Editora Kapulana lança no Brasil o livro de memórias de Wole Soyinka ‘Aké: os anos de infância’

Wole Soyinka, nascido na Nigéria, foi o primeiro negro africano a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986, e “Aké: os anos de infância” está classificado entre os “12 melhores livros africanos do século XX”.

A Kapulana, editora voltada para a publicação e divulgação de obras de autores brasileiros e estrangeiros, com destaque para literaturas africanas e foco em temas marginais, lança em novembro de 2020 o livro de memórias do premiado escritor nigeriano WOLE SOYINKA. Trata-se de AKÉ: OS ANOS DE INFÂNCIA, publicado originalmente em 1981. O livro foi classificado entre os “12 melhores livros africanos do século XX” (ASC Library).

Aké: os anos de infância, do nigeriano Wole Soyinka, é uma autobiografia que transcende as biografias tradicionais centradas na pessoa do narrador. Ao relatar seus dias da primeira infância, sempre rodeado de livros, Soyinka nos presenteia com um retrato de época marcado por acontecimentos, conversas, sonhos e preocupações do narrador e de todos os que ele observa ou que com ele convivem. A chegada do rádio e da eletricidade à casa de Wole, a visão do primeiro avião em Aké, a ameaça de Hitler e a luta das mulheres por liberdade são fatos acompanhados das reflexões de uma criança curiosa que chama o pai de “Ensaio” e a mãe de “Cristã Impetuosa”. Uma atenção especial é dada pelo autor nigeriano, de origem Iorubá, às expressões da cultura local, como as canções, comidas, bebidas, vestuário e religião, em um país colonizado pelos ingleses.

Leia alguns trechos:

“Eram essas as bruxas de que nos falavam? Eu nunca tinha visto seios tão achatados, não parecia humano. Mas quando olhei de novo para as bandejas, reconheci cascas e raízes parecidas com as que meu pai comprava e enfiava em garrafas e jarros, onde elas ficavam mergulhadas por dias. Algumas nós tomávamos para certas doenças. Outras nós bebíamos em períodos comunicados misteriosamente aos nossos pais. E havia ainda mais cascas, cultivadas em panelas enormes. […]”

“Todos os avós eram Papa e Mama – e de algum jeito nós falávamos essas palavras em letras maiúsculas. Lá as vigas eram esfumaçadas, despidas do forro de teto usual. Havia objetos nos cantos do telhado, envoltos em folhas, em couro. Alguns não eram muito misteriosos, já que Papa frequentemente remexia esses embrulhos, uns que pareciam cobertos por cem anos de seca. Mas deles não saía nada mais estranho do que nozes-de-cola ou rapé.”

“Eles pareciam conversar em um novo idioma, não que falássemos iorubá com tanta desenvoltura. Ao redor de suas fogueiras no quintal, esse som enchia a noite como uma cantiga esquisita e cúltica, não muito diferente do canto dos ogboni que às vezes chegavam a nossa casa vindas de suas reuniões no Aafin.”

Saiba mais sobre Wole Soyinka: http://www.kapulana.com.br/wole-soyinka/
Saiba mais sobre o livro:  http://www.kapulana.com.br/produto/ake-os-anos-de-infancia/

[28 de setembro de 2020]

Faleceu a escritora SÍLVIA BRAGANÇA (1937-2020)

Sílvia Bragança, poeta, pintora e educadora, nascida em Goa e há muitos anos vivendo em Moçambique, morreu ontem, dia 21 de setembro de 2020.

É com enorme tristeza que a Editora Kapulana noticia o falecimento, aos 83 anos, da artista  e professora Sílvia Bragança, na última segunda-feira (21/9). A Kapulana publicou, em 2015, no Brasil, seu livro infantil Sonho da Lua, em que a autora revela grande sensibilidade no uso da palavra, encantando as crianças. A edição brasileira foi ilustrada pela artista Amanda de Azevedo. Na ocasião da edição do livro, Sílvia acompanhou todo o processo de produção editorial brasileiro, dando opinião sobre o projeto gráfico e as ilustrações que acompanham o texto.

A edição original foi publicada em 2010, em Moçambique, pela Brinduka, e contou com ilustrações da própria Sílvia e de seus sobrinhos Ariel e Luciana Dinis.

A Kapulana sente muito a perda de tão incansável educadora, na certeza que seu legado estará sempre entre nós e entre as crianças.

[22 de setembro de 2020]

Conheça mais  sobre a vida e a obra do autora: http://www.kapulana.com.br/silvia-braganca/

Conheça o livro Sonho da lua: http://www.kapulana.com.br/produto/sonho-da-lua/

 

TSITSI DANGAREMBGA é finalista no The Booker Prize 2020

Tsitsi Dangarembga, escritora do Zimbábue, é finalista em prêmio internacional altamente reconhecido.
 
A autora de Condições Nervosas, publicado pela Kapulana no Brasil, é finalista no The Booker Prize 2020 , com o livro This mournable body.
 
O livro finalista faz parte de uma trilogia escrita por Tsitsi Dangarembga, a saber:
 

1988 – Nervous conditions (Condições nervosas. Ed. Kapulana, 2019)
2006 – The Book of Not
2018 – This mournable body

 

[15 de setembro 2020]

 

Prof. FRANCISCO NOA em webinar sobre Literaturas Africanas de Língua Portuguesa

Palestra do professor moçambicano Francisco Noa – “O poder da representação na literatura colonial: o caso de Moçambique” – ocorrerá em seminário promovido pela Unifesp e pela UAB.

É com grande honra que a Editora Kapulana divulga o evento online (webinar), promovido pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e UAB (Universidade Aberta do Brasil), Literaturas de Língua Portuguesa – Identidades, territórios e deslocamentos: Brasil, Moçambique e Portugal, diferentes olhares, que contará com a presença do renomado intelectual e escritor moçambicano Francisco Noa, no dia 24 de setembro próximo, às 18h, que irá proferir palestra sobre “O poder da representação na literatura colonial: o caso de Moçambique”.

Durante o mês de setembro, a Kapulana disponibilizou os livros de autoria do Prof. Noa com desconto de 30% em sua loja online:

  • Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária
  • Perto do Fragmento, a totalidade
  •  Uns e outros na literatura moçambicana

Loja online da Kapulana: http://www.kapulana.com.br/cientificos-e-periodicos/

Saiba mais sobre Francisco Noahttp://www.kapulana.com.br/francisco-noa/

O eventohttp://www.kapulana.com.br/eventos/webinar-com-prof-francisco-noa/

Inscrições, até 20/09/2020 (somente os inscritos receberão certificados): https://sistemas.unifesp.br/acad/proec-siex/index.php?page=INS&acao=2&code=18572

[15 de setembro 2020]

A oficina de Nazir Ahmed Can em “campos, espaços” da escrita moçambicana, por Rita Chaves

Seis anos após o lançamento, em Moçambique, de Discurso e poder nos romances de João Paulo Borges Coelho, o primeiro trabalho exaustivo sobre o ficcionista moçambicano que acaba de ser publicado pela Kapulana, Nazir Ahmed Can entrega ao leitor brasileiro O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio. Durante esse período, a capacidade analítica de seu autor materializou-se em livros coletivos e em algumas das melhores revistas acadêmicas do Brasil e não só, revelando um leitor profundamente interessado na literatura do continente africano. Foi também esse o tempo que do território moçambicano, solo inicial de suas pesquisas, ampliou seu olhar arguto e sensível na direção de países como Angola e Cabo Verde, incorporando ainda espaços pouco palmilhados entre nós como  alguns países situados no Oceano Índico. Assim, em suas análises, nomes como Ondjaki, Ruy Duarte de Carvalho, Mario Lúcio de Sousa e Ananda Devi vieram se associar a João Paulo Borges Coelho e outros moçambicanos como Luís Bernardo Honwana, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Paulina Chiziane, Ungulani Ba Ka Khosa e Helder Faife, alguns dos nomes aqui visitados.

Nesse movimento, o pesquisador habituado a romper fronteiras físicas transitou por diferentes gêneros literários para investigar problemas fundamentais da produção africana, menos empenhado em encontrar respostas do que no compromisso de formular questões – marca que define uma qualidade do intelectual contemporâneo de seu tempo. Nesse volume em que volta a se concentrar em Moçambique, notamos que tal regresso ao lugar de partida articula-se a uma notável capacidade de renovar o modo de percebê-lo. A partir do(s) conceito(s) de espaço, Nazir Ahmed Can avança no processo de análise e interpretação de textos que espelham e constroem as intrincadas relações entre ficção e realidade e convida-nos a uma viagem em que a mobilidade é, mais que um objeto, um modo de ver o mundo, o literário e aquele que catalisa a escrita das tantas páginas examinadas.

 

Na escolha do conceito de campo intelectual, cunhado por Pierre Bourdieu e muito utilizado no domínio das ciências sociais, marca seu apreço pela interdisciplinaridade como método, mas sabe evitar sua utilização como um recurso meramente terminológico para o exercício metalinguístico tão a gosto de algumas modulações críticas. Ao contrário, fugindo à tautologia, suas análises têm no fenômeno literário um cais de partidas e chegadas, expressando o firme propósito de captar vários movimentos para focalizar com pertinência e respeito inclusive um repertório ainda pouco divulgado como o identificado com o símile campo. Para isso concorrem o seu conhecimento do lugar, as suas vivências na realidade viva das ruas que compõem o espaço dos escritores e seus personagens. A pesquisa no terreno iniciada há mais de dez anos está na base de uma experiência capaz de facultar ao leitor brasileiro o acesso a todo um universo inexplorado, sem a trivial convocação à bênção paternalista que traduz alguns de nossos equívocos na relação com as literaturas africanas.

No corpo a corpo com a escrita dos autores visitados, reconhecendo sempre que a literatura é a arte da palavra, definição banal mas às vezes ignorada por tantos estudiosos, ele perscruta a linguagem e seus artifícios na tarefa de desvelar os projetos artísticos que constituem a literatura no país. A concepção de insílio surge como uma chave para observar alguns dos impasses vividos pelos escritores moçambicanos, e, sobretudo, compreender como os dilemas vividos no tempo e no espaço que respiram são operados na estrutura de seus textos. Um quadro assim configurado explica a presença da tradução como um procedimento que se impõe na mediação de mundos misturados e mesmo contraditórios. Sem diluir a contradição que define espaços socioculturais marcados pela diferença e pela desigualdade, ela favorece hipóteses de diálogos entre as pontas, recorda-nos o autor.

Com uma fina seleção de instrumentos de análise e a atenção posta em referências teórico-críticas, como Edward Said, Bernard Mouralis e Antonio Candido, por exemplo, ele procura também captar as redes que envolvem a literatura como instituição, identificando o seu lugar na dinâmica social e política de um estado nacional de formação recente e convulsionada. Contrapondo-se aos procedimentos meramente judicativos e aos apelos à celebração, Nazir Ahmed Can defende o direito à exigência, a que em 1994 já se referia Ruy Duarte de Carvalho. O processo de descolonização do conhecimento e do imaginário no território das chamadas “Africanas” tem em sua reflexão uma forte aliança porque nela estão inscritos os sinais da maturidade desejada por aqueles que nesse barco viajam desde há muito ou em tempos mais recentes.

São Paulo, 10 de junho de 2020.

Rita Chaves
Universidade de São Paulo.

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Citar como:

O ARTIGO:
CHAVES, Rita. “A oficina de Nazir Ahmed Can em ‘campos, espaços’ da escrita moçambicana”. Prefácio: In: CAN, Nazir Ahmed. O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio. São Paulo: Kapulana, 2020. [Ciências e Artes] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/a-oficina-de-nazir-ahmed-can-em-campos-espacos-da-escrita-mocambicana-por-rita-chaves/>

O LIVRO:
CAN, Nazir Ahmed. O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio. São Paulo: Kapulana, 2020. [Ciências e Artes] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/o-campo-literario-mocambicano-traducao-do-espaco-e-formas-de-insilio/>

O pó e a fissura, os muros e a sombra… Quantos tempos cabem na rua?, por Nazir A. Can

Publicado pela primeira vez em 2006, mais de três décadas depois da independência moçambicana, Crônica da Rua 513.2 reconstrói esse período com a distância suficiente para se demarcar da justificada euforia e incidir na contradição que qualquer temporalidade transitória abriga. Sem apresentar um herói, que iria contra o tom antiépico deste romance, e ambientado em Maputo, cenário raramente percorrido pela prosa moçambicana, João Paulo Borges Coelho avalia o modo como uma rua (simples e complexa) vive o tempo (belo e conturbado) da passeata revolucionária. O título, de resto, sintetiza o programa da obra: aliar o pequeno espaço (da rua) ao imenso tempo perdido (da crônica).

Também no “Prólogo: sobre os nomes e a rua” é possível notar o relevo dado a três elementos decisivos para a formação da identidade: o tempo, o nome e o espaço. Após sublinhar os tons da segregação racial, que hierarquizou pessoas, lugares e culturas no período colonial, bem como a herança armadilhada deixada pelo imaginário que nesse tempo se instalou, o narrador reflete sobre o processo de renomeação das ruas e avenidas retomado pela nova ordem. À valorização de indivíduos que lutaram pela libertação (Samora Machel, Eduardo Mondlane ou Josina Machel), de alguns modelos estrangeiros que com ela tiveram uma vinculação ideológica (Marx, Lenine, Kim Il Sung, Siad Barre) e de algumas datas históricas (25 de Setembro ou 25 de Junho) associa-se o desejo de apagamento das referências do passado. As exceções a essa lógica são os espaços numerados, como a rua 513.2, que se manteve como estava. Vale referir que, neste caso, ao invés do esperado 2.513 (fórmula mais próxima do que podemos encontrar hoje em algumas ruas de Maputo), temos o número 2, da dualidade, colocado no fim. Se seguirmos o sutil convite do narrador para não “desprezar a aritmética” e dividirmos estes números (513 por 2), teremos o seguinte resultado: 256.5. Ou inclusive uma data velada, 25-6-75, dia da independência do país. Tanto no título quanto no prólogo, portanto, se articulam algumas das principais estratégias da obra: a metonímia, a seleção onomástica, o jogo de inversões simbólicas e a sobredeterminação das coordenadas de existência tempo e espaço.

Seguindo a lógica da exceção, os nomes de várias personagens, como Josefate, Basílio, Valgy, Tito, Judite, Filimone ou Santiago, anunciam o propósito narrativo de se apropriar do texto bíblico. De maneira lúdica, (e) com efeito, o romance problematiza alguns dos postulados do período pós-independência através da imbricação de enunciados que aproximam o discurso socialista da revolução a uma visão teológica do mundo. Assim, depois de anunciar o desejo de transformação de estatuto no ambiente histórico representado (a doxa), o narrador, com base no mesmo material (o nome), sugere a ambivalência forçada que provam as personagens (o paradoxo). Com a partida de uns (portugueses, em sua maioria), a chegada de outros (moçambicanos dos subúrbios, mas não só) e a permanência de um pequeno e hesitante grupo (como o branco Costa e o indiano Valgy) sucedem-se os encontros e os mal-entendidos engendrados no interior de uma experiência coletiva intensa. Procurando desconstruir modelos de ortodoxia através da sátira, o autor investe ainda na criação dos “resquícios do passado”, espectros dos antigos habitantes da rua que, após a revolução, se escondem nas casas com a cumplicidade dos atuais moradores. O antigo PIDE Monteiro (rivalizando a poltrona da sala com o Secretário do Partido, Filimone Tembe), a prostituta branca Arminda (que, sentada na borda da cama, aconselha a nova moradora Antonieta), o mecânico Marques (cúmplice de garagem e de interesses de Ferraz) entre outros, auxiliam João Paulo Borges Coelho a construir os seus já característicos e insólitos limiares simbólicos. Significando tanto um resto (do espaço) como uma fissura (do tempo), o termo “resquício” sugere a contiguidade como traço constitutivo da jovem nação. Além de representarem a dificuldade de controle da heterodoxia popular, todas estas personagens indiciam, devido a sua natureza especular, que a linha que separa a transição da transação é porosa. Em suma, mais do que “pós-colonial”, conceito que nos remeteria a uma ideia romantizada de corte com o passado, estamos diante de uma sociedade ficcional que partilha os seus espaços com o pó colonial.

Com aquela mordacidade que humaniza, embora nem sempre redima, João Paulo Borges Coelho lê as dinâmicas de um tempo que, a sua maneira, também selou a descoincidência entre a austeridade do discurso público e a fluidez dos gestos privados. Entre a euforia de uns, a hesitação de outros, a improvisação de muitos e a melancolia de todos, espelhada nos muros que se agigantam na reta final da narrativa, anunciando possivelmente a voracidade neoliberal dos dias que correm, as relações entre as personagens dão a medida de uma época vivida sob os signos da solidariedade e do sobressalto. Por via de uma cuidadosa escolha lexical, capaz de enlaçar ritmo, imagem e sentido, além da ironia, que assume aqui plenamente as funções pragmática (por acionar a antífrase e a paródia) e estética (favorecendo a conversão do segredo em indício), o autor devolve à ficção aquela virtualidade poética que constrange qualquer afã de linearidade. Talvez por isso, e tal como a árvore da Rua 513.2 que se mantém firme após tantas intempéries, oferecendo sua sombra ao cortejo de indivíduos comuns que por ali circula, este romance resistirá aos humores do tempo.

Que siga a leitura, pois. E que se façam as contas depois.

Rio de Janeiro / Salamanca, 19 de fevereiro de 2020.

Nazir Ahmed Can
Universidade Federal do Rio de Janeiro / FAPERJ / CNPq / CAPES.

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Elaborado entre 2019 e 2020, este texto contou com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ (Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES/PrINT) – Finance Code 001, Projeto 88887.364731/2019-00.
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Citar como:

O ARTIGO:
CAN, Nazir Ahmed .“O pó e a fissura, os muros e a sombra… Quantos tempos cabem na rua?”. Prefácio. In: COELHO, João Paulo. Crônica da Rua 513.2. São Paulo: Kapulana, 2020. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/o-po-e-a-fissura-os-muros-e-a-sombra-quantos-tempos-cabem-na-rua-por-nazir-a-can/>

O LIVRO:
COELHO, João Paulo. Crônica da Rua 513.2. São Paulo: Kapulana, 2020 [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/cronica-da-rua-513-2/>

EDITORA KAPULANA ANUNCIA O VENCEDOR NA CATEGORIA ‘CONTO’ DO ‘SEJA NOSSO AUTOR’ de 2019

NUMA ESQUINA DO MUNDO, de Mário Medeiros, foi o livro vencedor, na categoria ‘Conto’ da edição de 2019 do ‘Seja Nosso Autor’, seleção de obras literárias promovida anualmente pela editora Kapulana.

A coletânea de 12 contos do brasileiro Mário Medeiros, Numa esquina do mundo,  foi a obra selecionada pela Kapulana da categoria Conto para publicação em 2020.

As inscrições para a edição de 2019 estiveram abertas para obras em prosa de ficção (contos e romances).

Os contos, compostos com enorme força narrativa, abrem um leque extremamente diverso de histórias com protagonistas negros em ambientes urbanos, passando da infância à velhice e à morte, do trem ao escritório, das ruas de São Paulo a uma esquina em Paris.

O brasileiro Mário Medeiros é sociólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É autor de obras científicas e de ficção, com destaque para o gênero Conto.

Na categoria Romance, o vencedor foi Bruno Honorato, com seu romance A boca do muro, a ser editado no primeiro semestre de 2020.

Em breve a Editora Kapulana anunciará o regulamento completo da edição do SEJA NOSSO AUTOR 2020, em seu site: http://www.kapulana.com.br/seja-nosso-autor/

Saiba mais:

sobre o escritor Mário Medeiros.
sobre o livro Numa esquina do mundo.

[17 de fevereiro de 2020.]

 

 

MÁRIO MEDEIROS

MÁRIO MEDEIROS, brasileiro, nasceu em São Paulo e, desde 2014, é docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua pesquisa e publicações na área de  Sociologia envolvem temas como os intelectuais negros, o associativismo, o pensamento social brasileiro e a circulação internacional de ideias e pessoas.

É autor de obras teóricas e de obras literárias. Colaborou com contos para o jornal Irohin e para a Revista Lavoura.

Várias de suas obras receberam prêmios ou foram finalistas em concursos organizados por instituições como Prêmio Sesc de Literatura e Prêmio Jabuti. Numa esquina do mundo foi vencedor na categoria “Conto”, na edição de 2019 do processo de seleção Seja Nosso Autor, da Editora Kapulana.

OBRA DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Os escritores da guerrilha urbana: literatura de testemunho, ambivalência e transição política (1977-1984). São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008.
  • A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000). Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013.
  • Polifonias marginais. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2015. [em parceria com Lucia Tennina, Érica Peçanha e Ingrid Hapke]
  • Rumos do Sul: periferia e pensamento social. São Paulo: Alameda Editorial/Fapesp, 2018. [em parceria com Mariana Chaguri]
  • Gosto de amora: contos. Rio de Janeiro: Malê, 2019.

PRÊMIOS E DESTAQUES

  • 2013 – Prémio do Centro de Estudos Sociais para Jovens Cientistas Sociais em Língua Portuguesa da Universidade de Coimbra (pelo livro A descoberta do insólito).
  • 2014 – Finalista do Prêmio Jabuti em Ciências Humanas (pelo livro A descoberta do insólito).
  • 2017 – Finalista do Prêmio Sesc de Literatura de 2017, na categoria Contos.
  • 2019 – Vencedor, na categoria Conto, no processo de seleção Seja Nosso Autor/2019, da Editora Kapulana (pelo livro Numa esquina do mundo: contos).

 

 

WOLE SOYINKA

WOLE SOYINKA nasceu em Abeokuta, na Nigéria, em 1934. Seu pai foi pastor anglicano e diretor de escola e sua mãe dirigia um comércio local e foi ativista dos direitos das mulheres. Sua família pertencia ao povo Iorubá o que muito influenciou sua obra.

É conhecido internacionalmente por ser dramaturgo, poeta, romancista e ensaísta. Estudou na Nigéria e no Reino Unido. Atualmente é professor universitário na Nigéria.

Foi crítico severo contra o regime ditatorial na Nigéria por ocasião da guerra civil no país e por isso esteve encarcerado como preso político.

Recebeu vários prêmios, sendo o de maior destaque o “Prêmio Nobel de Literatura”, em 1986. Foi o primeiro africano negro a receber esse prêmio.

OBRA DA KAPULANA

OBRA ORIGINAL

Peças de teatro:

  • The Swamp Dwellers (encenada em 1958; publicada em 1963).
  • The Lion and the Jewel (encenada em 1959; publicada em 1963).
  • The Trial of Brother Jero (encenada em 1960; publicada em 1963).
  • A Dance of the Forests (encenada em 1960; publicada em 1963).
  • Kongi’s Harvest (encenada em 1965; publicada em 1967).
  • The Strong Breed (encenada em 1966; publicada em 1963).
  • Madmen and Specialists (encenada em 1970; publicada em 1971).
  • Jero’s Metamorphosis (encenada em 1974; publicada em 1973).
  • The Road (1965) and Death and the King’s Horseman (1975): (encenadas em 1976).
  • The Bacchae of Euripides (1973),reescreveu the Bacchae for the African stage and in Opera Wonyosi (encenada em 1977, publicada em 1981).
  • A Play of Giants (1984).
  • Requiem for a Futurologist (1985).

Romances:

  • The Interpreters (1965).
  • Season of Anomy (1973).

Autobiografias/ Memórias:

  • The Man Died: Prison Notes (1972).
  • Aké: the years of childhood (1981).

Ensaios literários, em:

  • Myth, Literature and the African World (1975).

Poemas, em:

  • Idanre, and Other Poems (1967).
  • Poems from Prison (1969).
  • A Shuttle in the Crypt (1972).
  • Ogun Abibiman (1976).
  • Mandela’s Earth and Other Poems (1988).

PRÊMIOS EM DESTAQUE

1967: John Whiting Award – por The Interpreters (1965).

1983: The Annual Anisfield-Wolf Book Awards (Non fiction) – por Aké: the years of childhood (1981).

1986: Prêmio Nobel de Literatura.

2013: The Annual Anisfield-Wolf Book Awards (Lifetime Achievement) – por The Man Died: Prison Notes of Wole Soyinka (1972).

Aké: os anos de infância (Aké: the years of childhood, 1981) – considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX (ASC Library).

EDITORA KAPULANA ANUNCIA O VENCEDOR NA CATEGORIA ‘ROMANCE’ DO ‘SEJA NOSSO AUTOR’ de 2019

A BOCA DO MURO, de Bruno Honorato, foi o livro vencedor, na categoria Romance da edição de 2019 do ‘Seja Nosso Autor’, seleção de obras literárias promovida anualmente pela editora Kapulana.

O romance A BOCA DO MURO, de Bruno Honorato, é a obra selecionada pela Kapulana para publicação em 2020. As inscrições para a edição de 2019 estiveram abertas para obras em prosa de ficção (contos e romances).

A boca do muro, primeiro livro do autor, se destaca por trazer à tona a discussão de questões sociais e culturais de moradores marginalizados das grandes cidades. A narrativa acompanha um grupo de quatro amigos pixadores da periferia da cidade de São Paulo, que se denominam ALKIMISTAS. A obra apresenta um toque de literatura fantástica e linguagem forte próxima da oralidade.

O brasileiro Bruno Honorato é tradutor, estudioso de literatura e começou a exercer a arte da ficção há três anos, após ter participado de várias oficinas literárias e cursos de preparação de escritor.

Na categoria Romance, o vencedor foi Mário Medeiros, com seu livro Numa esquina do mundo, a ser editado no primeiro semestre de 2020.

Em breve a Editora Kapulana anunciará o regulamento completo da edição do SEJA NOSSO AUTOR 2020, em seu site: http://www.kapulana.com.br/seja-nosso-autor/

Saiba mais:

sobre o escritor Bruno Honorato.
sobre o livro A boca do muro.

[Atualizada em 17 de fevereiro de 2020.]

 

 

BRUNO HONORATO

BRUNO HONORATO é tradutor, artista e dono de bar. Nasceu em 1983, no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense. Cresceu em São Paulo, ama São Paulo, cidade que foi musa de seu primeiro livro, A boca do muro.

OBRA DA KAPULANA

A boca do muro, 2020. [Em edição]

PRÊMIOS E DESTAQUES

2019 – Vencedor, na categoria Romance, do concurso “Seja Nosso Autor”, de 2019, promovido pela Editora Kapulana.

2018 – Selecionado para o CLIPE, Curso Livre de Preparação do Escritor, promovido anualmente pela Casa das Rosas, em São Paulo.

FELIPE TOGNOLI

FELIPE TOGNOLI, artista brasileiro, é ilustrador de obras para crianças e jovens. É palhaço e arte-educador. Participa de projetos envolvendo o universo lúdico das crianças, organiza e ministra oficinas em diversos espaços culturais e é mediador em exposições em museus e organizações culturais.

É o ilustrador de dois livros da Kapulana, Ilha e Ovelha Colorida.  

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES:

  • 2019 – Meninas incríveis, organizado por Ana Paula Sefton.
  • 2018 – As tarraxinhas, de Tarsila Maria Teixeira.
  • 2017 – O que a gente come: histórias e receitas do que aparece no seu prato, de Clarice Uba e Piero Franchini.
  • 2016 – Pé de sonho, de Amanda Lioli, Brunna Talita e Li Albano.

CAROLINA PORTELLA

CAROLINA PORTELLA, brasileira, é atriz e arte-educadora.

Artista brasileira, atua como arte-educadora e ministra oficinas de práticas cênicas. É atriz do coletivo “Teatro da Neura” e exerce atividades como gestora e professora de Teatro no “Espaço N de Arte e Cultura” – sede da companhia. É arte-educadora pelo Programa Vocacional da Prefeitura de São Paulo.

É autora de Ovelha Colorida, seu primeiro livro, que faz parte de um projeto conjunto com Mariana Rhormens e Felipe Tognoli.

OBRA DA KAPULANA

PEPETELA É FINALISTA DO PRÊMIO OCEANOS e VENCEDOR DO Prémio Literário CASINO DA PÓVOA

PEPETELA, consagrado escritor angolano, foi um dos 10 finalistas no prêmio OCEANOS 2019, e vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa de 2020, com o romance SUA EXCELÊNCIA, DE CORPO PRESENTE, a ser publicado pela Editora Kapulana em 2020. 

Sua Excelência, de corpo presente, publicado pela D. Quixote em 2018, e a ser publicado no Brasil pela Kapulana em 2020, foi obra finalista do Prêmio Oceanos 2019 e vencedora do Prémio Literário Casino da Póvoa, 21a. ed. do Festival Correntes d’Escritas de 2020. Nesse surpreendente romance, o protagonista, narrador, é um ditador africano já morto. Pepetela, a partir das reflexões do defunto, em seu próprio velório, nos apresenta um quadro político e social de um país africano.

Pepetela esteve no Brasil recentemente para lançar o romance O quase fim do mundo, e para divulgar O cão e os caluandas, ambos publicados pela Kapulana em 2019. Participou de várias atividades, como sessões de autógrafos e bate-papos com leitores. Concedeu também entrevistas.

“Aquilo que li, vivi e fui aprendendo influencia, sim. Muito da minha vida está nesses livros.”

PEPETELA (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Estudou em Portugal e depois, por motivos políticos, esteve na França e na Argélia, onde militou na representação do MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola). Em 1969, vai para Angola e participa ativamente da luta de libertação do país africano. Em Cabinda foi simultaneamente guerrilheiro e responsável no setor da educação, quando adota o nome de guerra Pepetela, adotado depois como pseudônimo literário. Em 1972, foi transferido para a Frente Leste de Angola, onde desempenhou a mesma atividade até ao acordo de paz de 1974 com o governo português. Seu primeiro livro, As aventuras de Ngunga, foi escrito em 1973, durante a guerrilha. Após a independência do país, exerceu cargos no governo, na área de educação, tendo sido vice-ministro de Educação.

De 1973 até agora não parou de escrever obras de ficção, muitas delas premiadas.

Para saber um pouco mais sobre o autor e seus livros, veja:
http://www.kapulana.com.br/pepetela/

[Atualizada em 02 de abril de 2020.]

[Sobre] Condições Nervosas, de Tsitsi Dangarembga – por Rutendo Tavengerwei

Condições nervosas, de Tsitsi Dangarembga, é incrível.

A história se passa na Rodésia (hoje Zimbábue) na década de 1960, antes de o país conquistar a independência, e é narrada por Tambu, sedenta por uma educação que não lhe foi oferecida porque sua família é pobre e acha mais importante que seu irmão vá para a escola. No entanto, ela tem a oportunidade de estudar após a morte do irmão, e Dangarembga nos conduz pela progressão da vida de Tambu, por sua mudança da área rural, onde sempre viveu com os pais, para a escola missionária onde o tio é diretor.

A história incorpora as realidades de várias mulheres da vida de Tambu: a mãe e a tia, que apresentam as dificuldades da existência como mulheres negras, pobres e sem estudo, controladas pelas demandas de uma sociedade patriarcal; e Maiguru e Nyasha, que por terem estudado na Inglaterra, agora se veem presas no constante conflito entre a cultura africana e a ocidental, e por suas identidades perturbadas pelo colonialismo.

Condições nervosas aborda questões de extrema importância, e absolutamente merece ser chamado de clássico moderno.

Rutendo Tavengerwei
Escritora do Zimbábue, autora de
Esperança para voar (Kapulana, 2018)

Citar como: TAVENGERWEI, Rutendo. [Sobre] Condições Nervosas, de Tsitsi Dangarembga [orelha]. In: DANGAREMBGA, Tsitsi. Condições nervosas. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/codicoes-nervosas-tsitsi-dangarembga/>

A pena da Abolição, por Laurentino Gomes [sobre José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias]

José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias, é mais do que uma boa biografia de um dos maiores abolicionistas brasileiros. É também o relato minucioso, bem documentado e bem escrito de um dos momentos cruciais da história do Brasil. O movimento que levou à libertação dos escravos pela Lei Áurea em Treze de Maio de 1888, e que teve em José do Patrocínio um de seus protagonistas, foi a nossa primeira campanha genuinamente popular e de dimensões nacionais. Envolveu todas as regiões e classes sociais, carregou multidões a comícios e manifestações públicas, dominou as páginas dos jornais e os debates no parlamento e mudou de forma dramática as relações políticas e sociais que até então vigoravam no país.

Nunca antes tantos brasileiros se haviam mobilizado de forma tão intensa por uma causa comum, nem mesmo durante a Guerra do Paraguai. Como efeito colateral, deu o empurrão que faltava para a queda da monarquia e a proclamação da República, no ano seguinte. É esse o fio condutor deste livro fascinante de autoria de um dos mais respeitados e talentosos jornalistas e escritores da atualidade. Leitura fundamental para entender o fenômeno da escravidão e seu legado que ainda hoje assombra os brasileiros.

Rio de Janeiro, setembro de 2019.
Laurentino Gomes
Escritor e jornalista

Citar como:

O ARTIGO:
GOMES, Laurentino .“A pena da Abolição”. Prefácio. In: FARIAS, Tom. José do Patrocínio, a pena da Abolição. São Paulo: Kapulana, 2019.  Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/a-pena-da-abolicao-por-laurentino-gomes-sobre-jose-do-patrocinio-a-pena-da-abolicao-de-tom-farias/>

O LIVRO:
FARIAS, Tom. José do Patrocínio, a pena da Abolição. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/jose-do-patrocinio-a-pena-da-abolicao/>

KAPULANA LANÇA LIVRO INFANTOJUVENIL DE MARCELO JUCÁ, ILUSTRADO POR RAQUEL MATSUSHITA

No sábado 19 de outubro a Editora Kapulana fez o lançamento da obra infantojuvenil, O que pegamos emprestado dos outros, de autoria do jovem e reconhecido escritor brasileiro MARCELO JUCÁ e com ilustrações da premiada designer e ilustradora RAQUEL MATSUSHITA.

O evento de lançamento, que ocorreu no auditório da Biblioteca Alceu Amoroso Lima, na região de Pinheiros, em São Paulo, contou com um bate-papo com mediação de Paula Fábrio, escritora premiada, pesquisadora e jurada do de vários editais de projetos de obras. Frente a uma plateia interessada formada por adultos e crianças, os participantes conversaram sobre o enredo, construção de personagens, cenas e processo de ilustração da obra.

Marcelo expôs o processo de elaboração do livro, desde o primeiro rascunho até a impressão da obra, passando por adaptações, mudanças e inserções de personagem. O autor buscou em suas experiências como educador de crianças em comunidades periféricas da cidade pontos, cenas, linguagens e situações que retratassem a vida de crianças e jovens ao mesmo tempo com fidelidade e poesia.

Raquel descreveu como buscou “pegar emprestado” a própria personagem Yasmin para que ela ilustrasse o livro como se fosse sua agenda. Com a ideia da agenda, foi feita então a opção pela técnica de colagem. Segundo a artista, a tentativa foi de dialogar constantemente com o autor e o texto, tomando a liberdade de inserir suas próprias interpretações da história por meio do trabalho de ilustração.

Após a conversa, houve sessão de autógrafos com o escritor e a ilustradora.

A obra, publicada pela Editora Kapulana, foi selecionada pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e será distribuída em diversas bibliotecas municipais. O enredo acompanha uma fase de autoconhecimento na vida da menina Yasmin, filha de uma família moradora da zona periférica da cidade. Em conversas com seu pai voltando da escola, Yasmin descobre que todo mundo “pega emprestado” características, manias, gostos e atitudes de outras pessoas. A partir de suas vivências, a garota procura caminhos para descobrir o que já pegou emprestado e o que ela vai assumir para sua própria personalidade.

Conheça um trecho do livro:

Tinha uma atenção de peneira, por isso espiava curiosidade em todos os vazios de uma só vez.
Corria o olho e escorria a pálpebra.
Leu o prato do dia na placa no restaurante em frente.
(Aliás, é “calabreza” ou “calabresa”?).
No Bom Prato do lado onde de vez em raro comia não tinha nem calabreza ou calabresa.
Yasmin sentiu o sol forte esquentar os seus cabelos e descer até a raiz. Encarou a gravidade e de toda forma preferiu que o tempo permanecesse daquele jeito, mesmo que ela estivesse quase virando gelatina.
(Aliás, ela descobriu como é feita gelatina e ficou com o estômago embrulhado).

Saiba mais sobre:

o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/o-que-pegamos-emprestado-dos-outros/

o autor: http://www.kapulana.com.br/marcelo-juca/

a ilustradora: http://www.kapulana.com.br/raquel-matsushita/

Fotos e Vídeoshttp://www.kapulana.com.br/19-10-2019-lancamento-o-que-pegamos-emprestado-dos-outros-de-marcelo-juca-na-biblioteca-alceu-amoroso-lima-em-sao-paulo-sp/

 

[Atualizada em 22 de outubro de 2019.]

PEPETELA NO BRASIL EM OUTUBRO DE 2019: BATE-PAPOS, PALESTRAS, AUTÓGRAFOS, ENTREVISTAS!

 
PEPETELA, premiado escritor angolano, esteve no Brasil em outubro para lançar seu romance O quase fim do mundo, publicação da Editora Kapulana, e trocar ideias sobre esse livro e sobre O cão e os caluandas, obra do autor lançada também em 2019 pela Kapulana. Pepetela teve a oportunidade de participar de atividades em ambientes bastante diversos como auditórios, salas de aulas, áreas abertas sob árvores e ao som de música em calçada de cidade de praia. Esteve entre crianças, jovens e leitores de mais idade, todos interessados em sua trajetória como pessoa militante e como autor de vasta obra literária.

 
Acompanhe as atividades do escritor:

“Sempre um Papo”– Sesc 24 de Maio (15/10/2019 – São Paulo/SP)

Na terça-feira, 15 de outubro, Pepetela participou do programa “Sempre um Papo”, organizado por Afonso Borges, na sede do Sesc 24 de Maio, em São Paulo. Deu entrevista à imprensa e, na sequência, em mesa mediada pela jornalista Paula Rangel, respondeu às perguntas de um auditório lotado de leitores curiosos. O escritor falou sobre como e por que decidiu escrever O quase fim do mundo e comentou o cenário político atual de Angola e do Brasil. Além disso, comentou o que acredita ser a grande importância do olhar observador e crítico para um escritor:

“Aquilo que li, vivi e fui aprendendo influencia, sim. Muito da minha vida está nesses livros.”

Depois do bate-papo, houve sessão de autógrafos, durante a qual os leitores puderam conversar mais de perto com o escritor.

“Áfricas em Trânsito”– FFLCH-USP  (16/10/2019 – São Paulo/SP)

Em 16 de outubro, o escritor participou do colóquio “Áfricas em Trânsito”, organizado pelos centros da USP – Centro de Estudos Africanos (CEA-USP) e Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa (CELP-USP). O autor esteve em um auditório lotado, e duas outras salas com transmissão simultânea também tiveram seus lugares esgotados. A mesa era composta pelas professoras da FFLCH Rita Chaves e Tania Macêdo, e a diretora da instituição, Maria Arminda do Nascimento Arruda. Pepetela fez uma fala breve, em que expôs a satisfação de estar na universidade, e logo passou a responder a diversas perguntas dos presentes nas três salas que o assistiam. Falou sobre a guerrilha, sobre escrever “para ajudar a compreender a realidade” e sobre a importância da literatura para o despertar da consciência política. Ao ser perguntado sobre onde consegue, ainda, depositar sua fé, o escritor respondeu sem titubear:

“Ainda consigo depositar minha fé na juventude.”

Ao final, houve uma concorrida sessão de autógrafos. Apesar da longa fila, todos saíram com um livro autografado pelo escritor.

“Conversa com o Autor” – Realejo Livros (17/10/2019 – Santos/SP)

Na quinta-feira, dia 17, Pepetela participou de um lançamento mais intimista, na Realejo Livros, em Santos, próximo do local onde residiu por breve tempo na cidade. A sessão de autógrafos foi embalada pelo som do chorinho, ao vivo, e o escritor conversou longamente com velhos amigos e novos fãs moradores da cidade ou que vieram de outros lugares para prestigiá-lo.

II Encontro Literário – Áfricas, Memória e Resistência” (18/10/2019 – Perus-São Paulo/SP)

Em 18 de outubro, seu último dia no Brasil, Pepetela esteve no “II Encontro Literário – Áfricas, Memória e Resistência”, promovido pelo Coletivo de Educadores de Perus-Pirituba, para discutir questões sobre literatura, inseridas no contexto político-social-cultural de Angola e Brasil.

O bate-papo, conduzido pela Profa. Rita Chaves (FFLCH-USP), teve lugar na parte externa da Biblioteca Municipal Padre José de Anchieta, em Perus, em uma área sob as árvores, o que remetia às histórias africanas contadas em locais abertos, em meio à natureza.

A plateia era composta de residentes, estudantes e trabalhadores da região, interessados em conhecer o autor e trocar ideias sobre sua obra. Esse evento foi fruto da parceria desenvolvida entre a universidade pública (USP) representada pela Profa. Rita Chaves, e educadores, alunos, pesquisadores e profissionais da biblioteca municipal, com o objetivo de aproximar interessados em literatura e escritores cuja obra os participantes conhecem ou poderão vir a conhecer a partir de agora.

Além da participação em eventos literários, Pepetela concedeu entrevistas a vários órgãos de imprensa, rádio e blogs.

Trechos dos livros:

O QUASE FIM DO MUNDO: http://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/

“Foi quando se deu o relâmpago, chamo-lhe assim à falta de melhor palavra. Uma luz intensa, como um flash num céu azul, indolor. As trovoadas secas são comuns na região, a chuva vem depois. Até pode não vir chuva nenhuma. E foi isso mesmo que pensei, apenas uma trovoada seca. Só muito mais tarde associei essa luz intensa e o fato de ir passando, a partir daí, por carros mal estacionados ao longo da estrada, alguns mesmo no meio da estrada, vazios, imbambas abandonadas ao deus dará, bicicletas caídas, e nem rastro de gente. Alarmado, cheguei aos bairros periféricos, onde se acumulavam os excluídos de todos os processos econômicos e sociais, milhares e milhares de seres a lutarem desesperadamente para viverem um dia a mais. E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas?”

 O CÃO E OS CALUANDAS: http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

“Trata-se pois de estórias dum cão pastor-alemão na cidade de Luanda. Também se trata duma toninha, ser todo de espuma, algas como cabelos, que talvez só tenha vivido na minha cabeça. E na do cão, claro. Será mesmo só isso? Responda o leitor. Mais previno que qualquer dissemelhança com fatos ou pessoas pretendidos reais foi involuntária.”

Saiba mais sobre Pepetela e sua obrahttp://www.kapulana.com.br/pepetela/

FOTOS E VÍDEOS:

Na KAPULANA:

http://www.kapulana.com.br/15-10-2019-pepetela-na-kapulana/
https://www.youtube.com/watch?v=2GvtIlzBsXc&t=24s (entrevista)
https://www.youtube.com/watch?v=UXw5dRVgf5o (leitura de trecho de O quase fim do mundo)

No SESC 24 DE MAIO/ Programa “Sempre um Papo”:

http://www.kapulana.com.br/15-10-2019-lancamento-o-quase-fim-do-mundo-de-pepetela-no-sesc-24-de-maio-em-sao-paulo-sp/
https://www.facebook.com/pg/SempreUmPapo/photos/?tab=album&album_id=2276577982444205&ref=page_internal

Na FFLCH-USP:

http://www.kapulana.com.br/16-10-2019-africas-em-transito-conversa-com-pepetela-na-fflch-usp-em-sao-paulo-sp/
https://www.fflch.usp.br/1880?fbclid=IwAR1cqz3rX8GQ62sF-0nXlYH-40VwFNqMn9lY9FBDsod2Kd0FbpNllSEnrYI

Na REALEJO LIVROS, em Santos/SP:

http://www.kapulana.com.br/17-10-2019-pepetela-na-realejo-livros-em-santos-sp/

Na BIBLIOTECA MUNICIPAL DE PERUS:

http://www.kapulana.com.br/18-10-2019-conversa-com-pepetela-africas-memoria-e-resistencia-na-biblioteca-municipal-padre-jose-de-anchieta-perus-sp/

 

[Atualizada em 21 de novembro de 2019.]

PEPETELA LANÇA LIVRO NO BRASIL EM OUTUBRO: “O QUASE FIM DO MUNDO”

PEPETELA, consagrado escritor angolano, participa em outubro de circuito de lançamentos no Brasil de seu  romance O quase fim do mundo, da Editora Kapulana, e de debates sobre seus livros publicados pela Kapulana.

O QUASE FIM DO MUNDO (com prefácio de Ana Paula Tavares):

Trata-se de romance distópico em que o leitor acompanha um grupo de pessoas que sobrevive a um evento apocalíptico de origem desconhecida, na cidade fictícia de Calpe, em alguma região da África Central. 

“Foi quando se deu o relâmpago, chamo-lhe assim à falta de melhor palavra. Uma luz intensa, como um flash num céu azul, indolor. As trovoadas secas são comuns na região, a chuva vem depois. Até pode não vir chuva nenhuma. E foi isso mesmo que pensei, apenas uma trovoada seca. Só muito mais tarde associei essa luz intensa e o fato de ir passando, a partir daí, por carros mal estacionados ao longo da estrada, alguns mesmo no meio da estrada, vazios, imbambas abandonadas ao deus dará, bicicletas caídas, e nem rastro de gente. Alarmado, cheguei aos bairros periféricos, onde se acumulavam os excluídos de todos os processos econômicos e sociais, milhares e milhares de seres a lutarem desesperadamente para viverem um dia a mais. E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas?

O CÃO E OS CALUANDAS:

Nesse clássico, o narrador acompanha os caminhos de um cão que, sucessivamente, é adotado por pessoas diferentes. Aos poucos são reveladas as histórias das famílias que adotam o cão, o que leva o leitor a ter contato com o cenário histórico e político de Angola. 

“Trata-se pois de estórias dum cão pastor-alemão na cidade de Luanda. Também se trata duma toninha, ser todo de espuma, algas como cabelos, que talvez só tenha vivido na minha cabeça. E na do cão, claro. Será mesmo só isso? Responda o leitor.
Mais previno que qualquer dissemelhança com fatos ou pessoas pretendidos reais foi involuntária.”

Acompanhe os eventos já confirmados:

15/10/2019 (3a. f.), 19h30
Sesc 24 de maio (programa “Sempre um Papo”, org. de Afonso Borges)
R. 24 de maio, 109
São Paulo – SP
CEP: 01041-001

16/10/2019 (4a. f.), 19h
Áfricas em Trânsito
Fac. de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP)
Prédio de Ciências Sociais – Sala 14
Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 – Cidade Universitária
São Paulo – SP
CEP: 05508-010

17/10/2019 (5a. f.), 18h
Conversa com o Autor
com sessão de autógrafos
Realejo Livros
Av. Mal. Deodoro, 2 – Gonzaga 
Santos – SP
CEP: 11060-400

18/10/2019 (6a. f), 19h
Áfricas, Memória e Resistência
II Encontro Literário
Coletivo de Educadores  Perus-Pirituba
Biblioteca Pública Municipal Padre José de Anchieta
R. Antônio Maia, 658
Perus – SP
CEP: 05204-110

Saiba mais:

Sobre a autorhttp://www.kapulana.com.br/pepetela/

Sobre os livros do Pepetela, da Kapulana:
http://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/
http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

Prefácio de Ana Paula Tavares, para O quase fim do mundo:
http://www.kapulana.com.br/velho-mundo-mundo-novo-por-ana-paula-tavares-sobre-o-quase-fim-do-mundo-de-pepetela/

[Atualizada em 11 de outubro de 2019.]

Velho mundo, mundo novo, por Ana Paula Tavares [sobre O quase fim do mundo, de Pepetela]

Calpe pode ser tudo menos a cidade feliz e os seus centros e margens estreitam-se quando a terra se rompe e o desaparecimento sucessivo da vida (homens, mulheres, insetos e outros bichos) acontece sem que uma razão clara (peste, guerra, furacão) tudo justifique. Ao contrário de um anjo carregado de futuro aqui sobrevivem indivíduos e uma imensa solidão incapaz de suportar todo o peso do mundo para descobrir e resolver. Os que sobrevivem procuram razões para todos os acontecimentos e ainda formas de resolver os estilhaços da vida que sobrou de um imenso passado por conhecer. A dimensão da violência perturba a observação e o quotidiano dos dias e das noites que o silêncio prolonga e acentua. Com uma linguagem trabalhada o romance abre-se às vozes das várias visões do acontecido como se Calpe se tornasse no pequeno quintal do mundo onde se discutem razões, hipóteses e estratégias. Os mares estão vazios de peixes e nos rios só sobrevivem as formas elementares da vida. Sobram demasiadas coisas materiais para tão pouca vida.

Devorados por um tempo que não é o deles os sobreviventes iniciam o ciclo das viagens onde como novos sujeitos da história descobrem os destinos e vão refundar o mundo. O continente africano resolve de novo o enigma da fundação: a partir de um centro renovar os ciclos, perceber o novo sentido da vida porque Calpe e o mundo à volta só conservam os mortos. A aventura começa e tudo se renova nesta narrativa misteriosa e fundadora.

26 de agosto de 2019.

Ana Paula Tavares
Escritora e historiadora angolana

Citar como:

O ARTIGO:
TAVARES, Ana Paula .“Velho mundo, mundo novo”. Prefácio. In: PEPETELA. O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/velho-mundo-mundo-novo-por-ana-paula-tavares-sobre-o-quase-fim-do-mundo-de-pepetela/>

O LIVRO:
PEPETELA. O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/>

O criado, o criador e outras criaturas: notas sobre As visitas do Dr. Valdez e a escrita de João Paulo Borges Coelho, por Nazir A. Can

As visitas do Dr. Valdez integra-se em um projeto literário que se apresenta, hoje, como um dos mais desafiadores dos contextos de língua portuguesa. Desde 2003, ano de sua estreia como ficcionista, com As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho publicou sete romances, dois volumes de contos e três novelas. A este registro vertiginoso, que não dispensa o rigor e a experimentação estética, juntam-se três livros de histórias em quadrinhos, lançados em Maputo no início dos anos 80, e algumas narrativas curtas espalhadas em edições de natureza diversa. Embora também seja um reconhecido historiador, João Paulo Borges Coelho evita em seu trabalho artístico o caminho da restituição didática do passado. Apoiado em estratégias como a metonímia, a metáfora ou a alegoria, frequentemente mediadas pelos recursos do humor e da ironia, o jogo que propõe aponta antes para as trocas simbólicas entre o “pequeno” (cotidiano) e o “grande” (história). Virtuoso, o primeiro abre fendas no solo rígido do segundo.

Ambientado na Ilha do Ibo e na cidade da Beira, em um tempo complexo que se situa entre o já agônico colonialismo português e a eufórica independência moçambicana, As visitas do Dr. Valdez coloca em cena a experiência do interstício. A narrativa gira em torno do empregado doméstico Vicente e de suas patroas, as velhas mestiças Sá Amélia e Sá Caetana. Preocupada com os delírios da primeira, que reclamava das ausências do Dr. Valdez, entretanto já morto pelo excesso de manteiga ingerido em vida, Sá Caetana propõe um jogo a Vicente: resgatar o médico das cinzas. Assim, nos domingos de folga, Vicente disfarça-se de senhor doutor branco, em uma tripla transformação que visa devolver alguma alegria à Sá Amélia. Mas não só.

Com o disfarce do velho colono, elaborado na escuridão solitária e precária de seu quarto, o jovem empregado encontra uma criativa maneira de confrontar Sá Caetana e todo o imaginário por ela representado. Por trás da máscara, Vicente aciona um discurso estrategicamente ambíguo e passa a atuar em um dos campos que mais aflige os poderes autoritários: o da imaginação reivindicativa. A imitação que faz do Dr. Valdez, na cara e na casa da autoridade, desestabiliza a velha ordem colonial ancorada nas premissas da superioridade racial e científica e, como tal, no privilégio que decorre da primazia e da lei. O jovem procura libertar-se, portanto, de uma vida de submissão que lhe parecia destinada e acompanhar a mudança que, a um nível mais abrangente, se vai anunciando em Moçambique. Contudo, recorda com frequência as palavras de seu pai: o velho Cosme Paulino exigia-lhe que desse continuidade a uma história de servidão, cuidando das senhoras como se de sua própria família se tratasse. A vinculação quase umbilical a dois mundos opostos acentua a ambiguidade das relações entre as personagens, que são convidadas a ocupar distintas posições durante a narrativa.

Realizadas em três domingos e estruturadas em torno de outros tantos núcleos de significado (gesto, voz e olhar), as visitas do Dr. Valdez asseguram ao empregado alguma margem para expressar seu descontentamento. O discurso de Vicente, na primeira visita, adquire uma capa predominantemente visual. A maneira como se disfarça e os pensamentos que elaboram seus gestos constituem uma eficaz afirmação pública de sua rebelião privada. Executando de maneira sagaz e irônica os gestos doutorais de Valdez, avança por fronteiras até então intransponíveis: senta-se pela primeira vez no sofá, aceita o chá servido pela patroa, toma a iniciativa de observar da janela o quintal e espanta-se com o espaço miserável que é reservado aos criados… Enfim, graças ao novo lugar que lhe cabe no cenário, vê o mundo de um ângulo inédito. E se faz ouvir, mesmo quando silencia. Em contextos onde o estatuto impera, a autoridade não necessita de muitas palavras para se fazer valer. O discurso verbal da dupla Vicente/Valdez progride do comedimento, na primeira visita, para o confronto aberto, na segunda. Programada nos bastidores, depois de um inusitado encontro entre o criador Vicente e a criatura Dr. Valdez, a terceira visita sintetizará as duas anteriores, além de trazer o complemento fundamental da máscara-elmo, peça tradicional da arte maconde que se sobrepõe a do Dr. Valdez. Em dificuldade por ter que se dirigir a quem não vê totalmente, Sá Caetana perde um dos seus principais pontos de apoio: o desigual duelo de olhares.

Assim, após a performance física da primeira visita (que conforma ironicamente a imagem do colono) e da reivindicação retórica da segunda (que confirma a indignação do colonizado, mas o expõe a um risco), a terceira visita será marcada pelo impacto do olhar e de seus desdobramentos. Qualquer desses encontros terá contornos e resultados imprevisíveis, que não nos cabe aqui esmiuçar. Mas não resistimos a uma especulação: a representação de Vicente talvez nos queira dizer, entre outras coisas, que a arte é menos transformadora no momento em que explicita a raiva do que quando, sem renunciar ao compromisso político, faz a adequada mediação das estratégias que lhe são específicas (o gesto, a voz, o olhar e a necessidade de se colocar no lugar do outro). João Paulo Borges Coelho, por seu turno, parece querer complementar com uma pergunta: até quando serão necessárias as máscaras?

Cada uma dessas visitas, por outro lado, nasce de contextos específicos dentro dos quais a memória – imediata, remota, inventada – desempenha uma função relevante. Os jogos de espelhos internos à própria estrutura narrativa, que nos reenviam ao universo íntimo das personagens, complementam e orientam o sentido da teatralização. Compondo os bastidores – ou a pré-história – da encenação, o olhar retrospectivo do narrador e das personagens afigura-se como chave de leitura para as três visitas do Dr. Valdez. No que se refere a Vicente, as memórias remontam, por exemplo, ao tempo da infância, quando presenciou a humilhação pública de que foi alvo seu pai às mãos do patrão Araújo, em um dos episódios mais violentos já relatados na ficção moçambicana; indicam ainda o presente das saídas noturnas, tensão e excessos partilhados com seus amigos Jeremias e Sabonete, que também são empregados domésticos; finalmente, projetam o futuro enganador, metaforizado nas luzes de neón da Boite Primavera e na dança sinuosa de Maria Camba. As figuras do pugilista Ganda, herói nos ringues e engraxate fora deles, e do estranho dançarino que com sua arte recupera a complementaridade perdida do mundo, funcionam também como ativos lugares de memória para o empregado.

A compulsão memorial que atravessa a narrativa e a escrita de João Paulo Borges Coelho, conferindo-lhe unidade, está subordinada a uma resposta artística às formas de produção do esquecimento, especialmente aquelas que são elaboradas pelo discurso político. Este tipo de discurso possui uma natureza programática que choca com o espaço da intimidade (dos rumores e dos desejos, dos ódios e dos segredos, das ambivalências e das confluências) onde sua literatura se alimenta. Em suas obras, aliás, qualquer tipo de mergulho no passado é orientado por um presente repleto de complexidades. E vice-versa. Ao autor, por isso, interessa menos enquadrar a lembrança em um registro fixo de verdade do que ligá-la a um campo aberto de interrogações e interpelações.

Ao eleger caminhos que favorecem a sobreposição de tempos e memórias, a pluralização da geografia literária, a densidade existencial de heróis e personagens secundárias, a diversificação de posturas do narrador e a desestabilização de doxas por via de uma pesquisa estética sobre o paradoxo, João Paulo Borges Coelho consolida o romance moçambicano e constrói um novo lugar no campo literário.

Celebremos, pois, sua primeira visita ao leitor brasileiro.

Rio de Janeiro, 20 de julho de 2019.
Atualizado pelo autor em 01 de outubro de 2019.

Nazir Ahmed Can
Universidade Federal do Rio de Janeiro / FAPERJ / CNPq .
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Este texto foi escrito com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ (Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3).
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Citar como:

O ARTIGO:
CAN, Nazir Ahmed .“O criado, o criador e outras criaturas: notas sobre As visitas do Dr. Valdez e a escrita de João Paulo Borges Coelho ”. Prefácio. In: COELHO, João Paulo. As visitas do Dr. Valdez. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/as-visitas-do-dr-valdez/>

O LIVRO:
COELHO, João Paulo. As visitas do Dr. Valdez. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/as-visitas-do-dr-valdez/>

Lançamento do livro CineGrafias Moçambicanas em Maputo, Moçambique

CineGrafias moçambicanas – Memórias & crônicas & ensaios, livro publicado pela editora brasileira Kapulana, em 2019, foi lançado também em Moçambique.
O evento foi organizado pela Kapicua Livros e teve lugar no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, em 28 de agosto de 2019.
A mesa contou com as presenças de João Ribeiro (cineasta), Sol de Carvalho (cineasta) e José V. Capão (Diretor da Kapicua Livros).
O público presente era formado principalmente por estudantes de cinema e comunicação, profissionais do livro, representantes de bibliotecas e pesquisadores de artes cênicas em geral.
O livro é considerado uma obra de referência na área de estudos do cinema moçambicano pois, além de trazer informações bem documentadas sobre os cineastas e seus filmes, aponta para possíveis pesquisas futuras sobre o cinema de Moçambique.
A obra, uma coletânea de textos organizada por Carmen Tindó Secco, Ana Mafalda Leite e Luís Carlos Patraquim, é composta por entrevistas, crônicas e ensaios de pesquisadores, cineastas e escritores renomados, a saber:
 
  • Ana Mafalda Leite
  • Camilo de Sousa
  • Carmen Tindó Secco
  • Guido Convents
  • Isabel Noronha
  • João Ribeiro
  • Júlio Machado
  • Licínio Azevedo
  • Luís Carlos Patraquim
  • Olivier Hadouchi
  • Ruy Guerra
  • Sol de Carvalho
  • Ute Fendler
  • Vavy Pacheco Borges
  • Yara Costa
A Kapulana conta também em seu catálogo com outro livro do mesmo segmento: Pensando o cinema moçambicano, ensaios, organizado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco (da UFRJ).

 

Sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios/

Fotos do evento: http://www.kapulana.com.br/28-08-2019-lancamento-cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios-em-maputo-mocambique/

São Paulo, 30 de agosto de 2019.

 

 

Aldino Muianga e Mariana Fujisawa representam a Kapulana na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará

ALDINO MUIANGA (escritor moçambicano) e MARIANA FUJISAWA (artista plástica brasileira) representaram a Kapulana na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará (2019).

Durante a Bienal, no estado do Ceará, Aldino Muianga e Mariana Fujisawa participaram de atividades diversificadas, como bate-papos, oficinas e lançamento de livro, tanto no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza, como no campus da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), em Redenção.

Aldino Muianga é autor de vasta obra literária e tem 3 livros publicados no Brasil pela Kapulana: O domador de burros e outros contos (2015), A noiva de Kebera, contos (2016), e o romance Asas quebradas (2019 – lançado na Bienal do Ceará).

Mariana Fujisawa, artista plástica, é autora da maior parte das capas e ilustrações dos livros do catálogo da Kapulana, como obras de Suleiman Cassamo, Ungulani Ba Ka Khosa, Luandino Vieira, Ana Paula Tavares, João Paulo Borges e Binyavanga Wainaina, dentre outros, além de livros dedicados ao público infantil.

Roteiro de atividades de Aldino Muianga e Mariana Fujisawa na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará:

21/08/2019, Campus da Unilab:
Mariana Fujisawa participou da mesa intitulada “O traço e o verso das cidades” com o poeta Júlio Machado, sob mediação do Professor André Telles, em conversa sobre trajetórias, identidades e processos de criação.
Aldino Muianga conversou com os estudantes, mediado pela professora Andrea Muraro, sobre seu novo romance Asas Quebradas, a temática da representação da mulher e seus processos de escrita.
 
23/08/2019, Centro de Eventos da Bienal:
Mariana Fujisawa teve duas participações: uma conversa com crianças de escolas públicas sobre a ilustração de livros infantis e a mesa novamente compartilhada com Júlio Machado, com mediação de Andrea Muraro.
 
24/08/2019, na Bienal:
Aldino Muianga lançou oficialmente Asas Quebradas, em conversa mediada por Sueli Saraiva, que contou com intensa participação do público presente.
Como parte da “Bienal fora da Bienal”,Mariana Fujisawa visitou a biblioteca comunitária Casa Camboa, oferecendo uma oficina de ilustração para crianças da comunidade.”
 

São Paulo, 30 de agosto de 2019.

 

Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga (sobre o romance Asas Quebradas), por Ana Braun

Asas quebradas, romance do ficcionista moçambicano Aldino Muianga, é um livro sobre mulheres, violência e reconciliação. Estruturado a partir da perspectiva de duas moçambicanas, Macisse e Celinha, o romance narra a história de mãe e filha separadas por um episódio de brutalidade que resultará em conflitos das mais diversas ordens, em particular configurando uma ausência geradora de angústia pelo desconhecimento do próprio passado.

A representação da violência é uma das marcas da produção literária moçambicana. Tendo surgido em grande parte como resposta à barbárie que significou a implantação e o estabelecimento do sistema colonial, a literatura de autores já tidos como canônicos, como Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha, Noémia de Sousa, entre outros, se mostrava comprometida em retratar pelo viés realista a opressão, racismo e discriminação que marcaram o período colonial em Moçambique.

Também em momentos anteriores da obra do próprio Aldino Muianga, como nos livros de contos O domador de burros e outros contos (2015) e A noiva de Kebera (2016) – ambos publicados pela Editora Kapulana –, a violência esteve tematizada, ainda que por vezes camuflada pela ironia e humor: na representação dos diferentes espaços associada à descrição das práticas sociais que denunciavam o conflito social, político e econômico como elemento estruturador das relações entre os indivíduos em Moçambique. Se, no entanto, nesses casos a representação da violência se dá a partir das dinâmicas que ocorrem em espaços públicos, no romance Asas quebradas, a violência emerge do âmbito do privado, do seio das relações familiares, e acaba amplificada por uma estrutura social que, mesmo em transformação, ainda é em grande parte insensível ao sofrimento das vítimas – em sua grande maioria mulheres – das múltiplas formas que a opressão doméstica adquire. Pois, mesmo tendo sido parte consistente e atuante da luta anticolonial, as mulheres moçambicanas ainda enfrentam nos dias de hoje uma situação de subalternização no âmbito econômico, cultural e social, experimentando em seu cotidiano diversas formas de sujeição e resistência ao modelo patriarcal.

O romance de Muianga se apresenta, nesse sentido, como representação da lógica que rege as relações de gênero na sociedade moçambicana de hoje. Divididas entre o desejo de uma vida plena e a impossibilidade dessa realização naquele contexto, as protagonistas do romance acabam personificando toda a complexidade da existência feminina no mundo africano contemporâneo, ele mesmo cindido entre o modo ancestral e as transformações sociais advindas da colonização europeia e suas práticas ocidentalizadas.

No romance, convivem – e não exatamente em harmonia – práticas associadas às sociedades tradicionais africanas (o peso do julgamento coletivo da comunidade, o saber dos mais velhos, o poder dos rituais) e esse outro mundo, estruturado por um Estado regido por leis, que, apenas em tese, alicerçariam a construção de uma nova sociedade marcada pela justiça social. Assim, se por um lado, a tradição e o sentido comunitário ancestral são relativizados pelos valores da modernidade, por outro, a narrativa nos alerta que a lógica do mundo ocidentalizado também é insuficiente para captar as especificidades das relações nesses contextos, não sendo capaz de proteger as mulheres das agressões perpetradas tanto pelos indivíduos quanto pela própria sociedade, de maneira geral. São elas, portanto, quem mais sofrerão as consequências de viver num mundo que, apesar de cindido entre essas duas lógicas, vai invariavelmente conferir às mulheres papel secundário, subalterno e de abandono. O romance mostra a tensão gerada pela impossibilidade do enfrentamento individual de uma estrutura social que criminaliza e responsabiliza a mulher pela violência à qual é submetida.

O predomínio do discurso interior das personagens, mediado por um narrador onisciente que nada esconde do leitor, coloca-nos em posição privilegiada, já que temos acesso a dados desconhecidos, ignorados pelas demais personagens. Ganhamos, por consequência, também o poder de julgar suas ações e de nos posicionar ante as injustiças vivenciadas pelas mulheres no romance. Nesse sentido, as personagens masculinas aparecem em clara desvantagem em relação ao leitor. A narrativa indica que, seja em maior ou menor grau, todos acabam de alguma forma exercendo modos de opressão que submetem as mulheres ao sofrimento, solidão e sentimento de inadequação.

Assim, do mesmo modo que o sistema colonial representou uma forma de dominação, o modo patriarcal que rege as relações entre as pessoas naquela sociedade também o é. E, à medida em que avançamos na leitura do romance, vai se tornando cada vez mais claro que a lógica do patriarcado está incorporada também no modo de ação das próprias mulheres, que se veem, muitas vezes, não apenas impedidas de serem solidárias umas com as outras mas mesmo como inimigas, em disputa pela suposta estabilidade emocional e financeira oferecida pelo relacionamento amoroso. Ao mesmo tempo, há, em vários outros momentos da narrativa, a ênfase na solidariedade feminina, no entendimento de que a chave para uma existência plena está na conciliação entre indivíduos, reatando, em parte, presente e passado.   

Sendo a literatura lugar tanto de afirmação quanto de contestação de práticas sociais, é possível ver o romance de Aldino Muianga como meio de desvelamento da complexidade da questão. Ao incorporar em sua prosa a tensão que ainda permeia as relações entre os gêneros na sociedade moçambicana contemporânea, Muianga apresenta ao leitor um exercício de reflexão inestimável.

Guarapuava, 10 de junho de 2019.

Ana Beatriz Matte Braun
Pesquisadora de literatura moçambicana e Docente na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Citar como:

O ARTIGO:
BRAUN, Ana Beatriz Matte .“Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga”. Prefácio. In: MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/mulheres-violencia-e-reconciliacao-em-aldino-muianga-sobre-o-romance-asas-quebradas/>

O LIVRO:
MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/asas-quebradas-aldino-muianga-mocambique/>

ANA BEATRIZ BRAUN

ANA BEATRIZ BRAUN

Licenciada em Letras (Português e Inglês), Mestre e Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Em 2016, defendeu sua tese sobre o ficcionista moçambicano João Paulo Borges Coelho. Residiu em Maputo, Moçambique, entre os anos de 2006 e 2010. Lá, cursou doutoramento em Linguística na Universidade Eduardo Mondlane e  foi coordenadora dos cursos de Português para estrangeiros do Centro Cultural Brasil-Moçambique. Atualmente é docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Guarapuava. É autora do prefácio do romance Asas quebradas, do moçambicano Aldino Muianga (Kapulana, 2019).

OBRAS DA KAPULANA

BRAUN, Ana Beatriz Matte. “Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga“. Prefácio in: MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Aldino Muianga, escritor moçambicano, lança no Brasil o romance “Asas quebradas”

O consagrado escritor moçambicano, Aldino Muianga, lança em agosto na XIII Bienal Internacional do livro do Ceará, seu romance Asas Quebradas, publicado pela Editora Kapulana.

ALDINO MUIANGA, autor de vasta obra literária, tem forte vínculo com o Brasil, tendo já participado de várias atividades culturais no país em 2016, ocasião em que divulgou seus dois livros anteriores. 

Asas quebradas é o terceiro livro de Aldino Muianga que a Editora Kapulana publica no Brasil, dentro de seu projeto de divulgação da literatura africana “Vozes da África”. O primeiro foi O domador de burros e outros contos (2015) e o segundo foi A noiva de Kebera, contos (2016).

Asas quebradas é um romance sobre os caminhos de duas mulheres, Maria Cecília (Macisse) e sua filha Marcela (Celinha), separadas no tempo e no espaço, em busca de suas identidades. A partir do percurso de resistência e luta dessas mulheres, que enfrentam abusos, carências, discriminação e opressão, e têm que tomar decisões dramáticas para sobreviverem, o autor nos apresenta a saga de várias gerações da família e discute questões bastante atuais sobre a situação da mulher na sociedade. De Inhambane, local de origem dos antepassados, até Maputo,  mais ao sul, dados de história, geografia e cultura do sul de Moçambique são revelados ao leitor com emoção e esmero literário.

Asas quebradas tem prefácio da Profa. Ana Beatriz Matte Braun, pesquisadora brasileira de literatura moçambicana e atualmente docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Guarapuava. A capa do livro é ilustrada pelo brasileiro Dan Arsky, que também ilustrou os livros anteriores de Aldino Muianga publicados pela Kapulana.

Sobre Aldino Muianga e sua vasta obra literária: http://www.kapulana.com.br/aldino-muianga/

Sobre os livros de Aldino Muianga publicados pela Kapulana:

Sobre a participação de Aldino Muianga na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará:
http://www.kapulana.com.br/eventos/kapulana-na-xiii-bienal-internacional-do-livro-do-ceara-16-25-08-2019/

20 de agosto de 2019.

★★★

Oyinkan Braithwaite, nigeriana, autora de “Minha irmã, a serial killer”, participa de eventos culturais no Brasil

A jovem escritora nigeriana Oyinkan Braithwaite participou de eventos culturais em Salvador e São Paulo, Brasil, no período de 07 a 14 de agosto de 2019.

Autora do aclamado Minha irmã, a serial killer, thriller psicológico traduzido por Carolina Kuhn Facchin e publicado pela Editora Kapulana, a nigeriana Oyinkan Braithwaite veio ao Brasil para participar da Festa Literária do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, e da Pré-Balada Literária, em São Paulo. Além da participação nesses eventos,  concedeu entrevistas a jornalistas de diversas mídias.

Alguns dos eventos dos quais a escritora participou no Brasil:
 

Salvador (BA), 09/08 – sexta-feira, Festa Literária do Pelourinho (Flipelô), no Teatro SESC-SENAC Pelourinho (Largo do Pelourinho, 19 – Pelourinho), às 18h00 – Mesa: “Uma nova escrita africana”. Com: Oyinkan Braithwaite (escritora), Rodrigo Casarin (mediador) e Carolina Kuhn Facchin (intérprete). O evento foi organizado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

Após a mesa de conversa, que contou com bastante público, a autora participou de sessão de autógrafos da edição brasileira do livro Minha irmã, a serial killer.

Durante sua estada na Bahia, a escritora teve a oportunidade de conhecer pontos históricos e culturais de Salvador, conceder entrevistas e conviver com um público bastante interessado em literatura africana.

São Paulo (SP)12/08 – segunda-feira, Pré-Balada Literária, no Centro Cultural b_arco (R. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros), às 19h30. Com: Oyinkan Braithwaite (escritora), Geovani Martins (escritor convidado), Bruna Tamires (mediadora) e Carolina Kuhn Facchin (intérprete).

No Centro Cultural b_arco, em São Paulo, Oyinkan participou de bate-papo sobre o processo criativo de uma obra literária, como escolha dos temas, modos de registro e relacionamento com leitores. O debate contou com o apoio do escritor brasileiro Marcelino Freire e foi finalizado com o esclarecimento das perguntas do público e posterior sessão de autógrafos do livro pela escritora.

Ainda em São Paulo, a escritora visitou a sede da Kapulana onde gravou entrevistas, fez leitura de trechos de seu livro e participou de sessões de fotos e vídeos. 

Sobre o livro Minha irmã, a serial killer e sua autora Oyinkan Braithwaite.

“Ayoola está empoleirada no vaso sanitário, os joelhos dobrados e os braços ao redor deles. O sangue no vestido dela secou e não há risco de pingar no chão branco e, agora, brilhoso. Seus dreadlocks estão amontoados no topo da cabeça, para não encostarem no chão. Ela fica me olhando com grandes olhos castanhos, com medo que eu esteja brava, que eu logo vá levantar das minhas mãos e joelhos para dar uma bronca nela.
Não estou brava. Se estou qualquer coisa, é cansada. O suor da minha testa cai no chão e uso a esponja azul para secá-lo.”

Primeiro livro da escritora, foi lançado originalmente em Inglês, em 2018, com o título de My sister, the serial killer. O sucesso foi imediato: foi indicado como finalista no “The Booker Prize 2019”, importante prêmio literário internacional, e já foi traduzido para 26 idiomas! Várias produtoras também já reservaram o direito para o cinema.

Oyinkan nasceu na Nigéria, África, onde ainda reside, na cidade de Lagos. Em 2014, foi indicada entre as dez melhores artistas spoken word no concurso de poesia slam “Eko Poetry Slam”, em Lagos, Nigéria. Em 2016, foi finalista do “Commonwealth Short Story Prize”, que premia os melhores textos ainda não publicados do ano, e em 2019, finalista do “The Booker Prize”. 

[Notícia atualizada em 20 de agosto de 2019.]

 

Ana Paula Tavares, escritora angolana, lançou no Brasil livro inédito de crônicas “Um rio preso nas mãos”

Ana Paula Tavares, premiada escritora e historiadora angolana, lançou no Brasil o livro inédito Um rio preso nas mãos, crônicas, publicado pela Editora Kapulana.

Um rio preso nas mãos, lançado em primeira mão no Brasil, é um conjunto de 38 crônicas publicadas anteriormente, de forma esparsa, no jornal online Rede Angola. A maestria da escritora revela-se delicadamente quando combina oralidade e escrita, passado e presente, poesia e prosa, abordando situações e temas sobre Angola que transcendem o regional, provocando reflexões sobre questões atuais e universais, como o papel e os direitos da mulher na sociedade, seja ela angolana, brasileira ou de outra região. 

Há séculos que não chove, não há música no telhado nem pingam gatos arrepiados de frio. Tudo está saturado de calor e seca.
Uma mulher antiga tem um rio preso nas mãos e guarda-o como a aranha do deserto a sua preciosa gota.

Ana Paula Tavares, poeta, cronista, historiadora e professora universitária, nasceu em Lubango, Angola. É autora de vasta obra literária em prosa e poesia e de textos científicos. A escritora tem vínculos fortes com o Brasil, com participação em pesquisa e eventos no país. 

Para lançar seu livro no Brasil, Ana Paula Tavares participou de eventos em 3 estados: Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro:

Natal (RN) de 29 a 31/07/2019: III Encontro da Afrolic (Associação Internacional de Estudos Culturais e Literários Africanos)
Ana Paula Tavares foi uma das escritoras homenageadas nesse importante encontro nacional de professores e pesquisadores. Participou de várias mesas de debates e sessão de autógrafos de seu novo livro: Um rio preso nas mãos, crônicas.

A Kapulana esteve também representada na edição da Afrolic-2019 por Mariana Fujisawa (ilustradora) e Jacqueline Kaczorowski (prefaciadora).

São Paulo (SP): 

02/08/2019: Biblioteca Mário de Andrade
A escritora participou de um bate-papo mediado pela pesquisadora Larissa Lisboa, sobre sua obra em geral e o novo livro em particular. Após a mesa, houve sessão de autógrafos.

05/08/2019: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Sob coordenação da Profa. Tania Macêdo, com apoio do CEA-USP.
A autora participou de uma roda de conversa que contou com a participação das professoras Rita Chaves (FFLCH-USP) e Leila Leite Hernandez (CEA-USP). Em um auditório lotado, a escritora falou para alunos, professores, pesquisadores e interessados em geral na sua obra, sobre o seu trabalho de escrita na literatura: 

O que sempre me ajudou, no trabalho de escrita, foi o respeito à palavra. Eu acho que a palavra, muitas vezes, nos sai das mãos, nos escapa. Não se sai vivo do poema. Cada poema é uma pequena transformação. Esse aprendizado é uma luta imensa. Então, há de se respeitar a palavra. Porque a palavra é côncava, convexa, ela alarga, encurta. E é preciso muito cuidado. É ter rigor e ciência da palavra que está a fazer.  

Rio de Janeiro e Niterói (RJ), de 06 a 09/08/2019:
A escritora participou de mesas de debates na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a coordenação dos Profs. Carmen L. T. Secco (UFRJ) e Júlio Machado (UFF).
Além disso, ministrou na UFRJ um minicurso sobre “Cinema, poesia e história”.

[Notícia atualizada em 20 de agosto de 2019.]

SAIBA MAIS:

Sobre o livro Um rio preso nas mãos, crônicas, de Ana Paula Tavares:

O livro: http://www.kapulana.com.br/produto/um-rio-preso-nas-maos-cronicas/

A autora: http://www.kapulana.com.br/ana-paula-tavares/

O Prefácio do livro, por Carmen Lucia Tindó Secco: http://www.kapulana.com.br/avisos-a-navegacao-por-carmen-tindo-secco/

Fotos e vídeos:

Afrolic 2019 (fotos): *créditos organização Afrolic
https://www.flickr.com/photos/afrolic2019/albums

Biblioteca Mário de Andrade (fotos):
http://www.kapulana.com.br/02-08-2019-lancamento-e-sessao-de-autografos-de-um-rio-preso-nas-maos-de-ana-paula-tavares-na-biblioteca-mario-de-andrade-em-sao-paulo-sp/nggallery/page/1

Biblioteca Mário de Andrade (vídeo):
 https://www.facebook.com/ekapulana/videos/398609767702137/

FFLCH-USP (fotos):
http://www.kapulana.com.br/a-literatura-angolana-hoje-roda-de-conversa-com-ana-paula-tavares-na-fflch-usp-em-sao-paulo-sp/

FFLCH-USP (vídeo):
https://www.facebook.com/ekapulana/videos/2310952762554032/

UFRJ e UFF (fotos):
http://www.kapulana.com.br/06-08-a-09-08-de-2019-ana-paula-tavares-na-ufrj-uff-rj/

Entrevista Kapulana (vídeo): https://www.youtube.com/watch?v=Z8lA8EGbs9o&feature=youtu.be

Martinho da Vila em circuito de lançamentos de seu livro “2018 – Crônicas de um ano atípico”.

MARTINHO DA VILA, cantor, compositor e escritor lançou em Salvador o livro “2018 – Crônicas de um ano atípico”, publicado pela Kapulana

Em continuidade ao circuito de lançamentos de seu novo livro 2018 – Crônicas de um ano atípico, publicado pela Kapulana em 2019, o escritor e músico participou de roda de conversa e sessão de autógrafos, no Sesc-Senac do Pelourinho, em Salvador (BA), em 8 de agosto. A roda de conversa “Literatura que dá samba? Somos muitos Martinhos e Helenas” fez parte da programação da Flipelô ( Festa Literária Internacional do Pelourinho) e foi mediada por Helena Theodoro. O evento contou com o apoio da Fundação Casa de Jorge Amado.

Veja fotos do circuito de lançamentos em várias cidades brasileiras:

22/05/2019: Rio de Janeiro (RJ), na Livraria da Travessa (Leblon):
http://www.kapulana.com.br/22-05-2019-lancamento-de-2018-cronicas-de-um-ano-atipico-de-martinho-da-vila-na-livraria-da-travessa-do-rio-de-janeiro-rj/

12/06/2019: São Paulo (SP), no Sesc Av. Paulista:
http://www.kapulana.com.br/lancamento-martinho-sesc/

14/07/2019: Paraty (RJ), na Casa Paratodxs, na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty):
http://www.kapulana.com.br/14-07-2019-martinho-da-vila-lanca-2018-cronicas-de-um-ano-atipico-na-flip-em-paraty-rj/

 08/08/2019: Salvador (Ba), na Flipelô (Festa Literária do Pelourinho)
http://www.kapulana.com.br/08-08-09-08-2019-martinho-da-vila-na-flipelo-em-salvador-ba/

O livro 2018 – Crônicas de um ano atípico reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses do ano de 2018. Com humor e leveza, Martinho fala da comemoração dos seus 80 anos, da renovação dos votos de casamento com Cléo, da escola de samba Vila Isabel, da cidade do Rio de Janeiro, relembrando alguns de seus sucessos no samba e na literatura. Também aborda fatos marcantes, como o assassinato de Marielle Franco, as eleições presidenciais, a visita ao ex-presidente Lula em Curitiba e a derrota do Brasil na Copa do Mundo.

[Notícia atualizada em 20 de agosto de 2019.]

Sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/2018-cronicas-de-um-ano-atipico/

Sobre Martinho da Vila: http://www.kapulana.com.br/martinho-da-vila/

 

 

 

Kapulana na Flip/Casa Paratodxs com lançamentos e participação de Martinho da Vila

A editora maca presença em Paraty, durante a Flip, com lançamentos de seu catálogo à venda e participação de Martinho da Vila

A Editora Kapulana participa novamente da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 10 a 14 de julho, na organização da Casa Paratodxs, com os recentes lançamentos de seu catálogo à venda e, também, a participação de Martinho da Vila na programação.

Este ano a Casa Paratodxs completa três anos em Paraty. Formada pelas editoras Nós, Edith, Demônio Negro, Relicário, Dublinense, Kapulana, Macondo e Cepe, a Paratodxs homenageará Chico Buarque e contará, entre outras, com as presenças de diversos nomes da literatura, música, mercado editorial e cinema. O cantor, compositor e escritor Martinho da Vila marca presença com um bate-papo e lançamento do livro 2018 – Crônicas de um ano atípico, publicado pela Kapulana, no domingo, 14 de julho, ao meio-dia. A mediação da mesa de conversa ficará a cargo do escritor Paulo Lins (autor de Cidade de Deus). 

Outra grande novidade será a venda, com exclusividade na Casa, da obra Nós, os do Makulusu, do premiado escritor angolano José Luandino Vieira. Considerado um dos maiores clássicos da literatura do século XX, a obra narra a história do personagem Mais-Velho, que se junta a outras três personagens que cresceram juntas no Makulusu, bairro pobre de Luanda: Maninho, Paizinho e Kibiaka. O enredo, ambientado em um momento agudo da luta de libertação nacional de Angola, demonstra como a violência do colonialismo obriga os companheiros de aventuras infantis a escolherem caminhos inconciliáveis, alguns se envolvendo na luta armada e sendo presos, outros omitindo-se ou atendo-se apenas ao trabalho clandestino.

A Casa Paratodxs estará aberta entre os dias 11 e 14 de julho. Venha nos visitar! 

3 de julho de 2019

★★★

O Campo de Concentração do Tarrafal, onde Luandino Vieira escreveu “Nós, os do Makulusu”

O autor passou 8 anos preso, onde escreveu muitos de seus livros, dentre eles o “Nós, os do Makusulu”

Grande parte de  Nós, os do Makulusu foi escrito por José Luandino Vieira, em 1967, quando estava preso no Campo de Concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde (Campo de Trabalho de Chão Bom), e que a Editora Kapulana publica neste mês.

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

Inaugurado em 1936, quando Portugal vivia no regime ditatorial do Estado Novo, sob o comando do ditador Oliveira Salazar, que pretendia, por meio da repressão, aprisionar todos que se opunham ao seu governo. Por isso, a criação do Campo de Concentração do Tarrafal, localizado na ilha de Santiago, região norte caboverdiana, Cabo Verde era colônia portuguesa e o terreno havia sido adquirido pelo Estado português, separado da jurisdição do Governo do arquipélago. Na primeira fase do campo de concentração, que foi de 1936 até 1954, passaram 360 prisioneiros, 32 morreram nesse período. 

Em junho de 1961, o Tarrafal foi reaberto, seis anos depois de seu encerramento, instituindo-se no Chão Bom, região noroeste de Cabo Verde, um Campo de Trabalho, mas, na realidade, era um novo campo de concentração de presos políticos das ex-colônias portuguesas. Com o advento da Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974, o regime ditatorial de Salazar foi deposto e o Campo de Trabalho de Chão Bom terminou no dia 1º de maio do mesmo ano. Todos os presos foram libertados. Nessa segunda fase, 4 pessoas morreram. Em 2009, o local foi aberto como Museu da Resistência.

ANOS DE CÁRCERE

Por sua participação nas lutas de libertação nacional de Angola, José Luandino Vieira foi preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) em 1961 e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Foi, então, transferido, em 1964, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde escreveu a obra Nós, os do Makulusu. Lá passou 8 anos, e foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, na grande maioria escrita nas diversas prisões por onde passou. Depois da independência de Angola, em 1975, Luandino voltou ao país, morando até 1992, quando se mudou para Portugal, onde vive atualmente.

Considerado um dos maiores clássicos da literatura do século XX, a obra narra a história do personagem Mais-Velho, que se junta a outras três personagens que cresceram juntas no Makulusu, bairro pobre de Luanda: Maninho, Paizinho e Kibiaka. O enredo, ambientado em um momento agudo da luta de libertação nacional de Angola, demonstra como a violência do colonialismo obriga os companheiros de aventuras infantis a escolherem caminhos inconciliáveis, alguns se envolvendo na luta armada e sendo presos, outros omitindo-se ou atendo-se apenas ao trabalho clandestino.

2 de julho de 2019

★★★

Kapulana publica livro de crônicas da escritora angolana Ana Paula Tavares

As crônicas de Ana Paula Tavares são marcadas por uma escrita profundamente poética e incisiva

Chega às livrarias do Brasil, o livro de crônicas inéditas da premiada escritora angolana Ana Paula Tavares: Um rio preso nas mãos. Publicadas originalmente de forma esparsa no jornal Rede Angola, as 38 crônicas que compõem o livro viajam por diferentes assuntos e narrativas, deslizando entre a autobiografia e o ficcional, a oralidade e a escrita, o passado e o presente, além de abordar temas sobre Angola em uma magistral linguagem poética e incisiva: “Uma mulher antiga tem um rio preso nas mãos e guarda-o como a aranha do deserto a sua preciosa gota”. O escritor angolano Ondjaki destacou sobre esta obra de Ana Paula Tavares: “Chegam, ao Brasil, as palavras embrulhadas em pedra antiga, como um lugar feito canoa: a cultura de Angola a navegar o universo africano para pousar nessa américa tão latina”.

Ana Paula Tavares é poeta, cronista, historiadora e professora, nasceu em Lubango, Angola. Autora de textos científicos e poesia dispersa em antologias da Galícia, Itália, França e em Portugal, e de vasta obra literária em prosa e poesia. Tavares tem vínculos fortes com o Brasil, com pesquisa e participações em eventos no país. Também diz ter sido influenciada por escritores brasileiros e pela música brasileira.

1 de julho de 2019

★★★

 

Leia três curiosidades sobre “Água doce”, de Akwaeke Emezi

Festejada obra de estreia de Akwaeke Emezi chega em agosto no Brasil

A Editora Kapulana publica em agosto no Brasil o aclamado livro Água doce, do autor nigeriano Akwaeke Emezi. A obra conta a história de Ada, estudante do último ano de faculdade nos EUA. Quando criança, vivendo no sul da Nigéria, a família se preocupa com ela. Seguindo a tradição, os pais rezaram para consolidar a existência da criança ainda no ventre, mas algo deu errado: talvez os deuses tenham esquecido de fechar a porta, pois Ada nasceu com “um pé do outro lado”, e começa a desenvolver diferentes personalidades. Akwaeke brilhantemente cria uma obra que traz à tona reflexões universais e questões bastante atuais como o fortalecimento de identidades e o empoderamento pela diversidade, além do diálogo entre o tradicional e o inovador.

O livro foi pré-finalista do “Carnegie Medal of Excellence” e do “The Brooklyn Public Library Literary Prize”, além de receber resenhas elogiosas de jornais internacionais como New York Times, Wall Street JournalNew YorkerGuardian e LA Times.

Separamos três curiosidade sobre a obra: 

Akwaeke Emezi: É autor nigeriano de Água doce. Akwaeke é ọgbanje e fez algumas cirurgias para adequar seu corpo – seu receptáculo – para que reflita sua natureza, incluindo a retirada do útero e redução dos seios. Por sua realidade espiritual, identifica-se como não-binário/trans e em inglês usa pronomes neutros; no Português, pede que seja referido no masculino – lido como neutro.

ọgbanje: Traduzido diretamente do Igbo, ọgbanje significa “criança que vem e vai”. São espíritos intrusos que nascem dentro de corpos humanos e não permitem que se desenvolvam até muito além da puberdade, quando, então, morrem propositalmente e retornam em outro corpo, para reiniciar o ciclo de infortúnio. Costumam afetar a mesma mãe, que, assim, perde diversos filhos durante a vida. No livro, os ọgbanje são narradores de grande parte da história e são personagens fundamentais. 

Ala: Ala é uma deusa do povo Igbo, natural do leste da Nigéria. Ela é a deusa da fertilidade, guardiã do mundo inferior e mãe da terra. Segundo a crença Igbo, as pessoas nascem na boca de Ala e, ao morrer, vão para seu ventre, que guarda o domínio dos mortos. Seu agente na terra é a cobra píton, mensageira de seus desejos e advertências. Na obra de Akwaeke Emezi, A Ada, personagem principal e ọgbanje, é filha de Ala. Ela conhece a Mãe ainda criança, uma píton enrolada no chão do banheiro, que a assusta. A jornada de A Ada para autoconhecimento e autoaceitação é a jornada de volta para a Mãe Ala.

26 de junho de 2019

★★★

Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco, por Jacqueline Kaczorowski

 

Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sangüínea?
(“Contemplação no banco”, Carlos Drummond de Andrade)

Após anos de ausência das livrarias brasileiras, somos finalmente agraciados com uma nova publicação desta obra-prima: Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira. O magro e denso romance angolano impacta desde a primeira frase e, como pode gerar certo estranhamento, nesta edição [1] são apresentados brevemente alguns elementos da narrativa com o objetivo de incentivar o leitor a caminhar por este labirinto refinado. Aquele que o percorrer perceberá seu esforço recompensado por uma obra que, não se rendendo a qualquer didatismo, aposta numa composição cuja elaboração ao mesmo tempo requer e oferece ferramentas para a sofisticação do olhar.

Nestes tempos em que presenciamos atônitos o ressurgimento de uma tendência global à intolerância e aos totalitarismos, dados a maniqueísmos de toda sorte, urge combater o afluxo e recorrer a exercícios de humanização. As redes sociais têm sido um bom exemplo de arena onde algoritmos ensinam a reduzir o outro: ali, via de regra, somos induzidos por certo sentido de urgência a não lhe reservar o direito ao erro, ao diálogo, ou mesmo ao processo de aprendizado, percurso que cada um trilha a seu tempo e que exige paciência. Sob aparente fugacidade, fixamos um momento do outro como dado acabado, interditando, assim, possibilidades de transformação. 

Diante de tal cenário, parece senso comum recorrer à sugestão do mergulho na literatura como remédio. A sensibilidade que aciona, o tempo que exige para contemplação, absorção e amadurecimento da apreciação, a identificação com o diferente que demanda e proporciona, a transformação de personagens diante de nossos olhos são algumas das faculdades que caminham na contramão do simplismo que facilmente se transveste em algoz. Recuperando a voz de Antonio Candido, o texto literário “não corrompe nem edifica (…); mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

Importa salientar, entretanto, que, apesar de todo o potencial de humanização que a literatura efetivamente comporta, nem sempre é esta a vocação que privilegia. Um exemplo pode ser encontrado na pena de outro grande escritor, o nigeriano Chinua Achebe, quando ensina que o “vasto arsenal de imagens depreciativas da África que foram coletadas para defender o tráfico de escravos e, mais tarde, a colonização, deu ao mundo uma tradição literária que agora, felizmente, está extinta; mas deu também uma maneira particular de olhar (ou melhor, de não olhar) a África e os africanos que, infelizmente, perdura até os dias de hoje”.

Vale recordar que, no final do século XIX, após a famigerada Conferência de Berlim, o acirramento das disputas territoriais exigia maior firmeza na ocupação das colônias, levando as metrópoles à criação de uma série de órgãos e mecanismos de controle dos territórios e de suas populações. O contexto angolano não foi exceção. Colonizado por Portugal, cujo império precário não teve a brandura que ainda defendem alguns, foi alvo de uma violência que também se expressou na constituição de um vasto repertório discursivo a serviço da dominação. Os “Concursos de Literatura Colonial” promovidos a partir de 1926 pela Agência Geral das Colônias, com alto investimento financeiro e o objetivo de “intensificar por todos os meios a propaganda das nossas colónias e da obra colonial portuguesa”, ilustram bem como a escrita literária passou a exercer função importante nesse quadro.

Ainda que tenha se prestado ao papel de instrumento a serviço da sujeição, a literatura também pôde ser tomada pelo avesso em seu potencial criativo e transformada em “arma que eu conquistei ao outro”, como define Manuel Rui, outro escritor angolano. Desde o século XIX é possível identificar, em Angola, manifestações literárias que desafiam o padrão proposto pelo opressor. No século XX já se verifica o desenvolvimento de um projeto literário autônomo, resultado do empenho de uma geração de escritores e intelectuais entre os quais podemos situar José Luandino Vieira.

Nascido em Portugal em 1935, muda-se cedo para Luanda, onde vive sua infância. É por seu compromisso radical com a luta pela libertação nacional que se torna cidadão angolano e adota o nome “Luandino”. Em decorrência de sua atuação é preso duas vezes e tem sua vida “hipotecada por muitos anos”, desde muito jovem. Conforme conta em seus Papéis da prisão, “do Aljube, em Lisboa, ao Campo de Trabalho no Tarrafal, passando por todas as cadeias disponíveis na nossa terra de Luanda, palmilhei doze anos da estrada da minha vida”. É nesta condição de exceção, portanto, que o autor desenvolve seu primoroso trabalho literário.

Suas memórias do cárcere, ao contrário do que seria esperado, sugerem um pacto com a liberdade capaz de extrapolar o espaço da cela e inscrever as ruas de Luanda e sua cultura popular em textos que, por meio da memória e da imaginação, ajudavam a substituir a vida, para tomar de empréstimo uma expressão do escritor. Confinado em espaços que impossibilitavam outras intervenções diretas, Luandino Vieira atuou dentro de seu “particular campo de acção – o estético”. Os resultados excepcionais demonstram a eficácia da apropriação da língua portuguesa como “despojo de guerra” e o empenho em construir uma voz narrativa que, desestabilizando a lógica da opressão, engendra novos modos de dizer a realidade.

Um dos frutos deste projeto literário é a escrita, em 1967, “de um só jacto”, deste romance singular, composto no Campo de Concentração do Tarrafal, onde Luandino Vieira passou oito anos. Imerso na severidade do “campo da morte lenta”, surpreende a trilha potente e lúcida que desenha para mostrar que “não há outros homens para com eles construir o mundo. É com esses mesmos que se fará – ou nunca se fará”. A capacidade de aderir radicalmente a um projeto ético e também se colocar habilmente na pele do outro, mesmo do mais antagônico, revela como a literatura pode, sim, vestir o manto diáfano da fantasia para combater a violência objetiva do real sem prescindir da “cortesia de dar a cada um o que lhe é devido”, lembrando novamente Achebe.

O início da leitura pode provocar um choque: que língua é essa que, ao mesmo tempo, sinto que conheço e desconheço? O que ela está me contando? Quem fala e de quem fala? Na primeira sentença somos lançados no meio de uma guerra, mas, logo em seguida, adentramos uma brincadeira em um dia de sol. O que aconteceu?

O leitor que aprender a ouvir o movimento do texto notará que um dos recursos utilizados pelo escritor é a justaposição de ideias, cenas e imagens que podem parecer desconexas. Ao longo da obra, no entanto, muitas delas são retomadas, desvelando aos poucos algumas associações complexas e sempre aprofundando sentidos. Com paciência é possível construir familiaridade com os procedimentos e perceber que alguns se assemelham àqueles do funcionamento da memória, que muitas vezes irrompe de maneiras imprevistas, nem sempre lineares.

Seguindo o movimento da memória de Mais-Velho, acionada pela dor, passamos a reconhecer sua voz e outras tantas que incorpora à sua, num emaranhado cada vez mais complexo, mas também mais nítido. Lembranças, projeções e muitas indagações são misturadas ao momento real que este narrador-personagem vivencia: sua caminhada em direção ao irremediável reconhecimento da morte de Maninho e do “viver de morte” que agarrou Paizinho. Nesta deambulação conhecemos os outros três protagonistas: Maninho, Paizinho e Kibiaka. A realidade asfixiante do colonialismo obriga os companheiros inseparáveis de aventuras infantis pelos capins do Makulusu a carregarem “o alegre caixão da nossa infância” na escolha de rumos inconciliáveis: Maninho, branco nascido na metrópole (assim como seu irmão Mais-Velho) integra o exército colonial português, escolha forçosa que defende com a ideia de que “só há uma maneira de a acabar, esta guerra que não queres e eu não quero: é fazer-lhe depressa, com depressa, até no fim, gastá-la toda, matar-lhe”. Paizinho, meio-irmão mestiço dos dois, participa de ações clandestinas e acaba preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Kibiaka, amigo negro morador do Bairro Operário, junta-se à guerrilha. Mais-Velho é aquele que segue imerso em dúvidas; o “escrupuloso” que, segundo o olhar de Maninho, não teve certeza suficiente para tomar uma decisão radical como as de seus companheiros e “limitou-se” ao trabalho clandestino. São “quatro ritmos e saberes e vidas diferentes” atravessados pela violência, inexorável.

No trajeto descobrimos pela voz de Mais-Velho que Maninho, “o melhor de todos nós”, era integrado à terra e aos seus, “ele é quem (…) bebia e comia, falava e ria sempre lá entre os que eu amava vagamundeando nas ruas solitárias e velhas da nossa terra de Luanda. E a ele a carabina escolhera. Simples buraco, fino e furo, toda a vida por ele saiu…”, “para ficar da cor da farda que lhe embrulha, tapado nas moscas, antes que a salva do estilo vai-lhe acordar no sonho de amor que, no ódio do próprio ódio, queria construir”. Descobrimos também que, se Kibiaka “segue na mata seu caminho de dignidade”, também pode ter saído de suas mãos, “que são as culpadas de ter homens com ideias e dignidade”, o balázio que roubou a vida de Maninho. E que Mais-Velho, em um gesto de solidariedade à luta, no Natal colocara “no sapatinho o único brinquedo que merece um homem digno como o meu amigo Kibiaka: Parabellum, de 9 milímetros”.

Paizinho, cuja cabeça “era uma peça de alta precisão, um instrumento afinadíssimo que ele cuidava diariamente com pensamento e acção”, que “nunca trai, porque é sério em tudo que em sua vida faz”, de “sangrenta presença” nos presságios do meio-irmão, é apresentado ao Mais-Velho de seis anos de idade ao mesmo tempo que a dor da mãe “Estrudes”: “cara desfeita e enrugada, alguma coisa lhe dói no dentro da alma é o que pode ser, pois não tira os olhos do miúdo encardido, seguro na mão da mulher negra, está quieto como se fosse de pau”. Dela conhecemos ainda a funda dor da perda do filho, as “mãos grossas de unhas curtas e negras do trabalho, aquelas pernas de varizes que não se equilibravam nos sapatos de salto alto”, de “apanhar azeitona dentro de Invernos frios e descalços da tua infância”, a “coragem de sempre perder” – quando pai Paulo afirma que Paizinho é seu afilhado com o “tranquilo riso de quem que sabe verdade ou mentira ele é que fala verdade sempre”.

Pai Paulo, colono pobre e racista, é exemplar tão verossímil da colonização lusa quanto o operário Brito, com sua consciência de classe que permite linchar publicamente um trabalhador negro. O lamento materno desta morte evoca o peso da violência colonial sobre toda uma coletividade: “este o grito só que oiço ou é coro de milhões de gritos iguais?”. A narrativa dialeticamente evidencia as contradições de um sistema extremamente embrutecedor e não interdita a complexidade a nenhuma das personagens, recuperando traços que marcam também a constituição subjetiva de todo um grupo.

O vigor da premissa, que é possível vislumbrar mesmo com a apresentação de poucos elementos, somado à extraordinária habilidade com que o escritor humaniza todas as personagens sem jamais elidir as relações de força entre elas, entregam ao leitor um texto pelo qual é impossível passar incólume. “Amar os homens é sempre uma alegria dolorosa”, afinal.

São Paulo, abril de 2019.

Jacqueline Kaczorowski
Pesquisadora-bolsista (CAPES – FFLCH/USP), membro do grupo de pesquisa PIELAFRICA – Pactos e impactos do espaço nas literaturas africanas de língua portuguesa (Angola e Moçambique), vinculado à UFRJ.

Citar como:

O ARTIGO:
KACZOROWSKI, Jacqueline .“Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco”. Prefácio. In: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/nos-os-do-makulusu-do-fundo-humano-em-cada-caco-por-jacqueline-kaczorowski/>

O LIVRO:
VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]. Disponível em: http://www.kapulana.com.br/produto/nos-os-do-makulusu/<>

Kapulana publica no Brasil livro inédito do escritor moçambicano Adelino Timóteo

Adelino narra a história de um homem rico com ideias excêntricas, entre as quais a crença de que cada homem é, na verdade, um pássaro, e tomaria essa forma após a morte

A Editora Kapulana publica no Brasil o romance inédito do escritor moçambicano Adelino Timóteo, Cemitério dos pássaros. Na obra, Adelino narra a história de Dazanana de Araújo Simplíssimo, um homem rico com ideias excêntricas, entre as quais a crença de que cada homem é, na verdade, um pássaro, e tomaria essa forma após a morte. Seguindo essa convicção, Dazanana constrói um cemitério para seus familiares, no qual cada um é nomeado como um pássaro. A partir disso, a história se desenrola com tons de literatura fantástica. O romance faz parte da série “Vozes da África”, composta por obras de ficção em prosa e poesia, dedicadas a crianças e a adultos.

Adelino Timóteo nasceu na Beira, em Moçambique. Formou-se na área de docência em Língua Portuguesa, mas não exerceu a profissão. Ingressou no Jornalismo em 1994, na cidade da Beira, no Diário de Moçambique, e, mais tarde, tornou-se correspondente do semanário Savana, da mesma cidade. É licenciado em Direito e exerce a função de jornalista no semanário Canal de Moçambique, também da cidade da Beira. Além disso, é artista plástico e já realizou várias exposições individuais de artes, em Moçambique e no estrangeiro. Recebeu diversos prêmios, como o de “Melhor Escritor da Cidade da Beira”.

18 de junho de 2019

★★★

TOM FARIAS

É jornalista, escritor, biógrafo e crítico literário, com especialização em literatura do final do século 19. É autor, brasileiro, de diversos livros e artigos, inicialmente publicados com seu próprio nome – Uelinton Farias Alves. Mais tarde, adotou o nome literário TOM FARIAS.

Dedica-se à pesquisa sobre personalidades negras brasileiras, organizando biografias, proferindo palestras, dando entrevistas, de modo a atribuir ou recuperar a relevância histórica e literária dessas personagens, como Cruz e Sousa, José do Patrocínio e Carolina de Jesus.

Colabora também com vários jornais, escrevendo resenhas e crítica literária sobre escritores africanos e afrodescendentes, e com revistas literárias onde contribui com ensaios. É autor do posfácio “Martinho, um artesão”, no livro de Martinho da Vila, 2018, Crônicas de um ano atípico, lançado em 2019.

Tom Farias tem papel de destaque em ações que fortalecem o intercâmbio sociocultural entre os países de língua portuguesa. Como reconhecimento de sua atuação cultural, social e literária, recebeu vários prêmios e condecorações.

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • 1987 – O abolicionista Cruz e Sousa.
  • 1990 – Reencontro com Cruz e Sousa.
  • 1996 – Cruz e Sousa, poemas inéditos.
  • 2001 – Os crimes do Rio Vermelho.
  • 2008 – Cruz e Sousa: O Dante Negro do Brasil.
  • 2008 – Oscar Rosas: poesia /conto/crônica.
  • 2009 – José do Patrocínio, a imorredoura cor de bronze.
  • 2018 – Carolina, uma biografia.

PRÊMIOS E CONDECORAÇÕES

  • 1991 – Prêmio Silvio Romero de Crítica e História Literária, da Academia Brasileira de Letras. (pela obra Reencontro com Cruz e Sousa, 1990.)
  • 1998 – Medalha de Honra ao Mérito, pelo Governo de Santa Catarina.
  • 2009 – Finalista da 51ª ed. do Prêmio Jabuti, categoria “Melhor Biografia”, com o livro Cruz e Sousa, o Dante Negro do Brasil.
  • 2018 – Prêmio Carolina Maria de Jesus, conferido pela FLUP (Festa Literária das Periferias – RJ).
  • 2019 – Finalista da 61ª ed. do Prêmio Jabuti, categoria  “Biografia, Documentário e Reportagem”, com o livro Carolina: uma biografia.

Publicado pela Kapulana, Martinho da Vila lança em São Paulo o livro “2018 – Crônicas de um ano atípico”

A obra reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses de 2018

O cantor, compositor e escritor Martinho da Vila realizou, na última quarta-feira (12), no Sesc Avenida Paulista, o lançamento de seu mais recente livro 2018 – Crônicas de um ano atípico, publicado pela Editora Kapulana. O evento, que também contou com um bate-papo com Martinho, teve a mediação do escritor e jornalista Tom Farias.

Durante a conversa, Martinho comentou sobre a elaboração do livro: “Escrever é trabalhar com a emoção. No primeiro momento, eu pensei em escrever uma crônica sobre os meus 80 anos de idade e o que aconteceu comigo nesses anos todos. Além de pegar esses momentos pessoais, também decidi escrever sobre os fatos que me cercaram. Vi que o ano de 2018 foi realmente atípico. Aí tive a ideia de colocar o título 2018 – Crônicas de um ano típico.

O livro reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses do ano de 2018. Com humor e leveza, Martinho fala da comemoração dos seus 80 anos, da renovação dos votos de casamento com Cléo, da escola de samba Vila Isabel, da cidade do Rio de Janeiro, relembrando alguns de seus sucessos no samba e na literatura. Também aborda fatos marcantes, como o assassinato de Marielle Franco, as eleições presidenciais, a visita ao ex-presidente Lula em Curitiba e a derrota do Brasil na Copa do Mundo.

Martinho da Vila é um grande e legítimo representante da MPB, com várias composições gravadas por cantores e cantoras de diversas vertentes musicais, intérpretes consagrados no Brasil. Além disso, também é autor de quinze livros, tanto de ficção quanto de não ficção, lançados no Brasil e em Portugal, e alguns deles traduzidos para o francês. Continua em plena atividade como artista e como escritor, fazendo turnês nacionais e internacionais.

Assista trechos do bate-papo e lançamento:

 

13 de junho de 2019

★★★

João Paulo Borges Coelho visita Kapulana, editora oficial do autor no Brasil

O premiado escritor moçambicano participou de um bate-papo audiovisual com a Profª Drª Rita Chaves na sede da Kapulana, editora que lançará dois livros do autor no Brasil

A Kapulana recebeu, no dia 6 de junho, em sua sede, a visita do premiado escritor e historiador moçambicano, João Paulo Borges Coelho, que publicará, pela primeira vez no Brasil, duas obras de sua carreira, As visitas do Dr. Valdez (setembro de 2019) e Crônica da Rua 513.2 (em 2020), pela Editora Kapulana. O autor também participou de uma entrevista audiovisual, conduzida pela Profa. Dra. Rita Chaves (USP) sobre os dois livros e a sua trajetória literária.

Na conversa com Rita Chaves, Borges Coelho comentou sobre o seu processo de escrita, o começo na ficção, o desenvolvimento e o trabalho narrativo das duas obras que a Kapulana lançará, como distingue as atividades de historiador e de escritor, assim com influências literárias que marcaram a sua escrita e os estudos universitários realizados em sua obra. O bate-papo será publicado em breve no canal da Kapulana no YouTube.

Apesar de a obra do consagrado escritor já ser objeto de muitos estudos acadêmicos no Brasil, será a primeira vez a ser publicada em nosso país.

OBRAS DA KAPULANA

13 de junho da 2019.

★★★

Saiba mais:

NATALIA BORGES POLESSO

NATALIA BORGES POLESSO

Doutora em Teoria da Literatura, é escritora bastante premiada, e  também tradutora.

Tem seu trabalho traduzido para o Inglês e o Espanhol e está publicada em diversos países. 

 

OBRAS DA KAPULANA

POLESSO, Natalia Borges. “Sobre Água doce, de Akwaeke Emezi“. Texto da orelha. In: EMEZI, Akwaeke. Água doce. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • 2013 – Recortes para álbum de fotografia sem gente.
  • 2015 – Amora.
  • 2015 – Coração a corda.
  • 2018 – Pé atrás

PRÊMIOS E DESTAQUES

  • 2013 – Prêmio Açorianos, pelo livro Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013).
  • 2016 – Prêmio Açorianos, pelo livro Amora (2015).
  • 2016 – Prêmio Jabuti, pelo livro Amora (2015).
  • 2017 – Escritora selecionada para a coletânea Bogotá39, que reúne 39 escritores da América Latina com menos de 40 anos mais destacados do momento.

 

JACQUELINE KACZOROWSKI

JACQUELINE KACZOROWSKI

É Doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), sob orientação da Prof. Dra. Rita Chaves. É bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Durante o mestrado, concluído em 2017, desenvolveu pesquisa sobre a obra Nós, os do Makulusu, do escritor angolano José Luandino Vieira.

Foi docente do curso de Graduação em Letras da Universidade de Aswan (Egito), responsável pelas disciplinas Literaturas de Língua Portuguesa, Teoria Literária e Produção de Gêneros Textuais Acadêmicos durante o período letivo de 2017/2018.

É membro do grupo de pesquisa PIELAFRICA (Pactos e impactos do espaço nas literaturas africanas de língua portuguesa (Angola e Moçambique), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Trabalha sobretudo com Literaturas Africanas, buscando investigar as intricadas relações entre produção artística e contexto histórico-social.

OBRAS DA KAPULANA

KACZOROWSKI, Jacqueline. “Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco”. Apresentação in: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

OUTRAS PUBLICAÇÕES

“Militância anticolonial e representação literária: Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira e Un fusil dans la main, un poème dans la poche, de Emmanuel Dongala”. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCHUSP, 2017. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8156/tde-06032018-130319/pt-br.php

Possui artigos publicados em periódicos especializados e capítulos de livros.

PARTICIPAÇÕES

Participou de diversos eventos acadêmicos, além de ter colaborado com a organização de alguns eventos na área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

 

Avisos à navegação, por Carmen Tindó Secco

Os saberes de uma época são formados por teias de representações sociais e culturais, incluindo os discursos literários. São essas malhas de conhecimentos e memórias que a escrita de Ana Paula Tavares revisita e tece com lucidez e poesia. Suas crônicas são curtas, densas e profundamente políticas.  A escritora – também exímia poeta – maneja as palavras com labor e arte, construindo sentidos que transformam seu discurso em viagem por dentro do tempo e da linguagem. Viagem que se converte em autoconhecimento, em regresso à própria casa, à terra natal, ao âmago de si e do poético. Ler Ana Paula é penetrar nos labirintos da história, repensando perdas, dores, tradições. É mergulhar no íntimo dos vocábulos que brilham com olhos de sabedoria e prazer.

As crônicas de Um rio preso nas mãos, de Ana Paula Tavares, questionam aspectos do presente angolano, ao mesmo tempo que reinventam tradições silenciadas de povos de Angola. Em sua escrita, sangram palavras, medos, silêncios, o livro do tempo em seus deveres e haveres. Desse modo, as pontas de vários contextos históricos vão-se enlaçando. Na crônica “As Mães”, por exemplo, a voz enunciadora, em diálogo intertextual com o poema do angolano Viriato da Cruz usado como epígrafe, lembra os sofrimentos das mães de ontem e de hoje em Angola.

A autora escava camadas de letras para encontrar uma “nova carta”, reveladora de outras lembranças e estórias. Fantasmas assombram a escrita, fazendo aflorarem do passado tradições esquecidas. Há a recordação de um tempo sem fronteiras, que excitava intercâmbios entre os povos, bem como a interpenetração de línguas e linguagens. Tudo isso, porém, ficou no outrora, na argila e na água com que se moldavam o barro e a vida. Hoje, “ao lado da fronteira alinhou-se a palavra ameaça (…). Cercaram o paraíso de muros altos e arame”.

Na crônica “O Livro do Deve e do Haver”, é elaborada, de modo crítico, uma contabilidade da história do colonialismo português, das dívidas cobradas à terra angolana. Aqui, é lançado um olhar questionador e defendida a urgente construção de uma solidariedade orgânica, capaz de romper com a contabilidade dos lucros que só beneficiava os algozes de uma terra que desejava hastear sua independência. Das contas, dos diários, a voz enunciadora passa aos poemas que prepararam e alimentaram a luta revolucionária. Bons tempos esses que não deveriam ser esquecidos! Contudo, mudanças ocorreram e a utopia da liberdade foi maculada por políticas e economias neocoloniais.

É melancólico esse balanço crítico, após tantos anos de guerras e sangue derramado! Esgarçam-se não apenas as economias e as sociedades africanas, mas, principalmente, as identidades. A contrapelo dessa história de estagnação, implosão e declínio econômico-cultural, as crônicas de Um rio preso nas mãos, muitas das quais originalmente publicadas, em 2014 e 2015, no Rede Angola[1], focalizam, em sua maioria, diversas tradições angolanas esquecidas, como, por exemplo, a das mulheres que vestiam panos, cumpriam rituais, cozinhavam com óleo de palma, bordavam colares de miçangas e modelavam o barro vermelho, ao mesmo tempo que recordavam os lemas revolucionários, quando eram ainda jovens e esperançosas da edificação de uma Angola livre e solidária. O diálogo com a liberdade, com a terra, com a comunhão entre os homens é rememorado, manifestando saudade dessa época.

Na crônica “Desafiar o Silêncio”, a cronista aborda a função social das mulheres no mundo atual e cobra das independências dos países africanos a urgência de “remover moléstias antigas, abrir escolas”. Defende que são as mulheres – tanto as dos espaços rurais, como as das cidades atuais – as conhecedoras da diversidade de seus papéis na família, no trabalho, no cotidiano das relações de vizinhança e na sociedade.

Ana Paula repensa o desempenho das mulheres em algumas tradições angolanas; acaba por refletir, também, metapoeticamente, sobre a função da palavra e da arte. Num corpóreo silêncio, sua escrita urde, crítica e poeticamente, sua trama com consciência e mel; estilhaça medos; “fala” pelo outro que toca a vida, muitas vezes, sem ter a real percepção dela. Medos, os mais variados, se repetem no mundo contemporâneo, em obras de poetas e romancistas. Por isso, é mister, cada vez mais, trabalhar a palavra, envolvê-la em tecidos finos, misturá-la a sons rústicos e estrepitosos, a vozes profundas que mergulhem no mistério das almas, como se estivessem sobre aveludados divãs de psicanalistas, magos ou visionários.

Na crônica “Humidade”, a voz poética enunciadora é a grande tecelã: a aranha do deserto a tecer a teia da vida, do tempo e da linguagem. Esse fluir, entretanto, se  encontra preso como o rio nas mãos gretadas e em sangue da mulher antiga. Mãos que, todavia, também guardam a gota preciosa do cacimbo, orvalho de esperança: água da palavra, poesia.

Em “O Medo”, a voz narradora, ao final, adverte: “Não tenho soluções, só pedidos: ajudem a parar esta dor de cacimbo, deixem passar as vozes para podermos ver claro no meio das sombras e partilhar agasalho neste cacimbo de frio”. Medo, cacimbo, sombras – recorrentes marcas metafóricas de uma escrita que persegue a luz para não se perder na névoa social e política que embaça a liberdade. Nas entrelinhas, fica uma probabilidade de que ainda seja tempo de escrever sonhos e cultivar desejos.

As crônicas de Ana Paula Tavares desenham paisagens e pessoas. “A Cor das Vozes” faz homenagem a Ivone Ralha, senhora das mãos de seda, da escrita das pedras, da areia, do amor. Há narrativas, como “A Voz da Avó” ou “As Formigas”,  que recriam provérbios nyanecas. Há outras que demonstram que a ideia de liberdade não se afigura de forma igual para todos. Há, ainda, as que relembram o fogo sagrado, a panela grande, a madeira que arde, o cheiro de flor, a máscara de Mwana Puó, a voz firme da avó a contar estórias encantadas. Tudo isso está presente na arqueologia da vida das crônicas de Ana Paula, cuja escrita vai acendendo, no avesso das palavras, pequenos lumes que funcionam como “avisos à navegação”, como alertas contra a violência e a ganância que destroem os sonhos.

[1] Rede Angola: Portal online de jornalismo independente, cujos objetivos eram a informação, o entretenimento, a divulgação não só da cultura e do pensamento angolano, mas também de acontecimentos sociais, políticos, econômicos, culturais do mundo. Idealizado em 2012 por Sérgio Guerra, Lara Longle, Saymon Nascimento, o Rede Angola foi gerido por esse trio, mas teve curta existência, sendo fechado no final de maio de 2017. Diversos artistas, músicos, poetas, escritores – Aline Frazão, José Eduardo Agualusa, Ana Paula Tavares, Ivone Ralha etc. – participaram desse portal, publicando, na seção “Cultura”, crônicas, ilustrações, etc. Disponível em: <http://www.redeangola.info/palavras-deserto/> Acesso em: 05 mar 2019.

Rio de Janeiro, 05 de março de 2019.

Carmen Lucia Tindó Secco
Profa. Titular de Literaturas Africanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)
e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro)

Citar como:

O ARTIGO:
SECCO, Carmen L. T. “Avisos à navegação”. Prefácio. In: TAVARES, Ana Paula. Um rio preso nas mãos – Crônicas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/avisos-a-navegacao-por-carmen-tindo-secco/>

O LIVRO:
TAVARES, Ana Paula. Um rio preso nas mãos – Crônicas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Canal FX anuncia a adaptação para série do livro “Água doce”, de Akwaeke Emezi

Obra de estreia de Akwaeke Emezi será publicada no Brasil pela Editora Kapulana

O canal por assinatura FX anunciou, por meio da revista americana Variety, que está desenvolvendo a adaptação para série da obra Água doce, livro de estreia de Akwaeke Emezi, da Nigéria, e que a Editora Kapulana publica no Brasil em agosto. A obra, lançada originalmente com o nome Freshwater, foi traduzida para o português por Carolina Kuhn Facchin. Emezi também escreverá e produzirá o seriado ao lado da diretora e roteirista Tamara P. Carter. O projeto contará com a supervisão de Kevin Wandell e Lindsey Donahue. A rede televisiva FX é responsável por trazer ao público premiadas e elogiadas séries, como Atlanta, Legion, American Horror Story, Fargo, entre outras. 

A obra conta a história de Ada, estudante do último ano de faculdade nos EUA. Quando criança, vivendo no sul da Nigéria, a família se preocupa com ela. Seguindo a tradição, os pais rezaram para consolidar a existência da criança ainda no ventre, mas algo deu errado: talvez os deuses tenham esquecido de fechar a porta, pois Ada nasceu com “um pé do outro lado”, e começa a desenvolver diferentes personalidades. Akwaeke brilhantemente cria uma obra que traz à tona reflexões universais e questões bastante atuais como o fortalecimento de identidades e o empoderamento pela diversidade, além do diálogo entre o tradicional e o inovador.

O livro foi pré-finalista do “Carnegie Medal of Excellence” e do “The Brooklyn Public Library Literary Prize”, além de receber resenhas elogiosas de jornais internacionais como New York Times, Wall Street JournalNew YorkerGuardian e LA Times.

27 de maio de 2019

★★★

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/agua-doce/

Saiba mais sobre Akwaeke Emezi: http://www.kapulana.com.br/akwaeke-emezi-agua-doce/

Saiba mais sobre a tradutora: http://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-facchin-tradutora/

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

 

“O pátio das sombras”, escrito por Mia Couto e com ilustrações de Malangatana, vence Prêmio FNLIJ 2019

Obra infantojuvenil escrita por Mia Couto e com Ilustrações de Malangatana vence Prêmio FNLIJ 2019 

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) premiou, na categoria Literatura em Língua Portuguesa, o livro infantojuvenil O pátio das sombras, de Mia Couto e com ilustrações de Malangatana. A obra é o último volume da série “Contos de Moçambique”, que, desde 2016, é publicada no país pela Editora Kapulana. A premiação é bastante relevante para o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa.

No enredo de O pátio das sombras, um menino vive com a família em uma aldeia. Um dia, a avó se nega a ir até a plantação, pois diz estar cansada. Durante o trabalho, a família escuta ruídos de festa vindos da aldeia, e todos se perguntam se a avó tinha visitantes. O menino vai checar, mas encontra a avó sozinha. O acontecimento se repete, deixando o menino cada vez mais confuso, até que a avó lhe dá explicações ensinando-lhe uma linda lição sobre a vida e a morte. As páginas são compostas pelas deslumbrantes ilustrações de Malangatana (1936-2011). Utilizando da técnica de pintura nanquim, o artista moçambicano criou desenhos que dialogam com o texto de forma fluída e fascinante. 

A FNLIJ atribuiu, também na mesma categoria,  a outros três livros publicados em 2018 pela Editora Kapulana no Brasil a indicação de Altamente Recomendável. As obras recomendadas e que concorreram ao prêmio de 2019 foram originalmente publicadas em Moçambique pela Escola Portuguesa de Moçambique. Nas edições brasileiras, foi feita a adaptação para a versão da Língua Portuguesa em vigor no Brasil, conforme o Acordo Ortográfico atual.

Conheça as obras com o selo “Altamente Recomendável” e leia alguns trechos:

SÉRIE CONTOS DE MOÇAMBIQUE – A série “Contos de Moçambique” nasceu de um projeto de colaboração entre a “Escola Portuguesa de Moçambique” e a “Fundació Contes pel Món”, de Barcelona, Espanha. Em 2015, a Editora Kapulana fez uma parceria com a “Escola Portuguesa de Moçambique” para publicar no Brasil essa magnífica coleção, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro uma amostra da cultura moçambicana. A série é composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique. 

27 de maio de 2019

★★★

Para conhecer mais sobre os outros volumes da série “Contos de Moçambique” e os demais livros infantis da Kapulanahttp://www.kapulana.com.br/infantis/

Para conhecer a FNLIJhttps://www.fnlij.org.br/

Maria Celestina Fernandes vence prêmio Globos de Ouro Angola com a obra “Kambas para sempre”

Maria Celestina Fernandes vence importante prêmio literário em Angola

A escritora angolana Maria Celestina Fernandes recebeu, na noite do último domingo (26), prêmio dos Globos de Ouro Angola 2019 na categoria Obra literária do ano por uma Autora pelo livro Kambas para sempre. A Editora Kapulana publicou o título no Brasil, com as ilustrações da artista brasileira Mariana Fujisawa. Em seu discurso de premiação, Celestina Fernandes agradeceu à família e votantes: 

“Este Globo é dedicado, primeiro às pessoas que votaram em mim e que me depositaram confiança. Depois, à minha família, em particular aos meus filhos, que são os meus grandes inspiradores”.

Em Kambas para sempre, Celestina Fernandes narra a história de Lueji, uma menina brasileira e afrodescendente, com nome de rainha. Ela gosta de ouvir as histórias da avó, que narra os episódios contados por seus bisavós, que foram trazidos ao Brasil em navios negreiros. Nesta história, Lueji passa por diversos momentos de preconceito, porém, ao final, descobre o valor da amizade e a importância de celebrar as diferenças. 

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, província da Huíla. Ainda muito jovem foi para Luanda, onde cresceu e fez toda a sua formação. É Assistente Social e licenciada em Direito. Dentre as várias funções que exerceu, destaca-se o serviço prestado no Banco Nacional de Angola, onde chefiou o departamento social e posteriormente passou para a área jurídica, aposentando-se na categoria de subdiretora. Iniciou a carreira literária no início da década de oitenta. É autora de uma vasta obra, com destaque para a literatura infantojuvenil. Tem obras premiadas e algumas traduzidas para outros idiomas.

Os Globos de Ouro Angola são a mais importante premiação do país e que prestigia o trabalho de profissionais e artistas de diversas áreas, destacando anualmente as pessoas que mais se destacaram na sua arte e ofício. O prêmio é atribuído em iniciativa e organização conjunta da STEP e da Platina Line, além de contar com a “Academia Globos de Ouro Angola”, cujos integrantes são personalidades e profissionais convidados, especializados e reconhecidos nos ramos. As categorias de premiações são diversas e consagram artistas que se destacaram nas áreas do Teatro, Televisão, Rádio, Moda e Música, assim como na Literatura, com prêmios para a Obra Literária do Ano e o Autor do Ano

A Kapulana publicou no Brasil as seguintes obras de Maria Celestina Fernandes:

27 de maio de 2019

★★★

Saiba mais sobre a autorahttp://www.kapulana.com.br/maria-celestina-fernandes/

Saiba mais sobre o Globo de Ouro Angola: https://www.globosdeouroangola.com/

Assista a premiação: https://www.youtube.com/watch?v=q-ru31ffNug

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

Morre o escritor queniano Binyavanga Wainaina, aos 48 anos.

Binyavanga Wainaina, autor de livro Um dia vou escrever sobre este lugar, faleceu em 21 de maio de 2019.

É com enorme tristeza que a Editora Kapulana noticia o falecimento, aos 48 anos, do escritor e ativista queniano Binyavanga Wainaina, na última terça-feira (21). A Kapulana publicou, em novembro de 2018, no Brasil, a obra Um dia vou escrever sobre este lugar, em que ele entrelaça suas memórias de infância, adolescência e vida adulta à história contemporânea do continente africano.

Leitor de livros e lugares, palavras e pessoas, Binyavanga estrutura seu mundo através da linguagem. Sempre na margem e olhando para dentro, teve dificuldade para se encaixar nos padrões estipulados da sociedade. Estudou Administração na África do Sul, mas desistiu do curso, lendo vorazmente e fazendo trabalhos temporários até perceber que sua vocação era, de fato, a escrita. Seu texto “Discovering home”, sobre uma viagem com a família para Uganda, ganhou o “Caine Prize for African Writing”, em 2002, importante prêmio que reconhece o talento e a promessa de autores africanos de língua inglesa. One day I will write about this place, seu livro de memórias, foi publicado em 2011, cimentando a carreira do queniano como escritor.

22 de maio de 2019

Conheça a vida e a obra do autor:

http://www.kapulana.com.br/binyavanga-wainaina/

http://www.kapulana.com.br/produto/um-dia-vou-escrever-sobre-este-lugar-binyavanga-wainaina/

 

Nós, os do Makulusu – a palavra e o outro, por Rita Chaves

De 1967, ano em que José Luandino Vieira escreveu essa extraordinária narrativa até o presente, muitos abalos têm sacudido Angola: o país conquistou sua independência em 1975, os conflitos armados se sucederam, em 2002 um acordo de paz foi assinado, a república tem agora o seu terceiro presidente, o projeto socialista foi abandonado, novos escritores fortaleceram o processo de formação da ficção angolana, outras formas de arte ganharam energia… A natureza e a intensidade de tantas mudanças nos levam certamente a levantar questões sobre a validade de uma nova edição no Brasil desta obra escrita no calor de uma hora tão particular na história do país e não só. Podemos começar por recordar, nesse sentido, que na década de 1960 o mundo à nossa volta vivia sob a luz de muitas utopias e olhava, com algum entusiasmo, as lutas de libertação que prometiam mais que a vitória sobre o colonialismo português e sua insistência em se prolongar na África. Mesmo no Brasil, imprensado sob mais um período ditatorial, havia réstias de esperança na resistência e na possibilidade de superar a truculência dos coturnos. Certamente pela primeira vez, do continente africano sempre visto como um espaço à parte no contexto mundial, alguns territórios emergem como focos de luz em um planeta que parecia sacudido por ideais de justiça e igualdade social.

Após quase meio século e as mudanças que ficaram a meio caminho do sonho, somos levados a pensar no significado de uma obra que nos fala da luta anticolonial e, sob o selo de uma inequívoca escolha ideológica, traz-nos as marcas de um pertencimento a um lado da cidade dividida tão bem descrita por Frantz Fanon em seus agudos tratados sobre o colonialismo. Como explicar a capacidade que a obra revela de se manter atual em um momento tão diverso daquele em que nasceu? Para nos aproximarmos da complexidade desses tempos (daquele passado e do nosso presente), e para examinarmos as relações da literatura com a experiência histórica que a linguagem de Luandino trabalha com maestria, é que podemos percorrer com um atormentado narrador as ruas e becos de uma cidade que é bem mais que uma paisagem, que é simultaneamente um espaço e um tempo, uma espécie de quadro vivo que, nas sensações que evoca, nos traz a dor e a perplexidade de uma geração.

Quando se fala de Angola e de seu caminho em direção ao fim do colonialismo, o conceito de geração se alarga. Não se trata de um grupo definido pela faixa etária, mas pelo compromisso com um projeto, o da libertação nacional. Desde o fim dos anos de 1940, o sonho de um país livre juntou angolanos de várias idades, raças e classes, empenhados na conquista da libertação política e social, entre os quais podemos identificar aqueles que, percebendo a escrita como uma arena, procuraram fazer da literatura mais um instrumento para a transformação. Aí encontramos José Luandino Vieira, um escritor cidadão movido desde cedo pelo compromisso de associar ao sentido ético de sua luta a dimensão estética de seus textos. Seu pacto, sempre e a um só tempo, com a ordem que desejava e com a beleza em seu sentido maior, manifesta-se nesse exercício de dupla lealdade a que ele devota seu trabalho e seu talento.

O primeiro título, A cidade e a infância, já apontava o caminho de dois temas caríssimos que serão visitados a partir de várias perspectivas, todas elas guardando a marca da complexidade que ele soube ver nas situações que aborda. Nesse conjunto de contos, uma funda familiaridade dos narradores com os espaços em que se armam os enredos, aponta para a sua capacidade de circular por áreas da cidade que permaneciam à margem e mantinham uma certa impermeabilidade à lógica imposta, a despeito das incursões nada amigáveis da violência policial, único braço do estado a se manifestar com frequência na cidade do colonizado. Poucos anos depois, em A vida verdadeira de Domingos Xavier e, principalmente, Luuanda, o processo de escrita de Luandino seria redimensionado na opção pela ruptura operada no domínio da linguagem. Será, todavia, nesse fabuloso Nós, os do Makulusu, escrito na aridez do Tarrafal (o terrível campo de concentração localizado em Cabo Verde, onde estavam presos nacionalistas que tinham ousado desafiar a opressão colonial), que as tintas da radicalidade darão nota ao projeto literário que, acompanhando as voltas e reviravoltas de Angola e do mundo, continua em curso. A condição do autor, detido e condenado a tantas formas de sujeição, torna ainda mais surpreendente o resultado de uma obra que renuncia à tentação do maniqueísmo e traz para o debate a humanização do inimigo. Não se trata de reduzir a tensão ou relativizar a dimensão do mal, mas de buscar uma reflexão mais densa sobre os embates que a História plantou naquele solo.

A morte, de que o tiro que dá início à narrativa é uma pungente metonímia, enraíza o problema da diferença de posições e dimensiona o drama, mas não dilui a necessidade de se ter em conta o lugar do angolano – esse outro invisível na sociedade colonial e na literatura produzida na metrópole, em cujas páginas ele não passaria de um elemento do cenário, como podemos observar em tantos títulos. Essa oclusão facilmente explicável no repertório mais afinado com as ideias do império, torna-se inquietante nos textos produzidos com o compromisso da denúncia social e coloca em debate a ausência do problema colonial e, consequentemente, dos africanos nas obras do Neorrealismo. Tal invisibilidade foi captada por Luandino que, contudo, não lança explicações superficiais, renunciando com firmeza o jogo da contraposição banal. Ao contrário, ao mergulhar nas águas fundas de um universo convulsionado deixa ver a contradição como traço dominante. Atento aos movimentos da História, ele põe em cena a dureza da experiência dos impasses da vida cortada pela guerra e pelos caminhos trilhados pelos quatro personagens que partilharam a infância nesse pedaço da cidade que o Makulusu inscreve.

Assim, os dilemas e a vivência algo surpreendente de personagens muito variados, coexistindo em mundos segmentados, não são apenas o tema, definindo-se como marcos da estrutura que nos coloca de frente para a profundidade da crise dinamicamente espelhada pela narrativa. O autor recusa-se a uma simples inversão de pontos de vista, conduzindo-nos, de modo muito produtivo, ao desafio de olhar a situação sob o signo da mobilidade, expondo, sem perder a medida do lado que é o seu, as hipóteses da diversidade que o maniqueísmo prefere banir. Nesse movimento, recorre à sobreposição temporal e potencializa a coexistência de tradições, línguas e códigos culturais para trazer à luz a fratura que define as relações sob a dominação colonial. O desejo de ruptura que o afasta deliberadamente da norma lusitana articula-se aos gestos de aproximação com o universo marginalizado pelo poder e o resultado é a construção de uma linguagem centrada no corte, nas elipses, no ritmo de uma sintaxe que evidencia o desconcerto do mundo à volta.

Na consciência do Mais-Velho, estilhaçada pela inviabilidade de um projeto de transformação imerso em tanto sangue, está interditada a sagração de uma mitomania nacionalista, como poderíamos esperar de um livro escrito no espaço do cárcere e na certeza de uma adesão. Aqui encontramos uma das grandes qualidades desse texto: a faculdade de perceber, para além das sombras do ressentimento, os mecanismos que acionam a incomunicabilidade e impedem qualquer hipótese de porosidade entre os seres e mundos marcados por alguma diferença. Converter a diferença em desigualdade era a tônica do sistema colonial, e pode nos parecer lógico que a resposta do combate atualize a proposta de apagar ou desumanizar o diferente. Em Nós, os do Makulusu, porém, a diversidade preenche a narrativa e nos ensina a exercitar outros olhares diante de uma realidade cortada pela perda e pelo irrevogável da morte inerentes à guerra. 

O confronto entre a década de 1960 e os nossos dias, sem dúvida, faz desfilar diante de nossos olhos um roteiro de mudanças. Se em Angola, também pela força de atores como Luandino, se pode notar a desnaturalização das barreiras raciais, que era um dos móveis da luta de libertação, sabemos que lá, como em todo o planeta, em nome de tantos deuses, sucedem-se as crises em que a recusa do Outro pode ser causa ou consequência. Os conflitos de natureza étnica em tantos países, o massacre dos refugiados na Europa, as agressões de base religiosa pelo mundo afora, os constantes ataques aos pobres no Brasil são manifestações dessa intolerância que, atentando contra a humanidade dos agredidos, exprimem a desumanidade do agressor. Diante desse panorama, somos tentados a repetir com Carlos Drummond de Andrade: “O mundo não vale o mundo, meu bem.” Como uma gota contra o desalento que daí nos vem, entretanto, vale a pena ler (e reler) Nós, os do Makulusu, e vislumbrar no jogo desgovernado de uma obra fabulosa algum sentido para a literatura. E para a vida. E, desse modo, poderemos compreender também a validade da reedição de um livro como esse.

Trouville / São Paulo, abril de 2019.

Rita Chaves
Professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa do
Depto. de Letras Clássicas e Vernáculas (FFLCH-USP), e pesquisadora do
CELP-FFLCH-USP (Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa – FFLCH-USP)

Citar como:

O ARTIGO:
CHAVES, Rita “Nós, os do Makulusu – a palavra e o outro”. In: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/nos-os-do-makulusu-a-palavra-e-o-outro-por-rita-chaves/>

O LIVRO:
VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Na asa da escrita, por José dos Remédios

Um romancista não terá, forçosamente, que depender do êxito ou fracasso dos seus livros,
terá que continuar, sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir.
Eduardo Paixão

“Dazanana de Araújo Simplíssimo vivia uma estranha sensação de que estava morto. Durante muitos anos cultivava em demasia a crença de que a sua vida era a morte” (p. 9). Assim inicia a história de um personagem muito particular, obstinado e comprometido com as dimensões gigantescas do seu sonho: Dazanana, do rhonga, língua falada na capital moçambicana, idiota ou palerma. Pode ser que estes dois significados encaixem no perfil do protagonista de Cemitério dos pássaros, mas apenas se se considerar à sua entrega a um propósito claramente definido: o de construir um cemitério no qual os finados da sua família reencarnariam como pássaros, alcançando, por isso, outras dimensões da existência.

Colocando a narrativa neste prisma, Adelino Timóteo, logo no princípio da diegese, questiona sobre os limites da vida na mesma proporção que minimiza a morte, afinal, a acreditarmos como Dazanana defende, nunca deixamos de viver, quando morremos. O que ocorre é um trânsito para lugares quase inimagináveis, os quais, uma vez alcançados, conferem à alma uma espécie invulgar de transcendência. Então, diante do seu maior projecto de vida, o protagonista de Cemitério dos pássaros move-se num labirinto estranho, decidido a levantar o véu dum cenário jamais desmistificado: o além. No fundo, há nessa entrega uma continuidade, a de fazer do realismo mágico uma forma de escrita. Continuidade porque esta não é a primeira vez que Timóteo atribui à existência a capacidade de vencer a morte, revelando, nessa condição, as imprecisões características. 

Dazanana é o instrumento usado pelo escritor para representar a obsessão humana em prolongar a sobrevivência, não no além, que é incerto, mas neste mesmo mundo. Logo, o personagem funciona como cicerone de uma trajectória que termina em metamorfose. Não podendo permanecer eternamente no plano real, numa condição de partida, cheia de vigor juvenil, o herói timoteano, com uma fé religiosa, põe-se a sustentar a pretensão de transformar o seu cemitério num ninho, lugar predestinado para reinventar os conceitos de gestação. Na verdade, é mesmo de evolução que estamos a falar, como se a natureza fosse exageradamente generosa para permitir a humanidade permanecer num mundo que a destrói, de múltiplas maneiras.

Por via de Dazanana, o romance de Adelino Timóteo sustenta-se na susceptibilidade de mergulhar fundo nos aspectos folclóricos, se quisermos, tradicionais de uma cultura oral ainda bem enraizada no quotidiano dos moçambicanos, e, acreditamos, dos brasileiros também. Este livro inédito ora publicado pela editora Kapulana, fruto de uma imaginação absolutamente incrível, é um lugar de propagação de crenças, sem restringir-se a isso, mesclando uma ficção delicada com uma visão holística sobre o meio e as culturas. Quiçá, essa deve ser a razão de Cemitério dos pássaros ser um livro riquíssimo do ponto de vista temático. À semelhança dos títulos anteriores, por exemplo, Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz (romance) e Na aldeia dos crocodilos (infanto-juvenil considerado “Altamente recomendável” no Brasil, e, por isso, finalista do Prémio FNLIJ) este novo livro do poeta e romancista moçambicano, natural da Beira, cidade rebelde agora afamada devido aos danos do ciclone Idai, vai buscar ao Vale do Zambeze a fertilidade indispensável para uma boa narrativa, como quem reinventa as particularidades daquele espaço mitológico cheio de muitos encontros inaugurais entre povos de diversas culturas. Com o Zambeze resgata-se o passado (e a origem da miscigenação na Zambézia, província do Centro de Moçambique), eventualmente porque, como escreve Ungulani Ba Ka Khosa no seu Gungunhana, “esta terra [Moçambique] está sendo construída sem o passado. Tudo o que é passado é coisa morta”. Ou desvalorizada. Sendo que “morta” e “desvalorizada”, neste contexto, acabam sendo a mesma coisa.

A propósito, uma vez Adelino Timóteo prometeu-nos publicar três ou mais romances sobre o Zambeze. Pode ser que a promessa esteja já a ser cumprida, e, daí, um Moçambique diferente do actual esteja a ser apresentado ao mundo, na asa da escrita, onde cabe o imaginário, os hábitos e costumes no livro bem valorizados. Portanto, Cemitério dos pássaros é um romance filantrópico em que “Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício” (p. 56). Dazanana, tal como o seu criador, sempre escolhem a liberdade, mesmo quando o conforto está na covardia, mesmo quando a decisão de marchar em frente custa mais que suor. A liberdade de concretizar e assumir o risco disso está tão vincada em Dazanana que Maria de Lourdes Pintassilgo, a esposa, passa a ter um companheiro no lugar de um marido. Porque perseguindo o seu ideal, aquele protagonista reinventa-nos como leitores às vezes estáticos na ousadia de alcançarmos outros voos. Bem visto, esse tipo de relações amorosas que Maria de Lourdes deseja que sejam calorosas, cor-de-rosa, não têm proeminência em Adelino Timóteo. Os casais timoteanos, quase sempre desleixados às singularidades do afecto, deixam-se prender por outras obrigações. Em Cemitério dos pássaros acontece o mesmo, por exemplo, com Dona Ana, a lembrar-nos esse registo “ninfomaníaco” recorrente na narrativa do autor. Na verdade, Dona Ana é a continuidade do carácter que o romancista estampa numa outra personagem: Luíza Michaela, em Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz.

Quanto mais Adelino Timóteo vai escrevendo, traz propostas para a libertação das pessoas das amarras sociais, questionando preconceitos, tabus, e, em derradeira instância, os cânones civilizacionais, por exemplo, esses que oprimem a mulher em cada oportunidade cedida ao homem. Se Dazanana é um exemplo de coragem na luta pelo que acredita, Dona Ana pode ser entendida como esse pássaro decidido a aprender a voar na intimidade das suas sensações, desejos e fantasias. Com o sexo no centro de tudo.

À parte tudo isto, mais uma vez, a Kapulana publica – como nos lembra Eduardo Paixão no seu Tchova, tchova – um autor que não terá que depender do êxito ou fracasso dos seus romances, terá que continuar, e continua sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir. Da Beira, onde vive, Adelino Timóteo projecta-se sempre com a sua obra, predisposto a reinventar a história, inovando-a, e, por consequência, a tornar os seus leitores melhores pastores da vida.

José dos Remédios
Jornalista
Maputo, 11 de Maio de 2019.

Citar como:

O ARTIGO:
REMÉDIOS, José. “Na asa da escrita”. In: TIMÓTEO, Adelino. Cemitério dos pássaros. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/na-asa-da-escrita-cemiterio-dos-passaros-por-jose-dos-remedios/>

O LIVRO:
TIMÓTEO, Adelino. Cemitério dos pássaros. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Martinho, um artesão, por Tom Farias

Martinho da Vila é realmente um sujeito fora do comum. No curso dos seus implacáveis 80 anos, o bamba de Vila Isabel trabalhou como nunca em sua festejada existência. Além de dois CDs e do DVD – este a caminho, gravado no imponente e lotado Theatro Municipal do Rio de Janeiro – que colocou na rua, falo do histórico “Alô Vila Isabeeeel!!!”, que reúne os clássicos sambas da escola do bairro de Noel Rosa, e, mais para o finalzinho do ano, o bem bolado “Bandeira da fé”, uma experiência contagiante, inovadora na vida do músico e compositor, como foi o trabalho que o antecedeu, no caso o antológico “De bem com a vida”, que marcou uma mudança de atitude, única do ponto de vista do conceito, mas sem desafinar a trajetória cinquentenária de uma carreira repleta de sucessos e muitos merecidos prêmios, nacionais e internacionais.

Foi nessa pegada de grandes eventos e fortes emoções, com destaque para as homenagens, em especial da sua terra natal, a cidade de Duas Barras, onde Martinho foi tema de selo comemorativo e titular de um ano inteiro de festejos, as atividades das escolas públicas do estado do Rio de Janeiro em torno da sua história, as paparicadas da Vila Isabel, onde saiu em destaque no carnaval, desfilando no alto do carro no Sambódromo, exatamente no dia das suas oitenta primaveras, e da Unidos do Peruche, tradicional agremiação de São Paulo, que o levou como enredo para a avenida dos desfiles, volto a dizer, foi nessa pegada, que Martinho laborou, com sua indiscutível disciplina de trabalho, a escritura de um livro novo, que exigiu dele, além de tudo, tarefa quase diária de muita escrita e seguidas leituras.

Das mãos desse metódico trabalhador incansável das madrugadas silenciosas – Martinho não dorme, ele repousa -, é que nasceu a joia rara de sua artesania, na arte de artesanar, de ser artesão, que é este 2018 – Crônicas de um ano atípico.

Faz dois anos que lançou o excelente Conversas cariocas, uma antologia de textos trabalhados para atender a uma coluna de jornal popular, como é o jornal O Dia, na sua edição dominical. Já 2018 – Crônicas de um ano atípico marca um processo diferente do artista, que é, diga-se de passagem, romancista de mão cheia. São dele Memórias Póstumas de Tereza de Jesus, Lusófonos, Vermelho 17, Barras, vilas & amores, entre outros mais, como o Vamos brincar de política? ou A serra do rola-moça, num total de 15. Neste novo trabalho, Martinho se supera na tacada e no acerto, ao narrar, toda semana, assuntos os mais variados e relevantes, dando a cada um deles, obviamente, seu toque pessoal, seu ponto de vista crítico, sua opinião ida e vivida. É assim que fala das festas de fim de ano, dos festejos em sua homenagem, da expectativa da Copa do Mundo, da questão política, da prisão do Lula, a quem, com Chico Buarque, foi visitar em Curitiba e saiu impressionado com o alto astral do ex-presidente, da sua atual paixão, a Barra da Tijuca, do amor à numerosa família, das viagens, da dura vida de artista no Brasil, da paixão pelo futebol, sobretudo pelo Vasco, dos amigos e das amizades, das pescarias onde ninguém volta com o pescado, do seu “off Rio”, de Vila Isabel e do samba, com muitas histórias e a transcrição de letras memoráveis, muitas que dão gosto de lembrar e reviver. Uma dessas histórias saborosas, sobre música e gente, trata do nascimento do samba O pequeno burguês, ainda nos tempos do Exército, quando era sargenteano, como ele mesmo diz. A canção (“Felicidade, passei no vestibular/Mas a faculdade é particular”, quem não se lembra?) é referência do seu cancioneiro até hoje, desde que foi lançada, há 50 anos.

São divertidas e instrutivas as histórias contadas por Martinho da Vila. De janeiro a dezembro, vamos tomando ciência dos acontecimentos, nem sempre noticiados na grande mídia, e dos que nos passariam despercebidos, não fosse a percuciente ideia do grande bamba, através da sua escrita semanal, no passo e compasso do seu ritmo como escritor e intelectual, nos trazer à tona, nos revelar, interagir. O resultado saiu-se o melhor possível: com muita harmonia, com muito talento, esmerando e lapidando, eis a carpintaria da palavra perfeita, do verso sincopado, do partido-alto da rima, nessa engenharia artesã, que labora e explora o infinito da criação artista, sem se tornar enfadonho, e, igualmente, sem a tal da pressa, pois com ele, as coisas vão sempre no ritmo do devagar, devagarinho.

O clima é de encantamento, de viva alegria, de requintada realeza – Martinho é um diplomata da magia, é amigo de todos, é um camarada aguerrido, e é, acima de tudo, um criador. No silencioso sossego do seu lar, no convívio da rainha Cléo Ferreira, dos filhos Alegria e do Preto, elucubra consigo mesmo, confabula e urde pensamentos e questões, como exercício existencial diário para respirar e para ser.

Falando de esperança e pensando na paz, como verdadeiro embaixador que de fato é, Martinho da Vila pode ser considerado a mais viva história de superação e fé no futuro. Aquele menininho, preto e pobre, filho do Josué e da Dona Tereza, nascido no recanto de uma fazenda do interior e criado no Morro dos Pretos Forros, na Boca do Mato, faz parte hoje da rica cultura popular, como um bem, uma preciosidade. Ler os seus textos, tomar nas mãos o seu livro, como o fazemos agora, é uma forma de continuar o reverenciando e merecendo, e o prestigiando e admirando, acima de tudo.

Tom Farias – jornalista e escritor
11 de fevereiro de 2019.

Citar como:

O ARTIGO:
FARIAS, Tom. “Martinho, um artesão”. In: VILA, Martinho da. 2018, Crônicas de um ano atípico. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/martinho-um-artesao-por-tom-farias>

O LIVRO:
VILA, Martinho da. 2018, Crônicas de um ano atípico. São Paulo: Kapulana, 2019.

CineGrafias Moçambicanas – Memórias & Crônicas & Ensaios: Apresentação, por Carmen T. Secco, Ana Mafalda Leite e Luís Carlos Patraquim

Este livro resultou de trabalho conjunto, apoiado por tríplice parceria: entre Carmen Tindó Secco, Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Ana Mafalda Leite, Professora da Universidade de Lisboa; e Luís Carlos Patraquim, um dos fundadores do cinema moçambicano, cuja participação foi fundamental pelo amplo (re)conhecimento da(na) área.

É decorrência, também, de trocas e diálogos entre os projetos “Literatura, Cinema e Afeto: figurações e tramas da história em escritas literárias e fílmicas de Moçambique e Guiné-Bissau” (coordenado por Carmen Lucia Tindó Secco, apoiado pelo CNPq e FAPERJ) e “NEVIS – Narrativas Escritas e Visuais da Nação Pós-Colonial” e “NILUS – Narrativas do Oceano Índico no Espaço Lusófono” (coordenados por Ana Mafalda Leite, com apoio da FCT), cujas ações têm possibilitado produtivo intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal e Moçambique.

A ideia da publicação de entrevistas com realizadores de Moçambique surgiu em razão de ser ainda escassa a bibliografia a respeito do cinema moçambicano e, também, por não haver mais, atualmente, em Moçambique, uma política cultural de valorização de festivais cinematográficos, como ocorria, há alguns anos, com o Dockanema que, durante várias edições, promoveu a divulgação de filmes, debates e oficinas.

Como o cinema, no período logo após a independência, foi fundamental à construção da nação moçambicana, e, ainda hoje, continua a ser um dos meios importantes de preservar a memória do país e pensar Moçambique e o mundo, consideramos ser um significativo contributo a recolha de opiniões não só de antigos e reconhecidos realizadores moçambicanos, como também de representantes das jovens gerações. Decidimos, então, reunir, no livro, entrevistas, ensaios, crônicas[1] de realizadores e de estudiosos da área, com o intuito de registrar não só a trajetória passada do cinema moçambicano, mas também reflexões acerca das condições e do papel deste no presente.

Cada vez mais, entrevistas são utilizadas, metodologicamente, como rico instrumento de pesquisa, capaz de propiciar entrelaces interdisciplinares e interartísticos. Em literatura e história, é comum entrevistar poetas, escritores. Também no âmbito cinematográfico, entrevistas a cineastas e realizadores são usadas como fontes que permitem a criação de “arquivos vivos” que captam visões pessoais e memórias subjetivas dos entrevistados acerca de seus filmes, de seus posicionamentos ideológicos sobre contextos históricos, políticos e sociais vivenciados. A relevância das entrevistas reside em possibilitar a exteriorização de pontos de vista diferentes, assim como questionamentos e interpretações críticas a respeito de momentos controversos da história.

A entrevista, nas suas diferentes aplicações, é uma técnica de interação social, de interpretação informativa (…); pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação. Em todos estes ou outros usos das Ciências Humanas, constitui sempre um meio, cujo fim é o inter-relacionamento humano.[2]

Quatro das entrevistas que compõem este livro – as de Licínio Azevedo, Sol de Carvalho, João Ribeiro e Yara Costa – foram respondidas, livremente, por escrito, a partir de perguntas formuladas pelos organizadores. A de Ruy Guerra foi realizada pessoalmente por Olivier Hadouchi e Vavy Pacheco Borges, em Paris, em 2012; já as de Isabel Noronha e Camilo de Sousa foram gravadas, durante uma conversa informal, por Ana Mafalda Leite, em Lisboa, em 2017.

A escolha dos realizadores entrevistados deveu-se, por uma lado, à representatividade de cada um e, por outro, ao fato de terem aceitado nosso convite. Alguns nomes importantes relacionados ao cinema moçambicano – como o de Pedro Pimenta, Gabriel Mondlane, José Luís Cabaço, Ungulani Ba Ka Khosa, entre outros – e o de Diana Manhiça – atual presidente do projeto do Museu do Cinema Moçambicano – também foram contatados, mas, infelizmente, por motivos vários, não responderam às entrevistas.

CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios se estrutura em quatro partes, antes das quais, com a intenção de despertar a curiosidade dos leitores e instigar a leitura, foram inseridas imagens sugestivas: uma foto do velho prédio do cinema Império localizado em Maputo, fotografias de Camilo de Sousa e Isabel Noronha em antigas gravações e cenas representativas de filmes produzidos pelos realizadores entrevistados neste livro.

A primeira parte é constituída por dois ensaios: o de Guido Convents, que traça um panorama do cinema colonial moçambicano, evidenciando como este encontrava-se a serviço da propaganda do império português, e o de Luís Carlos Patraquim que reflete sobre o cinema moçambicano da pós-independência.

A segunda congrega entrevistas de realizadores incontornáveis, entre os quais: Ruy Guerra, Camilo de Sousa, Licínio Azevedo, Isabel Noronha, Sol de Carvalho, João Ribeiro, Yara Costa.

A terceira é constituída por crônicas de Ruy Guerra, Licínio Azevedo, Luís Carlos Patraquim, Sol de Carvalho e Isabel Noronha. Esta parte, a nosso ver, é de grande originalidade, uma vez que desvela os bastidores das filmagens, ou seja, o avesso das aventuras vivenciadas durante as gravações dos filmes por alguns dos realizadores.

Fechando o livro, a quarta parte contém dois ensaios: o de Júlio Machado, que analisa o filme Mueda, memória e massacre, de Ruy Guerra, marco do cinema moçambicano, e o de Ute Fendler, que investiga a presença do “fantástico” como uma das tendências existentes na filmografia moçambicana. Esta última seção é breve, contudo enriquecedora, na medida em que descortina um viés crítico, sugerindo a importância de estudos acerca de temáticas e filmes representativos do cinema moçambicano.

Das entrevistas obtidas depreende-se, de modo geral, que o cinema cumpriu a urgência de narrar a nação moçambicana, chamando atenção para questões de poder que marcaram profundamente a história de Moçambique – o colonialismo, a guerra, a miséria, a violência –, mas também apontando para a necessidade de revisitação de valores e traços africanos silenciados e para as múltiplas diversidades culturais, sociais, religiosas presentes em Moçambique e no continente africano.

Na entrevista de Ruy Guerra, desponta seu olhar de cineasta sempre atento às relações de poder, um olhar que põe em cena contradições sociais internas a serem repensadas criticamente. Em sua entrevista, Ruy enfatiza que são fortes as relações entre cinema e política; relembra, com seu humor crítico, algumas vivências relacionadas a filmagens por ele realizadas, entre as quais se encontram passagens especiais de sua parceria com Gabriel García Márquez, Chico Buarque, entre outros.

Camilo de Sousa, por sua vez, relembra sua infância na Mafalala; denuncia, nessa época, a ostensiva opressão colonial e o racismo; recorda sua tia Noémia de Sousa, sua relação com Ruy Guerra; fala sobre seus filmes. Isabel Noronha, em sua entrevista, narra suas experiências e aventuras de filmagem, relata a importância do surgimento do cinema moçambicano, a fundação e o fechamento do Instituto Nacional do Cinema em Moçambique. Com uma visão bastante lúcida e sensível, comenta que em seus filmes busca narrar histórias de pessoas que foram silenciadas. Mas observa que, para filmar “essas histórias privadas, é preciso encontrar o dispositivo certo para contornar ou quebrar a questão do silêncio político, que foi sendo e ainda é imposto”.

Licínio Azevedo, com respostas curtas e objetivas, criticamente, sintetiza a significação do cinema moçambicano, que, em sua opinião, representa “o próprio país, pois Moçambique é hoje a nação que o cinema ajudou a construir”. Sol de Carvalho, detalhadamente, avalia o importante papel do “Kuxa Kanema” em Moçambique; narra suas experiências de filmagem; fala da criação da produtora PROMARTE e comenta suas adaptações de textos literários para o cinema.

João Ribeiro também relaciona o nascimento do cinema moçambicano à construção da nação, observando que a descolonização do olhar tem sido uma espécie de clichê que persegue, em geral, o cineasta africano. Porém, enfatiza que, quando faz um filme, procura criar algo novo ou suficientemente forte para manter o suspense e surpreender o espectador. Para ele, fundamentais são as histórias contadas, as mensagens passadas, construídas de forma estética inovadora.

Já a realizadora Yara Costa critica a falta de investimentos em cinema atualmente em Moçambique e afirma ser muito difícil a realização de filmes moçambicanos, pois os apoios financeiros são quase inexistentes. Explana a respeito de seus filmes, entre os quais Entre Eu e Deus, que versa sobre a escolha radical de uma religião feita por uma jovem, num contexto de violência e intolerância religiosa.

Se as entrevistas deste livro são elementos fundamentais para a história do cinema moçambicano, as crônicas vêm acrescentar uma dimensão criativa e espetacular ao ofício dos realizadores, bem como uma tensão de reenquadramento da memória, entre outros aspectos. Com efeito, a noção de crônica, como lembra David Arrigucci[3], pressupõe a noção de tempo, presente no próprio termo, que procede do grego, chronos. É uma escrita que tece a continuidade do gesto humano na tela do tempo, que implica lembrar e escrever, relato em permanente relação com a temporalidade de onde retira a memória, enquanto sua matéria principal.

No caso dos dois textos de Sol de Carvalho, que situam alguns episódios na rodagem do seu último filme Mabata Mbata, deparamo-nos em especial com uma reflexão sobre o cinema africano e algumas das contradições existentes entre cinema pedagógico e dimensão estética, em que o realizador evoca palavras de Godard, quando o cineasta francês esteve em Moçambique, lembrando como ele considerava África como um mundo imaginário carregado de símbolos, imagens e representações, que constituem o enorme reservatório de criação de cinema inovador e, ao mesmo tempo, próximo dos seus destinatários.

Já as crônicas de Luís Carlos Patraquim retomam a posição instável e lúdica da crônica, entre jornalismo e literatura. O tempo dos leopardos situa criticamente uma época da história e do engajamento ideológico do cinema em Moçambique e narra o trabalho conjunto com Licínio de Azevedo, enquanto guionistas. A crônica “A Revolução dos Outros” evoca o encontro com a figura do realizador francês Jean-Luc Godard no Hotel Tivoli num sábado de 1978, perfazendo uma narrativa de memória pessoal e simultaneamente histórica, com a evocação das peregrinações utópicas e revolucionárias de várias figuras do cinema internacional, que por essa época passaram em Moçambique. É o caso de Florestano Vancini que esteve no Instituto Nacional de Cinema para falar da cinematografia italiana, ou de Med Hondo, da Mauritânia, que realizou um filme sobre o Sahara Ocidental – Teremos a morte para dormir – com produção moçambicana e estreia mundial em Maputo, ou ainda de Ruy Guerra com o projeto para o cinema móvel e com a realização do filme Mueda, memória e massacre. As crônicas de Patraquim, num estilo lírico-coloquial, reconfiguram historicamente a importância destes vários encontros com personalidades internacionais no quadro do cinema moçambicano, dimensão que veio também a ser documentada no filme de Margarida Cardoso, Kuxa Kanema: o nascimento do cinema (2003).

As cinco crônicas de Isabel Noronha e de Licínio de Azevedo percorrem também uma dimensão autobiográfica, mas enquanto ligação umbilical ao início dos seus percursos pessoais na entrada do mundo do cinema em Moçambique, aliando um registro histórico ao estórico, criando uma ponte de excelência entre a literatura e a história.

A primeira crônica de Isabel Noronha, “Quadro perdido, quadro partido, quadro reenquadrado – Uma das infinitas estórias do Cinema Moçambicano”, bem como “A Chegada”, de Licínio de Azevedo fazem essa travessia das estórias pessoais, quase em jeito de autoficção, para uma outra história, um outro quadro maior, agora reconfigurado, reenquadrado. A escrita dos dois realizadores confirma uma das características da crônica enquanto gênero compósito, capaz de gerir múltiplas componentes do relato: dimensão dramática, lírica, cômica. Como o próprio Licínio explica: “Mais do que uma reportagem objetiva, nós, também, procurávamos contar uma história, com personagens e ação. Falo disto porque é algo que depois foi importante para mim quando transitei para o cinema, e do documentário para a ficção, criando uma ponte entre ambos os gêneros.” E o realizador vai contando como a experiência de jornalista se reformulou no guionismo e foi, aos poucos, caminhando para a realização, passando do Instituto de Cinema para o Instituto de Comunicação Social, numa época com poucos recursos humanos e técnicos existentes em Moçambique, em que a opção de gênero cinematográfico a ser desenvolvido foi necessariamente o documentário.

No caso de Licínio de Azevedo a sua escrita é quase um exercício brechtiano, em que a reduplicação do sujeito enquanto espectador crítico e rememorativo de si próprio procura expor de forma simples, e por vezes bem-humorada, alguns aspectos da estrutura técnica do seu próprio processo compositivo. As suas crônicas mostram também a sua vertente de escritor, o gosto pelo enredo, pelas pequenas estórias ocorridas na realização dos seus documentários e filmes, em anotação quase diarística. Licínio respeita a relação com o mundo das crenças e espiritualidades, e nele mergulha para escrever e filmar, criando uma tensão criativa entre o mundo real e o mundo imaginário. Como ele afirma:

Para mim um documentário pode nascer de uma pequena notícia publicada na imprensa. Ler jornais diariamente é um hábito que adquiri lá atrás e não abandonei: um “fait divers”, a mulher agredida pelo marido, uma disputa entre vizinhos… Qualquer notícia, por mais banal que seja, pode transformar-se num bom documentário, se tratarmos o assunto da maneira correta, com respeito pelos seus protagonistas, pelas tragédias vividas pelos outros. Por vezes, um fragmento de um documentário inspira e dá lugar, anos mais tarde, a uma longa-metragem de ficção.

As crônicas de Licínio de Azevedo complementam de forma iluminante o estudo de filmes como Desobediência, A árvore dos antepassados, Virgem Margarida, Comboio de sal e açúcar, ou dos documentários Tchuma Tchato, Mariana e a Lua. Trazem as estórias e trilhos do processo, desvendam as peripécias dos vários momentos que acompanham a realização, à maneira de intermediações entre ator e plateia, como o coro do teatro grego, mostrando o processo que levou ao produto final dos seus filmes e docuficções.

Isabel Noronha perfaz também ao longo das cinco crônicas, aqui publicadas, uma cronologia de vida, desde o momento em que entra para o Instituto de Cinema, à sua experiência de trabalho e aprendizagem (“Caminhos do Ser”, “Sagrada Arrufada”), e saliento aqui, no quadro da guerra civil, muito especialmente a crônica “Satanhoco” que evoca, em termos de uma escrita dramática, a vivência de risco de todos aqueles que participavam nas filmagens de Kuxa Kanema. Nota-se na escrita de Isabel Noronha uma inflexão lírico-pessoal, uma subjetividade crítica muito intensa e simultaneamente tensa. A escritora, que Isabel Noronha também é, além de realizadora, revela-se muito especialmente com sua última crônica “O Pintor”, em que a crônica assume o esplendor da poesia, ao mesmo tempo que acompanha de forma muito sutil a origem e a realização do seu filme Ngwenya, o crocodilo (2007):

Toda a manhã, os olhares, guardados atrás das paredes de caniço, espreitariam ansiosos o cessar da chuva que, inclemente, devolvia à terra cada gesto desse estranho homem que dedicara a sua vida a colecionar pedaços vivos de luz para costurar com eles a camisa de retalhos com que cobria o seu peito, onde precocemente se tinham alojado todas as sombras da floresta.

Recuando no tempo, as crônicas de Ruy Guerra organizam-se em duas partes, as três primeiras publicadas em 1949, em Lourenço Marques, mostram o despontar do gosto do realizador pelo cinema e pela escrita, fazendo uma espécie de visitação do passado do artista enquanto jovem aprendiz. A primeira crônica “Foi assim que morreu o Bobby, o cãozinho de pelos de arame” é uma narrativa fabular, que faz lembrar, ainda que desfocadamente, Nós matamos o Cão Tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana, e de imediato nos apela para o sentido de dependência e de liberdade e para as diferenças sociais e de sofrimento dos seres vagabundos e abandonados. Um cão da rua, sem raça, nem dono, sem nome, sobre quem Ruy escreve e se demora a caracterizar, mostrando talvez, de forma indireta, as conflitualidades latentes da sociedade colonial. Uma outra crônica “Utilidades e perigos do Cinema na formação do caráter da juventude” reflete sobre a importância do cinema e da literatura e os prejuízos do cinema comercial na formação intelectual dos jovens. Por outro lado, as duas últimas crônicas de 1997, escritas no Brasil, quase meio século depois, tratam da experiência cinéfila do realizador:

(…) ao longo da vida fui devorando vorazmente filme após filme, me alimentando de imagens, em preto e branco, coloridas, mudas, sonoras. E o meu conhecimento do mundo deve muito a essas vidas que passei nas salas escuras, os olhos fixos na tela, onde pessoas e coisas desfilavam diante de mim emoções que me foram moldando naquilo que sou.

Em “A imagem e o horror”, Ruy Guerra questiona o poder da imagem numa época em que a tecnologia nos leva para a virtualização e “em que o espetáculo toma frequentemente o lugar da realidade e se confunde com ela”. Por último, relata a sua experiência de conhecimento de Max Ophuls, quando ainda era estudante de cinema em Paris, deixando-nos mais um traço da memória do seu percurso de vida, em que a diversidade de contatos e internacionalização certamente vieram a contribuir para o transformar, no futuro, no marco do cinema, que ele é.

No último momento deste livro, fazemos a transição das crônicas dos realizadores para uma pequena seção de estudo crítico, em que se apresentam dois ensaios sobre cinema moçambicano, em que o leitor poderá aprofundar uma dimensão teórico-crítica sobre o cinema deste país. O primeiro ensaio, mais monográfico, intitula-se “Da fotografia ao teatro, da retórica à poética: reflexões sobre Mueda, memória e massacre, de Ruy Guerra”, de Júlio Cesar Machado de Paula, e mostra o caráter simultaneamente documental e ficcional do filme, ao mesmo tempo que discute a interpenetração entre as dimensões histórica e estética, considerando que o filme seja visto e debatido como parte da memória viva de Moçambique.

O segundo ensaio da autoria de Ute Fendler, “O Cinema Moçambicano – Um Cinema Fantástico?”, é mais abrangente e analisa a importante e comum dimensão do fantástico na filmografia moçambicana, considerando que o “fantástico” faz parte integral da própria visão de mundo africana. Neste sentido, a especialista afirma que, quando os cineastas utilizam elementos “sobrenaturais” ou “maravilhosos”, estes fazem parte do processo narrativo, criando um mundo imaginado, simultaneamente fictício e verdadeiro, levando os espectadores “a sonhar a realidade, em versões e variações intermináveis”.

18 de abril de 2019.

Os organizadores

  • Carmen Tindó Secco – Professora Titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ensaísta e pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro).
  • Ana Mafalda Leite – Docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com Mestrado em Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa e Doutora em Literaturas Africanas. Professora Associada com Agregação na Universidade de Lisboa, pesquisadora do ISEG do Cesa, com bolsa da FCT.
  • Luís Carlos Patraquim – Jornalista, roteirista, pesquisador sobre cinema moçambicano. Autor de vasta obra publicada em prosa, poesia e teatro.

[1] Todas as informações contidas nas entrevistas, ensaios e crônicas são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
[2] MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: O diálogo possível. São Paulo: Ática, 2002, p. 8.
[3] ARRIGUCCI, David. Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.51. Rio de Janeiro, 18 de junho de 2018.

Citar como:

O ARTIGO:
SECCO, C. T.; LEITE, A. M.; PATRAQUIM, L. C. “Apresentação”. CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios. São Paulo: Kapulana, 2019. [Ciências e Artes]. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios-apresentacao-por-carmen-t-secco-ana-mafalda-leite-e-luis-carlos-patraquim/>

O LIVRO:
CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios. São Paulo: Kapulana, 2019. [Ciências e Artes]

RAQUEL MATSUSHITA

RAQUEL MATSUSHITA nasceu e vive em São Paulo, é designer gráfico, ilustradora e escritora. Sócia do escritório Entrelinha Design, criado em 2001. Graduada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Metodista de São Paulo, especializou-se nos cursos de “Design gráfico”, “Cor” e “Tipografia” na School of Visual Arts, de Nova York, onde também foi colaboradora no escritório de design Linda Kosarin Studio. Trabalhou como editora de arte nas editoras Abril e Globo.

 

OBRA DA KAPULANA

O que pegamos emprestado dos outros, de Marcelo Jucá, 2019. (em edição)

PRÊMIOS

  • 2019 – Prêmio da AEILIJ (Hors Concours).
  • 2018 – 6 Prêmios selo Cátedra PUC/Unesco.
  • 2018 – 2 Prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ.
  • 2015, 2017 – 5 Prêmios Bienal Brasileira de Design Gráfico – ADG.
  • 2016 – 3 Prêmios Literário da Biblioteca Nacional .
  • 2016 – Prêmio Jabuti, finalista em livro digital.
  • 2015 – Finalista no Prêmio João de Barro.
  • 2015 – Prêmio Miolos.
  • 2014 – 2 Prêmios Jabuti.
  • 1996 – Prêmio HQ MIX.
  • 1996 – Prêmio Jabuti, finalista em capa.

Obras da Kapulana contempladas com o selo de “Altamente Recomendável” da FNLIJ – 2019

Obras de literatura infantil da Kapulana receberam o selo com a indicação de “Altamente Recomendável” da FNILJ, edição 2019

A FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) atribuiu a quatro dos livros publicados em 2018 pela Editora Kapulana no Brasil a indicação de “Altamente Recomendável”, na “Categoria Literatura em Língua Portuguesa”.

Isso significa que essas obras, em sua versão brasileira, estão concorrendo ao Prêmio FNLIJ. A lista dos vencedores será divulgada pelo site da FNLIJ, até junho de 2019.

As obras recomendadas e que estão concorrendo ao prêmio de 2019 fazem parte da Série “Contos de Moçambique” publicadas no Brasil pela Kapulana. Foram originalmente publicadas em Moçambique pela Escola Portuguesa de Moçambique. Nas edições brasileiras, foi feita a adaptação para a versão da Língua Portuguesa em vigor no Brasil, conforme o Acordo Ortográfico atual.

Para atender ao jovem leitor brasileiro, as obras da série “Contos de Moçambique” publicadas pela Kapulana,  apresentam também: um glossário de termos locais, biografias atualizadas do autor e do ilustrador e um texto explicativo sobre a técnica de ilustração utilizada no livro.

A Editora Kapulana parabeniza escritores, ilustradores e todos que participaram do processo de edição dessas obras, de modo a que sua publicação e indicação para o prêmio fossem possíveis.

A Editora Kapulana apresenta agradecimentos a Escola Portuguesa de Moçambique, cuja parceria editorial foi essencial para o sucesso da série “Contos de Moçambique” no Brasil.

São Paulo, 20 de abril de 2019.

LINKS:

Para saber mais sobre as obras e ler alguns trechos:

Para conhecer mais sobre os outros volumes da série “Contos de Moçambique” e os demais livros infantis da Kapulanahttp://www.kapulana.com.br/infantis/

Para conhecer a FNLIJhttps://www.fnlij.org.br/

Kapulana publica livro com crônicas inéditas de Martinho da Vila

A obra reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses do ano de 2018

O escritor, cantor e compositor Martinho da Vila publica em maio pela Editora Kapulana o livro 2018 – Crônicas de um ano atípico. A obra reúne 48 crônicas divididas pelos doze meses do ano passado. Martinho descreve com originalidade literária a comemoração de seus 80 anos, da renovação dos votos de casamento com Cléo, da amada e histórica escola de samba Vila Isabel, da cidade do Rio de Janeiro, relembrando alguns de seus sucessos no samba e na literatura. Há crônicas a respeito da sua enorme admiração aos eternos sambistas, assim como a vida artísticas pelos palcos do mundo. No decorrer da obra, Martinho também aborda fatos marcantes ocorridos em 2018, como o assassinato de Marielle Franco, as eleições presidenciais, a visita ao ex-presidente Lula em Curitiba e a derrota do Brasil na Copa do Mundo. 

MARTINHO DA VILA nasceu em Duas Barras, Estado do Rio. É músico, ativista cultural e escritor. Desde 1965, suas atividades culturais e musicais estão vinculadas à escola de Samba Unidos de Vila Isabel, daí seu nome artístico – Martinho da Vila. Ficou conhecido nacionalmente a partir de 1967, quando se apresentou no III Festival da Record, com o partido alto Menina Moça. A partir de então, sua vasta produção musical cresceu e foi reconhecida nacional e internacionalmente. Como escritor, Martinho da Vila tem livros publicados desde 1986, tanto de ficção quanto de não ficção, lançados no Brasil e em Portugal, e alguns deles traduzidos para o francês. Tem se dedicado ao romance e à crônica, com regular colaboração para jornais e revistas. Continua em plena atividade como artista e escritor, fazendo turnês nacionais e internacionais, e, em 2019, lança pela Kapulana seu mais novo livro 2018 – Crônicas de um ano atípico.

18 de abril de 2019

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

Kapulana publica a obra “Minha irmã, a serial killer”, da nigeriana Oyinkan Braithwaite

A obra uma história cheia de suspense e mistério, com humor peculiar e ácido, sem deixar de lado a complexidade da mente de uma sociopata

Chega ao Brasil o aclamado livro Minha irmã, a serial killer, da escritora nigeriana Oyinkan Braithwaite. Elogiada pela crítica internacional, a autora conduz com maestria literária esse thriller psicológico que surpreende e encanta o leitor a cada página.

Com um enredo ambientado na Nigéria, Braithwaite conduz com maestria literária um thriller psicológico que conta a história assustadora sobre duas irmãs com temperamentos e atitudes bem diferentes uma da outra. Korede é amargurada, mas pragmática. Sua irmã mais nova, Ayoola, é a filha favorita e, possivelmente, com sérios distúrbios comportamentais. Seus três últimos namorados aparecem mortos. Um livro com humor peculiar e ácido, cheio de suspense e drama, sem deixar de lado as complexas relações humanas.

Ayoola me convoca dizendo: – Korede, eu o matei.
Eu tinha esperado nunca mais ouvir essas palavras.

(trecho do livro Minha irmã, a serial killer)

Oyinkan Braithwaite nasceu na Nigéria, África, onde ainda reside, na cidade de Lagos. Em 2014, foi indicada entre as dez melhores artistas spoken word no concurso de poesia slam “Eko Poetry Slam”, em Lagos, Nigéria. Em 2016, foi finalista do “Commonwealth Short Story Prize”, que premia os melhores textos ainda não publicados do ano. Minha irmã, a serial killer é o seu primeiro livro.

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

JOÃO PAULO BORGES COELHO

JOÃO PAULO BORGES COELHO, moçambicano, é  escritor, historiador e professor titular de História Contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique.

Publica obras de ficção desde 2003. O seu mais recente livro, Ponta Gea, foi lançado em 2017. Os seus romances, contos e novelas estão publicados em Moçambique, Portugal, Itália, Colômbia e agora no Brasil.

As visitas do Dr. Valdez e Crônica da Rua 513.2, de João Paulo Borges Coelho, publicados no Brasil pela Kapulana, receberam o Prémio José Craveirinha, a maior distinção literária em Moçambique.

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Akàpwitchi Akaporo – armas e escravos. Maputo: INLD, 1981. [Col. Banda Desenhada – v. 1]
  • No tempo do Farelahi. Maputo: INLD, 1983. [Col. Banda Desenhada – v. 4]
  • Namacurra. Maputo, 1985. [Banda Desenhada]
  • As duas sombras do rio. Alfragide: Editorial Caminho, 2003.
  • As visitas do Dr. Valdez. Alfragide: Editorial Caminho, 2004.
  • Índicos Indícios I. Setentrião. Alfragide: Editorial Caminho, 2005.
  • Índicos Indícios II. Meridião. Alfragide: Editorial Caminho, 2005.
  • Crónica da Rua 513.2. Alfragide: Editorial Caminho, 2006.
  • Campo de Trânsito. Alfragide: Editorial Caminho, 2007.
  • Hinyambaan. Alfragide: Editorial Caminho, 2008.
  • O olho de Hertzog. Lisboa: LeYa, 2010.
  • Cidade dos espelhos. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.
  • Rainhas da noite. Alfragide: Editorial Caminho, 2013.
  • Água – Uma novela rural. Alfragide: Editorial Caminho, 2016.
  • Ponta Gea. Alfragide: Editorial Caminho, 2017.

PRÊMIOS

  • Prémio José Craveirinha 2005  – Obra: As visitas do Dr. Valdez (2004).
  • Prémio José Craveirinha 2006 – Obra: Crónica da Rua 513.2 (2006).
  • Prémio Leya  2009 – Obra: O olho de Hertzog (2010).
  • Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Aveiro (2012).
  • Prémio BCI de Literatura 2018 (8a. edição) – Obra: Ponta Gea (2017).

JOSÉ LUANDINO VIEIRA

JOSÉ VIEIRA MATEUS DA GRAÇA, nome literário JOSÉ LUANDINO VIEIRA, nasceu em 4 de maio de 1935, na Lagoa do Furadouro, em Ourém, Portugal. Passou a infância e a juventude em Luanda, Angola, onde fez os estudos primários e secundários. É cidadão angolano por sua militância pela independência de Angola.

Como membro do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Luandino Vieira participou da luta armada de resistência contra Portugal, o que fez com que fosse preso várias vezes pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), a polícia portuguesa, e condenado a 14 anos de prisão.

Em 1964, foi transferido para o Campo de Concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, arquipélago de Cabo Verde, onde passou 8 anos. Lá escreveu muitos de seus livros, dentre eles o Nós, os do Makusulu, publicado só em 1974.

Em 1965, recebeu, por seu livro Luuanda, o Grande Prémio de Novela, da Sociedade Portuguesa de Escritores. A censura portuguesa proibiu qualquer referência ao prêmio, e a Sociedade foi extinta naquele mesmo ano.

Em 1972, foi libertado em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou, então, a publicação da sua obra, grande parte escrita na prisão.

Regressou a Angola em 1975, após a Independência do país, agora denominado República Popular de Angola. De 1975 a 1979, foi Diretor do Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA. Foi responsável pelo Instituto Angolano de Cinema (1979-1984). É cofundador da União dos Escritores Angolanos, de que foi secretário-geral (1975-1980 e 1985-1992). Foi secretário-geral adjunto da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos (1979-1984) e é membro da Academia Angolana de Letras. Atualmente, vive em Portugal, para onde retornou em 1992.

OBRA DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • 1957 – A cidade e a infância. (contos)
  • 1961 – A vida verdadeira de Domingos Xavier. (novela)
  • 1961 – Duas histórias de pequenos burgueses. (contos)
  • 1963 – Luuanda. (contos/ novelas)
  • 1968 – Vidas novas. (contos)
  • 1974 – Velhas histórias. (contos)
  • 1974 – Duas histórias. (contos)
  • 1974 – No antigamente, na vida. (contos)
  • 1974 – Nós, os do Makulusu. (romance)
  • 1978 – Macandumba. (contos)
  • 1979 – João Vêncio. Os seus amores. (novela)
  • 1981 – Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu. (contos)
  • 1986 – História da baciazinha de Quitaba. (conto)
  • 1998 – Kapapa: pássaros e peixes. (infantojuvenil)
  • 2003 – Nosso Musseque. (romance)
  • 2006 – A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nuvens. Guerra para crianças. (infantojuvenil)
  • 2006 – O livro dos rios (Vol. I da trilogia De rios velhos e guerrilheiros). (romance)
  • 2012 – O livro dos guerrilheiros (Vol. II da trilogia De rios velhos e guerrilheiros). (romance)
  • 2015 – Papéis da prisão. (memórias)

PRÊMIOS

  • 1961 – 1º prémio do Conto da Sociedade Cultural de Angola – Luanda, Angola.
  • 1962 – 1º prémio João Dias da Casa dos Estudantes do Império – Lisboa, Portugal.
  • 1963 – 1º e 2º prémios do Conto da Associação dos Naturais de Angola – Luanda, Angola.
  • 1964 – 1º prémio D. Maria José Abrantes Mota Veiga – Luanda, Angola (pelo livro Luuanda, de 1963).
  • 1965 – 1º Grande Prémio de Novelística, da Sociedade Portuguesa de Escritores, Lisboa, Portugal (pelo livro Luuanda, de 1963).
  • 2006 – Prémio Camões. (recusado pelo autor)
  • 2008 – Prémio Nacional de Cultura e Artes – Luanda, Angola.

Kapulana participa da II Feira do Livro da Unesp

A feira acontece entre os dias 10 e 14 de abril com o catálogo da editora a 50% de desconto

A Editora Kapulana participará da II Feira do Livro da Unesp, que acontece de 10 a 14 de abril, das 9h às 21h, no câmpus da Unesp, em São Paulo, ao lado da estação Palmeiras-Barra Funda do metrô, levando o seu catálogo com 50% de desconto, além de novidades culturais e literárias. A Kapulana ficará na bancada 177, da rua 2, do galpão de exposição (confira no mapa aqui).

Em seu segundo ano, A Universidade Estadual Paulista, por meio da Fundação Editora da Unesp, realiza a Feira do Livro da Unesp e terá acesso gratuito ao público em geral, em área anexa ao Instituto de Artes e Instituto de Física Teórica e contará com diversas editoras e uma programação cultural recheada de participações especiais.

 

NOVIDADES DA KAPULANA DURANTE A FEIRA:

  • Bate-papo e lançamento: Walter de Sousa e Mariana Fujisawa, autor e ilustradora da obra infantil NINA TEM MEDO DE PALHAÇO, conversarão sobre o processo de criação e desenvolvimento do livro infantil publicado pela Kapulana. O encontro acontece no sábado, 13 de abril, às 11h00, no auditório do Circo da Barra, localizado ao lado da área expositora. O evento contará com o lançamento da obra e sessão de autógrafos. Interessados em participar das atividades devem fazer sua pré-inscrição no site da feira (clique aqui).
  • Venda especial: O livro O Brasil na poesia africana de língua portuguesa – antologia, organizado pelas Profas. Dras. Anita M. R. Moraes e Vima Lia R. Martin, estará à venda para o público durante a II Feira do Livro da Unesp – o livro chega às livrarias no dia 18 de abril. A antologia apresenta vinte e um poemas da literatura africana de língua portuguesa que, de alguma maneira, referenciam o Brasil ou os brasileiros. Com textos de onze poetas de diferentes países africanos – Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe.

05 de abril de 2019

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

ANA PAULA TAVARES

ANA PAULA TAVARES, poeta, cronista, historiadora e professora, nasceu na cidade de Lubango, província de Huíla, Angola.

É Doutora em Antropologia da História pela Universidade Nova de Lisboa (2010), Mestre em Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Lisboa (1996) e Bacharel e Licenciada em História pela Universidade de Lisboa (1982). É professora convidada na Universidade de Lisboa, Portugal, e na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, Angola.
Dedica sua atenção às áreas da cultura, museologia, arqueologia e etnologia, patrimônio e ensino, colaborando com várias instituições como o CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e o AHNA (Arquivo Histórico Nacional de Angola).

Ana Paula Tavares tem vínculos fortes com o Brasil, com pesquisa e participações em eventos no país. Também diz ter sido influenciada por escritores brasileiros como Manuel Bandeira, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto, e pela música brasileira.

É autora de vasta obra literária em prosa e poesia e de textos científicos. Grande parte de sua obra está publicada em antologias da Galícia (Espanha), Itália, França e Portugal.

OBRAS DA KAPULANA

OBRA LITERÁRIA

  • 1995 – Ritos de passagem. Luanda: UEA (União dos Escritores Angolanos).
  • 1998 – O sangue da buganvília. Praia: Centro Cultural Português – Embaixada de Portugal.
  • 1999 – O lago da lua. Lisboa: Caminho.
  • 2000-2004 – Colaboração com o Jornal Público com uma crônica mensal.
  • 2001 – Dizes-me coisas amargas como os frutos. Lisboa: Caminho.
  • 2003 – Ex-votos. Lisboa: Caminho.
  • 2004 – A cabeça de Salomé: Lisboa: Caminho.
  • 2005 – Os olhos do homem que chorava no rio. Em parceria com Jorge Marmelo. Lisboa: Caminho.
  • 2007 – Manual para amantes desesperados. Lisboa: Caminho.
  • 2009 – Contos de vampiros. Porto: Porto Editora. (Em antologia)
  • 2010 – Como veias finas na terra. Lisboa: Caminho.
  • 2016 – Verbetes para um dicionário afetivo. Lisboa: Caminho. (Em antologia)

OBRA CIENTÍFICA

  • “A pequena pista do antílope: as fontes e o estudo da arqueologia angolana”. In: Construindo o passado angolano: as fontes e a sua interpretação. Actas do II Seminário internacional sobre a história de Angola, Luanda, 4 a 9 de Agosto de 1997. Lisbon 2000, p. 337-350.
  • Com Catarina Madeira Santos) “Fontes escritas africanas para a história de Angola”. In: Fontes & Estudos. Revista do Arquivo Histórico Nacional 4-5, 1998/1999, p. 87-133.
  • Com Catarina Madeira Santos: “Uma leitura africana das estratégias políticas e jurídicas. Textos dos e para os dembos, Angola c. 1869–1920”. In: Maria Emília Madeira Santos (ed.), A África e a Instalação do Sistema Colonial (c. 1885 – c. 1930). III Reunião International de História de África – Actas. Lisbon 2000, p. 243-260.
  • Publicação, em colaboração de Africae Monumenta: O Arquivo de Caculo Cacahenda, IICT/Fundação Portugal África, 2002.
  • “Contar Histórias”, Lendo Angola, Laura Cavalcanti Padilha e Margarida Calafate Ribeiro (orgs.), Edições Afrontamento, 2008. 
  • Sobre Desmedida, Luanda S. Paulo e Volta de Ruy Duarte de Carvalho. Revista Navegações ,  Vol I, nº 1, Porto Alegre, Março de 2008
  • Sobre A terceira metade de Ruy Duarte de Carvalho, Colóquio Letras, nº 173

PRÊMIOS

  • 2007 – Prémio Nacional de Cultura e Artes, secção de Literatura, Angola, pelo livro Manual para amantes desesperados. Lisboa: Caminho, 2007.
  • 2004 – Prémio Mário António da Fundação Calouste Gulbenkian, pelo livro Dizes-me coisas amargas como os frutos. Lisboa: Caminho, 2001.

MARTINHO DA VILA

O autor – MARTINHO DA VILA

MARTINHO DA VILA, Martinho José Ferreira, nasceu em Duas Barras, Estado do Rio, em 12 de fevereiro de 1938. Filho de lavradores da Fazenda do Cedro Grande, veio para o Rio de Janeiro com apenas quatro anos, e foi morar no Morro dos Pretos Forros, numa localidade chamada Boca do Mato.

É músico, ativista cultural e escritor. Desde 1965, suas atividades culturais e musicais estão vinculadas à escola de Samba Unidos de Vila Isabel, daí seu nome artístico – Martinho da Vila. Ficou conhecido nacionalmente a partir de 1967, quando se apresentou no III Festival da Record, com o partido alto “Menina Moça”. A partir de então, sua vasta produção musical cresceu e foi reconhecida nacional e internacionalmente. Particularmente, Martinho da Vila dedicou-se, e dedica-se, a incentivar o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa, por meio de sua discografia e em turnês a países como Moçambique e Angola.

Como escritor, Martinho da Vila tem livros publicados desde 1986, tanto de ficção quanto de não ficção, lançados no Brasil e em Portugal, e alguns deles traduzidos para o Francês. Tem se dedicado ao romance e à crônica, com regular colaboração para jornais e revistas. 

Continua em plena atividade como artista e como escritor, fazendo turnês nacionais e internacionais, e, em 2019, lança pela Kapulana seu mais novo livro, 2018 – Crônicas de um ano atípico.

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Vamos brincar de política? São Paulo: Editora Global, 1986. (Infantojuvenil)
  • Kizombas, andanças e festanças. São Paulo: Leo Christiano Editorial, 1992 / Editora Record, 1998. (Autobiográfico)
  • Joana e Joanes, um romance fluminense Rio de Janeiro: Zfm Editora, 1999. (Romance). Publicado em Portugal com o título de Romance fluminense, pela Eurobrap, 1999, e na França com o título de Joana et Joanes: romance dans l’etat de Rio, pela Yvelinédition, 2011.
  • Ópera Negra. São Paulo: Editora Global, 2001. (Ficção). Publicado em francês com o título de Opéra Noir du Brésil, pela Yvelinédition, 2013.
  • Memórias póstumas de Teresa de Jesus. Editora Ciência Moderna, 2003. (Romance)
  • Os lusófonos. Editora Ciência Moderna, 2005. (Romance). Publicado em francês com o título de Lusophonies: La langue portugaise dans le monde, pela Yvelinédition, 2015.
  • Vermelho 17. Rio de Janeiro: Zfm Editora, 2007. (Romance)
  • A rosa vermelha e o cravo branco. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2009. (Série Lazuli Infantil)
  • A serra do rola-moça. Rio de Janeiro: Zfm Editora, 2009. (Romance)
  • A rainha da bateria. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2009. (Série Lazuli Infantil)
  • Fantasias, Crenças e Crendices. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2011. (Literatura Musical)
  • O nascimento do samba. Rio de Janeiro: Zfm, 2013. (Literatura Musical)
  • Sambas e enredos. Rio de Janeiro: Zfm Editora, 2014. (Literatura Musical)
  • Barras, vilas e amores. São Paulo: Sesi, 2015. (Romance)
  • Conversas cariocas. Rio de Janeiro: Malê, 2017. (Crônicas)

PRÊMIOS E HOMENAGENS

  • Título honorário de Embaixador Cultural de Angola e Embaixador da Boa Vontade da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), por ser um incentivador das relações linguísticas do Português e divulgador da lusofonia.
  • Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.
  • Título de Doutor Honoris Causa, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
  • Comendas mineiras Tiradentes e JK. É Comendador da República da Ordem do Barão do Rio Branco, em grau de Oficial.

ANITA M. R. DE MORAES

ANITA M. R. DE MORAES nasceu em São Carlos, São Paulo. É professora pesquisadora.
É Doutora em Teoria e História Literária pela Universidade de Campinas (Unicamp), com pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (USP).
Desde 2012, atua como professora de Teoria da Literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF).

OBRAS DA KAPULANA

MORAES, Anita M. R. de.MARTIN, VIMA L. R. O Brasil na poesia africana de língua portuguesa – antologia. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

MORAES, Anita M. R. de.MARTIN, VIMA L. R.”O Brasil e a poesia moçambicana: perspectivas de leitura“. Posfácio in: .O Brasil na poesia moçambicana – antologia. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Para além das palavras: representação e realidade em Antonio Candido. 1. ed. São Paulo: Editora da Unesp, 2015. v. 1.
  • O inconsciente teórico: investigando estratégias interpretativas de Terra Sonâmbula, de Mia Couto. 1. ed. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2009.
  • Revista Via Atlântican. 16. São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas FFLCH-USP, 2009. (Org. com MACÊDO, T. CHAVES; R.)

O Brasil e a poesia africana de língua portuguesa: perspectivas de leitura, por Anita M. R. de Moraes e Vima L. R. Martin

O interesse pelas literaturas africanas no Brasil tem sido crescente neste século XXI. Nas universidades e escolas, a pesquisa e o ensino se incrementaram. O meio editorial abriu-se para a publicação de obras africanas e a imprensa tem dado destaque aos autores do continente. Tais fatos certamente estão relacionados com a sanção da Lei 10.639, de janeiro de 2003, responsável por garantir o estudo de história e culturas africanas e afro-brasileira em nossas instituições de ensino. Especialmente nas áreas de artes, letras e história, observa-se, assim, a necessária abordagem de aspectos históricos e culturais dos diversos povos que participaram da formação de nosso país.

Tendo em vista esse cenário, e a partir de nossa área de atuação, preparamos este livro buscando contribuir para o acesso do público brasileiro à produção poética dos países africanos de língua oficial portuguesa. Trata-se do resultado de uma pesquisa desenvolvida desde 2009 que, felizmente, encontra agora espaço para maior divulgação. Para sua realização, agradecemos o apoio das pesquisadoras Simone Caputo Gomes e Tania Macêdo e dos poetas e familiares que gentilmente cederam os direitos autorais dos poemas selecionados.

O ponto de partida do trabalho é o reconhecimento das trocas culturais associadas ao processo de colonização, responsável por aproximar América e África. No campo dos estudos literários, as marcas da presença brasileira na formação das literaturas produzidas nos países africanos colonizados por Portugal foram identificadas já nos anos de 1980, em artigos pioneiros de Maria Aparecida Santilli que apontam para a criação de um patrimônio cultural forjado a partir de um intenso diálogo estabelecido entre brasileiros e africanos.

Esta antologia traz a público poemas que, de alguma maneira, fazem referência ao Brasil ou à cultura brasileira. Desse modo, o conjunto de textos aqui reunidos, organizados por país de origem, permite que sejam conhecidas diferentes dimensões de um diálogo intercultural, favorecendo a visibilidade de algo do Brasil que se fez e se faz presente na África. Ao longo de nossa pesquisa, voltamo-nos para antologias consagradas (como No reino de Caliban, de Manuel Ferreira), antologias recentes (como Poesia africana de língua portuguesa, organizada por Lívia Apa, Arlindo Barbeitos e Maria Alexandre Dáskalos, e  Antologia da nova poesia angolana, organizada por Francisco Soares) e livros de autoria individual (no caso de poetas que consideramos manter uma relação de intensa proximidade com o Brasil). Apesar de termos consultado fontes diversificadas, temos consciência de que nosso estudo pode – e deve – ser ampliado, uma vez que não esgotamos as fontes e que o diálogo com o Brasil ainda se mantém vigoroso nos países africanos de língua oficial portuguesa. 

Este livro conta com um glossário, contendo tanto termos relacionados ao universo africano e da diáspora africana, como também nomes próprios citados nos poemas. Ao final do volume, uma lista de poemas veicula os resultados mais gerais de nosso estudo, configurando um mapeamento, ainda que parcial, da presença do Brasil na poesia africana de língua portuguesa.

***

Ao longo dos cinco últimos séculos, os laços históricos que aproximaram o Brasil e a África foram, como se sabe, muito fortes. Desde o século XVI, a formação social brasileira foi determinada por relações coloniais e escravistas, que se materializaram a partir da circulação de um grande contingente de pessoas através do Atlântico. Como esclarece Alberto da Costa e Silva,

Há toda uma história do Atlântico. Uma história de disputas comerciais e políticas, de desenvolvimento da navegação e de migrações consentidas e forçadas. Mas há também uma longa e importante história que se vai tornando, aos poucos, menos discreta. A dos africanos libertos e seus filhos, a dos mulatos, cafuzos e brancos que foram ter ao continente africano, retornaram ao Brasil, voltaram à África ou se gastaram a flutuar entre as duas praias. (COSTA e SILVA, 2003, p. 236)

O trânsito intenso estabelecido entre as duas margens do Atlântico favoreceu a constituição de ideias e ideais e a construção de um forte imaginário ancorado em experiências concretas. Alguns dos poemas levantados em nosso mapeamento focalizam justamente o legado brutal, em terras africanas e americanas, das migrações forçadas – o tráfico de pessoas sequestradas para serem escravizadas. Trata-se, então, de lidar com a memória do horror, com o trauma da escravidão. Em poemas como “Epopeia”, do santomense Francisco José Tenreiro, escrito nos anos de 1950, por exemplo, o Brasil é sobretudo o trágico destino dos escravizados.

Já no soneto oitocentista que integra esta antologia, intitulado “O sonho dantesco”, do também santomense Caetano da Costa Alegre, é numa situação amena de leitura que emerge, incompreensível, o evento da escravidão: trata-se da leitura, feita por uma jovem, de “O navio negreiro”, de Castro Alves.

Observamos, assim, dois aspectos do relacionamento da poesia africana de língua portuguesa com o nosso país: 1) temos visibilizada uma história colonial comum, marcada pela escravidão e pelo sofrimento dela decorrente; 2) e encontramos um diálogo literário efetivado por autores que frequentemente encontraram em nossa realidade cultural fonte de inspiração.

Parte da poesia do angolano José da Silva Maia Ferreira marca-se por tais relações literárias.  Maia Ferreira estudou no Brasil de 1834 a 1844 e aqui entrou em contato com nossos textos românticos, muitos deles reivindicativos de uma identidade nacional. De volta a Angola, publica em 1849 Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas. Dessa obra, pelo menos dois poemas apresentam relações intertextuais com um texto de Gonçalves Dias, o notório “Canção do exílio” (1843), que ficou célebre na tradição literária brasileira. Trata-se de “À minha terra” e “A minha terra”, que apresentam, além do tema da valorização da terra natal, a métrica e o vocabulário muito próximos do poema de Gonçalves Dias. Vejamos algumas passagens de “À minha terra”, que integra esta antologia:

De leite o mar – lá desponta
Entre as vagas sussurrando
A terra em que cismando
Vejo ao longe branquejar!
É baça e proeminente,
Tem da África o sol ardente,
Que sobre a areia fervente
Vem-me a mente acalentar.
(…)
 
Bem-vinda sejas ó terra,
Minha terra primorosa,
Despe as galas – que vaidosa
Ante mim queres mostrar:
Mesmo simples teus fulgores,
Os teus montes têm primores,
Que às vezes falam de amores
A quem os sabe adorar!
 
(…)

Como se vê, o poeta caracteriza a sua terra natal com um entusiasmo relativo, admitindo a simplicidade de seus “fulgores”. Entretanto, já se nota no texto um sentimento nativista, de identificação com o espaço angolano. Nas palavras de Tania Macêdo:

(…) a leitura de “Canção do exílio” realizada pelo autor angolano, que se pode depreender, focalizará sobretudo o “cá”, da terra angolana, deixando na penumbra o “lá”, de onde ele chega [Brasil]. Sob esse particular, o poeta afirma a “singeleza” de sua terra, mas faz questão de apontar que ela tem primores “a quem os sabe adorar”, indicando uma explicitação de sua “pertença”, o que indica a presença de um nativismo nascente. (MACÊDO, 2002, p. 43)

Também no longo poema “A minha terra”, igualmente presente nesta antologia, a ambiguidade se instala, estando o poeta mais uma vez entre a valorização emocionada de sua terra natal e a avaliação de que se trata de um espaço sem os encantos das terras portuguesas e brasileiras e carente de seus grandes vates. Vemos, inclusive, que o sentimento de participação no “mundo português” é forte, cantando-se e louvando-se a valentia dos heróis do império. É interessante perceber que, ao lado de Portugal, o Brasil avulta como um espaço privilegiado, capaz também de causar inveja ao poeta. Trata-se de uma referência explícita ao Brasil independente, de estatuto elevado, confirmando a admiração pelo território já naquela altura liberto do domínio político português.

Décadas mais tarde, já em meados do século XX, chama a atenção a força com que a produção literária brasileira funcionou como uma espécie de estímulo para a produção literária das então colônias portuguesas, constituindo-se como uma referência cultural alternativa às imposições metropolitanas. É certo que a nossa literatura não foi a única a marcar as produções do período. Ecos da poesia escrita pelo norte-americano Langston Hughes, pelo haitiano Jacques Roumain e pelo cubano Nicolás Guillén, por exemplo, estão presentes nos poemas africanos, cujos autores intentavam romper com o cânone oficial. Numa atmosfera intelectual marcada pela Négritude, difundida sobretudo por Aimé Césaire e Senghor, um número importante de escritores africanos de língua portuguesa buscavam – também eles – consolidar uma noção de identidade negra.

Entretanto, ainda que essas referências sejam determinantes, é fato que as experiências e realizações do primeiro modernismo brasileiro e a literatura produzida na década de 1930 deixaram marcas profundas na formação das modernas literaturas africanas de língua portuguesa. Nos espaços então colonizados, a busca pela autonomia literária se deu paralelamente à organização e à luta pela autonomia política. Daí a relevância das propostas do nosso modernismo e da chamada literatura “regionalista”, com sua forte opção pelos excluídos, como modelos inspiradores das transformações que se buscavam no momento da afirmação das identidades nacionais.

A revista angolana Mensagem (1951), cujo lema era “Vamos descobrir Angola!”, a pioneira revista Claridade (1936), em Cabo Verde, e a revista Msaho (1952), em Moçambique, foram espaços de expressão de movimentos literários que, como já havia ocorrido no Brasil, reclamavam uma cultura “autêntica”, enfatizando as realidades locais e as aspirações de liberdade popular. Sobre a forte presença das letras brasileiras em Angola, declara o crítico angolano Costa Andrade em 1963:

Entre a nossa literatura e a vossa, amigos brasileiros, os elos são muito fortes. Experiências semelhantes e influências simultâneas se verificaram. É fácil, ao observador corrente, encontrar Jorge Amado e os seus capitães de areia nos nossos melhores escritores. Drummond de Andrade, Graciliano, Jorge de Lima, Cruz e Sousa, Mário de Andrade e Solano Trindade, Guimarães Rosa, têm uma presença grata e amiga, uma presença de mestres das novas gerações de escritores angolanos. E por isso mesmo, pelo impacto que têm junto do nosso povo, são vetados pelos colonialistas. Eles estão presentes, porém, nas preocupações literárias dos que lutam pela liberdade. (ANDRADE, 1980, p. 26)

Para termos uma dimensão mais exata desse interesse, que toma a forma de um encantamento cultivado por parcela significativa de intelectuais e escritores dos países africanos, evoquemos as enfáticas palavras de outro angolano, Ernesto Lara Filho, presentes em crônica publicada no periódico Notícia (entre 1960 e 1962):

Rubem Braga, o “sabiá” da crônica do Brasil, anda nos nossos recortes literários. Henrique Pongetti é lido por nós, também, Raquel de Queiroz e Nelson Rodrigues, esses tratamo-los por tu. São-nos familiares. Todo o angolano, do Dirico a Cabinda, do Luso ao Lobito, lê o “Cruzeiro”, ri com as piadas de Millôr Fernandes e chora com as reportagens de David Nasser sobre Aida Curi.
Esses são afinal os nossos ídolos. Se pudéssemos votar, muitos de nós, angolanos de nascença, havíamos de ir às urnas depor o nosso voto nas próximas eleições brasileiras, pelo espetacular Jânio Quadros, o Jânio da “Vassoura”. Sabemos quem é Leandro Maciel, Carlos Lacerda, Pascoal Carlos Magno. Sabemos de cor frases como esta: “O petróleo é nosso”. (LARA FILHO, 1990, p. 58)

Em um texto bem mais recente, intitulado “O sertão brasileiro na savana moçambicana” (2005), Mia Couto também reconhece a importância capital do Brasil na formação da literatura moçambicana. Aliás, logo no início de sua reflexão, o escritor narra, de maneira idealizada, numa chave romântica, aquele que teria sido o momento inaugural da poesia em seu país: a união da moçambicana Juliana e do poeta brasileiro desterrado Tomás Antônio Gonzaga e os inúmeros serões ocorridos em sua casa, na Ilha de Moçambique, espaço onde teria florescido o primeiro núcleo de poetas e escritores da então colônia. Depois de evocar esse casamento, espécie de “presságio” de um “entrosamento maior”, continua Mia Couto:

O nascimento da poesia moçambicana está marcado por um encontro que seria bem mais do que um casamento entre duas pessoas. Havia ali uma espécie de presságio daquilo que seria um entrosamento maior que iria prevalecer.
Mais de um século depois, nascia em Moçambique uma corrente de intelectuais ocupados em procurar a moçambicanidade. Já era, então, clara a necessidade de ruptura com Portugal e os modelos europeus. Escritores como Rui de Noronha, Noémia de Souza, Orlando Mendes, Rui Nogar, ensaiavam uma escrita que fosse mais ligada à terra e à gente moçambicana.
Necessitava-se de uma literatura que ajudasse a descoberta e a revelação da terra. Uma vez mais, a poesia brasileira veio em socorro dos moçambicanos (…) os moçambicanos descobriram nesses escritores e poetas a possibilidade de escrever de um outro modo, mais próximo do sotaque da terra, sem cair na tentação do exotismo. (COUTO, 2005, p. 103)

No que diz respeito às relações entre as literaturas do Brasil e de Cabo Verde, é necessário sublinhar o papel decisivo exercido pela literatura social de 1930 na produção de escritores como Baltazar Lopes e Manuel Lopes, ambos vinculados à já referida revista Claridade. A similaridade climática entre o nordeste brasileiro e as ilhas de Cabo Verde favoreceu ainda mais as ressonâncias dos romances regionalistas em textos, de prosa e poesia, que buscavam afirmar a “cabo-verdianidade”. As palavras do poeta Gabriel Mariano, recolhidas por Michel Laban, atestam essa relação:

(…) Foi um alumbramento porque eu lia um Jorge Amado e estava a ver Cabo Verde. De Jorge Amado, o Quincas Berro d’Água, quando eu o li pela primeira vez, a personagem, as características psicológicas da personagem, a reação das pessoas, quando souberam da morte de Quincas Berro d’Água, eu li isso tudo e eu estava a ver a Ilha de São Vicente, Cabo Verde… Estava a ver a Rua de Passá Sabe… (In: LABAN, 1992, p. 331)

Também é bastante significativa a leitura que os autores cabo-verdianos fizeram da poesia de Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Ribeiro Couto. Desse conjunto de poetas, Manuel Bandeira se destaca como um interlocutor privilegiado, fazendo-se presente em vários poemas, e não apenas de autores de Cabo Verde. Sua dicção pretensamente simples, a intensa valorização da oralidade e o lirismo de seus poemas certamente seduziram os poetas africanos que lhe dedicaram versos e estabeleceram pontes com a sua poesia.

Exemplar dessas relações é a intertextualidade verificada no conjunto de poemas escritos em diálogo explícito com “Vou-me embora pra Pasárgada” (1930). Como observamos a partir de nosso mapeamento, na série “Itinerário de Pasárgada”, que consta de cinco poemas escritos em 1946 pelo cabo-verdiano Osvaldo Alcântara (pseudônimo de Baltazar Lopes para sua produção poética), o tom oscila do nostálgico ao contestatório, mas afinal o poeta afirma – como no poema brasileiro – a utopia de um futuro desejado. Mais tarde, outro poeta, Ovídio Martins, retomará o tema em seu poema “Anti-evasão” (1974), dessa vez rejeitando a “viagem para Pasárgada” e afirmando a necessidade de permanecer em Cabo Verde para construir um futuro qualitativamente diferente para o país. Na presente antologia, a referência a Manuel Bandeira surge em outro poema cabo-verdiano, bem mais recente, atestando a continuidade desse diálogo intertextual: trata-se de “Os meninos”, da escritora Vera Duarte. Nesse poema em prosa, a interlocução com a poesia de Manuel Bandeira dá-se pela menção, não de sua utópica Pasárgada, mas da sua também muito conhecida “Estrela da Manhã”, igualmente signo de inconformidade.

Podemos notar que a produção africana de língua portuguesa aponta para a permanência da ligação estabelecida entre africanos e brasileiros. De fato, referências a escritores, livros e espaços geográficos e ficcionais do Brasil ainda estão presentes em produções contemporâneas de diferentes autores de ficção e poesia. Em publicações das últimas décadas, além de Manuel Bandeira, escritores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Manoel de Barros, Raduan Nassar e Adélia Prado têm acolhida marcante. Por exemplo, nos poemas “Drummondiana” e “Metamorfose”, publicados nesta antologia, o poeta moçambicano Luís Carlos Patraquim trava diálogo explícito com a poesia de Carlos Drummond de Andrade. No primeiro, o título é convite para que se persigam sutis alusões a poemas como “A máquina do mundo” e “A flor e a náusea”; já no impressivo “Metamorfose”, a leitura de Drummond é referida como marco temporal, desdobrando-se a relação intertextual com a alusão ao famoso poema “O sentimento do mundo”. Por fim, em “Poesia verde”, do poeta angolano José Luís Mendonça, também presente nesta antologia, é pela referência ao conhecido verso “no meio do caminho tinha uma pedra” que a intertextualidade com Carlos Drummond de Andrade se estabelece.

Um dos poemas do angolano Ondjaki presente neste livro intitula-se “Chão” e apresenta uma dedicatória que merece destaque: “palavras para manoel de barros”. O nome do poeta brasileiro está grafado em letra minúscula, assim como todas as palavras que compõem o poema. O efeito dessa escolha parece ser o de desautomatizar o uso da língua portuguesa, efeito reforçado pelos neologismos, pelas inversões sintáticas e pelo uso não convencional da pontuação. De viés filosófico, o poema se vale de imagens lúdicas e desconcertantes para expressar o desejo de autoconhecimento, em busca de uma identidade primordial. Trata-se de empreender um inusitado processo de retorno ao reino mineral (areia, barro, chão), numa metamorfose voltada sempre para dentro e para baixo, como se essa involução à terra fosse capaz de revelar uma verdade essencial. Ao “chãonhe-ser-se”, amalgamando-se ao mundo natural, o poeta simultaneamente se mineraliza e se humaniza, num gesto forte e delicado que parece abdicar da artificialidade que, de certo modo, pauta o mundo social. Como se vê, a relação do poema angolano com a poética de Manoel de Barros ultrapassa a singela dedicatória e manifesta-se no próprio fazer poético que atualiza as linhas de força do projeto literário do escritor cuiabano.

Referências à música brasileira também são recorrentes na poesia africana de língua portuguesa. Lembremos do poema “Samba”, datado de 1949, em que a poetisa moçambicana Noémia de Sousa toma esse gênero musical como atestado da presença cultural africana no Brasil, aludindo a um ritmo de histórias entrelaçadas e lutas partilhadas. Referências mais recentes a Tom Jobim, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Roberto Carlos e Milton Nascimento evidenciam a continuidade do interesse pela música brasileira em terras africanas. Destaca-se, nesse sentido, o poema “Setenta e seis”, aqui publicado, do poeta e letrista angolano Carlos Ferreira, em que a familiaridade com “a canção de roberto” é sugerida (numa alusão certa ao cantor Roberto Carlos e ao famoso verso da canção “Baby”, de Caetano Veloso).

O poema “Canção para Milton Nascimento”, do angolano João Melo, é outro exemplo  do diálogo da poesia africana com a nossa música. Nos primeiros versos, marcados por assonâncias e aliterações, o poeta evoca as origens africanas do compositor e cantor da nossa Música Popular Brasileira, que se notabilizou por abordar temas como liberdade e solidariedade.

Canção para Milton Nascimento

A lonjura da tua voz não é apenas dos amplos vales de Minas Gerais:
abarca a negra imensidão do oceano azul que em galeras te levou
das praias invadidas do Congo, Ndongo e Benguela,
alcança os planaltos ancestrais
de onde te arrancaram ao coração da terra,
sem suspeitar que na tua voz
ia a alma de todos os homens do mundo.

Na sequência, o texto afirma que na voz de Milton ressoam não apenas instrumentos musicais africanos (ngomas), mas também instrumentos ibéricos e ameríndios, capazes de iluminar “os dilacerados quadris da memória reconstruída”. Trata-se, aqui, não apenas de celebrar a riqueza da heterogeneidade cultural brasileira, que ganha materialidade no trabalho do compositor, mas, sobretudo, de sublinhar a dimensão trágica de uma história, assentada no colonialismo e na escravidão, cuja memória se encontra em processo de reconstrução. Por isso, como bem revelam os versos finais, a voz de Milton nem sempre é alegre e ele precisa de coragem para “cantar sozinho no meio da escuridão”.

É importante considerar que não apenas a poesia, mas também a prosa africana de língua portuguesa tem mantido diálogo fecundo com o Brasil. Alguns ficcionistas destacam, em entrevistas e ensaios, a importância do contato com, por exemplo, a escrita de João Guimarães Rosa, como os angolanos Luandino Vieira e Ruy Duarte de Carvalho (este, também importante poeta) e o já mencionado escritor moçambicano Mia Couto. Ruy Duarte de Carvalho, em seu livro Desmedida, de 2006, relata:

Quando aí por 1965, numa tabacaria da Gabela, interior do Kwanza-Sul, dei encontro com o Grande sertão: veredas em edição, a 5ª parece-me, da Livraria José Olympio, o facto foi, de fato e de várias maneiras, muito importante na minha vida. Foi um daqueles livros que vêm, literalmente, ao nosso encontro (…). (…) Defrontei-me então muito arduamente com as primeiras páginas do Grande sertão e deixei-me depois entrar naquilo para tornar-me, a partir daí e até agora, um leitor compulsivo, permanente e perpétuo, de Guimarães Rosa. (…)
Mas para o que talvez possa interessar agora, eu estava a encontrar ali, finalmente, um tipo de escrita e de ficção adequadas à geografia e à substância humana que eu andava então, técnico da Junta do Café, a frequentar e a fazer-me delas por Angola afora. (…) E nas paisagens que Guimarães Rosa me descrevia, eu estava a reconhecer aquelas que tinha por familiares. Já porque de natureza a mesma que muitas paisagens de Angola – e em algumas das paisagens de Angola eu reconhecia aquelas, enquanto o lia – já porque a gente que ele tratava, gente de matos e de grotas, de roças e capinzais, era também em Angola aquela com quem durante muitos anos andei a lidar pela via do ofício de viver. (CARVALHO, 2006, p. 85-86)

A leitura de Grande sertão: veredas, na década de 1960, chamou a atenção de Ruy Duarte de Carvalho, gerando uma sensação de familiaridade. E as semelhanças entre as paisagens e as gentes do Brasil e Angola são aspectos que ele viria a explorar em obras futuras, como no próprio livro Desmedida, aqui citado.

Nesta antologia, contudo, dedicada apenas à poesia, o diálogo entre prosadores, tão intenso, não é explorado. Por essa razão, do conjunto da obra escrita por Ruy Duarte de Carvalho, o texto que está presente em nosso levantamento é o poema intitulado “Fala de um brasileiro ao capitão-mor Lopo Soares de Lasso”, de 1974, que traz justamente a fala (ficcional) de um brasileiro do século XVII em terras angolanas. Esse poema evidencia antigos laços entre Angola e Brasil, dando voz a um brasileiro que abandona projetos de conquista e escolhe seguir novo – e próprio – rumo na nova terra (Angola), tendo, agora, conhecido “as muitas coisas boas”, “sabida outra maneira de aqui estar”. Para os leitores da prosa de Ruy Duarte de Carvalho, o destino desse brasileiro ecoa o de alguns de seus personagens, como o inglês Archibald Perkings (protagonista de Os papéis do inglês), Severo (protagonista de As paisagens propícias) e o próprio autor ficcionalizado (narrador-personagem dos romances da trilogia Os filhos de Próspero, cujo primeiro volume, o já mencionado Os papéis do inglês, está publicado no Brasil).

Podemos perceber diferentes formas de impacto da prosa sobre a poesia, e mesmo encontrar a homenagem, na forma de poema, a prosadores brasileiros. No conjunto desta antologia, chama especial atenção, nesse sentido, o “Poema a Jorge Amado”, de Noémia de Sousa. Vejamos sua estrofe inicial:

O cais…

O cais é um cais como muitos cais do mundo…
As estrelas também são iguais
às que se acendem nas noites baianas
de mistério e macumba…
(Que importa, afinal, que as gentes sejam moçambicanas
ou brasileiras, brancas ou negras?)
Jorge Amado, vem!
Aqui, nesta povoação africana
o povo é o mesmo também
é irmão do povo marinheiro da Baía,
companheiro de Jorge Amado,
amigo do povo, da justiça e da liberdade!
(…)

Os versos de Noémia de Sousa, de 1949, estabelecem uma identificação plena entre Moçambique e Brasil (Bahia), sublinhando elementos que aproximariam os dois espaços (cais, estrelas, povo). Numa perspectiva humanista, que se constrói para além da nacionalidade e cor da pele “(Que importa, afinal, que as gentes sejam moçambicanas/ ou brasileiras, brancas ou negras?)”, o texto propõe o estabelecimento de uma rede solidária entre “as gentes”, pautada em valores como justiça e liberdade, dos quais Jorge Amado seria o porta-voz. Ao convocar a presença companheira do escritor baiano em terras moçambicanas, a poetisa expressa uma utopia libertária, enraizada na cultura popular, que naquele contexto funcionava simultaneamente como crítica à presença colonialista e aspiração de independência política.

O veemente combate à brutal configuração de um sujeito racial nos processos coloniais é traço marcante da poesia de Noémia de Sousa. A luta que se propõe é de todos, sem discriminação, uma luta contra qualquer forma de racialização – em sintonia, assim, com proposições recentes, como as do filósofo camaronês Achille Mbembe (pensamos especialmente em Crítica da razão negra, publicado no Brasil em 2018). A questão racial nos leva, contudo, a lidar com uma referência bem mais antiga: a do lusotropicalismo defendido pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que celebrava no Brasil uma espécie de espaço exemplar de liberdade e democracia racial. Lembremos que sua obra magna, Casa Grande e senzala, publicada em 1933, impactou fortemente não apenas a intelectualidade brasileira, mas também intelectuais portugueses e africanos dos países que então eram colônias de Portugal. Outros livros, como O mundo que o português criou (1940) e Aventura e rotina (1953), serão centrais para a difusão do lusotropicalismo. Para Fernando Arenas,

As bases teóricas do que seria o lusotropicalismo estender-se-ão eventualmente a praticamente todo o império colonial português a partir de uma série de conferências proferidas [por Gilberto Freyre] na Europa em 1937 e reunidas na obra O mundo que o português criou (1940), onde se exalta a miscigenação e a mestiçagem, sobretudo relativamente ao Brasil, embora projetando-se para o resto do império. (ARENAS, 2010)

Entre 1951 e 1952, Gilberto Freyre foi convidado pelo governo português para viajar pelas terras do império. É preciso lembrar que após a Segunda Grande Guerra tornou-se internacionalmente mais difundida a condenação de regimes de natureza colonial. O governo de Salazar – ditador português de 1928 a 1968 – recorre, então, ao lusotropicalismo freyriano para reformular sua ideologia colonial, apelando para a ideia do “bom colono português”. Com a apropriação salazarista do pensamento do sociólogo brasileiro na década de 1950, nota-se o afastamento, por parte de muitos escritores e intelectuais africanos, das teses lusotropicalistas de Freyre. O poema “Presença de Gilberto Freyre”, do caboverdiano Guilherme Rocheteau, publicado em 1951, evidencia, contudo, a força do lusotropicalismo nos países africanos de língua oficial portuguesa ainda no início da década de 1950, especialmente em Cabo Verde.

É importante destacar que, em nossa perspectiva, na poesia de Noémia de Sousa não há, de modo algum, negação ou suavização da violência colonial portuguesa. O “Poema de João”, presente nesta antologia, denuncia justamente sua brutalidade, afirmando também a força da resistência. Mais uma vez, Achille Mbembe vem a nosso auxílio. No já citado Crítica da razão negra, Mbembe sugere haver traços de um imaginário cristão em discursos e práticas de combate à escravidão e ao colonialismo. No poema de Noémia de Sousa, a morte violenta é vencida pela ressurreição simbólica: ao invés de morto, João ressurge vivo no seio do povo, tornando-se uma espécie de mártir. O “Poema de João” pode, nesse sentido, ser comparado ao romance A vida verdadeira de Domingos Xavier, de Luandino Vieira, cujo protagonista constrói-se sob o signo do sacrifício (de 1961, este livro foi censurado e só veio a ser publicado em 1974).

A questão racial recoloca-se, com contundência, nos textos “Poema preto de fome” e “A cor da Humanidade”, de José Luís Mendonça, também aqui publicados. No primeiro, talvez algo do devir-negro proposto por Mbembe se delineie. Para o filósofo, a exploração capitalista, que remonta à escravidão nas plantations das Américas, implica a invenção do “negro” como destituído de humanidade plena. Contudo, Mbembe afirma também que aqueles que assim se viram brutalmente tratados reafirmaram sua condição humana invertendo o rótulo “negro” em chave afirmativa. Sinais de tal duplicidade aparecem no poema de José Luís Mendonça, em que o signo “preto” remete tanto à condição de vítima histórica como à força da resistência daqueles que lutaram e lutam contra a violência e a exploração.

No poema “A cor da Humanidade” é a própria farsa do rótulo racial que se vê denunciada. Como em “A viagem profana”, do moçambicano Nelson Saúte, estamos diante de um sujeito em deslocamento, uma espécie de sujeito global ou globalizado. Contudo, no poema de Saúte, tal sujeito se configura numa chave subjetiva, trata-se de um viajante apaixonado que traça suas afinidades eletivas, suas preferências tanto literárias como espaciais (ocupando, o Brasil, lugar afetivo privilegiado). Já no poema de Mendonça, configura-se um sujeito coletivo que parece implicar todo aquele que possa ser estigmatizado, apanhado na armadilha da racialização. Se o mundo se oferece com generosidade ao poeta em “A viagem profana”, no poema angolano toma a forma do impedimento, arma-se contra o sujeito. Assim, em “A cor da Humanidade”, a onipresença das categorias raciais é problematizada, afirmando-se, com Martin Luther King e Nelson Mandela, a inalienável condição humana de toda pessoa.

***

Como apontamos inicialmente, este trabalho busca visibilizar as trocas culturais que aproximaram – e ainda aproximam – o Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa, ao longo de séculos de uma história de entrelaçamentos. No diálogo poético estabelecido desde o século XIX até a contemporaneidade, capaz de aproximar as duas margens do Atlântico, a solidariedade e a criatividade emergem como marcas efetivas da aproximação estabelecida.

O conjunto de poemas reunidos em nosso mapeamento, ponto de partida da presente antologia, aponta para representações diversas: há poemas que apenas mencionam o Brasil, entre outros países do continente americano, como destino de africanos escravizados; há poemas que estabelecem alguma relação intertextual com obras da literatura brasileira; outros enaltecem o Brasil, desde uma perspectiva idealizada, por vezes até mesmo exotizante ou turística; há aqueles que se referem com admiração a personalidades brasileiras (escritores, compositores, intelectuais etc.); há, ainda, poemas que mencionam a opressão – e a resistência a formas de opressão – dos negros no Brasil. Como se vê, de maneira múltipla, o Brasil se faz presente.

Dessa maneira, como conclusão parcial, podemos reter que, por vezes, o Brasil é rememorado na poesia africana como destino de brutal tráfico humano (com destaque para poemas do período colonial); e, outras, imaginado como espaço utópico de liberdade política e harmonia racial (imbuindo-se, então, de traços do lusotropicalismo freyriano); de modo geral, nosso país emerge como um território cúmplice, de onde emanam vozes capazes de compreender e se irmanar com realidades sociais e culturais percebidas a partir de uma óptica comparatista.

Entendemos que os textos levantados sugerem que, seja no profícuo diálogo literário, seja na menção a traços da cultura brasileira veiculada em terras africanas, seja ainda no recurso a uma memória colonial comum de assombrosa violência e na afirmação de resistência (o negro que luta, na África e nas Américas, contra o racismo, por exemplo), o Brasil está fortemente presente no repertório poético africano de língua portuguesa.

Trata-se de uma presença viva, de um diálogo em curso, como atestam os textos de escritores que, em publicações recentes, continuam a mencionar nosso país. Nos poemas selecionados de autores contemporâneos, as referências ao Brasil, sua paisagem e sua cultura – nomeadamente nos campos da literatura e da música – demonstram que o país ainda ocupa um espaço privilegiado no imaginário dos autores africanos. Há certamente muito ainda a descobrir. Os poemas reunidos por nós não esgotam a questão dos trânsitos culturais entre o Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa. Ao contrário, esta seleção pretende abrir caminhos e instigar o estudo de aspectos da presença do Brasil nas literaturas africanas de língua portuguesa, inclusive a investigação de novas formas e possibilidades de diálogo.

Referências:
ANDRADE, Costa. Literatura angolana (opiniões). Lisboa: Edições 70, 1980.
ARENAS, Fernando. “Reverberações lusotropicais: Gilberto Freyre em África”. In: Buala – Cultura Contemporânea Africana, 2010. Acessível em: http://www.buala.org/pt/a-ler/reverberacoes-lusotropicais-gilberto-freyre-em-africa-1-cabo-verde
CARVALHO, Ruy Duarte de. Desmedida: crônicas do Brasil (Luanda – São Paulo – São Francisco e volta). Lisboa: Cotovia, 2006.
COSTA e SILVA, Alberto da. Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Editora UFRJ, 2003.
COUTO, Mia. Pensatempos: textos de opinião. Lisboa/Maputo: Editorial Ndjira, 2005.
LABAN, Michel. Cabo Verde. Encontro com escritores. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1992.
LARA Filho, Ernesto. Crônicas da roda gigante. Porto: Afrontamento, 1990.
MACÊDO, Tania. Angola e Brasil: estudos comparados. São Paulo: Editora Arte e Ciência, 2002.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: Edições N-1, 2018.

 São Paulo, janeiro de 2019.

Anita M. R. de Moraes é Doutora em Teoria e História Literária pela Universidade de Campinas (Unicamp), com pós-doutorado pela Universidade de São Paulo e Professora de Teoria da Literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Vima Lia de Rossi Martin é Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e Professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na mesma instituição (FFLCH-USP).

Citar como:

O ARTIGO:
MORAES, Anita M. R.; MARTIN, Vima L. R. “O Brasil e a poesia africana de língua portuguesa: perspectivas de leitura “. Posfácio. In. MORAES, Anita M. R.; MARTIN, Vima L. R. O Brasil na poesia africana de língua portuguesa: antologia. São Paulo: Kapulana, 2019.[Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/o-brasil-e-a-poesia-africana-de-lingua-portuguesa-perspectivas-de-leitura/>

O LIVRO:
MORAES, Anita M. R.; MARTIN, Vima L. R. O Brasil na poesia africana de língua portuguesa: antologia. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

“Nina tem medo de palhaço”: Kapulana promove sessões de autógrafos e mesas de conversas de seu mais recente livro infantil

Os eventos ocorrerão nas livrarias da Vila e Cultura, além de participações nas programações culturais nas Cidade do Circo e Unesp

A Kapulana realizará sessões de autógrafos e mesas de conversas de sua mais recente publicação, o livro infantil  Nina tem medo de palhaço, com as participações de Walter de Sousa e Mariana Fujisawa – autor e ilustradora da obra – e Gabi Winter, atriz e a palhaça Jurubeba, homenageada no livro.

Na obra, a jovem Nina perdeu a casa em uma tragédia e passa a viver em um campo de refugiados. O que fazer para enfrentar os medos e anseios durante a infância? É o que acontece quando Nina conhece a palhaça Jurubeba! A palhaça conforta e conversa com a protagonista sobre muitas coisas e lugares que podem ser a nossa casa. Este incrível livro, escrito por Walter de Sousa e ilustrado pela artista Mariana Fujisawa, é uma homenagem ao trabalho social e cultural da palhaça brasileira Jurubeba (Gabi Sigaud Winter), e de todas as palhaças e palhaços que divertem e confortam crianças pelo mundo todo.

 Os eventos acontecerão na cidade de São Paulo em:

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

Confira as obras da Kapulana disponíveis no formato e-book

São mais de 15 obras da editora em e-book nas diversas plataformas digitais para compra

Já está disponível o catálogo – obras em prosa – da Kapulana em formato e-book. Os livros podem ser adquiridos nas plataformas digitais Amazon Brasil, Apple Books, Google Play, Kobo, Livraria Cultura e Wook.

A Kapulana é uma editora voltada para a publicação e divulgação da literatura de autores brasileiros e estrangeiros. Atualmente, o catálogo da editora é composto por livros de ficção e científicos, para adultos e crianças, em prosa e poesia. Os autores são de países como Brasil, Angola, Moçambique, Nigéria, Portugal, Quênia e Zimbábue.

 

 

Confira as seguintes obras disponíveis em e-book:

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

Quatro autores da Kapulana estarão presentes na primeira edição da “Travessia das Letras”, festa infantojuvenil realizada em Portugal

Kely de Castro, Lucílio Manjate, Ungulani Ba Ka Khosa e Maria Celestina Fernandes conversarão sobre o exercício do pensamento, das ideias, da construção de relações sociais e afetivas que se iniciam na infância

Os escritores da Kapulana, Kely de Castro (Brasil), Maria Celestina Fernandes (Angola),  Laucílio Manjate e Ungulani Ba Ka Khosa (Moçambique) estarão presentes na Travessia das Letras1ª Festa Infantojuvenil da Língua Portuguesa, que será realizada em Oeiras, Portugal, nos dias 30 e 31 de março, no Parque dos Poetas – Templo de Poesia. A editora é membro apoiador do evento.

A participação desses escritores no evento é uma das atividades da Editora Kapulana sobre o Dia da Língua Portuguesa, dia 05 de maio. Essa data é comemorada pelos países da língua portuguesa que fazem parte da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

O evento conta com o apoio institucional da Missão do Brasil na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da Embaixada do Brasil em Lisboa, do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua (I. P. do Camões,) do Centro Cultural Português em Maputo e da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas do Governo Português (DGLAB).

OBRAS DOS AUTORES CONVIDADOS

A Kapulana publicou no Brasil as seguintes obras dos escritores presentes no evento:

 

Travessia das Letras – 1ª Festa Infantojuvenil da Língua Portuguesa:

Data: 30 e 31 de março

Horário: das 10h às 18h

Entrada Gratuita

Endereço: Parque dos Poetas – Templo da Poesia (Rua José de Azambuja Proença, 2780-257, Oeiras – Portugal)

Programação oficial da Travessia das Letras: http://travessia2019.blogspot.com

14 de março de 2019

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acesse: http://www.kapulana.com.br/catalogo/

 

Entrevista com Pepetela, por José dos Remédios

PEPETELA, um dos mais importantes escritores de Angola, concedeu essa entrevista ao jornalista José dos Remédios, do jornal O País, de Moçambique.

“O escritor deve ser capaz de criar empatia com o pior da terra”  (Pepetela)

Aprendeu a gostar de histórias era ainda verde, como a cor da alface. A mãe, uma professora e um amigo de infância, sem que se apercebessem disso, ajudaram-no a descobrir um grande escritor que morava dentro de si. E a descoberta teve como consequência transformar o pequeno menino contador de estórias num autor de utopias, dedicado no futuro sem deixar de trazer ao presente as cicatrizes do passado. Escreveu sobre a sociedade angolana como ninguém e, por via disso, projectou-se para o espaço da língua portuguesa e para o mundo inteiro. É um escritor sem fronteiras. A sua obra transborda o que mais interessa à literatura: a emoção sempre em sintonia com uma técnica de escrita inigualável. Chama-se Pepetela, e nesta entrevista fala-nos das especificidades da sua escrita, das suas convicções – como a de que nunca seria um neo-liberal –, de como a literatura pode ser usada para aproximar os povos africanos e dos problemas que abalam a Humanidade.  

1- Gostava de começar com uma pergunta que, de algum modo, sintetiza a sua obra. Cada livro seu reflecte, de forma satírica ou metafórica, determinados momentos da sociedade angolana e, consequentemente, dos países que mantêm uma acentuada ligação histórica com Angola – inclusive Moçambique. O que lhe leva a fazer da sua ficção um veículo que permite os seus leitores voltarem-se para o seu contexto social com um olhar mais crítico e consciente?

R- Se consigo isso, fico satisfeito. A intenção é mesmo a de chamar a atenção para determinadas problemáticas da Humanidade, embora geralmente os temas sejam inseridos na realidade que conheço melhor, a angolana.

2- No seu repertório, dois romances apresentam uma intertextualidade firme com a Literatura Moçambicana. Refiro-me a O cão e os caluandas, que dialoga com Nós matamos o Cão-Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, e Predadores, que dialoga com Apocalipse dos predadores, de Adelino Timóteo. Pensa na possibilidade de ao escrever sobre Angola tornar-se num autor reivindicado por outras literaturas africanas do ponto de vista identitário?

R- As nossas literaturas têm muitos pontos comuns, porque as sociedades e seus dilemas não diferem tanto assim. Mas coincidências de títulos não querem dizer muito, ou mesmo nada. O que interessa é o conteúdo.

3- Na sua opinião, como é que os povos africanos, com passado e presente muito comum, podem fazer da literatura a ponte que torne os territórios virtualmente mais próximos, de modo que não precisemos sair do continente para encontrar melhores conhecimentos sobre nós próprios?

R- O primeiro passo seria o de fazer conhecer as respectivas literaturas, o que na verdade não acontece. Os livros de países africanos circulam pouco fora do seu espaço natural, nacional. Tem havido tentativas aqui ou ali, por iniciativas de editoras. Mas a primeira barreira, falando de África no seu conjunto, é a da necessidade de traduções. Para países usando a mesma língua, a barreira principal é a pobreza que impede as pessoas de acederem aos livros, seus ou de outros. Organizações como a CPLP ou SADC deveriam ser um meio privilegiado para isso.

4- A literatura angolana já esteve próxima à moçambicana e aos PALOP. Sente que os laços do passado continuam presente?

R- Acho que sim. Como disse, ambas tratam de realidades semelhantes, quase com caminhos paralelos.

5- A certa altura d’O cão e os caluandas, uma voz diz: “o escritor deve ser cruel e desumano, é essa a sua humanidade”. Como autor empírico, concorda com essa afirmação?

R- Já passou muito tempo sobre a escrita desse livro, mas imagino que quisesse dizer que para entrar na cabeça de personagens de toda a natureza, desde os santos até aos mais loucos assassinos, o escritor deve ter essa capacidade de criar empatia com o pior que existe na face da Terra para poder descrever por dentro mesmo aquilo que lhe repugna. E só o ser humano pode fazer isso.

6- A imprevisibilidade caracteriza a sua escrita. Lueji, o nascimento de um império é um exemplo disso. Neste livro, desmistifica o estereótipo de que em África só o homem pode herdar o poder e erguer um império. Reactivando o enredo desse livro, Lueji, uma personagem com o dom da liderança e que encara o inimigo nos olhos, é a representação da mulher que os africanos precisam para mudar a sua condição de submissão em relação ao Ocidente, por exemplo, já que os homens parecem incapazes?

R- Boa pergunta. A um momento dado eu deixava as minhas amigas e camaradas dizerem que se fossem elas a liderar o mundo, tudo seria diferente. Bem, hoje já aparecem mulheres nos postos mais importantes do poder. E parece que as coisas não mudaram muito apenas por causa disso. De qualquer forma, devemos em livros ou de outra forma qualquer lutar para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades dos homens. Escrever esse livro inscrevia-se nessa linha. Mas a estória é baseada em mitos reais. E se houve mitos, é porque algo aconteceu de facto.

7- Em Lueji, Yaka, O desejo de Kianda ou Mayombe liberta-se aquele desabafo de Karl Liebknecht, político alemão, a de que o inimigo mais perigoso está perto de nós, se quisermos, nos nossos países. Usa a literatura para combater esse inimigo?

R- Não concordo muito com a tentativa de fazer da literatura uma arma de combate. Houve épocas em que se tentou isso, fracassando geralmente em termos de qualidade. Mas Liebknecht tinha razão, o pior inimigo vive connosco.

8- “A virtude dos governantes é terem os defeitos dos governados”, diz José António Barreiros na introdução de O Príncipe, de Maquiavel. Qual seria a virtude dos governados para acabarem com os governantes que traem a causa nacional na mesma proporção que Malongo, Caposso ou CCC, algumas das suas personagens?

R- Os governados deveriam ter a coragem de dizer não. E só de vez em quando temos essa coragem e na maior parte das vezes de forma isolada. Um NÃO de muitos ao mesmo tempo que se ouvisse na sociedade poderia fazer tremer os outros e não nós.

9- Quem lê os seus romances, apercebe-se que subverte, diria, as teorias literárias, na medida em que introduz no enredo uma entidade que não é narrador, personagem e nem autor textual, pelo menos não logo à partida. Essa entidade, às vezes, tem a autoridade de demitir o narrador ou de revelar o final da história que contraria a do narrador. É um cenário propositado?

R- Se todos escrevêssemos da mesma maneira, segundo manuais de academias, já ninguém nos lia porque todos os leitores morreriam de tédio. É só por uma questão de sobrevivência que tento de vez em quando surpreender o leitor.

10- Com os romances Jaime Bunda (O agente secreto e A morte do americano) mergulha os seus leitores no universo da literatura policial, que se tece com humor e algumas decepções amorosas pelo meio. Estes dois livros revelam-nos um escritor sensível à configuração dos espaços urbanos de Angola e dos cidadãos que neles habitam. Isso faz parte das suas preocupações literárias?

R- Tendo sido obrigado a viver em Luanda tantos anos, é normal que o espaço urbano se torne uma estrutura daquilo que escrevo. Escrevi vários livros passados em outros espaços, alguns rurais, outros quase indefiníveis. Mas a marca urbana acaba por se impor.

11- Já agora, voltaremos a ter o agente Jaime Bunda num outro livro? Coloco-lhe esta pergunta porque no segundo livro faltou-lhe o prazer literário que sentiu ao escrever o primeiro.

R. Não sei se haverá outro. Enquanto não me apetecer muito mesmo tratar esse personagem, ele fica na geleira.

12- O que contribui para que alguns livros escreva por prazer e outros por obrigação?

R. Eu procuro sempre escrever por prazer e recuso tratar temas propostos por outrem. Acho que nem seria capaz. Talvez seja no fundo ainda uma forma de rebeldia, de defender o meu último pedaço de liberdade.

13- Qual é a obra que lhe deu mais prazer de escrever?

R. É impossível escolher. Umas são mais difíceis, mas vencer a dificuldade também dá prazer.

14- Pedi que um leitor seu, o meu amigo Jaime Malendza, lhe fizesse uma questão. E ele pergunta: “Em A geração da utopia, um personagem faz apologia ao neo-liberalismo. Diante da falência dos ideais socialistas e neo-liberais, quais são as melhores ideias para o mundo actual?

R. Se eu tivesse resposta a isso, candidatava-me para um cargo qualquer. Mas neo-liberal nunca seria, nem cortado às postas. 

15- E à volta do mundo gira um dos melhores romances seus, O quase fim do mundo. Que metáfora é esta que põe em causa a ética, a moral e questiona as relações do mundo contemporâneo?

R. A metáfora está cada vez mais perto de se concretizar. O Homem é capaz de transformar a Terra em três Luas desertas, é só darem tempo para ele encontrar os meios. Em nome de um deus qualquer ou de uma filosofia. Pretextos não faltam.

16- Neste livro, a Humanidade quase que desaparece por culpa dela mesma. Em geral, sobram algumas comunidades isoladas de África. Quis nos lembrar que, apesar de toda diferenciação social, é este o berço da Humanidade, o continente que vai continuar a sobreviver a tudo…?

R. Que pelo menos foi onde tudo começou e a haver algum recomeço só poderia ser numa verde montanha com capim e alguns gorilas.

17- Quais julga que são as mazelas que conduzem o Homem quase que a uma extinção total, neste tempo, como acontece em O quase fim do mundo?

R. Existem muitas, desde a ganância à pobreza mental e à arrogância do ignorante. Sobretudo, a incapacidade de aprender com a História.

18- É um autor do povo, que, de tanto ouvir estórias do seu amigo Thor, na infância, transformou a escrita numa roda à volta da fogueira africana. Que sonhos a sua obra transporta?

R. Gostaria que transportasse os sonhos de muitos Thor, que transportasse o que prometíamos fazer quando enfrentávamos as tropas coloniais ou dos invasores seguintes, quando éramos puros e gostávamos realmente uns dos outros. Gostaria que fosse isso. Mas tenho a noção de não ter sido capaz, porque a vida nos trai sempre.

19- Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

R. Andre Brink, escritor sul-africano morto ano passado e que merecia um Nobel. E Ngugi Wa Thiongo, queniano refugiado nos Estados Unidos, que ainda pode recebê-lo.

Maputo, 11 de Fevereiro de 2016, no jornal O País.

Citar como: PEPETELA. Entrevista a José dos Remédios. 25 fev. 2019. [Publicada originalmente em O País. 11 fev. 2016. Cedida gentilmente à Editora Kapulana por José dos Remédios.]

Saiba mais sobre Pepetelahttp://www.kapulana.com.br/pepetela/

Saiba mais sobre José dos Remédioshttp://www.kapulana.com.br/jose-dos-remedios/

Livros de Pepetela no catálogo da Kapulana

O cão e os caluandas. São Paulo: Kapulana, 2019.
http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. (em edição)
http://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/

Conheça as ilustrações do livro “Nina tem medo de palhaço”, realizadas pela artista Mariana Fujisawa

Além de abordar o conteúdo sobre o medo na infância, o livro também abrange as questões sociais e políticas no mundo, como as crianças em situação de risco e que passaram por várias perdas, fornecendo, assim, importante reflexão da atualidade

Nina tem medo de palhaço, escrito por Walter de Sousa, é o novo livro infantil publicado pela Kapulana. Na obra, Nina é uma menina que perdeu a casa e vive com mãe em um campo de refugiados. Corajosa, ela enfrenta de tudo, a única questão é o seu medo de palhaço. Mas e de palhaça? É quando conhece a palhaça Jurubeba que Nina aprende sobre as coisas e lugares e que o medo é um sentimento normal. Além de abordar o conteúdo sobre o medo na infância, o livro também abrange as questões sociais e políticas no mundo, como as crianças em situação de risco e que passaram por várias perdas, fornecendo, assim, importante reflexão da atualidade.

O livro é uma homenagem ao trabalho social e cultural da palhaça brasileira Gabi Sigaud Winter, a Jurubeba, e de todas as palhaças e palhaços que divertem e confortam crianças pelo mundo todo. A obra também homenageia os Palhaços sem Fronteiras (Clowns without Borders International) organização que atua desde 1993.

Nina tem medo de palhaço conta com as ilustrações de Mariana Fujisawa. Leia abaixo um depoimento da artista sobre o processo de desenvolvimento das maravilhosas artes presentes no livro:

Ilustrei o ‘Nina tem medo de palhaço’ sempre em contato com o autor e, principalmente, com a Gabi Winters – a palhaça Jurubeba. Foi uma grande preocupação que eu pudesse retratar esta história ao mesmo tempo com liberdade e fidelidade à situação vivida por crianças nos campos de refugiados ao redor do mundo. Para isso, recebi dezenas de fotos dos trabalhos da Gabi em vários países e campos, e me baseei nelas para compor personagens e cenários.  A técnica utilizada foi tinta guache e lápis de cor sobre um papel de cor terrosa. Enquanto o guache apresenta cores vibrantes, o lápis de cor enriquece as ilustrações com textura.  Procurei manter formas simples nos desenhos: a ideia é de que todos possam reconhecer e se empatizar rapidamente pelas situações vividas por Nina e seus amigos – mesmo que estas realidades pareçam muito distantes.
 
22 de fevereiro de 2019
 

Kapulana publica a obra infantil “Nina tem medo de palhaço”

O livro trata de um tema bastante recorrente no universo infantil: os medos das crianças e como lidar com eles

Em março, a Kapulana publica Nina tem medo de palhaço, obra infantil escrita pelo brasileiro Walter de Sousa e com ilustrações da artista Mariana Fujisawa. O livro trata de um tema bastante recorrente no universo infantil: os medos das crianças e como lidar com eles. Nina, a personagem título, passa a enfrentar seus medos após conhecer a palhaça Jurubeba.  A obra já está em pré-venda.

Em um ambiente indefinido – sem fronteira e sem espaço -, e além de abordar conteúdo sobre o medo na infância, a obra também abrange as questões sociais e políticas no mundo, como as crianças em situações de risco devido as condições dos refugiados na atualidade, fornecendo, assim, uma importante reflexão. Em um trecho, pode-se destacar a competente narrativa desenvolvida pelo autor, transformando em leitura fundamental para todas as idades:

– Você tem medo de alguma coisa? – perguntou Nina.
– Todo mundo tem medo. Até palhaça.
– Tem medo de ficar sem casa?
– Tenho medo de não poder mais dar risada.
Nina entendeu que rir era a casa de Jurubeba.

HOMENAGEM

O livro Nina tem medo de palhaço é uma homenagem ao trabalho social e cultural da palhaça brasileira Gabi Sigaud Winter, a Jurubeba, e de todas as palhaças e palhaços que divertem e confortam crianças pelo mundo todo, particularmente aquelas crianças em situação de risco, vulneráveis e que passaram por várias perdas, como as crianças de campos de refugiados. A obra também é uma homenagem aos Palhaços sem Fronteiras (Clowns without Borders International) organização que atua desde 1993.

15 de fevereiro de 2019

★★★

Saiba mais sobre a obrahttp://www.kapulana.com.br/produto/nina-tem-medo-de-palhaco/

Saiba mais sobre o autorhttp://www.kapulana.com.br/walter-sousa-jr/

Saiba mais sobre a ilustradorahttp://www.kapulana.com.br/mariana-fujisawa/

Saiba mais sobre a homenageadahttp://www.kapulana.com.br/gabi-sigaud-winter-palhaca-jurubeba/

Saiba mais sobre Palhaços sem Fronteirashttp://palhacossemfronteiras.org.br/?gclid=EAIaIQobChMImJz1_9y94AIViRCRCh0GFgQJEAAYASAAEgJzjfD_BwE