Inês de Castro.

Como se sabe, apesar do casamento, o infante mantinha encontros furtivos com a dama de companhia de sua esposa. E, depois da morte de d. Constança em 1345, passou a viver maritalmente com ela, o que acabou por afrontar o rei d. Afonso IV (1291-1357), que mandou assassinar Inês de Castro em janeiro de 1355. Magoado e tresloucado, Pedro liderou uma revolta contra o rei e, quando finalmente assumiu a coroa em 1357, mandou prender e matar os assassinos de Inês, arrancando-lhes o coração, o que lhe valeu o cognome de Cruel.

Mais tarde, jurando que se havia casado secretamente com Inês, d. Pedro impôs o seu reconhecimento como rainha de Portugal. Em abril de 1360, ordenou a trasladação o seu corpo para o Mosteiro Real de Alcobaça, onde mandara construir dois magníficos túmulos, para que pudesse descansar para sempre ao lado da sua eterna amada.

É o desenrolar desse amor proibido, vivido em meio a uma atmosfera pesada e de disputas palacianas de poder, que o leitor irá encontrar em linguagem polida e culta, mas ao estilo de cordel, em O Caso de Pedro e Inês – Inês(quecível) até o fim do mundo (São Paulo: Kapulana Editora, 2015), de Francisco Maciel Silveira, em que o autor alia criatividade e rigor poético. Segundo o seu autor, a obra, fartamente ilustrada por Dan Arsky, é dedicada aos leitores jovens adultos que estão à procura de uma literatura menos conservadora e com profundidade literária, mas distante dos calhamaços acadêmicos. Por isso, chama o seu livro de “ABC de Literatura”, pois, imaginariamente, teria sido escrito para ser lido e repetido em voz alta por cantadores de feira. Eis uma amostra:

 

(…) Rainha eterna (na memória

para sempre viva do povo

lenda na futura História)

só trazendo-a à vida de novo:

exumá-la da triste cova,

sagrá-la numa vida nova.

 

Fazê-la do Reino rainha,

reinando-o além da vida,

era ter promessa cumprida:

brotar dentre a erva daninha

rasa, da corte mal cheirosa,

pétalas de rosa amorosa.

 

(Amor além da vida, desbordante,

exige que metro se mude e rima,

para cadenciar sua extensão.

Que, sepulta em marmórea obra-prima,

não cabe na exígua dimensão

da rasa sepultura limitante.)

 

Pedro, o Cru, mandou construir

no sacro templo de Alcobaça

morada que lá no porvir,

dirá ao vivente que passa:

 “Tal foi teu amor – coeterno?

Vivo na morte, sempiterno?” (…)

II

Em linhas gerais, nesta obra, o professor Francisco Maciel Silveira deixa de lado os títulos acadêmicos – e que são muitos – para se assumir como o vate Xico Maciel, contador de casos. E o faz, em formato de literatura de cordel, a partir de um texto clássico da Literatura Portuguesa.

Na apresentação que escreveu para este livro, a professora Flávia Maria Corradin, coordenadora na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) do projeto Autor por Autor: a Literatura e História portuguesas à luz do teatro, do qual o professor Maciel é o diretor, diz que o autor, em seu novo percurso numa arte tão popular como a do cordel, procura brincar com a estrutura da epopeia clássica, ao dividir o seu texto em introdução, narração e epílogo. No caso, a Narração apresenta a história do “amor que, contra tudo e todos,/ acabou virando infração./Infração contra as leis de Deus,/infração contra as leis da grei”.

De fato, como aponta a professora, Maciel saiu-se bem mais uma vez ao trabalhar um conteúdo canônico por intermédio de um meio de comunicação extremamente popular, “dialogando intertextual e criticamente com a História, com a Literatura, suscitando no leitor o desejo de explorar as sugestões aí contidas, de modo a que o amor de Pedro e Inês continue se perpetuando na memória dos brasileiros, portugueses, espanhóis, franceses, ingleses…” E acrescentamos nós: dos galegos, que ainda um dia hão de se tornar uma nação independente e integrante de Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

III

Professor titular de Literatura Portuguesa na FFLCH-USP, onde obteve os títulos de mestre, doutor e livre-docente, com trabalhos em torno da oratória sagrada dos padres António Vieira (1608-1697) e Manuel Bernardes (1644-1710) e da comediografia de António José da Silva (1705-1739), o Judeu, Francisco Maciel Silveira é crítico literário, com ensaios e resenhas publicados em periódicos do Brasil e do exterior. Poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta com mais de duas dezenas de prêmios, atua na docência, pesquisa e orientação com ênfase no Classicismo, no Barroco, no Realismo e no Teatro Português.

É autor dos livros de contos Esfinges (1978) e A caixa de Pandora: aquela que nos coube (1996) e de poemas Macho e fêmea os criou, segundo a paixão… (1983), além de outros ainda na gaveta. Nas áreas didática e ensaística, publicou ainda Português para o segundo grau (São Paulo: Cultrix, 1979; 5ª ed. 1988); Aprenda a escrever (São Paulo: Cultrix, 1985; 2ª ed. 1989);Padre Manuel Bernardes – Textos doutrinais (São Paulo: Cultrix, 1981); Poesia clássica (São Paulo, Global, 1988); Literatura barroca (São Paulo: Global, 1987); Concerto barroco às óperas do Judeu (São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1992); Palimpsestos – uma história intertextual da Literatura Portuguesa (São Paulo: Paulistana, 1997; 2ª ed., 2008, Santiago de Compostela: Laiovento, 1997); Fernando Pessoa(s) de um drama (São Paulo: Reis Editorial, 1999); Ó Luís, vais de Camões? (São Paulo: Reis Editorial, 2001; São Paulo: Arauco, 2ª ed,. 2008); Saramago – eu-próprio o outro? (Aveiro: Universidade de Aveiro, 2007); Eça de Queiroz: O mandarim do Realismo português (São Paulo: Paulistana, 2010); Canteiro de obras (São Paulo: Todas as Musas, 2011), e Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase (Curitiba: CRV Editora, 2012). É responsável pelo site Pinceladas em que discorre sobre a pintura alheia: http://www.pinceladas-fms.com.br

Adelto Gonçalves – Brasil

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O caso de Pedro e Inês – Inês(quecível) até o fim do mundo (ABC de Literatura), de Francisco Maciel Silveira, com apresentação de Flávia Maria Corradin e ilustrações de Dan Arsky (Série Intersecções Literárias). São Paulo: Kapulana Editora, 78 págs., R$ 29,90, 2015. Site: www.editora@kapulana.com.br E-mail: www.kapulana.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail:marilizadelto@uol.com.br

 

Baía da Lusofonia – 07/08/2016: http://baiadalusofonia.blogspot.com.br/2016/08/a-historia-de-pedro-e-ines-em-cordel.html

Pravda Portugal – 08/08/2016: http://port.pravda.ru/cplp/portugal/08-08-2016/41504-pedro_e_ines-0/

Jornal Opção  – 04/09/2016: http://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/pedro-e-ines-historia-portuguesa-de-romeu-e-julieta-74200/

Saiba mais sobre o livro: http://18.231.27.148/o-caso-de-pedro-e-ines

Saiba mais sobre o autorhttp://18.231.27.148/biografia-de-francisco-maciel-silveira/

Saiba mais sobre o ilustradorhttp://18.231.27.148/biografia-de-daniel-arsky/

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A instabilidade social em O rei mocho, de Ungulani Ba Ka Khosa – por José dos Remédios

Antes vale uma mentira que nos conforta do que uma verdade que nos destrói

De facto, a literatura não se constrói apenas com a escrita, ainda que aqui se reconheça um mecanismo importante no complexo percurso da preservação, por exemplo, das atmosferas criativas e culturais. A escrita é um meio e não um fim em si, pois a edificação do edifício literário passa por várias fontes que iluminam a imaginação dos autores. Uma dessas fontes encontra-se nos contos orais, os quais, muitas vezes, concorrem para fazer do Homem um sujeito iluminado na medida em que as estórias contadas, sobretudo na tenra idade, ampliam a mente, preparando-a para a busca da razão. No repertório da oralidade, há contos que valem contos e que, por isso, merecem transcender a fronteira da voz para se impor, com vigor, na eternidade propiciada pela escrita. Entre vários, ocorre-nos “O rei mocho”, título do livro de Ungulani Ba Ka Khosa, lançado sob a chancela da editora brasileira Kapulana.

Nesta estória conhecida pelos moçambicanos, Ungulani apropria-se da oralidade do seu povo para recriar um texto que se dedica a explicar a origem da instabilidade social a envolver mochos e outros pássaros. Nesse sentido, o escritor instaura na narrativa um pai a contar a estória ao filho, numa iniciação ao porquê das coisas que caracteriza a infância. E a personagem paternal explica que o mocho chegou ao trono pelo mesmo equívoco que lhe custou o poder quando foi desvendando: penas que, ao descobrirem-se que de chifres apenas tinham a forma, incitaram desconfiança dos outros pássaros em relação ao Rei Mocho e à sua espécie. Fosse apenas esta a estória, diríamos que o livro de Ungulani não traz nada de novo. No entanto, e ainda bem, ao apropriar-se do conto oral o autor acrescenta um elemento à narrativa, evitando que fosse previsível: o Homem, a quem cabe a responsabilidade do caus que se instaura no reinado do Mocho. Este cenário faz com que a narrativa deixe apenas de ser um relato sobre os animais para, simultaneamente, se tornar num relato sobre a história da Humanidade, já que a intervenção humana desestrutura as convicções dos pássaros e gera na comunidade das aves uma revolta porque os súbditos do Rei Mocho, com a descoberta, sentem-se usados, daí a revolta a comprometer o trono.

Ao recontar-nos esta narrativa que pode envolver adultos, jovens, adolescentes e, sobretudo, crianças, Ungulani desafia-nos a uma reflexão em torno das acções desencadeadas pelo Homem enquanto sujeito gregário que parece nutrir enorme desejo pela segregação, quando a ideia é alcançar algum propósito. Sem comprometer o rigor de que se reveste a literatura infantil, investindo bem na descrição de imagens, de tal modo que as ilustrações aparecem a reforçar a tentativa de conquistar públicos iniciáticos, “O rei Mocho” é um veículo para mostrar que, do mesmo jeito que as instabilidades sociais são geradas pelo Homem, se houver vontade, por ele também podem ser superadas. E, numa outra perspectiva, o livro leva-nos a questionarmo-nos sobre qual será o futuro da humanidade enquanto o Homem não respeitar diferenças ao nível de convicções. Por exemplo, se o Homem não tivesse desmascarado o Rei Mocho, eventualmente, a paz entre as aves prevalecia naquele reinado que, num jogo metafórico, incorpora traços relativos às comunidades humanas. Por isso, a certa altura, o conto infantil deixa de ser apenas isso e torna-se um universo privilegiado para fazer pensar nas lideranças contemporâneas.

O Rei Mocho, portanto, pode ser qualquer líder que depois de ser eleito deixa cair a máscara, revelando que os chifres, aqui a representarem alguma virtude, não passam de ilusão usada propositadamente para esconder as nódoas.

No fim, fica a questão: vale mais uma mentira que nos conforta ou uma verdade que nos destrói?

José dos Remédios

Maputo, 02 de agosto de 2016.

In: O país.  Moçambique. 02 agosto 2016, 23:25.

http://opais.sapo.mz/index.php/opiniao/160-jose-dos-remedios/41482-a-instabilidade-social-em-o-rei-mocho-de-ungulani-ba-ka-khosa.html

Saiba mais sobre o livro: http://18.231.27.148/o-rei-mocho-ungulani-ba-ka-khosa-conto-infantil-africano-mocambique/

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Dia da Criança Africana: 16 de junho

No dia 16 de junho é comemorado o “Dia da Criança Africana” (Day of the African Child – DAC), instituído em 1991 pela OUA (Organização da Unidade Africana), mais tarde UA (União Africana), em homenagem às crianças negras mortas e feridas no Soweto, em Joanesburgo, África do Sul.

Em 16 de junho de 1976, crianças e jovens  foram às ruas para protestar contra a má qualidade de ensino que lhes era proporcionado pelo governo e, também, contra o ensino da língua Afrikaans, usada apenas pela minoria branca do país.

A manifestação durou duas semanas e terminou com centenas de mortos, sobretudo crianças e adolescentes, e milhares de feridos. O “Dia da Criança Africana” é comemorado em memória delas e chama atenção para a realidade das crianças africanas que são vítimas de violência, exploração e abuso todos os dias.

A Editora Kapulana tem em seu catálogo livros infantis africanos que contam histórias populares com a participação de crianças. Um deles é Kalimba, da angolana Maria Celestina Fernandes, em que o menino Kababo e seu pássaro Kalimba participam de aventuras por aldeias de Angola, no continente africano. Juntos, os dois vencem desafios e ajudam uma comunidade em momentos de dificuldade.

A Editora Kapulana tem também a série de livros “Contos de Moçambique” em que crianças e animais são personagens. Em O rei mocho, de Ungulani Ba Ka Khosa, primeiro volume da série, o pai conta para seu filho uma história da tradição oral moçambicana sobre o surgimento da mentira no mundo.

A Editora Kapulana tem a honra de difundir histórias marcantes, com personagens infantis que retratam a resistência e a sensibilidade da criança africana.

São Paulo, 14 de junho de 2016.

Para conhecer os livros de literatura infantil africana da Kapulana e saber mais sobre o Dia da Criança Africana, acesse:

http://www.loja.kapulana.com.br/catalogo

http://www.au.int/en/newsevents/26675/commemoration-day-african-child

http://www.au.int/en/happening

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Dia da África: 25 de maio

No dia 25 de maio de 1963, chefes de estado africanos, com ideias contrárias ao regime a que o continente estava submetido durante muitos séculos, reuniram-se na Etiópia, com o objetivo definir ações para a libertação da África do colonialismo e promover a emancipação dos povos africanos. Dessa reunião, nasceu a Organização da Unidade Africana (OUA).

 Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 25 de maio como o DIA DA ÁFRICA OU DIA DA LIBERTAÇÃO DA ÁFRICA, também chamado de DIA INTERNACIONAL DA ÁFRICA. Em julho de 2002, a Organização de Unidade Africana (OUA) deu lugar à União Africana (UA). Porém, o DIA DA ÁFRICA permaneceu o mesmo, por ter sido a data em que se deu o passo inicial para a afirmação da cultura africana.

Este dia representa um profundo sentido da memória coletiva dos povos do continente africano e demonstra a verdadeira luta contra o colonialismo e a favor da soberania dos Estados Africanos.

Além da migração histórica dos povos africanos para o Brasil, há algumas décadas se desenvolve um intercâmbio cultural intenso entre estudantes brasileiros e africanos.  Na semana do Dia da África, as instituições de ensino e cultura também celebram a cooperação entre os povos.

A Editora Kapulana sente-se honrada em trazer para o Brasil um pouco da cultura africana por meio das obras de escritores consagrados e também de jovens escritores da nova geração, particularmente dos países africanos de língua portuguesa.

Para saber mais, acesse:

http://www.usp.br/aun/exibir?id=5117

http://ifch.ufpa.br/index.php/noticias/2334-2015-05-21-13-35-36

http://tchogue.blogspot.com.br/2015/05/o-dia-internacional-da-africa-o-berco.html

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Ilustrações de “As armadilhas da floresta”: desenho digital

O desenho digital é uma técnica de ilustração utilizada por artistas para a criação de seus desenhos no computador. O ilustrador tem acesso a uma tela virtual e a ferramentas digitais, como pincéis que simulam diversos tipos de texturas de tintas como óleo, aquarela e acrílica. Além disso, alguns instrumentos, somente presentes no computador, possibilitam efeitos diferentes dos desenhos tradicionais feitos à mão, como o “conta-gotas” e ferramentas que possibilitam alterar nitidez, brilho e contraste. É uma técnica muito prática para os momentos de criação.

Em 1972, surgiu o software SuperPaint, marco importante para a evolução da técnica de desenho digital, pois foi o primeiro programa capaz de criar traços mais limpos, eliminando o serrilhamento, que é produzido quando se cria uma linha inclinada no computador. Por ser bastante versátil, o desenho digital passou a ser utilizado em diversas áreas da comunicação e das artes, como publicidade, jogos virtuais e ilustração de livros e revistas.

Uma das vantagens do desenho digital é poder corrigir um erro, acrescentar ou alterar algum traço durante qualquer etapa do processo artístico. Além disso, a variedade de texturas e ferramentas disponíveis provocou o surgimento de novas combinações de materiais e diferentes estilos de trabalho.

O desenho digital não substitui o tradicional desenho feito à mão. Trata-se de uma técnica inovadora de ilustração que convive com a prática do desenho feito à mão. Em ambos os casos, o valor do artista é o que garante a beleza e a qualidade da obra.

Citar como:

FAIFE, Hélder. As armadilhas da floresta. Ilustrações em desenho digital de Mauro Manhiça. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Contos de Moçambique – v. 2)

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Outras Coisas: o vitimário das personagens – por José dos Remédios

Antes vale um fim trágico do que uma tragédia sem fim.
(Karl Marx)

A narrativa literária, de facto, é um exercício fictício com características particulares. Clemente Bata, na qualidade de autor que também urde histórias com a mestria da pena, não foge a essas diferenciações que concorrem para mantermos os contornos filosóficos da literatura bem elevados. Não foge e tão-pouco se esconde, afinal, neste universo, a exposição em livro é incontornável na sedimentação do ofício que ganha voz no olhar iluminado dos leitores. No entanto, ao mesmo tempo que a ficção resultante da narrativa deserta do plano empírico para se tornar naquilo que a compete, um sopro ou uma asa, no caso de Bata, a escrita vai-se tornando quase tangível de tanto aproximar-se ao plano social, no qual o poder da criação ganha altitude.

Como já nos habituou em “Retratos do instante”, seu livro de estreia, na nova colectânea de contos intitulada “Outras coisas”, Clemente Bata vem com histórias simples, todavia, ocultando nas entrelinhas conotações importantes para os que se esmeram em conhecer não necessariamente Moçambique mas os moçambicanos, com os se medos, êxitos e fracassos. Tal cenário incorpora-se nas histórias através de um retrato aparentemente bem ponderado, sobretudo se cruzarmos os traços relativos aos protagonistas e antagonistas dos contos curtos, à medida do cânone moçambicano, a afirmar-se em cada livro lançado.

Através das personagens, ou melhor, da “vitimização” feita àquelas entidades textuais, Bata dá-nos a conhecer comportamentos e personalidades dos habitantes de um país que (só) valoriza a liberdade quando corre risco de a perder: a liberdade de pensamento, de escolha e de defender os seus interesses. Este é o cenário que se configura, por exemplo, no conto inaugural, “Marozana”, a opor Guedjo, dono de uma vaca, e Xpera-Pôko, antigo milícia a representar as autoridades de um tempo que só a outra luta conseguiu derrubar. Guedjo é um personagem pacato, entretanto, inconformado com a injustiça sofrida, apenas cala-se com o tossir de uma espingarda, já morto, quando pretendia recuperar o que lhe era de direito. O mesmo cenário da “vitimização” acontece com Jubileu das Dores, no segundo conto da obra. Ao longo da história, a descrição do discurso no narrador veste-lhe com uma personalidade pacífica, de tal modo que o personagem é enganado por um enfermeiro até acreditar, durante 9 anos, que tinha HIV, quando, afinal, tudo tratava-se de um truque para Djabo esgotar-se nos calores de Eila, sua esposa. Nos dois contos há uma passividade dos protagonistas aproveitada por traquinas, libertando danos colaterais no enredo.

Ainda na mesma sequência, o conto “Embrulho” continua com o traço vitimário dos dois primeiros. No caso, envolvendo Marieta, uma empregada doméstica que, por não ter o que comer em casa, rouba no serviço duas postas de peixe carapau, três batatas e uma cebola. Porém, sem que disso se apercebesse, o embrulho com os produtos some e com isso o relato do narrador faz dela uma vítima dos seus actos, em parte, mas sobretudo da fome, quase que na mesma proporção que Rindza, uma personagem de “O outro lado do mar”, usada pelo marido para enganar homens em troca de dinheiro. Em várias histórias de “Outras coisas”, as personagens aparecem ou como vítimas dos seus actos ou por imposição de quem tem poder para o efeito.

Neste retrato persistente às personagens, Bata questiona os relacionamentos sociais e problematiza os limites da convivência num contexto em que, às vezes, as personagens, como calha com as pessoas, disputam os mesmos interesses. Do mesmo modo, “Outras coisas” afirma-se como um livro interventivo no sentido em que espalha a reflexão do velho Marx: antes um fim trágico do que uma tragédia sem fim. As personagens deste livro parecem muito atentas a isso…

José dos Remédios

Maputo, 01 de junho de 2016.

In: O país.  Moçambique. 01 jun 2016, 18:45.

http://opais.sapo.mz/index.php/opiniao/160-jose-dos-remedios/41015–outras-coisas-o-vitimario-das-personagens-.html

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/outras-coisas-contos/

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Os retratos sociais e a alegoria dos nomes em “Outras coisas”, de Clemente Bata – por Aurélio Cuna

Se os títulos das obras funcionam como chaves de leitura, Outras Coisas, título do segundo livro do jovem contista Clemente Bata, parece-me avesso a essa função. Primeiro, a ambiguidade que caracteriza o substantivo “coisa”: coisa é tudo o que existe ou pode existir real ou abstratamente, é facto, circunstância, condição, assunto, mistério. Ou ainda: assuntos vários (que não se mencionam), ou seja, coisas e loisas. Segundo, o pronome indefinido “Outras” que nos remete ao diferente, ao diverso, potencia esse campo de indefinição enunciado pelo termo “coisas”. Portanto, ao invés de iluminar o caminho da leitura, o presente título conduziu-me a questionamentos: de que coisas se trata? matéria para ‘outras’? Ou seja, que sentido(s) se projecta(m) no título, enfim, na obra? A resposta a estas questões reside no facto de o quotidiano dos africanos se firmar como uma ficção inesgotável, segundo refere Francisco Noa, em texto de apresentação do livro de estreia de Clemente Bata, em 2010. E isso não é casual. Decorre da inserção e percurso de Clemente Bata na literatura moçambicana.

O autor inicia a sua actividade literária nos finais da década de 80, fase áurea da literatura nacional, produzida no período pós independência. De realçar que foi em 1982 que se fundou a AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos), agremiação cujo compromisso é promover a actividade literária, através da realização de tertúlias, prémios, edições e publicações, produção de revistas literárias, como são os casos de Charrua, Forja, Lua Nova, Oásis, entre outras actividades. No que concerne à publicação, destacam-se os trabalhos de Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Aldino Muianga, Isaac Zita, Juvenal Bucuane, Aníbal Aleluia, Lília Momplé, Eduardo White. Assistiu-se, portanto, a uma verdadeira efervescência literária que, apadrinhada por escritores e poetas já consagrados como Luís Bernardo Honwana, Orlando Mendes, José Craveirinha, Rui Nogar, entre outros, mobilizou e influenciou a juventude da época. Trata-se de uma camada de jovens que herdou dos autores mais experientes, entre outros aspectos, o culto da temática virada para o real circundante, com maior incidência para a crítica social. São, pois, histórias do dia a dia dos moçambicanos que compõem a presente obra. Com efeito, Clemente explora os espaços rural, urbano e suburbano, cotejando sobretudo os conflitos típicos das relações humanas, com particular enfoque para as questões da transgressão da ordem seguida da consequente punição. Por exemplo, em “Jubileu das Dores”, relata-se o desalento de Jubileu das Dores, depois da falsa revelação de que era portador do vírus causador de SIDA. Sofrimento que terminaria, nove anos depois, quando ficou esclarecido que tudo não passava de um plano doloso do enfermeiro Djabo, que, por práticas indecentes fora suspenso do serviço. No conto “Marozana”, a morte foi o castigo máximo para Xpera-Pôko, responsável pelo roubo de uma cabeça de vaca e assassinato do respectivo proprietário, Guedjo. Em “Um corpo no vale S”, Tiro-e-Queda, na companhia dos comparsas que pretendiam assaltar os transeuntes, morre ao tentar fingir que está em estado de coma.

Observador atento da realidade em sua volta, Clemente confirma, nesta obra, a sua vocação de contista. Com efeito, em curtas histórias, o autor narra as mais complexas situações do seu meio, desde o amor, o crime, os linchamentos populares, o alcoolismo, o drama dos empregados domésticos, as brigas conjugais associadas aos telefones celulares, os sequestros, a violência doméstica, até aos excessos dos servidores públicos.

Para terminar, confesso que ler Outras Coisas é experimentar o prazer e privilégio, pouco comuns nos nossos dias, de tomar contacto com uma escrita de elevado grau de fineza, quer do ponto de vista estético, quer no que toca ao rigor na linguagem. Legitima, portanto, a função pedagógica da literatura.

Aurélio Cuna

Maputo, 26 de janeiro de 2016.

Citar como:

CUNA, Aurélio. “Os retratos sociais e a alegoria dos nomes em Outras coisas, de Clemente Bata”. Prefácio in: BATA, Clemente. Outras coisas, contos. Ilustrações de Brunna Mancuso. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Vozes da África). http://18.231.27.148/os-retratos-sociais-e-a-alegoria-dos-nomes-em-outras-coisas-de-clemente-bata/

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Suleiman Cassamo: a viva voz do conto – por Rita Chaves

Com um considerável atraso, Suleiman Cassamo desembarca no Brasil. O regresso do morto, que vem marcar a estreia do escritor entre nós, teve sua primeira edição em 1989, tempos conturbados em Moçambique. Passavam-se 14 anos da tardia independência e o país estava imerso nos sobressaltos de uma guerra que perduraria até 1992. Nesse período, a literatura, que tinha integrado o eufórico coro da utopia nos anos 70, já observava os desvios do sonho e as dificuldades do projeto nacional que a partir de 1964 mobilizara a luta armada.

Sem perder de vista a noção de originalidade que é condição da obra literária, Suleiman Cassamo nos traz, revitalizados, personagens que fizeram sua entrada na literatura produzida em Moçambique pelos poemas de José Craveirinha e Noémia de Sousa. Como nos poemas dos anos 50 e 60, os contos de O regresso do morto estão povoados pelos trabalhadores pobres da cidade, os deslocados do campo, os magaíças a retornar do duro trabalho das minas sul-africanas, carregados de bugigangas, fantasia e a memória do desterro. Na narrativa que dá nome à coletânea, é um deles, o emigrado que vem da estranha terra do “jone” a irromper na cena, trazendo uma das poucas imagens de alívio e alegria de toda a obra.

Optando pelo conto, modalidade literária bastante presente no contexto moçambicano, Suleiman Cassamo nos traz dez narrativas que compõem um instigante painel das diversas realidades abrigadas num conjunto espaciotemporal que se desenha para além das fronteiras que teoricamente dividiriam o colonial e o tempo da independência. São muitas e de muitas ordens as contradições que estão no centro das vidas que se movimentam nos diferentes cenários. A aproximar os personagens está a experiência da exclusão, que, em muitos casos, é temperada por atos violentos.

Física e simbólica, a violência constitui uma presença de relevo nas vidas que se representam em cada conto. De maneira intensa, ela toca a mulher, que está situada na ponta extrema da injustiça social e individual nessas sociedades em que a sobrevivência é uma luta diária, e tantas vezes fadada ao fracasso. Pelas narrativas de Cassamo, podemos observar como as personagens femininas condensam em si as duas pontas: a da dor e a da resistência. Os dois primeiros contos são exemplares desse lugar que tocado pela humilhação gera respostas insubmissas. Seus títulos – “Ngilina, tu vai morrer” e “Laurinda, tu vai mbunhar” – têm a mesma estrutura e traduzem uma espécie de ameaça que, ao se realizar, confere uma especial dignidade a inarredáveis destinos.

Sem se referir explicitamente ao colonialismo, o autor confronta-nos com a sua face mais cruel, trazendo-nos as gentes que ele explora e segrega e apontando-nos as suas mais profundas contradições. A brutalidade maior desse sistema talvez seja precisamente a sua capacidade de prolongar-se, arrastando-se para além do celebrado tempo das independências nacionais. E, assim, algumas das cenas não se identificam especificamente com os anos de vigência do sistema. A condição colonial ultrapassa os limites cronológicos e a tinta das iniquidades surge, por exemplo, na “caça” ao pão do já referido “Laurinda, tu vai mbunhar”. Intensamente marcadas, as imagens asseguram ao conto uma envolvente tensão, fazendo do contista, nas palavras de Julio Cortázar, “um pescador de momentos singulares”.

Conhecedor dos riscos de uma avaliação superficial, Cassamo empenha-se em mergulhar em profundidade na rede armada pelo sistema e mostra como se amarram alguns de seus nós, dos quais não escapa o colonizado, dividido, ou melhor, emparedado entre os mundos em que cresceu. Em “Madalena, xiluva do meu coração”, na angústia de Fabião / Neves, temos a machucada consciência de quem se vê perifericamente num mundo sem deixar de pertencer a um outro. A experiência da dualidade que se nota está longe do hibridismo suavizado por alguns discursos pós-coloniais. Sob a temática do dilaceramento amoroso, o enredo evoca, a célebre conferência intitulada “Cultura e colonização” de Aimé Césaire: “A colonização é esse fenômeno que inclui, entre outras consequências psicológicas a seguinte: fazer vacilar os conceitos sobre os quais os colonizados poderiam construir ou reconstruir o mundo.”

Erguendo-se das ruínas de uma sociedade, sobre as quais era preciso erguer outra, a voz de Suleiman Cassamo busca projetar na linguagem esse mundo feito de estilhaços, refratário às hipóteses de harmonia em que tantos africanos tentaram acreditar. Daí deriva uma escrita feita de pedaços, constituindo-se a partir de fortes imagens, apoiando-se numa sintaxe que contraria a norma da língua portuguesa. A expressão por ele cultivada elege como eixo um léxico que, mesclando ao português palavras e construções das línguas moçambicanas que fertilizam a língua herdada/imposta, faz da oralidade não um recurso, mas uma poderosa matriz. Na diversidade de tempos, de espaços, de enredos, o ritmo da oralidade assume a mediação e coloca-se como a face viva de um universo historicamente cindido. Isso explica o peso das lacunas na modulação da escrita. Montado com fragmentos, construído sobre e sob escombros, o mundo que emerge não pode prescindir da elipse como uma importante chave de estruturação.

Conferindo visibilidade a um conjunto de seres marginalizados, os “esquecidos” que desfilam pelas ruas de tantas cidades africanas, e não só, O regresso do morto supera os domínios da denúncia e apresenta-se como um fascinante trabalho literário. Vemo-nos diante de um exercício capaz de conduzir o leitor a um singular universo de sentidos, recordando-nos que a literatura nos permite ver aquilo que a vida, a um só tempo, mostra e esconde. Venha de onde vier.

Janeiro de 2016.

Rita Chaves

Universidade de São Paulo

Citar como:

CHAVES, Rita. “Suleiman Cassamo: a viva voz do conto”. Prefácio in: CASSAMO, Suleiman. O regresso do morto, contos. Ilustrações de Mariana Fujisawa. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Vozes da África). http://18.231.27.148/suleiman-cassamo-a-viva-voz-do-conto-de-rita-chaves-universidade-de-sao-paulo/

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Ilustrações de “O rei mocho”: batique

O batique é uma arte com mais ou menos dois mil anos de existência, originária da Ilha de Java, uma das maiores ilhas da Indonésia, país entre a Ásia e a Oceania.

Várias técnicas são utilizadas para se produzir um batique. É um processo bastante trabalhoso com o uso de tecido, tintas, cera e água. Com a cera, são cobertos os desenhos feitos sobre o tecido. Depois, o tecido é tingido e, na sequência, é escorrido e colocado para secar. Os desenhos aparecem, então, onde havia cera. No restante do tecido ficam as cores. São feitos sucessivos tingimentos para a criação de estampas multicoloridas e com figuras variadas. A cera é aplicada nos dois lados do tecido e, quando ela se parte, é criado o efeito craquelê.

Cada trabalho de batique é único e feito à mão. No tempo das colonizações, a arte do batique foi transportada para outros países pelos holandeses, chegando à África. Moçambique, país situado no sudeste da África, tem o batique como uma das suas mais famosas formas de arte. Lá foram desenvolvidas algumas variações das técnicas originais utilizando-se molduras onde são esticados os panos. O tecido da moldura, já estampada e com cera, é fervido em água para a remoção da cera e o desenho aparece. Por fim, o tecido é colocado para secar.

O batique craquelê é o mais famoso de Moçambique, com reconhecimento internacional no mundo das artes. As peças em batique de Moçambique não só reproduzem objetos e personagens, como também expressam cenas da cultura e da história moçambicana.

Citar como:

KHOSA, Ungulani Ba Ka. O rei mocho. Ilustrações em batique de Americo Mavale. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Contos de Moçambique – v. 1)

 

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Aldino Muianga, entre nós e com as gentes – por Nazir A. Can

Ambientadas nos subúrbios do período colonial, as narrativas de O Domador de Burros e Outros Contos inserem-se em uma longa tradição literária moçambicana que faz do gênero, o conto, um lugar de permanente reinvenção. A proposta de Aldino Muianga – que inicia seu projeto nos anos 80 – possui, além disso, algumas singularidades.

Articulando descrição e reflexão de modo humorado e simultaneamente didático, seus narradores fazem da oralidade menos instrumento que objeto. Com efeito, o registro linguístico do autor, mais próximo do clássico, não prescinde de uma busca pela musicalidade nem de uma pesquisa sobre a energia das tradições nos espaços marginalizados. Essa opção, aliada ao domínio do gênero e à intimidade com as paisagens socioculturais focalizadas, permite a Aldino Muianga unificar literariamente o coro de vozes erguido por suas narrativas.

A intermitência de suas personagens, em constante trânsito (os “deslocados do norte”, os que partem do campo para a cidade ou, então, os que se aventuram nas minas do “Djone” – Johanesburgo) e em contínua invenção de malabarismos que assegurem sua sobrevivência, em um momento histórico que, seguindo critérios de raça e de classe, os remete à imobilidade e à subvivência, confirma também a arguta aposta do autor em fundir as coordenadas de existência tempo e espaço. Ao trazer para suas estórias a materialidade do universo periférico (os lugares do trabalho, a gastronomia, o rumor, etc.) e o peso simbólico das práticas do sul de Moçambique, em tempos mais propensos aos “cordões sanitários”, Aldino Muianga nos convida a pensar no modo como as dinâmicas de poder criam abismos, inclusive entre oprimidos, mas também inspiram criativas formas de sublevação.

A figura do colonizador é, todavia, residual nestas narrativas. O que não reduz o impacto de sua presença. Ela se faz sentir de maneira subterrânea, mas contundente, a partir da inscrição de uma estrutura internalizada de violência (“A tensão pega-se com as mãos”) que corrói os elos comunitários (“Tudo verga, em desequilíbrio”). Nesse contexto, enquanto algumas personagens se empenham “em tácticas para envolver inocentes nos males que enferma a comunidade”, outras são exploradas “até ao tutano dos ossos”. Há ainda aquelas que exercitam estratagemas, nem sempre legais, para minimizar a precariedade a que são submetidas. Finalmente, existem outras que apenas julgam, no quadro, por exemplo, das tradicionais banjas. Ninguém, porém, escapa do escárnio dos narradores. Nem mesmo os desvalidos: “O que estamos aqui a fazer é o mesmo que esfaquear um morto – filosófica e fúnebre opinião de um velho mestiço (…) Sentara-se na ponta de uma fila, no meio da concentração, no estratégico ponto onde se inicia o circuito da caneca”.

O conflito, enquanto motor do conto, mas também, em sentido mais lato, enquanto elemento estruturador da sociedade colonial, confere unidade às sete narrativas que se seguem, elaboradas por um autor que faz entrecruzar de maneira instigante forma e conteúdo, escrita e oralidade, tempo e espaço, história e estória. Que Aldino Muianga, no Brasil, não se fique pela estreia. Mas que ela, entretanto, seja saudada como merece.

Outubro de 2015.

Nazir Ahmed Can

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Citar como:

CAN, Nazir Ahmed. “Aldino Muianga, entre nós e com as gentes”. Prefácio in: MUIANGA, Aldino. O domador de burros e outros contos. Ilustrações de Dan Arsky. São Paulo: Kapulana, 2015. (Série Vozes da África). http://18.231.27.148/aldino-muianga-entre-nos-e-com-as-gentes-de-nazir-ahmed-can-kapulana/

 

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Prefácio – por Teresa Manjate

de terra, vento e fogo é o novo livro de Lica Sebastião. É o terceiro livro de poesia repleto de imagens fáceis e difíceis, dolorosas e tranquilas, numa luta não só individual, como também na busca de caminhos novos ou renovados de uma nova maneira de escrever e fazer escorrer tinta na poesia moçambicana.

É uma responsabilidade fazer o prefácio de um livro com grande qualidade e projecção linguística, mas sobretudo lírica, quanto a esta nova obra de Lica Sebastião, de terra, vento e fogo.

Para título ela escolhe três dos quatro elementos da Natureza que os gregos para quem a origem da matéria era atribuída a quatro elementos diferentes: o fogo, a água, a terra e o ar. Ela escolhe três porque o quarto, a água, de forma sorrateira invade os versos e se impõe.

De forma dissimulada, melhor, não enunciada, a água, o quarto elemento da Natureza, ganha forma e completa o círculo, como vemos através de palavras como: o rio, o suor, as lágrimas, “A minha hidrografia instável”, “Não quero ser o Douro, /nem o Zambeze, /nem o Mississipi”.

A Natureza, aos olhos e por sugestão dos gregos, e como anuncia Lica, fica completa, una e indissolúvel.

Natureza completa. A terra. Lica é uma mulher africana. Na nossa filosofia, a mulher é a terra, onde se coloca a semente que germina. Portanto, a mulher é o receptáculo do amor, da dor e da força da reinvenção da vida. A continuidade. É na terra onde as pegadas ficam e marcam a passagem. Continuidade e passagem? Na verdade, a passagem, morte, como vulgarmente se diz, na cultura africana, é marca da continuidade. Ficam as pegadas na “areia da praia”, ficam as pegadas na vida de quem fica de múltiplas maneiras.

Natureza completa. Fogo. Fogo é combustão. É paixão que os poemas exploram à exaustão.

Natureza completa. O vento. O ar respirado e as palavras sussurradas. O ciclo fecha-se. A Natureza vibra. A vida exubera. Em África, a vida é assim: intensa. E a poesia de Lica capta esse esplendor, essa vida que não questiona: simplesmente existe, dinâmica e complexa.

Os textos fluem com naturalidade como uma conversa à volta da fogueira ou debaixo da mafurreira ou da mangueira, onde os namoros acontecem no discorrer de palavras e emoções. E por fluírem naturalmente, tornam-se mais verdadeiros e mais consistentes.

De uma doçura ímpar e intimista, as palavras vão-se entrelaçando, pintando no papel sinais vibrantes que iluminam a alma e nos ligam à nossa ancestralidade musicada e ritmada. Os poemas de Lica esgravatam emoções, vidas e tempestades: um amor vivido e interrompido, afinal uma vida que a lógica da Natureza exige como continuidade. Esta é uma africanidade que pugna por reconhecimento sem as setas da desigualdade, mas da mesmeidade na afirmação de uma vida ligada à terra-mãe, com tambores festivos, porque o momento é de dor, numa linguagem que as montanhas conhecem e os mares entendem. É uma africanidade universal, com o seu cheiro, o seu brilho, o seu gosto e o seu gozo. Assim é porque as pessoas, homens e mulheres, deste planeta – em África, na Europa, nas Américas e noutros lugares que a Geografia indica em mapas ou de outras maneiras mais sofisticadas – amam, são amadas, despertam e descobrem que são simplesmente humanos/as.

Ao contrário do que diz o jornalista Jean-Arsène Yao (2008), “A literatura africana, anticolonial nos seus começos, está a distanciar-se da veia realista e procura contar as turbulências do dia-a-dia africano através de uma narrativa metafórica. O africanismo já não é o único horizonte da nova geração de escritores à procura da universalidade. (…). Alentada pelos seus êxitos entre os leitores ocidentais, a nova geração de escritores de África negra opta por um estilo cada vez mais universal, o que permitiu a sua integração nos catálogos dos editores franceses.” Eu diria que o lirismo africano, na sua forma mais sublime, como Lica desenha, que explora a Natureza à sua volta e a emancipa – realidade tão reivindicada pela “negritude” através da afirmação da identidade negra e da sua cultura que introduziu o mundo negro no campo literário, o amor e a dor da partida e da morte, embora não cantados tão intensamente (na escrita) – são a alma da literatura africana, a marca fundamental da negritude e da africanidade.

Lica Sebastião é africana e, nesta obra, manifesta esta africanidade através da dor e da perda, tão presentes nas nossas vidas, na nossa História.

Teresa Manjate

Maputo, setembro de 2015.

Citar como:

 MANJATE, Teresa. “Prefácio”. In: SEBASTIÃO, Lica. de terra, vento e fogo. Ilustrações de Amanda de Azevedo. São Paulo: Kapulana, 2015. (Série Vozes da África).  http://18.231.27.148/prefacio-por-teresa-manjate/

 

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Os desafios dos EUs em Lica Sebastião – por Teresa Manjate

Não é a primeira vez que converso com a Lica, nesta dimensão: a dimensão da escrita artística, em poesia lírica. Das vezes que tal aconteceu, ficou sempre presente a ideia de uma revelação quase biográfica. Melhor, autobiográfica.

A poesia lírica, segundo as teorias, define-se normalmente como aquela que manifesta vocação para exprimir sentimentos, estados de espírito do sujeito na sua “interioridade” e em “profundidade”, e não a de representar o mundo “exterior” e “objectivo” (Carlos Reis, O Conhecimento da Literatura: 1997: 305, Aguiar e Silva, A Teoria da Literatura: 1988: 582). O lirismo confunde-se com a poesia “pessoal” e mesmo “intimista”, e privilegia, assim, a introspecção meditativa. A subjectividade lírica é, por natureza, introvertida e egocêntrica. Talvez esta seja então a razão que me leva a pensar nos poemas de Lica como autobiográficos, se calhar não de forma tão categórica como sustenta Kate Hamburger em The Logic of literature (1973: 276-278). Porém, a sua feição pessoal e intimista, a profundidade dos temas e da linguagem levam-me a dizer: esta é a parte da Lica que emerge e sai do coração e das experiências não partilhadas para o papel.

Esta assumpção hipotética de que os textos serão de feição autobiográfica, aparentemente peremptória, é deveras tímida e em nada categórica, na medida em que é conflitante com aspectos a nível teórico – retórico, semiótico e fenomenológico.

A nível teórico, entende-se que no universo da criação literária, o autor como pessoa está ausente, e o “eu” é um puro sujeito da enunciação, é uma voz e uma identidade criada, que só emerge de forma condicionada, isto é, só na vida de um texto literário. Deste facto decorre o princípio de que só pode haver, a rigor, distinção entre o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado. Assim, a constituição de um sujeito diferente do sujeito referencial, a noção de sujeito lírico abre-se para uma análise do texto poético deliberadamente distinta das perspectivas biografistas.

Partiste e eu fiquei,

um vazio desconhecido.

E as noites?

O relógio arrasta as horas…

“Eu fiquei” associado ao vazio/ as noites (momento privilegiado para a introspecção e para a solidão) sugerem o fechamento do ego em si mesmo. Esta reflexão justifica-se pelo facto de Lica escrever uma poesia subjectiva, marcada pela interiorização, isto é, com propensão eminentemente egocêntrica (Carlos Reis: 314), que coloca no centro um determinado universo de um eu, numa captação sensorial que favorece a configuração de um universo íntimo eivado de emoções e experiências afectivas.

No plano retórico, as figuras de linguagem constroem uma “dupla referência” – ou, ainda, uma “referência desdobrada”. Com efeito, e de modo mais geral em todas as figuras, a significação literal não desaparece; ela manifesta-se por detrás da significação figurada, coexiste com ela. A “noite” ou o “Sol”, para lá de parte do dia sem luz solar, ou o astro-rei, na sua “dupla referência”, convoca estados de espírito, “estados da alma”, construção de sentidos, múltiplos. Nos diferentes níveis de sentido, as figuras autorizam leituras multíplices, de tal forma que a consciência dos leitores do poema lírico desloque a sua percepção de um lado a outro, oscilando entre os sentidos, num movimento contínuo de busca de analogias, de ligações que as experiências individuais amalgamam. As falas do Sujeito de enunciação apelam para uma viagem que procura buscar as suas experiências possíveis combinadas com as do Sujeito leitor. Por isso se procura encontrar, de algum modo, as experiências do Sujeito por detrás da criação daquela voz que expõe sentimentos, experiências e visões.

No plano semiótico, todo o texto tem um conteúdo, lugar dos conceitos, ou “onde o texto diz o que diz”, e uma expressão, grosso modo, a parte “material” ou sensível de um texto, que sustenta os conteúdos. A substância da expressão abrange desde as palavras e a combinação delas como forma de sugestão do estado da alma e dos sentimentos expressos. A forma diz respeito à maneira como os elementos citados acima estão combinados, que tem como proposta formar e sugerir uma mensagem. Já no plano de conteúdo, é o significado transmitido, é toda a mensagem implícita do conjunto dos elementos que compõem o texto.

No plano fenomenológico, essa dupla referência parece corresponder a uma dupla intencionalidade por parte do Sujeito, ao mesmo tempo voltado para si mesmo e para o mundo, articulando, ao mesmo tempo, o singular e o universal. Deste modo a relação entre a postulação autobiográfica e a ficção passa por essa dupla intencionalidade. Há uma sugestão de uma dualidade do Sujeito lírico com o Sujeito empírico, universalizando-o. Segundo Dominique Combe, na comunicação lírica, trata-se antes de uma tensão jamais resolvida, que não produz nenhuma síntese superior – uma “dupla postulação simultânea”.

Às vezes os meus versos

são um jogo semântico

com os signos desta língua que eu amo

e outra não sei.

 

Outras vezes os versos não mais são

que uma alegria momentânea.

 

Mas outras sai-me dos dedos uma dor tal

a que só a lembrança do teu sorriso vedado

sobrevém.

A inscrição de modalidades de consciência [neste caso de escrita de versos, em particular], em termos fenomenológicos, cria o jogo entre o biográfico e o fictício, entre o singular e o universal; sugere o intencional que se impõe e que dilui o poder do sujeito lírico e, simultaneamente, do sujeito empírico.

Não há, em rigor, uma identidade do Sujeito lírico. O Sujeito lírico não poderia ser categorizado de forma estável, uma vez que ele vive precisamente de um incessante movimento do empírico em direcção ao transcendental. Vale dizer então que o Sujeito lírico, levado pelo dinamismo da ficcionalidade, não está acabado, está em permanente constituição, numa génese sempre e reiteradamente renovada pelo texto lírico, fora do qual ele não existe. O Sujeito lírico cria-se no e pelo poema, que tem valor performativo. Essa génese contínua impede, certamente, de definir uma identidade do sujeito lírico, que se fundaria sobre uma relação do mesmo ao mesmo, num jogo de espelhos que empresta uma identidade ao sujeito empírico.

O meu sexo é uma casa com nuvens

e finíssimos cursos de água.

Tu esperas à porta e és o sol.

Atravessas-me e fazes uma dança frenética

e eu desaguo,

grata.

De uma voz queixosa e pudica quase bíblica [como numa Cantiga de Amigo, em que o amado parte] e a solidão e a incerteza de um Sujeito angustiado, passa a registar uma voz sedenta e exigente de amor carnal vivo, no mínimo conhecedor “dos pecados da carne”.

Há um conceito que une os dois polos do “eu” na poesia lírica que tanto a abordagem retórica como a abordagem fenomenológica levantam: é saber como a identidade e a alteridade se revezam: afinal o “eu” é um outro – como o sujeito que se enuncia como indivíduo e, simultaneamente, se abre ao universal por meio da ficção – e não somente porque os poetas se afirmam, enquanto homens do universal. De outra maneira, seria a representação do mundo fechado a si mesmo sem leituras, sem discussão, sem apelo a outros eus, se calhar a “vontade” última de quem enuncia.

O conceito da ipseidade de Ricoeur que tenta esclarecer o facto complexo de um indivíduo ser ele mesmo, dotado de uma identidade própria e, por conseguinte, diferente de todos os outros indivíduos. É, na verdade, uma questão de identidade, que, coloca a presença a si mesmo, sem postular a identidade. Para Paul Ricoeur, a ideia de uma ipseidade[1] do sujeito lírico assegura, apesar de tudo, sob suas múltiplas máscaras, certa unidade. Porém, tal unidade do “eu” na multiplicidade dos actos intencionais, essencialmente dinâmica, está em constante devir, isto é, o “sujeito lírico” não existe, ele é uma criação. Ou seja, é um termo que se refere, dentro do contexto da teoria da literatura, à análise de textos escritos em verso; pode ser entendido como a expressão de um “eu” do autor ou de um “eu” fictício, potencializando dinâmicas que conferem, naturalmente, duas avaliações influentes na análise literária. O “eu” lírico, sendo embora uma construção textual, dirige, no entanto, a atenção sobre o sujeito real de quem fala.

Escrevesse eu um livro

e não relataria dramas de amor

nem de desapontamento.

 

Pediria sim que a vida renovasse

o brilho nos meus olhos míopes,

como no dia em que te reencontrei.

“Escrevesse eu um livro…” [Escrito está]. Provavelmente, o mais importante é entender a função que o irreal exerce na realidade que lhe é extrínseca; essa “realidade irreal” proporciona ao sujeito poético um carácter autónomo, visto que se arquitecta a partir de um escritor que lhe conferiu emoções e traços que lhe darão autoridade enquanto Sujeito artístico do enunciado, índices esses que podem, ou não, ser equivalentes à personalidade do autor da obra de arte.

Carlos Reis afirma a dado passo que o sujeito poético, constituído no contexto do processo de interiorização, é uma entidade a não confundir com a personalidade do autor empírico. No entanto, admite que o autor empírico pode projectar sinuosamente no mundo do texto experiências realmente por si vividas, assim como também é certo que a voz que nesse texto “fala” com o leitor pode ignorar (e também subverter, metaforizar, etc.) essas experiências (1995: 316).

“Falar” com Lica leva-me sempre a pensar na (in)definição da possível coincidência entre o “eu” lírico e o “eu” empírico da poetisa. O problema neste tipo de análise está na ressurreição dos fantasmas antigos do conflito incontornável entre verdades e verossimilhanças, que cria as tensões entre julgamentos que delineiam psicologicamente e comprometem, ao fazer emergir (des)valores que possam sobrepor-se a uma imagem conscientemente construída. Compreende-se que o mundo literário exterioriza, a partir de técnicas artísticas, uma “irrealidade”, que enquanto “real” produz emoções bem como juízos de valor, que a sociedade inscreve e outorga, julga.

[1] Soi meme comme un autre, Seuil, 1990.

Teresa Manjate

Maputo, 26 de agosto de 2015.

Citar como:

 MANJATE, Teresa. “Os desafios dos EUs em Lica Sebastião”. Ensaio in: SEBASTIÃO, Lica. de terra, vento e fogo. Ilustrações de Amanda de Azevedo. São Paulo: Kapulana, 2015. (Série Vozes da África). http://18.231.27.148/os-desafios-dos-eus-em-lica-sebastiao-de-teresa-manjate-kapulana/

 

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Lica Sebastião: a musa que não se cala? – por José dos Remédios

Outras margens

Sem muitas convicções a este respeito, afinal, cada ser humano é um universo complexo,parece-me que o escritor angolano, Pepetela, tem razão: “toda a mulher gosta de ser a musa de um poeta”, ainda que esse poeta não escreva versos e nem declame poemas líricos ou de qualquer outra espécie. Toda a mulher deve gostar de ser ou parecer aquela entidade angelical que ilumina, por exemplo, a obra de um White e de um Noronha, o monstro do qual nos esquecemos numa atitude quase que herética.

Pensando naquela afirmação de Pepetela, li o novo livro da poetisa moçambicana Lica Sebastião, “De terra, vento e fogo”, lançado sob a chancela da Kapulana, uma editora brasileira que se tem esmerado na publicação de autores moçambicanos no Brasil. E, tenho de dizer isto, não poderia ter terminado 2015 com um sorriso tão eufórico quanto o que me proporcionou à leitura daquele livro. Confesso, há muito que não lia um livro de poesia de um autor moçambicano que me despertasse sensações tão agradáveis. E não faltaram razões para o efeito. Nesta viagem pela escrita, a autora de “Poemas sem véu” amadureceu e com isso trouxe uma poesia que nos devolve uma certeza antiga, a de que nesta cidade vivem poetas. À parte a lisonja, que sempre oculta interesse na percepção de Balzac, no seu “Eugénia Grandet”, com a subtileza dos seus versos, Lica Sebastião faz da sua escrita um espaço onde se mescla a vontade e a dor, resultante de expectativas que não se concretizam. Por isso, invertendo os papéis, já que as circunstâncias a impelem de ser a musa que toda a mulher gosta de ser, ela mesma, melhor, as musas que não se calam pela autora criadas, expressam sonhos como metáforas das mulheres que se debatem com o vazio de não terem consigo o poeta que as façam loas. Diante desse cenário, “De terra, vento e fogo” aparece como um livro no qual os versos expressam, no máximo, alegrias momentâneas: “Às vezes os meus versos/são um jogo semântico/ com os signos desta língua que eu amo/e outra não sei./ Outras vezes os versos não mais são / que uma alegria momentânea” (p. 17). É dessa alegria efémera que aparece uma consequência, a frustração provocada pela ausência: “A mim frustra-me/ esta estranha sensação/ quando não estás perto (p. 19).

Portanto, este livro que tem no seu epicentro uma poesia que se tece em função de desejos fracassados, consequência do que se sente e do que não se tem, traz consigo a passividade a que o eu feminino muitas vezes está sujeito. Além disso, apropriando-se dos recursos naturais, à laia de um “Lidemburgo blues”, de Luís Carlos Patraquim, Lica Sebastião introduz na obra a beleza do desejo feminino que seduz e enlouquece: “Não quero ser o Douro,/nem o Zambeze,/ nem o Mississipi./ Sou apenas um rio de vida/ com as minhas águas a murmurejar o teu nome, incessantemente” (p. 53).

“De terra, vento e fogo” não deixa de ser um livro de angústias, um livro que nos mostra que a poesia nasce do nada e sobrevive a tudo, claro, se for escrito com elegância e esmero como é o caso.

José dos Remédios

Maputo, 01 de junho de 2016.

In: O país.  Moçambique. 06 jan 2016, 8:53.

http://opais.sapo.mz/index.php/opiniao/160-jose-dos-remedios/39037–lica-sebastiao-a-musa-que-nao-se-cala.html

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/de-terra-vento-e-fogo/

 

 

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O cordel a perpetuar o amor de Pedro e Inês – por Flávia Corradin

Francisco Maciel Silveira dá a lume, mais uma vez, um título, veiculado no formato de cordel, ainda dentro dos pressupostos do Projeto Autor por Autor1. Nesta investida, trata da decantada história de amor entre Pedro2 e Inês de Castro3, tema há mais de trezentos anos invadido pela literatura de diferentes países, bem como por outras artes, dentre as quais se destacam a pintura, a escultura, para não falarmos do cinema.

O Autor dedica-se ao ensino há mais de quarenta anos, tendo trabalhado no, hoje chamado Ensino Médio, para fincar seus pés no ambiente universitário, dedicando especial atenção à Literatura, o que lhe dá cabedal para dialogar com conteúdo tão celebrado, trazendo-lhe, entretanto, novas achegas no âmbito formal.

Estampada numa fôrma popular, como é o cordel, Francisco Silveira, parte, entretanto da estrutura da epopeia, ao pedir camonianamente apoio à musa do cordel. Assim, rebaixa a elevada oitava rima, com versos decassílabos, característicos das epopeias clássicas, às sextilhas, estrofes de seis versos, em octossílabos, seguindo um esquema rímico variável “pra não cansar a audição”, sem, no entanto, descurar da estrutura veiculada pela maioria das epopeias modernas, em que encontramos a Introdução (dividida modernamente em Proposição, Invocação e Dedicatória), a Narração e o Epílogo.

Dialogando com as epopeias clássicas, sem repeti-las, Silveira inicia seu cordel com a Invocação, em que apresenta uma espécie de lamento ao pedir a unção e mesmo o apadrinhamento do Senhor para que o leitor reconheça seus versos. Estamos, pois, diante, de mais uma inversão, quando o maravilhoso pagão, próprio das epopeias, é substtituído pelo universo cristão, reiterado no apelo à Virgem Maria e aos Anjos do Céu para que lhe deem inspiração, capacitando-o a cantar o Amor que vence a morte,/vivo além de sua duração.

No Argumento, Silveira apresenta o assunto a ser cantado, bem como os heróis de seus versos, conforme já antecipado no subtítulo, onde se lê:

ABC

do

triste e comovente amor

de

Pedro por Inês,

a triste e mesquinha

que,

depois de morta,

foi Rainha

e até hoje reina na memória e no coração do povo.

Não esquecendo o universo intertextual, o Autor pessoanamente indica que é a hora de iniciar a Narração, além de apontar para a raiz didática do texto sugerindo ironicamente que

(Se alguma palavra rara,

retirada do relicário,

se arcaísmos, minha cara,

refogem do uso diário,

saiba que a todos ampara

essa burra do dicionário.)

 

A Narração apresenta a história do “amor que, contra tudo e todos,/acabou virando infração./Infração contra as leis de Deus,/infração contra as leis da grei”, apontando ainda intertextualmente que a sandice dos amantes acabou por levá-los a um amor de perdição. Sem se afastar do relato histórico, Silveira acompanha diacronicamente os fatos, desde que Pedro viu a aia de D. Constança pela primeira vez em Alenquer até o cortejo fúnebre que a trasladou de Coimbra a Alcobaça, tornando-a rainha depois de morta. Abre, contudo, um parêntesis, para tratar da aporia que atormenta o Rei Afonso IV, autor da sentença de morte contra Inês, uma vez “que tudo e mais sempre faria/em defesa da dinastia.”.

Xico Maciel (pseudônimo? heterônimo do Autor/Professor Francisco Maciel Silveira?) dedica também atenção à relação homossexual de Pedro com seu escudeiro Afonso Madeira, contra quem inflige um dos muitos castigos ─ haja vista o que fará com os matadores de Inês ─, que lhe justificam o epíteto de cru ou cruel, mandando castrá-lo, depois de descobrir sua relação com uma dama da corte casada, conforme já apontara a crônica de Fernão Lopes, paradigma primeiro desta e de muitas outras histórias. Devemos salientar ainda que os desvarios sociopatas e a necrolatria de Pedro estariam radicadas no fato de as monarquias europeias, notadamente a portuguesa, tecerem relações endogâmicas, que levavam a toda sorte de degenerescência.

Chegamos ao Epílogo do ABC do triste e comovente amor de Pedro por Inês, um originalíssimo, se assim podemos denominá-lo, cordel épico. Aqui, sem descurar do apelo intertextual, Silveira ainda dirigindo-se à Leitora, trabalha a ideia do amor eterno, dialogando seja com Camões, seja com Vinícius de Moraes. O amor de Pedro e Inês, talvez tenha suplantado aquele inscrito nos sonetos camonianos ou vinícius-moraesianos, na medida em que, não sendo eterno apenas enquanto durou, prevaleceu à morte (ou será que só se tornou eterno devido à morte da protagonista?), conforme inscrito no túmulo de Pedro, em Alcobaça A:E:AFIN:DOMUDO ─, colocado estrategicamente em ângulo com o de Inês, de modo a que eles possam estar frente a frente, quando se encontrarem na vida eterna.

Assim, mais uma vez, por intermédio de um veículo popular, o Autor trabalha conteúdo canônico, dialogando intertextual e criticamente com a História, com a Literatura, suscitando no Leitor(a), esperamos, o desejo de explorar as sugestões aí contidas, de modo a que o amor de Pedro e Inês continue se perpetuando na memória dos brasileiros, portugueses, espanhóis, franceses, ingleses… Enfim, um caso de amor inesquecível… até o fim do mundo.

Abril/2015

Profa. Dra.Flavia Maria Corradin
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo

Citar como:

CORRADIN, Flávia Maria. “O cordel a perpetuar o amor de Pedro e Inês”. Apresentação in: SILVEIRA, Francisco Maciel. O caso de Pedro e Inês: Inês(quecível) até o fim do mundo [ABC de Literatura]. Ilustrações de Dan Arsky. São Paulo: Kapulana, 2015. (Série Intersecções Literárias). http://18.231.27.148/o-cordel-a-perpetuar-o-amor-de-pedro-e-ines-flavia-corradin-kapulana/

Referências

[1] O Projeto Autor por Autor, dirigido por Francisco Maciel Silveira e coordenado por Flavia Maria Corradin, está vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo e objetiva o ensino da Literatura através de textos teatrais, poéticos ou ficcionais cujo tema e/ou motivo trate(m) a vida e obra de autores portugueses.

[2] Pedro I (Coimbra, 8 de Abril de 1320 – Estremoz, 18 de Janeiro de 1367) foi o oitavo Rei de Portugal. Mereceu os cognomes de O Justiceiro (também O Cruel, O Cru ou O Vingativo), Era filho do rei Afonso IV e sua mulher, Beatriz de Castela. Pedro I sucedeu a seu pai em 1357.

[3] D. Inês de Castro (Galiza, 1320 ou 1325 – Coimbra, 7 de Janeiro de 1355) foi uma nobre galega, amada pelo futuro rei D. Pedro I de Portugal, de quem teve quatro filhos. Foi executada às ordens do pai deste, o Rei D. Afonso IV.